sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Professores universitários também colam


Um problema crônico em instituições de ensino brasileiras é desonestidade intelectual. E a repercussão social de práticas em escolas e universidades é inevitável, uma vez que tais instituições são referências da educação de um país. Portanto, escolas que toleram desonestidade (e até a estimulam) alimentam esta prática em vários segmentos sociais. Quando pessoas sugerem que "político" e "corrupto" são sinônimos, elas deveriam avaliar as raízes da corrupção. E uma dessas raízes (apesar de não ser a mais profunda) é a educação formal. 

O que se mostra nesta postagem é que a desonesta e repugnante prática do plágio (cola é uma forma de plágio) não se limita a indivíduos, sejam professores, pesquisadores ou alunos. A desonestidade já faz parte da cultura do povo brasileiro como um todo, alcançando instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e até mesmo aquela que é considerada a melhor universidade da América Latina: a USP. Até mesmo a CAPES e o Ministério Público Federal apoiam a desonestidade do plágio, conforme aponto neste texto. Portanto, seja bem-vindo à podre realidade do mundo das ideias brasileiras. Afinal, por que precisamos criar, se outros países já o fazem por nós?

Aqui vai.

Dois anos atrás publiquei neste blog uma postagem sobre o problema da cola em nossas universidades, a qual é aparentemente (por meio de discursos) condenada pela vasta maioria dos professores de nosso país. No entanto, se o próprio professor é, na prática, intelectualmente desonesto, qual é a sustentação moral que permite condenar o aluno que cola? E um equivalente à cola entre professores é a prática do plágio.

Uma ideia pode ser materializada de diferentes formas, como textos, músicas, fotografias, obras áudio-visuais, entre outros exemplos. Nesta postagem estou preocupado apenas com ideias materializadas por textos. Neste contexto, plágio é "a apropriação indevida da produção de outrem mascarada por um modo distinto de escrever ou pela versão para outro idioma, entre várias possibilidades". 

De acordo com documento da Vice-Reitoria da PUC-Rio, existem três formas de plágio de texto: 

1) Integral: cópia de um trabalho inteiro, sem citar a fonte.

2) Parcial: "colagem" resultante da seleção de parágrafos ou frases de um ou diversos autores, sem menção às obras.

3) Conceitual: utilização da essência da obra do autor expressa de forma distinta da original.

Nesta postagem faço uma breve discussão sobre três casos pontuais de teses de doutoramento aprovadas nas seguintes instituições: UFSC, UFRGS e USP. Os autores são todos hoje professores da UFSC. E suas respectivas teses contam com exemplos claríssimos de plágio parcial, conforme a classificação acima. A detecção de plágio conceitual é um processo muito mais complicado de ser realizado. No entanto, obviamente os desonestos não precisam se preocupar com isso no país da impunidade. Encerro os três exemplos pontuais com uma discussão mais ampla sobre plágio em universidades brasileiras, incluindo dicas sobre como o leitor pode ajudar na detecção de plágios parciais e integrais em monografias, dissertações, teses e artigos. A respeito de plágios conceituais pretendo discutir em postagem futura.
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Primeiro exemplo

Tese de doutorado: "Improvisação e Aprendizagem em Cervejarias Artesanais: um estudo no Brasil e na Alemanha" 

Autor: Leonardo Flach

Local: defendida no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação de Claudia S. Antonello. 

Data: 2010.

Para realizar este trabalho o autor contou com uma bolsa sanduíche que viabilizou uma visita à Universidade Livre de Berlim, na Alemanha. 

O tema da tese é de moderado interesse econômico para o Brasil. Apesar de nosso país contar com poucas dezenas de cervejarias artesanais que respondem por 0,1% da cerveja produzida ao ano, é uma área em crescimento. Isso decorre principalmente por conta das elevadas taxas de retorno e de tendências para a formação de um novo público-alvo de consumidores. A tese apresenta também informações úteis para os interessados em investir na produção de cerveja artesanal. No entanto, há diversos trechos na tese que despertam grande preocupação e geram justificada desconfiança. 

Por exemplo, no segundo parágrafo da página 28 há um comentário sobre relações entre regime de aprendizagem e local de trabalho. Este comentário é finalizado com uma citação a dois autores, a saber, Lave e Wenger. No entanto, o mesmo parágrafo é simplesmente uma paráfrase de um trecho de artigo de Alison Fuller, que também cita Lave e Wenger. Isso sugere que o autor da tese não recorreu à fonte, mas apenas a uma interpretação feita por Fuller. Esta prática se repete em outros trechos da tese de Flach. 

Mas há situações muito piores do que paráfrases sem o devido crédito. Na página 49, por exemplo, lê-se o seguinte (peço ao leitor que tenha um pouco de paciência com trecho tão extenso da tese): 

"O modelo de improvisação para desenvolvimento de novos produtos proposto por Kamoche e Cunha (2001) identifica um conjunto de elementos estruturais claramente especificados das dimensões técnica e social, as quais servem para facilitar a ação inovadora em vez de a constrangerem. A essa estrutura foi atribuída a designação de estrutura mínima. Na mesma linha, Barrett (1998) sugeriu a necessidade de estruturas mínimas inegociáveis, tacitamente aceitas e sem necessidade de articulação constante. Todas essas sugestões, no fundo, indicam uma tendência no sentido de um esforço de síntese entre elementos frequentemente tidos como opostos. A necessidade de aprendizagem exploratória e utilitária (MARCH, 1991) e a ‘dança’ entre adaptação sistemática e aproveitamento de oportunidades ou soluções fortuitas no desenvolvimento dos processos organizativos constituem exemplos adicionais dessa visão dialética, a qual sugere novas possibilidades de entendimento das realidades organizacionais, para lá das tradicionais dicotomias, como diferenciação versus integração, organicismo versus mecanicismo, inovação versus rotina."

Agora compare com este trecho de artigo de Miguel Pina e Cunha, publicado em 2002 na Revista de Administração de Empresas (volume 42, páginas 38-39): 

"[...] o modelo improvisacional de desenvolvimento de novos produtos proposto por Kamoche e Cunha (2001) identifica um conjunto de elementos estruturais claramente especificados das dimensões técnica e social, as quais servem para facilitar a ação inovadora em vez de a constrangerem. A essa estrutura, foi atribuída a designação de estrutura mínima. Na mesma linha, Barrett (1998) sugeriu a necessidade de estruturas mínimas inegociáveis, tacitamente aceitas e sem necessidade de articulação constante. Todas essas sugestões, no fundo, indiciam uma tendência no sentido de um esforço de síntese entre elementos freqüentemente tidos como opostos. A necessidade de aprendizagem exploratória e utilitária (March, 1991) e a “dança” entre modelização sistemática e aproveitamento de oportunidades ou soluções fortuitas no desenvolvimento dos processos organizativos constituem exemplos adicionais dessa visão dialética (Clegg et al., 2002), a qual sugere novas possibilidades de entendimento das realidades organizacionais, para lá das tradicionais dicotomias (e.g. diferenciação versus integração, organicismo versus mecanicismo, inovação versus rotina)."

Isso não se trata mais de paráfrase. É praticamente uma cópia, com poucas palavras alteradas. E há vários outros exemplos como este na tese de Flach. 

Alguém poderia argumentar que Flach apenas se descuidou na redação da tese, uma vez que o artigo de Cunha está na lista de referências. Mas, se fosse o caso, por que alterar apenas algumas palavras em um texto tão extenso e tão vago? Por que reproduzir um texto tão vago, sem um correspondente desenvolvimento? Se Cunha menciona "um conjunto de elementos estruturais claramente especificados", por que Flach não os menciona no mesmo parágrafo? 

Além disso, a frase "[...] o que fascina nestes estilos é o fato de a música, que ao não iniciado parece surgir da ausência de uma estrutura, seja na realidade um processo criativo moldado por elementos estruturais significativos." que aparece na página 66 da tese de Flach, também é plagiada a partir do artigo de Cunha. Ou seja, até o sentimento de fascínio é copiado, como se o autor da tese em questão fosse um mero mímico.

Por que uma tese de doutorado, com apoio financeiro da CAPES, da Deutscher Akademischer Austauschdienst (Alemanha) e do CNPq, apresenta tantos exemplos de plágio? Haveria alguma relação com a metodologia empregada pelo autor? Questiono isso por um motivo muito simples. Em um universo de mais de 1300 cervejarias espalhadas no Brasil e na Alemanha, o autor promove uma análise sobre apenas dez. Uma vez que sua análise é meramente qualitativa, não há qualquer método quantitativo de validação de seus resultados. Ou seja, parece-me que as situações de plágio ao longo do texto, bem como a metodologia na forma como foi empregada, têm a mesma raiz: preguiça. Portanto, há neste caso um exemplo de legítimo trabalho de pesquisa? É por conta disso que o autor insiste em tantas analogias com física teórica e música, ao longo do texto? Não havia mais o que escrever na tese e, então, o autor decidiu "encher linguiça"? 

Além disso, mesmo reconhecendo a importância da proposta de pesquisa, é ela digna de uma tese de doutorado? Não seria este projeto mais apropriado para, na melhor das hipóteses, uma dissertação de mestrado? Afinal, ainda se trata de um estudo de caso, com todas as limitações muito conhecidas que este tipo de metodologia apresenta. 

Na introdução da tese de Flach se lê: "Olá. Seja bem-vindo a esta jam session, uma tese sobre improvisação e aprendizagem [...]". De fato, a tese remete a perigosos momentos de improvisação. No entanto, foi aprovada.
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Segundo exemplo

Tese de doutorado: "Modelo para a Avaliação do Risco de Crédito de Municípios Brasileiros" 

Autor: Ernesto Fernando Rodrigues Vicente

Local: defendida na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Campus Ribeirão Preto), sob a orientação de Alberto Borges Matias.

Data: 2003.

O tema da tese é de grande interesse econômico para o país. Isso porque obviamente não se pode oferecer crédito indiscriminado nem mesmo a órgãos públicos, ainda que eles visem o genuíno benefício de populações. O estabelecimento e a adoção de critérios técnicos precisos e justos para a concessão de crédito a municípios é uma ferramenta fundamental para a constante busca pelo bom uso de recursos públicos. No entanto, desperta séria desconfiança um tema tão importante tratado de forma tão desonesta, com a marcante presença de plágio na tese.

Na página 33, por exemplo, lê-se o seguinte: 

"Um modelo de administração gerencial pressupõe uma instituição com seus corpos diretivo e funcional comprometidos com a missão institucional, orientados para a efetividade dos resultados da atuação da organização, em geral, e de suas ações, em particular, e para a valorização dos recursos públicos de que dispõem (financeiros ou não), sendo reconhecidos pelos resultados apresentados. A Administração Pública enfrenta hoje um grave problema: os servidores, sejam eles gerentes ou não, estão, na maior parte de seu tempo, envolvidos com tarefas e questões que são produtos do formalismo burocrático, o que acaba por levá-los a perder de vista os resultados que deveriam, cada indivíduo e cada instituição, apresentar em favor da sociedade. Assim, a gestão das instituições públicas - inacessível, centralizada e rígida - tornou-se um fim em si mesma, orientada basicamente para processos e tarefas, ao invés de resultados. O que decorre dessa situação, entre outras conseqüências, é: 

  • o desperdício de recursos públicos; 
  • o desperdício das capacidades e competências dos servidores, que sofrem, ainda, a inibição de seu potencial criativo e 
  • a distância entre a decisão e a ação, em prejuízo do atendimento aos clientes e usuários."


Agora compare com este trecho do Caderno 9 (Agências Executivas) do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE), publicado em Brasília, DF, em 1998 (página 12):

"Um modelo de administração gerencial pressupõe uma instituição com seus corpos diretivo e funcional comprometidos com a missão institucional, orientados para a efetividade dos resultados da atuação da organização, em geral, e de suas ações, em particular, e para a valorização dos recursos públicos de que dispõem (financeiros ou não), sendo reconhecidos pelos resultados apresentados. A Administração Pública enfrenta hoje um grave problema: os servidores, sejam eles gerentes ou não, estão, na maior parte de seu tempo, envolvidos com tarefas e questões que são produtos do formalismo burocrático, o que acaba por levá-los a perder de vista os resultados que deveriam, cada indivíduo e cada instituição, apresentar em favor da sociedade. Assim, a gestão das instituições públicas - inacessível, centralizada e rígida - tornou-se um fim em si mesma, orientada basicamente para processos e tarefas, ao invés de resultados. O que decorre dessa situação, entre outras conseqüências, é: (1) o desperdício de recursos públicos; (2) o desperdício das capacidades e competências dos servidores, que sofrem, ainda, a inibição de seu potencial criativo; e (3) a distância entre a decisão e a ação, em prejuízo do atendimento aos clientes e usuários."

A extensão copiada é muito maior na tese. Só não a reproduzo aqui para não desanimar o leitor com o óbvio. Importante também observar que o Caderno MARE 9 não consta na lista de referências da tese de Vicente. 

Há outros exemplos de plágio nesta tese, que são meras cópias não creditadas de outras fontes, além daquela que mencionei acima. 

Com relação à metodologia empregada por Vicente, ela é de caráter quantitativo. O autor supostamente emprega análise discriminante (uma técnica muito conhecida em análise multivariada de dados), para sugerir um modelo estatístico que separa municípios sucessos de municípios insucessos, com uma margem de acerto de 70,92%. 

Ao contrário do que alguns possam pensar, análise discriminante não se reduz a um algoritmo que pode ser tranquilamente aplicado a um volumoso conjunto de dados, desde que se use o software adequado. Esta técnica estatística demanda um feeling do pesquisador que somente uma vasta experiência com situações reais pode legitimar o seu emprego de forma sensata. Isso por si só já justifica o tema desta pesquisa como um legítimo projeto de doutoramento. No entanto, levando em conta a clara demonstração de preguiça e desonestidade nesta tese, não é imprudente questionar se Vicente domina de fato o emprego de análise discriminante ou se, na melhor das hipóteses, não poderia ter alcançado uma margem de acerto bem maior em seu projeto de pesquisa. Aliás, será que ninguém percebeu os graves erros de inglês no abstract da tese? É com este tipo de iniciativa que a Universidade de São Paulo forma futuras lideranças da economia brasileira? Afinal, esta tese também foi aprovada.
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Terceiro Exemplo

Tese de doutorado: "Indicadores de Sustentabilidade Corporativa Aplicados a Práticas de Gestão Ambiental" 

Autor: Luiz Felipe Ferreira

Local: defendida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina, sob a orientação de Fernando Soares Pinto Sant'anna.

Data: 2010.

O tema da tese é importante, pois trata das relações entre empresas e meio ambiente, do ponto de vista contábil. Lamentavelmente não tenho condições de avaliar a originalidade do projeto e, portanto, não posso opinar se é adequado para uma tese de doutorado. Mas, levando em conta que a questão de sustentabilidade é de importância estratégica para o Brasil, certamente o assunto abordado merece especial atenção. No entanto, esta tese novamente apresenta exemplos marcantes de plágio.

Na página 44, por exemplo, há um parágrafo onde se lê:

"Com isso, a informação ecológica passa a ser estratégica para evitar preocupações e surpresas na colocação da empresa no ambiente em que atua e para assegurar sua continuidade a longo prazo. As empresas se veem forçadas a considerar a informação ecológica na tomada de decisões, tamanhas as imposições governamentais, as pressões sociais e as penalidades pelo uso de tecnologias inadequadas. O empresário depara-se com a necessidade de promover discussões e pesquisas que reduzam o nível de poluição e que, ao mesmo tempo, sejam economicamente viáveis (RIBEIRO, 1992, p.ii)."

Agora compare com o parágrafo abaixo, retirado de artigo de Diana Vaz de Lima e Waldyr Viegas, publicado em 2002 na Revista Contabilidade & Finanças (volume 13, versão on-line):

"Com isso, a informação ecológica passa a ser estratégica para evitar preocupações e surpresas na colocação da empresa no ambiente em que atua e para assegurar sua continuidade a longo prazo. As empresas se vêem forçadas a considerar a informação ecológica na tomada de decisões, tamanhas as imposições governamentais, as pressões sociais e as penalidades pelo uso de tecnologias inadequadas. O empresário depara-se com a necessidade de promover discussões e pesquisas que reduzam o nível de poluição, que, ao mesmo tempo, sejam economicamente viáveis (Ribeiro, 1992, p.ii)."

A preocupação maior foi o ajuste às normas da ABNT.

Diversos outros exemplos de cópias e paráfrases podem ser encontrados ao longo de várias páginas da tese de Ferreira. Lima e Viegas não são os únicos autores desrespeitados. Ou seja, a tese sobre sustentabilidade não se sustenta. E este é mais um exemplo de como assuntos importantes são tratados de forma absolutamente irresponsável em nosso país. No entanto, esta tese também foi aprovada.
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Considerações Finais

No artigo "Levantamento dos casos de plágio em curso de ciências contábeis", de Ari Ferreira de Abreu, publicado em Ensino Superior: Inovação e Qualidade na Docência [C. Leite e M. Zabalza (coordenadores), Universidade do Porto, Portugal, 2012], o autor escreve que 22% dos Trabalhos de Conclusão do Curso de Contabilidade na UFSC, no primeiro semestre de 2010, continham plágio. Além disso, foi observado que os casos de plágio estavam concentrados em discípulos de alguns orientadores. E, ao avaliar as teses de doutorado de quinze professores do Departamento de Contabilidade daquela instituição, foram reportadas sete delas com casos de plágio. 

Este artigo gerou considerável polêmica na UFSC, resultando em um inquérito no Ministério Público Federal (MPF). Se o leitor clicar aqui, basta digitar no campo "Tipo de Expediente" a opção "Procedimento Extrajudicial", no campo "UF", a opção "Santa Catarina", e no campo "Número do Expediente", o código "133000003175201133", para ter acesso ao documento Promoção de Arquivamento, para conhecer a visão do MPF e da CAPES sobre plágios. O código acima foi conseguido neste link.

De acordo com o MPF, nenhuma das teses acima citadas se qualifica como plágio. Isso porque o MPF encaminhou o processo para análise na própria UFSC. Ou seja, o MPF lavou as mãos. No mesmo documento ainda consta um outro parecer, no qual se lê o seguinte: 

"A Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES) avaliou a forma e o conteúdo da tese mencionada [o texto se refere à tese de Ferreira] pelo Representante e concluiu que, apesar de terem sido constatados alguns trechos plagiados no trabalho acadêmico, foram cumpridas todas as formalidades exigidas pela UFSC para obtenção do título de Doutor em Engenharia Ambiental". 

Tanto a postura da CAPES quanto do MPF confirma que o que define a vida acadêmica brasileira é uma visão predominantemente burocrática, sem a mais remota atenção a mérito acadêmico e, consequentemente, às graves consequências sociais da prática da desonestidade intelectual. 

Bem. MPF e CAPES são vítimas óbvias dessa ramificação social. Afinal, de onde surgem as lideranças desses órgãos? A resposta é natural: de universidades brasileiras!

Encerro esta postagem com um texto escrito anonimamente para este blog. Trata-se de uma breve introdução a softwares e metodologia para a detecção de plágios parciais e integrais em língua portuguesa.

Espero que o leitor faça bom proveito do texto abaixo.
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Programas para detecção do plágio

A detecção de plágios dependeu por muito tempo da quantidade de textos lidos e da memória do analista. Hoje existem alguns programas que facilitam a identificação de tal problema. Dentre eles pode-se citar.

Farejador de plágio. Elaborado por Maximiliano Zambonatto Pezzin, possui o mérito do pioneirismo. Esse programa busca frases do artigo analisado em diversos sites de busca. O uso de vários sites evita que o Google bloqueie o endereço do computador por uso abusivo do sistema.  Embora funcionasse bem até 2012, esse programa passou a detectar erroneamente vários sites de publicidade, o que prejudica a análise do resultado. Seu relatório é relativamente confuso. O farejador grifa a frase suspeita e indica as possíveis fontes logo a frente. O excesso de informação torna a análise bastante demorada. A licença vitalícia desse programa custa R$ 19,90 e pode ser adquirida aqui

Plagius. Elaborado por Gustavo A. Hennig, funciona de forma semelhante ao Farejador, mas apresenta um relatório mais amigável. O relatório apresenta o texto analisado com indicação dos trechos suspeitos em tom de azul, sendo mais escuro quanto maior a quantidade de fontes encontradas. Ele permite que as fontes encontradas sejam colocadas em uma lista negra, que podem ser removidas da análise. Assim, podem ser desconsideradas coincidências que não configurem plágio. Além disso, o programa permite escolher as fontes com quantidade mínima de coincidências encontradas a serem exibidas. O uso conjunto desses dois recursos permite que cada fonte seja analisada individualmente. Obviamente o programa ficaria muito melhor se permitisse a elaboração de relatórios individuais para cada fonte encontrada. Esse programa pode ser adquirido por R$32,00 ao ano neste endereço.

Antiplagiarist. Esse programa permite a comparação entre dois textos. Era muito útil para detectar as coincidências com fontes identificadas pelo Plagius ou pelo Farejador de Plágio. As versões mais recentes não funcionam adequadamente.

Copy Spyder. Esse programa foi fruto de um TCC elaborado em uma faculdade privada por Clever Marcos Teixeira [veja aqui uma entrevista com ele], orientado pelos professores Marcelo Augusto Cicogna e Maurício Rodrigues de Morais. Seu funcionamento é totalmente diferente dos demais. Ele pesquisa na internet até 500 grupos de quatro palavras seguidas. As fontes que aparecem com maior frequência são baixadas e compradas na íntegra. Isso permite a detecção de plágios disfarçados pelo uso de sinônimos. Além disso, é elaborado um relatório individual para cada fonte. Nesses relatórios as coincidências encontradas aparecem na cor vermelha. O Copy Spyder possui uma versão gratuita, disponível aqui.

Dicas de uso:

1) Não basta ter o relatório de um detector de plágios. É preciso comparar manualmente as coincidências encontras. Elas podem ocorrer em textos legais, textos citados ou outros tipos de cópias lícitas. Algumas autoridades que recebem denúncias sobre plágio têm interesse em abafar o caso, especialmente em se tratando de trabalhos elaborados por docentes de instituições com alguma conexão com essas autoridades. Nesses casos é comum que o denunciante seja rotulado como caluniador e preguiçoso, por ter usado tais programas, mesmo que tenha sido feita a análise manual.

2) Analise documentos com, no máximo, 20 páginas. Isso evita travamentos e, no caso do Copy Spider, aumenta a eficiência.

3) Elimine figuras e equações. Além de não serem detectados pelos programas podem travar sua execução.

4) Detectados os plágios, ou verificado que se trata de uma cópia lícita, elimine esses trechos e repita a análise. Isso fará com que novas coincidências sejam detectadas.

5) Para a comparação de textos é conveniente o uso de sintetizadores de fala. O trabalho de ler meia dúzia de palavras no texto analisado e na possível fonte é exaustivo. Com o sintetizador de voz o computador pode ler o texto analisado enquanto o analista lê a possível fonte, ou vice-versa.

32 comentários:

  1. Professor adonai, recentemente soube que DANIEL DEMETRIUS GIBSON o maior produtor/traficante de ecstasi do Mercosul iniciou sua produção no laboratório de química da ufpr nos inicio dos anos 90. ano passado ele novamente fora preso no paraguaí!

    Sugiro que o senhor faça uma postagem sobre o assunto

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    1. Anônimo

      Verificarei a respeito disso. Grato pela dica.

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  2. Prof. Adonai,
    Parabéns pelo texto. Gostaria que comentasse o caso de plágio do Gabriel Chalita, atual Secretário da Educação da Capital de São Paulo (já noticiada na imprensa). Também dê uma olhada no currículo lattes dele, para verificar o quanto da produção intelectual do Chalita está ligada à área de pesquisa dele. Acho que tudo isso tem muito a ver com as suas críticas ao tipo de pesquisador que atua nas universidade brasileiras.

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    1. Nossa. A situação está realmente horrorosa. Grato pela dica.

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  3. "será que ninguém percebeu os graves erros de inglês no abstract da tese?" Eu arriscaria a dizer, pela experiência que tenho, que muitas, se não a maioria das teses e dissertações, têm um abstract que vai do ilegível ao macarrônico, sem falar das traduções "literais" que são um horror. Nem todas as universidades ou publicações têm uma política editorial coerente. Antes de começar a lecionar, eu revisava ou, quando não havia texto em inglês, traduzia todos os artigos e abstracts a serem publicados no periódico, que estava começando a publicar somente em inglês (não é minha universidade atual). Acho que pouquíssimas instituições fazem isso.
    Recentemente tenho visto departamentos que aceitam teses em inglês (mas com as normas da ABNT…). Nem sei o que pode resultar disso. Já vi professores que, ao receberem uma visita internacional, disseram simplesmente numa reunião: "Yo no sé hablar inglés, puedo hablar español?" O irônico é que muitas vezes teses "voltam da biblioteca" para ser corrigidas, depois de serem aprovadas, porque o bibliotecário encontrou uma discrepância nas normas "da abnt", mas os plágios propriamente ditos passam incólumes...

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  4. Pelo que entendi essa situação parecia restrita a poucos professore de um único departamento. No momento em que a situação foi denunciada a UFSC passou a defender o plágio de forma institucional. Em vez de punir meia dúzia de culpados e se tornar uma universidade efetivamente honesta, a UFSC tentou manter sua imagem evitando o escândalo. Dessa forma jogou seus valores além da sua imagem na lama.

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    1. Anônimo

      Neste momento a análise de plágios se concentrou na UFSC. Mas como há também envolvimento com USP e UFRGS, pretendo investigar outras instituições em algum momento futuro.

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  5. Nosso sistema virou fábrica de doutores! Assim os índices oficiais fazem parecer que a educação deu um salto. Se começares a investigar acho que aparecerá tanta coisa!

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    1. João Luiz

      Por um lado, não há a quem recorrer. E, por outro, não acho que exista alguma massa crítica de pessoas neste país com disposição para mudar este quadro. Um grande desperdício para o país.

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    2. É por esse motivo que digo que o melhor é construir algo novo. Na minha opinião o sistema só tem um caminho, que será a autodestruição. De tanto fazer de conta perdeu o controle.
      Não me considerem profeta. Apenas fiz um exercício de pensamento. Em função de conveniência ficamos quietos e tentamos burlar a nossa consciência, no sentido de sonharmos com a possibilidade de mudança. Esta não veio, ao contrário, os sonhos foram sendo "sonhados só". "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só."
      Eu penso que existe muita gente que sonha só nas Universidades. Não conseguimos ainda sonhar juntos, infelizmente.
      Pelo que tenho acompanhado pela internet, existe muita gente com ânsia de sonhar juntos. Aos poucos novos projetos estão acontecendo. Pouco a pouco este sistema ficará tão obsoleto e inútil que entrará em ruína. Mais uma vez não sou profeta, apenas exercitando o pensamento e manifestando uma opinião. Respeito muito os que não concordarem.

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    3. Bem, eu sinto pena daqueles que não concordam com a sua visão.

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    4. Com as dezenas de milhares de doutores formados anualmente não se pode negar que a educação tenha dado um salto. Pena que tenha saltado de um precipício que termina em um mar de docentes de mentirinha ensinando ciência de brinquedo para alunos alienados.

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    5. Anônimo

      Pena que você não se identifique. Seu comentário é poesia ao nível de Lars Eriksen.

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  6. Olha a situação da turma da banca: Ganha uma passagem para passear em Porto Alegre, Floripa ou Ribeirão Preto, em troca finge que lê a tese, aprova essas maravilhas e leva pontos no Lattes. Se, por outro ler a tese e reprovar essas belezas, jamais ganhará outro passeio desses com direito a pontinhos grátis no Lattes. Para completar poderá ser perseguido nas avaliações feitas pelos "párias".

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  7. Vou narrar rapidamente algo que aconteceu comigo. Fui convidado a fazer parte da banca de uma tese de doutorado em física por um candidato orientado pelo meu ex-orientador. Ao ler o boneco da tese percebi que dois capítulos eram cópias integrais de uma dissertação de mestrado de um amigo meu. Ao mencionar esse fato para tal pessoa pude naquele momento perceber um ar de incredulidade associado a minha pessoa. Resumo da história: nunca mais fui convidado a participar de qualquer banca daquele departamento. Sim, meu ex-orientador nunca mais me convidou para nada! Nesse momento percebi claramente que estava fora do "sistema". Viva Zapata! (rs)

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    1. Anônimo

      Você pode dizer em qual universidade isso aconteceu?

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    2. Que fim levou a tese? Foi aprovada com louvor?

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  8. Que fim levou a tese? Foi aprovada com louvor?

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  9. Caro Adonai, acho por bem não dizer o nome dos envolvidos, bem como da instituição. Me desculpe. A tese foi aprovada sim, mesmo porque a banca foi montada para tal finalidade. O candidato hoje em dia é professor do IFPR.

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    1. Entendo a sua posição. Mesmo assim agradeço pela informação ao final.

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  10. Pelo narrado acima podemos perguntar: O sistema virou ou não uma fábrica de doutores? Pelo tempo que vivi dentro do sistema e pelo que ví, posso dizer que muitos e muitos casos semelhantes e piores que este aconteceram e acontecem.

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  11. Boa tarde,

    Meu caro Adonai parabéns pelo blog... porém gostaria de fazer uma ressalva que você não citou seu texto o, "Auto-plágio". Inclusive tem um caso recente de uma "pesquisadora"(cof, cof, cof) que descobriu o milagre da multiplicação, porém o mundo lá fora descobriu que não era bem assim. O link abaixo mostra bem o que quero dizer

    https://pubpeer.com/publications/AB1D7343C8D49CA68B6FD1E0B87471

    Vale lembrar que a pessoa em questão é parceiro de um pesquisador da Unicamp, 1A do CNPq que teve 11 artigos despublicados...e agora parece que tem mais uns 10 novamente.
    O interessante é que a pessoa publicou o "mesmo resultado" em várias revistas... assim é fácil...

    att,

    Nei

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    1. Nei

      De fato muita coisa ficou de fora nesta postagem. Em princípio pretendo explorar os temas que você aponta, dentre outros, como o caso de teses de doutorado que contém cópias de trechos de TCCs.

      Grato pelo apoio.

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    2. Professor olha o que saiu na revista Piaui essa semana...O milagre da multiplicação de uma professora da UEM.

      http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-da-ciencia/geral/reincidencia

      Nei

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    3. Nei

      Divulguei essa notícia na página Facebook do blog dias atrás. É esse tipo de atitude que mancha a reputação da ciência brasileira. Grato pela dica.

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  12. Adonai

    Seu blog afirma "Professor de universidade pública tem seu emprego garantido, independentemente da qualidade de suas aulas". Isso é verdade para professores que tem uma "boa relação" com o rei. O professor que seja inimigo dos donos do poder talvez esteja relativamente protegido contra o desemprego, mas está longe de ter garantia de dignidade no trabalho ou direito à saúde.
    Não são poucos os casos de assédio, nos quais professores competentes tem acesso restrito às ferramentas de trabalho, como laboratórios, diárias e até mesmo horas fora de sala de aula para realizar pesquisas. Como um dos muitos exemplos pode-se mencionar este caso da própria UFPR.
    http://www.fabiocampana.com.br/2012/11/ufpr-e-condenada-por-assedio-moral-a-professor/
    Isso que ainda esse professor ainda conseguiu vencer na justiça, o que uma raridade. Normalmente quem vai a justiça tem que enfrentar os procuradores concursados, e com bom relacionamento com o juiz e o MPF, e que ganham R$ 25.000 por mês. Nessa briga o professor terá a assistência de um advogado de porta de cadeia, pois são poucos os advogados que conhecem a legislação relativa ao servidor público e, muito menos, aos docentes. Além disso, os assediadores, que possuem toda a facilidade do mundo para forjar provas e pareceres, podem distribuir favores aos colegas que perseguirem o inimigo e ameaçar seus aliados. Essa situação foi clara no caso do plágio do coordenador da FUVEST
    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0810200806.htm
    No caso da FUVEST, o assediador acusou o professor de quem ele roubou artigos de estar praticando o chamado "assédio moral ascendente", ou seja, ele plagiou e acusa e coloca a vítima e denunciante na condição de criminoso. Esse assediador deve estar correto, pois esse denunciante violou a ética dominante em nossas universidades.
    Humilhados e sem condição de trabalhar dignamente, a saúde desses docentes que tentam laborar de forma decente tende a se degradar. Como um professor que nada mais quer que trabalhar e que vive se defendendo de processos, sindicância, calúnias com base em seus menores deslizes, ao passo que os assediadores fazem enormes barbaridades com apoio das reitorias e procuradorias, pode manter sua saúde ao longo de décadas?
    Não há estudos nesse sentido, mas o senso comum aponta para tal. Não se sabe quantas aposentadorias, exonerações, doenças psiquiátricas e suicídios ocorreram por conta disso. Mais dia menos dia termos um Columbine Brasileiro.
    Sugiro a revisão da frase ostentada em seu blog.

    Julinho da Adelaide

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    1. Julinho

      Suas críticas são extremamente pertinentes. Pensarei com cuidado sobre o que escreve.

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    2. Julinho

      Você poderia escrever uma postagem sobre este tema?

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  13. Sugiro uma pauta sobre os caminhos no mínimo curiosos que os bolsistas de produtividade estão encontrando para aumentar o número de publicações. Um deles é ser editor de edição especial de revista open access e ser um dos autores de todos os artigos publicados na edição.

    http://www.sapub.org/journal/specialissues.aspx?journalid=1023#SpecialIssues

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    1. Anônimo

      Excelente recomendação. Eu mesmo já fui convidado em diversas ocasiões para simplesmente incluir meu nome em artigos, sem efetivamente fazer contribuição alguma. O próprio sistema acadêmico conta com mecanismos extremamente sedutores. Existe sim corrupção intelectual passiva.

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  14. Surpresa mesmo não estou com o que li aqui, sobretudo sobre a UFSC. O jornalista e ex-professor do curso de Letras, Janer Cristaldo, infelizmente falecido no final do ano passado, já denunciava a existência de esquemas imorais nas concessões de bolsas para cursos fora do país, Europa sobretudo. Denunciou e ''teve de sair''. O conteúdo pode ser lido no blog dele que ainda está ''no ar'', se fizer a busca certa por teses/mestrados/capes/ UFSCTUR. Escreveu um livro sobre o tempo em que ficou lecionando, La Puta (sugestivo...) e que pode ser lido gratuitamente em ebook. Impressionante como as coisas ''fecham''. Pode ver pequena amostra das denúncias em http://migre.me/r78ns e http://goo.gl/naTL0b
    Janer era crítico feroz de mestrandos e doutorandos que só usavam isto para vitaminar contracheques já perto de aposentadorias. Pena ter morrido tão cedo, teria muito a contribuir com o tema através de testemunhos irrefutáveis.

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    1. Grato pelas referências, Lia. Eu não conhecia o trabalho de Janer.

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