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sexta-feira, 17 de julho de 2015

O índio astrônomo


Na divisa entre Mato Grosso do Sul e o Departamento de Amambay, na República do Paraguai, existe a cidade de Ponta Porã, que faz fronteira livre com a cidade de Pedro Juan Caballero. Esta cidade fica em uma região que, em tempos remotos, foi ocupada por vários povos indígenas, incluindo principalmente os índios caiuás. Com a colonização promovida pelo homem branco, muitos aspectos da cultura desses povos indígenas passaram a ser ameaçados. Por um lado, a contaminação cristã introduziu entre os índios a (até então) inédita noção de pecado, levando muitos ao alcoolismo e até mesmo ao suicídio. Por outro, jovens índios passaram a assimilar a cultura do homem branco, ignorando suas próprias raízes. Como os índios brasileiros não contam com linguagem escrita, todo o conhecimento desses povos sobre ervas medicinais e ritualísticas, animais, astronomia e mitos, ficou sob os cuidados quase que exclusivamente de pajés. Pajés, além de detentores do conhecimento indígena, são também curandeiros e orientadores espirituais. 

Foi em meio a esta transição entre a morte das culturas indígenas e a dominante colonização promovida pelo homem branco que nasceu Germano Bruno Afonso, um descendente de índios.

O sobrenome Afonso foi herdado de colonizadores espanhóis. Mas Germano domina os idiomas Tupi, Guarani, Espanhol, Português, Francês e Inglês. 

Desde a infância conhece muito bem a astronomia tupi-guarani. Este foi o seu primeiro contato com as estrelas, constelações, Sol e Lua e seus reflexos sobre o mundo terreno. 

No lugar de simplesmente assimilar a cultura do homem branco, em detrimento da indígena, Germano encontrou uma solução realmente original e única. Ele usou a cultura do homem branco para hoje resgatar suas raízes no céu tupi-guarani. 
Germano Bruno Afonso

Germano graduou-se em Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na mesma instituição obteve seu mestrado em Ciências Geodésicas. Doutorou-se em Astronomia de Posição e Mecânica Celeste pela Université Pierre et Marie Curie (Paris VI) e realizou estágio de pós-doutorado no Observatoire de la Côte d'Azur, na França. 

Em parceria com pesquisadores franceses de renome publicou trabalhos importantes sobre perturbações não-gravitacionais em satélites artificiais, com especial atenção dedicada ao satélite LAGEOS. Trouxe este conhecimento ao Brasil, o qual foi desenvolvido posteriormente em parceria com alunos seus de pós-graduação. Tive a sorte de ser seu orientado durante meu mestrado, na UFPR. Esta parceria resultou em um estudo inédito sobre a variação do tempo de resposta da Terra aos efeitos de marés provocados pela Lua

Mas, aos poucos, Germano começou a retornar às suas origens. Afinal, este era o seu chamado, a sua verdadeira missão. 

Criou e desenvolveu diversos projetos de arqueoastronomia e etnoastronomia indígena brasileira. Parte de seu trabalho pode ser encontrada no livro O Céu dos Índios Tembé, vencedor do Prêmio Jabuti de 2000. Outra fonte de ricas informações pertinentes e bem mais abrangentes é o site Astronomia Indígena

Germano sempre foi um entusiasta da ciência e da cultura em geral. A correlação entre este tipo de postura e senso de humor é simplesmente inevitável. Ele gostava de provocar o físico chinês Bin Kang Cheng com frases do seguinte tipo: "Como dizia Confúcio, água mole em pedra dura tanto bate até que fura." Cheng chegou a questioná-lo um dia: "Eu não acho que Confúcio tenha dito isso." E Germano respondeu: "Se não disse, deveria ter dito."

Enquanto fui seu orientado, Germano aparecia na sala de estudos dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Física da UFPR e perguntava para mim: "E aí, Adonai. Algum teorema novo?" Preocupado, eu respondia negativamente e ele completava: "Nem mesmo um corolariozinho?"

Durante o mestrado era patente o interesse de Germano por assuntos pouco convencionais mesmo entre físicos. Colaborei com ele, compondo uma música tema para um software que Germano desenvolveu, reproduzindo parte da sabedoria milenar chinesa do I Ching. Além do software, Germano publicou um livro sobre a codificação binária dos 64 hexagramas do I Ching. E isso era algo realmente fascinante.

Foi com Germano que aprendi os modos de pensar de físicos, criaturas que mais se parecem com magos (ou pajés) do que com cientistas. Físicos tradicionais não se preocupam com preciosismos matemáticos. Trocávamos ideias usando expressões que fariam qualquer lógico-matemático torcer o nariz, como "basta virar a equação de ponta-cabeça" ou "esta não linearidade das equações diferenciais está atrapalhando o progresso da ciência". 

Germano sempre deixou muito claro que a intuição do físico vale muito mais do que aquilo que ele sempre chamou de "altas matemáticas". De nada vale fazer contas complicadas, se não houver uma poderosa e elegante intuição física. E este foi um aprendizado de extraordinária importância, que persiste comigo, ainda que eu tenha posteriormente seguido o caminho da fundamentação lógica e matemática de teorias físicas. 

Germano é o único pesquisador brasileiro dedicado ao resgate do conhecimento astronômico de povos indígenas de nosso país. E ele chegou no momento certo. Se não fosse por este mestiço de sangue e espírito, em uma ou duas gerações todo o conhecimento astronômico dos povos que nossa cultura subjugou estariam irremediavelmente perdidos. Apesar de índios brasileiros falarem muitos outros idiomas além de Tupi e Guarani, essas duas línguas sempre têm operado como ponte de comunicação. Sempre existe algum índio que domina Tupi ou Guarani. E sua fluência nestes idiomas aprendidos durante a infância abre "portas". Pajés respeitam o índio de sobrenome Afonso e de nome com óbvia referência européia. Em um ritual realizado em uma das tribos visitadas, ele chegou a ser batizado como Doé, nome sagrado. Esta é uma grande honra, pois Doé (em Tukano) é a primeira estrela vista ao anoitecer. Um título que Germano carrega com grande carinho, ao lado de seu diploma francês. Neste sentido Germano é algo como a versão brasileira de Lawrence da Arábia.

Hoje Germano trabalha no Centro Universitário UNINTER, em Curitiba, Paraná. Conversei pessoalmente com ele poucas horas atrás, acompanhado de outra pessoa extraordinária sobre a qual um dia escreverei aqui. Era o único professor presente nos silenciosos corredores daquele prédio, no início da noite de sexta-feira. 

Bem. Alguém tem que trabalhar. Afinal, como sempre diz Germano, nada deve atrapalhar o progresso da ciência. 

Um brinde ao índio astrônomo!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O que e quem realmente cansa


Não é fácil. É cansativo, extremamente desestimulante. A postagem imediatamente anterior a esta foi considerada por uns poucos leitores como a melhor já publicada neste blog. Por quê? Porque trata de um dos temas da mais alta importância: amor. Sem amor, não há compreensão alguma. E sem compreensão, não há como amar. Quem realmente ama uma pessoa, deve naturalmente compreendê-la. Quem realmente ama uma área do conhecimento ou da cultura, deve naturalmente compreendê-la. Como justificar a incessante busca pelo conhecimento se não for por amor a este conhecimento ou, pelo menos, por amor àquilo que será beneficiado pelo conhecimento? No entanto, a mesma postagem em questão está entre as menos visualizadas. E neste texto discuto o motivo disso. 

Vejamos, antes de mais nada, as dez postagens mais visualizadas neste blog desde a sua concepção em outubro de 2009. 

Em primeiro lugar, temos o Depoimento de um Superdotado. Trata-se de uma contribuição anônima que já confundiu muita gente. Alguns interpretaram como um desabafo pessoal meu, como se eu fosse capaz de considerar a mim mesmo um superdotado. Outros perceberam no relato do autor um vitimismo, sendo que está claríssimo não ser o caso. Por sorte a maioria dos comentaristas entendeu que esta postagem é uma crítica ao imbecilizante sistema de ensino em nosso país. Ou seja, trata-se de um retrato de podridão social. 

Em segundo lugar temos a reprodução de artigo que publiquei em Scientific American Brasil sobre as mazelas das universidades federais. Novamente uma crítica. 

Em terceiro está a infame postagem a respeito de dicas para aqueles que passam pelo processo de entrevistas na seleção em programas de pós-graduação brasileiros. São sugestões superficiais para programas de pós-graduação superficiais. Esta postagem tem uma característica ímpar em relação a todas as demais. Ela consistentemente cresce em visualizações ao longo dos anos. Ou seja, tem demonstrado ser bastante útil, em um país de pouca utilidade para o desenvolvimento científico e tecnológico mundial.

Em quarto lugar está o texto sobre a pobre visão científica do auto-intitulado filósofo Olavo de Carvalho, um indivíduo que simplesmente exala ódio (apesar de algumas de suas críticas sobre educação serem relevantes). Ironicamente seu ódio se tornou maior quando ele mesmo divulgou a postagem sobre o superdotado, despertando o interesse de seus seguidores a respeito deste blog. Isso ocorreu após a publicação da postagem sobre ele. Aparentemente Carvalho não percebeu isso na época. 

Em quinta posição temos oito sugestões para se conquistar respeito acadêmico sem grande esforço. Trata-se de uma lista baseada naquilo que já se pratica há muito tempo em nossas universidades, tanto públicas quanto privadas. Houve aqui uma divulgação feita pelo jornalista Maurício Tuffani (em site da Folha de São Paulo) que ajudou bastante na repercussão da postagem. Não foi tão impactante quanto o ódio de Carvalho, mas ajudou muito na visibilidade do blog. Porém, novamente é uma crítica.

Em sexto lugar, está a postagem que mostra detalhadamente a baixa produtividade da maioria dos pesquisadores do CNPq, nível 1A, na área de filosofia. Novamente denúncia e crítica.

Em sétimo, uma grande surpresa. É um texto sobre as diferenças entre física e filosofia da física. Não há qualquer denúncia. Apesar do caráter informativo, o que realmente atraiu a atenção sobre esta postagem ainda foi o efeito Olavo de Carvalho, uma vez que tal artigo foi escrito como resposta a ele e seus seguidores. 

Em oitava posição, uma mera continuação da postagem sobre os pesquisadores do CNPq em filosofia. É tão somente um esclarecimento sobre o fato de que filósofos do mundo civilizado publicam sim em periódicos de circulação internacional, apesar dos discursos rançosos de muitos "filósofos" brasileiros. Logo, mais crítica.

A nona postagem mais visualizada é uma autêntica surpresa. Pelo menos esta é uma boa notícia para o Brasil. Trata dos primeiros passos da equipe Polyteck, um grupo de jovens que estão realizando uma verdadeira façanha nos meios acadêmicos de nossas terras. Pelo menos aqui não há tantas críticas. O que domina é o tom de otimismo. 

Finalmente, a décima posição é ocupada pelo texto sobre a prática filosófica entre crianças. Outro raro exemplo de texto muito visualizado que sinaliza para novas perspectivas educacionais. 

Mas a esta altura o leitor já deve ter percebido que são as más notícias as mais atraentes para o público. Basta ver o que se passa nos próprios veículos de comunicação em massa. Em geral, o que se percebe são tragédias, críticas, denúncias, pessimismo.

Por que isso? Tenho uma impressão pessoal a respeito do tema. E aqui a coloco. Acompanhar notícias na internet e demais meios de comunicação, no fundo, não é muito diferente de acompanhar episódios da série de TV Os Simpsons. Todo mundo adora Homer Simpson, a personagem principal do show. Isso porque todos nos sentimos melhor com nós mesmos, ao vermos a estupidez de Homer Simpson. Ninguém pode ser mais imbecil do que ele. 

Quando descobrimos que quase 40% dos estudantes universitários de nosso país são analfabetos funcionais, nos sentimos melhor com nós mesmos. Afinal, quem consegue entender a frase "quase 40% dos estudantes universitários de nosso país são analfabetos funcionais" provavelmente não se sentirá um analfabeto funcional. Ninguém pode ser mais imbecil do que esse bando de criaturas intelectualmente exóticas. 

Vejo muita gente culpando a Presidente Dilma Rousseff pela crise sócio-econômica que apenas começamos a vislumbrar. Ninguém pode ser mais imbecil do que Dilma Rousseff. Logo, falar mal de nossa Presidente deve fazer muito bem. 

Mas quem realmente percebe seu lado Homer Simpson, seu lado disfuncional, seu lado Dilma? Ninguém, claro!

E por que isso? Agora sim vem o X da questão. O motivo é um só: vivemos a cultura do amor a nós mesmos e não do amor à verdade.

Ninguém, absolutamente ninguém, é mais importante do que a verdade. Mas não é esta a cultura dominante. A cultura dominante é: "Eu sou mais importante do que qualquer outra pessoa ou coisa! Eu tenho direitos! Eu penso! Eu não posso ser magoado! Minha felicidade está acima da felicidade de minha esposa, de meu marido, de meus filhos! Eu sou, fui e serei! Eu!" 

Em uma sociedade de duzentos milhões de Eus, fica difícil encontrar um norte comum a todos. Cada indivíduo tem as suas próprias necessidades, suas próprias características peculiares, suas próprias exigências. Sim, sem dúvida! Mas a prioridade sobre o Eu é a prioridade sobre uma mentira. Ilustro abaixo:

"Não posso contar para a minha esposa que a estou traindo com outra mulher.", "Não posso dizer aos meus alunos que sou ignorante sobre a matéria que leciono.", "Não posso admitir para os meus colegas de trabalho que não tenho competência profissional.", "Não posso admitir publicamente que soneguei impostos.", "Não posso devolver o dinheiro que roubei dos cofres públicos."

Por que esses "não posso"? Porque é apenas o indivíduo transgressor que interessa. E interessa apenas para ele mesmo e mais ninguém. 

Quem coloca a verdade acima de si mesmo não é necessariamente uma pessoa incorruptível. Mas é uma pessoa que, em algum momento não muito distante, reconhece a própria falha (quando cometida) e a admite. E se o amor à verdade for dominante, a tendência é que menos falhas de caráter sejam cometidas com o passar do tempo. 

Certamente são fundamentais as denúncias e críticas em qualquer meio social. Mas muito mais fundamental é a busca pela verdade. Verdades fluem. Mentiras sempre precisam ser impostas. Esta é a diferença entre verdade e mentira!

Quem tenta se impor, está mentindo. Quem fala a verdade, apenas deixa ela encontrar caminho entre aqueles que a buscam. A verdade tem vida própria. A mentira depende de gritos, imposições, negações.  

Para nos livrarmos das mentiras, precisamos primeiramente abrir mão de nós mesmos. Todos nós, enquanto indivíduos, somos compelidos a mentir: "Oi, tudo bem?", "Sim, estou ótimo!".

Não. Ninguém está ótimo! É impossível alguém estar ótimo. Todos dependemos de todos. Se alguém neste mundo passa fome, pode ter certeza de que ninguém está ótimo. Se alguém entra na universidade sem saber interpretar um texto, certamente ninguém está ótimo. Somos uma sociedade e não um bando de indivíduos. Danem-se os indivíduos! Dane-se você, leitor! Dane-se eu! 

O que torna uma pessoa realmente interessante é a sua capacidade de abrir mão de si mesma em favor da verdade. É desta revolução cultural que o Brasil e o mundo ocidental precisam. É desta revolução cultural que cada um de nós precisa. Quando isso acontecer, até a própria mídia mudará. Teremos muito mais informações que permitam construir do que apenas criticar e fofocar.

Mas, claro, estou escrevendo mais uma postagem que será lida por muito menos gente do que aquelas que mostram como o leitor é melhor do que um pesquisador do CNPq, um aluno universitário ou a Presidente Dilma. Paciência. É a única coisa que resta nesta época tão sensível e instável. Paciência.

domingo, 5 de julho de 2015

Rio e Recife: sobre duas viagens minhas


Este primeiro semestre de 2015 que agora termina foi marcado, entre outras coisas, por duas viagens que fiz. Em virtude das atividades realizadas neste blog, fui convidado para participar como palestrante em dois eventos: I Verão Professor Global, realizado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro; e II Congresso de Ensino Jurídico, realizado na Faculdade de Direito de Recife (FDR), da Universidade Federal de Pernambuco. 

Faço aqui um breve relatório dos dois eventos.

Ambos foram marcados pela presença de poucas pessoas. Mesmo assim percebi diferenças significativas entre CBPF e FDR. 

O evento do CBPF foi definido pela participação dominante de experientes profissionais. Havia um único jovem estudante presente o tempo todo. A única palestra genuinamente interessante foi proferida por José Abdalla Helayël Neto, na qual este brilhante físico apresentou um relatório sobre atividades exercidas por ele para viabilizar a inclusão de classes sociais marginalizadas pela sociedade, criando condições para que jovens de famílias economicamente carentes possam realizar estudos universitários em boas instituições, tanto brasileiras quanto estrangeiras.

Durante um intervalo para almoço cheguei a ouvir de dois professores (um afirmou e o outro concordou) a seguinte frase: "A única pessoa que mantém o CBPF funcionando hoje é o Helayël." 

Perguntei: "Mas e o Tsallis? Ele trabalha aqui, não?" A resposta foi um "É" bastante desanimado. O evento nada gerou e desperdiçou tempo e preciosos recursos públicos. 

Já o evento organizado por alunos da FDR foi completamente diferente. Apesar de contar novamente com pouquíssimos participantes (em comparação com o tamanho do corpo discente da instituição), eram em sua maioria jovens. 

Os professores participantes se dividiram entre aqueles que fortemente apoiam os alunos e aqueles que repetem os velhos jargões "Mas isso é muito difícil de mudar", "A iniciativa de vocês é louvável, mas não temos dinheiro" etc. Os estudantes que participaram do evento também tinham opiniões eventualmente divergentes. Mas o que senti entre eles é um genuíno esforço para melhorar consideravelmente a qualidade do curso de direito da UFPE. 

A Faculdade de Direito de Recife sempre está entre as que mais aprovam alunos no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sistema extremamente rigoroso para controlar o mercado de oferta de serviços advocatícios em nosso país. Se professores tivessem uma representação institucional tão forte como a OAB, certamente não reclamariam tanto dos baixos salários. No entanto, muitos alunos da FDR estão extremamente insatisfeitos com a maneira como o estudo de direito é tratado no Brasil. Uma excelente discussão sobre este tema se encontra aqui

Em função desta insatisfação, o grupo de estudos Direito em Foco organizou e realizou dois congressos sobre ensino jurídico. O congresso do qual participei resultou em um documento encaminhado para autoridades, tendo como meta principal a melhoria gradual do ensino de direito em uma instituição que é referência nacional. Para acessar o documento, basta clicar aqui. Ou seja, verbas públicas foram usadas para efetivamente atingir metas. Algumas melhorias já foram conquistadas no plano pedagógico da instituição. Mas muito ainda precisa ser feito.

No primeiro dia do congresso (conforme informações que recebi) houve tumulto. Em virtude da presença do Reitor da UFPE, Anisio Brasileiro de Freitas Dourado, sindicalistas tentaram impedir a realização do evento e alunos do Diretório Acadêmico, simpatizantes de movimentos de greve, apoiaram esta baderna com um simples silêncio. Por conta da intervenção de uma jovem estudante e de um advogado trabalhista, a manifestação contrária à realização do congresso acabou se dissolvendo. Um importante evento planejado com meses de antecedência acabou encontrando dificuldades por conta de entusiastas de movimentos de greve sem a mais remota ideia do papel de uma universidade perante a sociedade. Mas, tudo bem. O evento transcorreu muito bem, apesar de divergências iniciais.

Fiz minha breve apresentação no mesmo prédio onde houve reuniões de abolicionistas no século 19. Ou seja, trata-se de um lugar ideal para mudanças e, quem sabe, revoluções. Conversei com uma encantadora jovem estudante que me disse ter ingressado no curso somente na segunda chamada. E ela afirmou que sente responsabilidade por todos os colegas talentosos que conheceu mas que não puderam ingressar no curso, por conta do processo de seleção da instituição. Foi esse tipo de jovem que vi em Recife. E é esse tipo de jovem que imprime esperança, para mim e muitos outros.

Eu não queria publicar esta postagem. O que eu realmente queria era convencer jornalistas para veicular matéria com os conteúdos aqui expostos, promovendo algo semelhante com o que fiz em favor da equipe Polyteck. Isso porque este blog tem visibilidade muito menor do que certos veículos de comunicação em massa. Conversei com alguns jornalistas que conheço, mas não houve receptividade, por conta de fatores que não precisam ser expostos aqui. Uma pena. Logo, não tive escolha. Aqui está o relatório sobre algumas das atividades e conquistas de estudantes de direito em nosso país. 

Há necessidade enorme que estudantes entendam de uma vez por todas como deve ser um movimento estudantil. Panelaços ou peladaços nada mudam. Bandeiras vermelhas, gritaria, baderna, idealismos sem valor prático algum, nada mudam. O que muda é o cultivo e o desenvolvimento do conhecimento. Tirar a roupa e bater panela é coisa de macaco de circo. E repetir jargões eternos que nada mudaram até os dias de hoje é coisa de alguém indigno de "descender do macaco". É o cultivo do pensamento original e relevante que deve definir as novas gerações. Mas não creio que macacos de circo consigam entender ou sequer ler uma postagem como esta. Novamente, uma pena.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O exército dos 26 sábios adolescentes


Ciência e tecnologia de ponta são atividades humanas extraordinárias, que exigem a ação de pessoas extraordinárias. O Brasil é o maior produtor de soja do mundo graças a pesquisas realizadas em nosso próprio país. Mas ainda dependemos do desenvolvimento científico e tecnológico de nações estrangeiras, para o crescimento econômico e social do Brasil em inúmeros outros segmentos. Se uma única mulher conseguiu trazer tanta riqueza e tantos empregos ao longo de décadas para o nosso país, graças ao seu trabalho científico, imagine o que um exército de 26 jovens de extraordinário talento pode fazer pelo nosso futuro! 

Por isso publico esta postagem. As melhores universidades e institutos de pesquisa do mundo não existem apenas para alavancar elas próprias ou os países que as abrigam. Elas existem para ajudar a construir um mundo melhor. Justamente por conta disso que os grandes centros de desenvolvimento científico e tecnológico abrem as suas portas para tantos estrangeiros. O que resta saber é se países em desenvolvimento como o nosso têm interesse real no próprio crescimento econômico e social.

Sou professor universitário de uma instituição pública de ensino, com 50 anos de idade e 32 de universidade, da graduação à posição de docente. Mas isso não me impede de perceber jovens talentos com capacidade muito superior à minha, não apenas para fazer ciência e tecnologia de alto nível mas também para transformar de maneira construtiva a realidade brasileira. 

Por conta disso apelo aqui à visão de futuro de cada leitor deste texto. A Fundação Estudar selecionou 26 jovens para fazerem a diferença em nosso país. São 26 sementes prontas para germinar. E este exército de 26 precisa da visão e da colaboração de todos.

Estes 26 alunos foram aprovados para estudar em 18 das melhores universidades do mundo, incluindo Harvard, MIT, Stanford, Yale e Princeton. Veja, por exemplo, esta reportagem para detalhes. Além de terem sido aprovados, conquistaram bolsas parciais para estudar nestes centros que são referências de excelência em todo o planeta. No entanto, o acesso a educação científica e tecnológica de ponta exige dinheiro. E as bolsas parciais não cobrem despesas muito pesadas para os padrões financeiros das famílias desses 26 jovens. Por isso uma solução encontrada foi a criação da campanha de crowdfunding Aprenda lá, dá cá. O objetivo da campanha é arrecadar R$ 350.000,00 até o dia 25 de julho deste ano. Até o momento do fechamento desta postagem foram arrecadados apenas R$ 47.745,00. 

Fiquei sabendo a respeito desta campanha porque recebi e-mail de Marcos Elias Schwartz, jovem de 17 anos que faz parte deste grupo de talentos identificados pela Fundação Estudar. O e-mail dele foi motivado pelas atividades usualmente promovidas neste blog. 

Eu, por exemplo, investirei nesses jovens. Invisto não apenas com a publicação desta postagem, mas também com a promoção da mesma no Facebook e com doação para a campanha, a qual acabo de fazer. Se a promoção paga que acabo de fazer no Facebook for bem sucedida, injetarei mais dinheiro nela.

É importante observar que este blog não tem fins lucrativos. O acesso é gratuito e não se faz anúncios por aqui. Pelo contrário, há anos venho investindo tempo e dinheiro com divulgação científica e cultural, bem como críticas ao ensino de nosso país, em todos os níveis. Faço isso porque tenho fé no Brasil, apesar do gigantesco esforço que este país faz para que não se acredite nele. 

Acredito não apenas na capacidade destes 26 jovens, mas também na genuína vontade deles de retornarem ao Brasil. 

Se algum leitor deste blog tiver alguma dúvida sobre a possibilidade desses jovens retornarem, peço que leve em conta três fatos. Em primeiro lugar, eles assumem textualmente que "acumulando conhecimentos e experiências únicos em nossa bagagem, poderemos aplicá-los à realidade brasileira". Em segundo lugar, as universidades brasileiras não estão cumprindo satisfatoriamente com o papel de desenvolvimento social. E, pior, professores universitários chegam a tentar impedir que pessoas aproveitem a juventude para um trabalho honesto e altamente relevante. Ou seja, tenho esperança de que quem lê esta postagem seja mais inteligente do que muitos professores universitários de nossa nação. 

Se você, leitor ou leitora, não puder colaborar financeiramente com a campanha Aprenda lá, dá cá, que pelo menos divulgue esta postagem ou a campanha em si. Mas, se optar pela divulgação da campanha, acrescente uma frase que expresse o que você realmente pensa a respeito desta iniciativa. 

Ciência e cultura sempre dependeram de mecenato. Este é um fato histórico, no Brasil e no mundo. E qualquer pessoa pode fazer parte de um grupo que, como um todo, cumpre o papel de um mecenas.

Tanto você quanto eu acompanharemos o trabalho desses 26 adolescentes ao longo dos próximos anos. Um dia eles serão adultos, adultos profissionais. E certamente estaremos lá para comprovar que o investimento de hoje valeu a pena. 

Que não plantemos apenas soja, mas também prosperidade e, quem sabe, felicidade.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A busca pela felicidade pode ser uma ideia infeliz


Em um estudo publicado em 1997, foi relatado que, em média, 60% do tempo despendido em conversas informais entre pessoas era dedicado a um único assunto: elas mesmas. Temas de caráter geral como esportes, política e religião, cultura e artes, e estudo e trabalho, ocupavam, respectivamente, 9%, 3%, 4% e 13% do tempo de diálogos. Hoje, na tão aclamada era da informação, os assuntos discutidos em redes sociais como Facebook e Twitter mostram um quadro evolutivo curioso: 80% das mensagens trocadas por pessoas são sobre um único assunto: elas mesmas

Fascinante, não? Se alguém fala mais sobre si mesmo do que sobre qualquer outro assunto, isso obviamente o torna pouco interessante. Então por que pessoas ainda fazem isso? Neurocientistas têm uma explicação parcial para tão monótono fenômeno: as pessoas preferem falar sobre elas mesmas simplesmente porque isso faz bem para elas. 

Em artigo publicado em 2012 em Proceedings of the National Academy of Sciences, Diana Tamir e Jason Mitchell, do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard, relatam a sondagem de cérebros de 195 indivíduos, utilizando ressonância magnética funcional. Quando compararam as análises entre momentos em que esses indivíduos estavam focados neles mesmos e momentos nos quais estavam concentrados em outros assuntos, o resultado foi bastante informativo: falar sobre nós mesmos ativa regiões do cérebro associadas com recompensas. São as mesmas regiões cerebrais ativadas durante o sexo, a ingestão de boa comida, ou o consumo de cocaína. Ou seja, além de prazeroso, falar sobre nós mesmos é viciante. 

Por que discuto sobre isso em um blog dedicado à educação? A razão é simples. Porque há algum tempo pesquisadores têm percebido que estamos vivendo uma era de narcisismo. E narcisismo é um fenômeno que afasta pessoas do mundo em que vivem, prejudicando, portanto, a educação. Até mesmo câmeras fotográficas embutidas em telefones celulares comumente fazem correção de simetria de selfies, como forma de estímulo à apreciação de nossos próprios rostos. É a velha ironia do ego: "egoísta, por definição, é quem não pensa em mim."

Recentemente perguntei em sala de aula quem fazia curso superior com o objetivo de conquistar inserção social. Somente uma aluna se manifestou de forma imediata. Mas, logo em seguida, todos os demais disseram que fazem curso superior apenas para conseguir um contra-cheque mais gordo no final do mês. Ficou claro, no contexto da "conversa", que nenhum deles percebeu que conquistar um contra-cheque mais gordo é uma forma de inserção social. Por que isso? Porque o mundo em que vivem é um mundo sem reflexão alguma sobre onde vivem. Tudo o que querem é dinheiro. E por que querem dinheiro? Porque assim poderão comprar coisas, poderão viver melhor. Mas essa visão reducionista de mundo, na qual praticamente toda a realidade se resume à busca pelo bem estar individual e imediato, traz algum tipo de conforto sobre o futuro? Não tenho dados concretos sobre meus alunos ou o Brasil, para responder a tal questão. Mas tenho dados concretos de uma realidade não muito distante da nossa.

Em uma reportagem publicada dois dias atrás, chama-se a atenção para o fato de que mais de 70% do povo norte-americano acredita que a próxima geração sofrerá mais do que a atual. Essa insegurança é reflexo das radicais e imprevisíveis mudanças provocadas por novas tecnologias. Pessoas têm sido mais céticas sobre o efetivo papel social de instituições de ensino. Cursos superiores não têm mais acompanhado as demandas do mercado de trabalho. Tanto é verdade que hoje já se percebe que qualificação profissional não se conquista em quatro ou cinco anos de estudos em uma graduação. Hoje sabe-se que qualificação profissional é um processo ininterrupto, que acompanha toda a vida produtiva de um indivíduo. Um exemplo marcante dessa tendência do século 21 é o Starbucks College Achievement Plan, uma parceria entre a rede de lanchonetes Starbucks e a Universidade Estadual do Arizona, para estimular os funcionários Starbucks a realizarem cursos superiores online. Starbucks sabe que seus funcionários não poderão servir café para sempre. Quando eu ia ao supermercado em Columbia, na Carolina do Sul, mais de dez anos atrás, eu mesmo fazia a leitura dos códigos de barras dos produtos que eu queria levar. Não havia funcionário humano para me atender. Havia apenas uma máquina. 

O que o mercado de trabalho espera das novas gerações? A resposta é uma só: soluções de problemas. O século 21 não exigirá curso superior como único caminho possível para o sucesso profissional. Mas certamente exigirá (e já exige) a solução de problemas, mesmo em um país socialmente amorfo como o Brasil. 

Recentemente troquei diversas mensagens com um leitor deste blog sobre um projeto de mestrado profissional dele. Seu objetivo é trabalhar com licitações públicas em uma instituição federal de ensino superior. Já fui chefe de departamento e bem sei como processos de licitação pública são extremamente engessados. Mas mesmo diante deste engessamento é possível sim desenvolver ideias. Como? Por meio do uso de uma exigência legal já existente na legislação brasileira: compras públicas da administração federal devem atender a critérios de sustentabilidade. Como essa prática não existe ainda no Brasil, aí está uma ótima oportunidade de inovação, mesmo em um ambiente burocrático imbecilizado, como ocorre em instituições federais. Ou seja, a própria burocracia definida por aspectos legais pode ser usada para remodelar a burocracia de compras públicas. Realizar isso é um exercício de criatividade e, portanto, uma oportunidade que interessa não apenas a instituições federais, mas também à iniciativa privada. 

Problemas ligados a sustentabilidade estão entre as prioridades do presente e do futuro. E, neste sentido, as novas gerações devem se concentrar menos em selfies e mais no mundo em que vivem, se quiserem atender às suas próprias necessidades pessoais de satisfação. Quer conquistar um contra-cheque mais gordo? Então comece a prestar atenção no que ocorre ao seu redor. Pare de falar tanto de si mesmo! 

Do ponto de vista filosófico, existem duas visões dominantes sobre felicidade:

1) Felicidade é um estado mental.

2) Felicidade é uma vida que transcorre bem, por ações de uma pessoa que a conduz.

No presente momento as novas gerações apenas usam as novas tecnologias, sem de fato as compreenderem. Essas novas tecnologias não estão aqui para alimentar o ego de seus usuários. Elas surgiram para resolver problemas. Portanto, não crie mais problemas. Crie soluções. Uma sociedade de abobados que adoram falar de si mesmos não é uma sociedade sustentável.

Se o curso que você realiza em alguma instituição de ensino não o habilita a resolver problemas em sua área, é melhor começar a investir por conta própria, para preencher esta grave lacuna de formação. Vejo alunos de matemática que não têm a mais remota ideia de como modelar matematicamente fenômenos do mundo real. Vejo alunos de direito que sonham com uma estagnada posição de juiz federal. Vejo alunos de estatística que não conhecem as graves limitações do valor-p como critério de confiabilidade de inferências estatísticas em ciências humanas. 

Se sua busca por felicidade é a busca por um estado mental, então falar a respeito de si mesmo no Facebook pode ser uma ótima ideia, pelo menos enquanto sua vida for sustentável pela generosidade de seus pais ou de eventuais programas sociais de governos. Mas se sua busca por felicidade tiver um alcance maior, pensando na condução de sua vida como um todo, é melhor começar a prestar atenção na vida dos outros. Existem muitos problemas que devem ser resolvidos ainda. 

As novas tecnologias estão aí não apenas para mudar a realidade do mercado de trabalho, mas também para mudar os modos de aprendizado de cada um de nós. 

E então? Sobre o que você vai falar hoje no Facebook ou no Twitter?

sábado, 30 de maio de 2015

A aula que o Brasil perdeu


A Segunda Guerra Mundial, encerrada 70 anos atrás, transformou profundamente a civilização ocidental, mas não o Brasil. Diante do mais importante evento do século 20, nosso país estava simplesmente deitado em berço esplêndido, tirando uma soneca. Foi esta guerra que separou os homens das crianças.

A Segunda Guerra Mundial foi a Guerra da Ciência e não do campo de batalha. A Alemanha nazista de Adolf Hitler foi extraordinariamente eficiente na elaboração de uma política de pesquisa e desenvolvimento que viabilizou uma sólida parceria entre cientistas, tecnólogos e engenheiros, bem como empresas privadas, para atender a interesses militares governamentais. E as forças aliadas, especialmente Inglaterra e Estados Unidos, entenderam isso muito bem. 

Cito uns poucos exemplos. 

1) A máquina eletrônica concebida por Alan Turing para quebrar os códigos nazistas gerados por outra máquina (Enigma) teve papel crucial em campanhas britânicas contra alemães no Atlântico. Foi uma obra de engenharia concebida por um dos mais brilhantes matemáticos da história e que salvou a vida de milhões de soldados e civis. 

2) A maior parte das mortes de soldados durante a Primeira Guerra Mundial foi causada por perda de sangue resultante de ferimentos. Em função disso e do novo conflito que iniciou em 1939, Edwin Cohn, bioquímico de Harvard, isolou albumina do plasma sanguíneo. Albumina é uma proteína que pode ser armazenada por longos períodos de tempo e facilmente transportada. Essa descoberta salvou a vida de milhões de soldados. 

3) Um dos problemas de logística em qualquer guerra é a distribuição de comida. Samuel Hinkle, químico da Hershey Company, desenvolveu uma barra de chocolate altamente calórica e nutritiva, mas com sabor intencionalmente ruim, para manter soldados americanos permanentemente alimentados em campo de batalha. George Stigler também colaborou neste sentido, resolvendo um problema de otimização hoje conhecido como dieta de Stigler. Foi um trabalho pioneiro de programação linear. 

4) Aparelhos eletrônicos capazes de produzir pulsos de ondas de rádio, em uma direção especificada pela posição de uma antena, são capazes de detectar certos objetos metálicos a grandes distâncias e com muita precisão. Esses aparelhos foram desenvolvidos como projetos secretos em diversos países, durante os anos 1930, incluindo Alemanha, União Soviética, Japão, França, Itália, Inglaterra, Holanda e Estados Unidos. Os norte-americanos batizaram o invento com o nome de RADAR. Era uma tecnologia que permitia inibir ataques-surpresa vindos de terra, ar e mar.

5) A bomba atômica é, sem dúvida, o exemplo mais impactante de parceria entre ciência, tecnologia e militarismo durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar da Alemanha nazista ter investido em seu próprio projeto da bomba, foi uma equipe norte-americana, chefiada pelo físico Robert Oppenheimer, que conseguiu concluir com sucesso essa empreitada. Resultado: genocídio instantâneo de cerca de oitenta mil cidadãos japoneses e coreanos, se levarmos em conta apenas a cidade de Hiroshima. Outros cinquenta mil morreram posteriormente por conta de contaminação radioativa. 

Os aviões a jato Messerschmitt Me 262 foram uma das últimas super-armas da Alemanha nazista, apesar do projeto já existir antes mesmo do começo da Segunda Guerra. Essas aeronaves revolucionaram não apenas a tecnologia militar, mas também a aviação civil. E os mísseis balísticos V2, outra tecnologia de ponta alemã, aterrorizaram e mataram milhares de britânicos e belgas. Estima-se que três mil foguetes V2 foram lançados contra inimigos da Alemanha nazista. 

Com o fim da Guerra, o engenheiro responsável pela tecnologia V2, Wernher von Braun, passou a comandar o programa espacial norte-americano, o que resultou na primeira missão tripulada para a Lua. Os soviéticos também copiaram tecnologia desenvolvida por von Braun e sua equipe. Ou seja, foi a tecnologia alemã que iniciou a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria. 

A participação do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial foi periférica e fortemente influenciada pelos Estados Unidos. Por um lado, os norte-americanos estavam interessados no apoio brasileiro para fornecimento de aço e borracha para os aliados. Por outro, o Brasil demorou muito para enviar tropas para o campo de batalha. Mas, de qualquer forma, a colaboração brasileira não se deu em termos científicos ou tecnológicos. Daí o uso do termo "periférica". 

Cito o triste caso dos soldados da borracha. Milhares de nordestinos migraram para a floresta amazônica, movidos por promessas de riqueza em função de uma parceria entre Brasil e Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto Alan Turing era um soldado que lutava em um laboratório para decifrar os códigos da máquina alemã Enigma, os soldados da borracha trabalhavam em regime semelhante à escravidão e enfrentando doenças tropicais. Ao término da Guerra, eles foram simplesmente esquecidos por nossas autoridades. O governo dos Estados Unidos chegou a enviar dinheiro, como forma de compensação. No entanto, esses recursos foram desviados aqui mesmo, provavelmente para a construção de Brasília, outra empreitada que custou a vida de muitos. Uma análise histórica multifacetada dos soldados da borracha pode ser encontrada no livro In Search of the Amazon, de Seth Garfield. 

Em função dos abusos monstruosos da Guerra da Ciência, foi feita a Declaração dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Isso mudou alguma coisa? Bem. Ainda não ocorreu a Terceira Guerra Mundial. Mas neste link o leitor pode encontrar um levantamento dos cem conflitos militares mais sangrentos desde o fim da Segunda Guerra. Ao todo o mundo já testemunhou 250 conflitos militares nos últimos 70 anos, resultando em 30 milhões de mortes (quantia apenas estimada). E o país que mais marcou presença nestes conflitos foi justamente os Estados Unidos, a nação que hoje lidera a produção de conhecimento científico e tecnológico. 

Brasil é um país que não tem tradição científica, tecnológica ou bélica. E o fato é que ciência e tecnologia, ainda que não tenham finalidades militares, são instrumentos de poder. É um poder que nosso país tem sistematicamente ignorado. E é um poder que, honestamente, faz falta para nós. 

Quando a tcheca Johanna Döbereiner identificou uma bactéria que fixa o nitrogênio ao solo, ela mudou a economia de nosso país. Hoje o Brasil é o maior produtor mundial de soja, graças ao resultado de um único projeto científico. Döbereiner foi também a principal responsável pelo programa Proalcool, referência mundial de tecnologia em combustíveis. No entanto, quem lembra desta que é a cientista mulher mais citada em nosso país? 

Brasil é um país que conta com mentes brilhantes que certamente podem fazer a diferença. Mas a cultura de nosso povo, espelhada em nossos governantes, simplesmente não enxerga isso. 

Quando perguntaram a Hitler como ele ocuparia o Brasil, reza a lenda que ele teria respondido laconicamente: "Eu tomo com um telefonema". Hoje não existe mais a ameaça nazista. Brasil não tem inimigos. Mas também não tem feito muitos amigos. É ainda uma nação-criança, cujos jovens percebem educação apenas como forma de obter contra-cheques menos magros, cujas escolas mantêm professores mal qualificados, e cuja sociedade ignora completamente o poder transformador do conhecimento.

Como sair disso? Continuarmos deitados em nosso berço esplêndido certamente não ajuda. Então, que tal começarmos a estudar ciências? Seria um ótimo ponto de partida. 

O Brasil pode não ter percebido ainda, mas o mundo lá fora está em guerra. Há guerras no sentido convencional, mas há também uma guerra econômica, uma guerra científica e uma guerra tecnológica. Já perdemos a aula da Segunda Guerra Mundial. Vamos perder agora o restante deste interminável e belicoso período letivo? O que é necessário para o brasileiro acordar? Um tapa na cara?

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Concurso de Fotografia - Erros de Português


Este é o novo Concurso Público promovido pelo blog Matemática e Sociedade: Fotografe um Erro de Português em uma Instituição de Ensino Brasileira. Não precisa ser fotógrafo profissional. Se quiser, pode usar até mesmo telefone celular para fotografar. O que interessa é o tema.

O objetivo é capturar, na forma de imagem, erros de português. Basta fotografar placas, cartazes, editais, camisetas, adesivos, provas, cadernos, documentos ou quaisquer objetos que tenham relação direta com qualquer instituição de ensino brasileira, e enviar sua foto em formato jpg para o perfil Facebook de Adonai Sant'Anna, acompanhado de seu nome completo e de dados sobre a origem da foto. Cada participante pode enviar, no máximo, três arquivos jpg. Os participantes deste concurso devem também declarar que são os autores das imagens enviadas e que não editaram as fotos.

O prazo para envio das imagens é 27 de junho de 2015. Os arquivos recebidos até esta data serão publicados neste blog no dia 30 de junho de 2015. Os próprios leitores escolherão a melhor imagem até o dia 07 de julho seguinte. Para isso, basta votar na forma de comentário. O autor da foto com mais votos dos leitores receberá o seguinte prêmio: o livro Brasil Rupestre - Arte Pré-Histórica Brasileira, de Marcos Jorge, André Prous e Loredana Ribeiro. Marcos Jorge é cineasta, diretor do brilhante filme Estômago e do documentário sobre arte rupestre O Ateliê de Luzia. André Prous é Doutor em Pré-História pela EPHE/Sorbonne e criador do Setor de Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Loredana Ribeiro é Doutora em Arqueologia pela Universidade de São Paulo e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas. O livro em questão é um importante documento que promove um mapeamento e registro fotográfico de sítios arqueológicos em quinze estados de nosso país. Os textos que acompanham os registros fotográficos são escritos em português e inglês. E o projeto contou com o apoio da Petrobras.

O fotógrafo premiado receberá o livro Brasil Rupestre por meio de SEDEX ou FedEx, dependendo do endereço. As despesas de envio serão assumidas pelo Administrador do blog Matemática e Sociedade.

A motivação para este concurso é simples: não é possível promover ciência e educação sem respeito à linguagem. Pelo menos a língua portuguesa precisa ser respeitada.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reforma agrária: do campo para a universidade


Esta postagem trata de cursos de Direito em duas universidades federais, com turmas formadas exclusivamente por beneficiários da reforma agrária. Para facilitar a leitura, dividi o texto em cinco partes.


I - Histórico

Em 17 de agosto de 2007 foi estabelecido um convênio surpreendente entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Universidade Federal de Goiás (UFG). Este convênio definiu a utilização de recursos do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), para custeio de uma turma especial do Curso de Direito da UFG, destinada exclusivamente a assentados, acampados e quilombolas. 

Logo depois o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma ação civil pública contrária à criação e manutenção desta turma especial de Direito na UFG. 

Em 15 de junho de 2009 o juiz Roberto Carlos de Oliveira, da 9.a Vara Federal, emitiu uma sentença que: (i) declarou a ilegalidade do convênio em questão; (ii) determinou a extinção do correspondente curso de graduação em Direito, criado pela resolução 18/06 do Conselho Universitário da UFG; mas (iii) garantiu a validade das atividades acadêmicas já realizadas, assegurando a conclusão do semestre letivo então em curso. Tenho esta sentença judicial em formato pdf, se alguém estiver interessado. 

O INCRA apelou em instância superior. E a turma especial de Direito da UFG continuou com suas atividades acadêmicas normais, contrariando a decisão judicial. Uma curiosa demonstração do "poder" da justiça brasileira.

Em 24 de agosto de 2012 o INCRA publica em seu site uma decisão da Sexta Turma do Tribunal Regional Federal (TRF), a qual anula a sentença do juiz Roberto Carlos de Oliveira. A partir daquela data o curso em questão passa a ser legalizado. Isso ocorreu duas semanas após os alunos da turma especial receberem seus diplomas.

O INCRA interpretou esta decisão do TRF como um reconhecimento de que o MPF nem poderia ter ajuizado a ação. Além disso, a determinação do INCRA foi estimulada: o projeto deve continuar, e não apenas em Goiás.

Desde 2009 estudantes, professores e técnicos administrativos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) lutam pela criação de uma turma de Direito exclusivamente para assentados, acampados e quilombolas

No período de 03 de novembro a 07 de dezembro de 2014 foram finalmente abertas inscrições para o processo seletivo específico com o objetivo de preencher as 60 vagas disponibilizadas para a turma de graduação em Direito destinada somente a beneficiários do PRONERA. O processo seletivo já foi realizado e as aulas desta turma especial estão hoje em andamento. As disciplinas lecionadas são as mesmas do Curso (regular) de Direito da UFPR, bem como os docentes. 


II - Críticas

Os argumentos contrários à criação de uma turma de graduação em Direito exclusivamente para assentados, acampados e quilombolas, segundo o MPF, foram os seguintes:

1) Ofensa ao princípio constitucional da igualdade. Beneficiários do PRONERA estariam sendo submetidos a oportunidades que outros segmentos sociais não têm.

2) Falta de sintonia com qualificação rural. Beneficiários do PRONERA deveriam receber estímulos educacionais atrelados à finalidade da reforma agrária. E este não é o caso do estudo de Direito.

3) Falta de sintonia com o Ministério da Educação (MEC), o qual já havia se manifestado de forma negativa, em face da realização de vestibular restrito a determinada classe.

O INCRA e a UFG, por meio de petições, responderam com os seguintes argumentos:

1) O convênio INCRA/UFG/PRONERA não ofende qualquer princípio de igualdade. Trata-se de uma política pública justificada em razão de uma desigualdade social já existente. 

2) Existe sintonia entre a reforma agrária e a formação de beneficiários do PRONERA na área de Direito. Isso porque o Direito Agrário é fundamental e essencial para amenizar conflitos no campo e construir uma reforma agrária ordeira, pacífica e dentro da lei.

3) As universidades federais gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial. A intervenção do judiciário implicaria em interferência na competência conferida à autoridade administrativa.


III - Argumentos do INCRA e da UFG

Na opinião do Administrador deste blog, há evidente fragilidade nos argumentos do INCRA e da UFG, para sustentar o convênio em questão:

1) Sobre o princípio de igualdade. Já existem programas de cotas sociais em universidades federais. O que difere os jovens beneficiados pelos programas da reforma agrária daqueles jovens que não são, mas que também estudam em escolas públicas? Estariam o INCRA e a UFG falando de alguma minoria dentro de uma minoria?

2) Sobre a necessidade de Direito Agrário. A formação educacional de beneficiários da reforma agrária em áreas diretamente ligadas ao trabalho no campo certamente têm o potencial para o desenvolvimento econômico dos novos agricultores. Isso viabilizaria a contratação de advogados especializados em assuntos agrários. Além disso, beneficiários da reforma agrária precisam também de cuidados médicos, segurança, máquinas, casas e demais abrigos, telecomunicações, saneamento, distribuição de energia, entre outros benefícios. Por que o foco em Direito? O que está em jogo: desenvolvimento ou luta?

3) As universidades federais não gozam de autonomia alguma. Universidades federais não podem promover concursos públicos para fins de contratação de professores e técnicos administrativos sem autorização do governo federal, não podem demitir professores e técnicos administrativos incompetentes, não podem impor políticas científicas inéditas sem sofrerem consequências de órgãos de fomento à pesquisa e não podem reprovar muitos alunos sem se indisporem com o MEC e, consequentemente, sem sofrerem consequências.


IV - Sobre os beneficiados

Fiz contato, via Facebook, com dez jovens cujos nomes aparecem na lista de aprovados no processo seletivo exclusivo para o Curso de Direito/PRONERA da UFPR. Fiz duas perguntas para cada um: (i) Você confirma ser aluno(a) matriculado(a) no Curso de Direito do convênio UFPR/PRONERA? (ii) Qual foi a sua motivação para fazer esse curso? 

Entre os dez consultados, apenas três responderam (até o momento da veiculação desta postagem). Um deles disse que, apesar de ter sido aprovado no processo seletivo, teve sua matrícula indeferida, por conta de aspectos burocráticos. Os outros dois queriam saber por que eu estava interessado no assunto. Expliquei detalhadamente, indicando este link do blog Matemática e Sociedade, no qual há uma excelente discussão promovida por Ítalo Oliveira, sobre os cursos de Direito em nosso país. Um deles disse que estava ocupado demais para me ajudar e me bloqueou no Facebook. O outro simplesmente não deu retorno. Isso aconteceu apesar de eu ter explicado que minha intenção era escrever uma postagem sobre o tema e que seria informativo conhecer a opinião dos alunos.


V - Considerações finais 

Estas reações dos alunos matriculados (as informações nas respectivas páginas pessoais confirmam seus vínculos com o Curso de Direito da UFPR), somadas ao princípio de isolamento acadêmico dessa turma de assentados, acampados e quilombolas, apenas reforça o espírito poliversitário da UFPR e de todas as demais instituições de ensino superior de nosso país. 

A palavra "Universidade" remete a um princípio de universalização do conhecimento. No entanto, essa universalização simplesmente não existe em nosso país. Pelo contrário, o que impera é o simples isolamento. Como já insisti em outras ocasiões, jovens brasileiros não se matriculam em universidades, mas em cursos de graduação. E agora, para piorar a situação, estamos promovendo uma distinção entre estudantes de direito e estudantes de direito beneficiados pelo PRONERA. 

Conversei com um professor da Faculdade de Direito da UFPR e perguntei para ele se esta iniciativa não abriria um precedente para que outras minorias (homossexuais, índios e deficientes físicos) pudessem pleitear tratamentos especiais em universidades federais. A resposta dele foi sucinta: "se o sistema jurídico tiver que ser coerente, deveria abrir".

Considere, por exemplo, o caso de deficientes físicos e mentais. Existem deficiências físicas e mentais conhecidas como invisíveis. São deficiências não imediatamente aparentes para observadores externos. Algumas delas apresentam sintomas como dores intensas e permanentes, fadiga constante, tontura, disfunções cognitivas, entre outros exemplos. Uma pessoa com deficiência invisível pode perder oportunidades de estudos e emprego por conta da ignorância daqueles que nada percebem de errado com ela. Um indivíduo pode aparentar saúde física e mental perfeita, e ainda ser um deficiente. E, por conta disso, passa a compor uma minoria. Esta pessoa não deveria também ter o privilégio de estudar direito em uma turma formada exclusivamente por deficientes? Usando a lógica do INCRA, ela não deveria se proteger legalmente contra a opressão dos segmentos sociais privilegiados?

E os homossexuais? A UFG e a UFPR não deveriam abrir turmas de Direito exclusivamente para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais? Podemos colocar em uma mesma turma um homossexual e um bissexual? Não deveríamos pensar também em quilombolas homossexuais que sofrem permanentemente com dores intensas nas costas? É uma minoria dentro de três outras minorias. Será que minorias não oprimem minorias?

Mas a parte realmente complicada disso tudo é que sei que vou ouvir muita loucura daqueles que acham que tenho alguma coisa contra quilombolas, homossexuais ou deficientes físicos e mentais. Mas, paciência. É apenas uma minoria que realmente pensa. E essa minoria jamais desperta simpatia alguma. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quando matemática é o horror


William Shakespeare disse: "O mundo inteiro é um palco." 
Oscar Wilde respondeu: "O mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror."

Como estabelecer uma fronteira entre o erro e aquilo que simplesmente não gostamos? Eu, por exemplo, não gosto de chocolate com mais de 75% de cacau. É um erro existir chocolate com 80% de cacau? Certamente que não. Afinal, há quem goste. 

Eu também não gosto de aulas de matemática definidas por processos de mera doutrinação, sem a exploração de senso crítico, como já deixei claro em várias postagens deste blog. É um erro existirem aulas desse tipo? Bem, assim como há pessoas que não gostam de chocolate realmente amargo, há também aqueles que preferem não pensar muito (pelo menos sobre matemática) e, portanto, têm preferência por aulas de matemática nas quais não seja necessário o emprego de senso crítico. Portanto, se eu insistir que aulas doutrinárias e superficiais de matemática são um erro, especialmente no ensino básico, isso pode soar como mera opinião de uma alma inflexível. E talvez seja mesmo! 

É claro que eu defendo aulas de matemática de alto nível! Eu adoro matemática! Mas e as outras pessoas? 

Treze anos atrás, uma estudante italiana da quarta série, do Liceu Científico Leonardo da Vinci, entrou com uma ação na Justiça por ter sido reprovada em matemática. Ela alegou que simplesmente odeia matemática. A palavra era essa mesma: ódio. Esta disciplina, segunda ela, provoca profundo bloqueio psicológico. Um parecer feito por um renomado psicólogo confirmou: "Viviana L. nutre um medo obsessivo, uma verdadeira patologia psicológica, em relação à matemática." O Tribunal Regional de Trento decidiu, então, que Viviana deveria ser aprovada para a quinta série, apesar dessa decisão violar as regras da escola. 

Quem tem o direito de exigir que alguém estude matemática? Professores? Convenhamos que as opiniões de matemáticos sobre essa disciplina são obviamente tendenciosas. Pais? Raramente estão qualificados para opinar sobre educação. Governos? São impessoais e burocráticos. A sociedade? Bem, a sociedade é o horror de Oscar Wilde.

Vamos admitir, pelo menos por um instante, que não existe uma fronteira clara entre certo e errado e simples gosto pessoal. Recentemente publiquei uma postagem neste blog sobre as belicosas discussões entre pessoas de diferentes tendências políticas em nosso país

Poderíamos encarar tais discussões sob a perspectiva de simples gostos pessoais, na qual indivíduos brigam violentamente sobre "a proporção ideal de cacau em uma barra de chocolate". Soa ridículo sim. Mas soa ridículo pelo simples fato de que o chocolate em si é a questão menor. Em meio a discussões sobre gostos pessoais, comumente domina o desejo de indivíduos imporem suas preferências sobre outros. E esta conclusão não é precipitada, como argumento adiante.

Aspectos comportamentais sobre ansiedade matemática são conhecidos na literatura especializada há mais de meio século. Sabe-se, por exemplo, que ansiedade matemática provoca impacto negativo de longo prazo, atingindo até mesmo o desempenho profissional de pessoas. 

No entanto, foi somente em 2011 que alguém finalmente questionou: existe alguma fundamentação biológica para a ansiedade matemática? A resposta parece ser positiva. 

Em artigo publicado em Psychological Science, pesquisadores da Universidade Stanford finalmente revelaram que ansiedade matemática é um fenômeno neurológico semelhante a outras formas de ansiedade. A revelação foi feita a partir da análise de ressonâncias magnéticas feitas em crianças com idades entre sete e nove anos e que demonstravam sintomas de ansiedade matemática. As ressonâncias, realizadas enquanto essas crianças faziam contas de adição e subtração, revelaram elevada atividade da amígdala, estrutura do lobo temporal responsável pelo instinto de auto-preservação. Ou seja, as crianças estavam simplesmente com medo daquelas contas de adição e subtração. Elas estavam se sentindo ameaçadas.

No entanto, neurologistas não conseguem ainda determinar a origem da ansiedade matemática. Esta situação remete ao célebre, fundamental e persistente problema da causalidade em medicina: a hiperatividade da região associada a medo, angústia e fobias é causa ou efeito da sensação de horror? 

Por que neurocientistas demoraram tanto para demonstrar interesse sistemático no problema da ansiedade matemática? Existe algum preconceito social que justifique este atraso? 

Certa vez ouvi um psiquiatra afirmar que uma pessoa é mentalmente saudável quando ela não permite que suas emoções interfiram em seu cotidiano. Se for este o caso, então vivo em um verdadeiro hospício chamado de planeta Terra. 

Os pais da menina italiana que odeia matemática tentaram ajudar a filha, contratando um professor particular... de matemática. Ou seja, ao invés de buscarem um tratamento para a ansiedade da menina, simplesmente pioraram a situação, trazendo a matemática para dentro de casa. É como se uma vítima de aracnofobia fosse jogada em uma cova repleta de aranhas. 

Todo o nosso sistema educacional é fortemente sustentado por imposições aplicáveis a todos. Todos devemos estudar matemática nos ensinos fundamental e médio, independentemente de nossos perfis pessoais. Eu, por exemplo, tive sorte. Gosto de matemática. E tive a sorte de não ter sido obrigado a comer chocolate amargo durante os onze anos de ensino básico que tive. Afinal vivemos em uma sociedade que prioriza matemática sobre o chocolate. 

Os casos extremos de ódio ou fobia contra a matemática apenas ilustram de maneira dramática o fato de que esta ciência não conta com qualquer apelo sedutor universal. Mas e os casos que não são extremos? Devemos simplesmente ignorá-los e insistir na doutrinação de que todos devem ser submetidos a este ramo do conhecimento? 

Não tenho a pretensão de apresentar qualquer conclusão sobre como devemos abordar a matemática no ensino básico, especialmente nos casos de alunos que obviamente não têm interesse algum sobre o tema. Reconheço que pouco sabemos sobre a mente humana. E também reconheço que pouco sabemos sobre o papel da educação na sociedade. Mas isso não significa que devemos continuar a aceitar cegamente nossos processos educacionais e nossa cultura, que insistem em discursar e insinuar que o desgosto pela matemática torna pessoas menos inteligentes e mais facilmente marginalizadas. Matemática, assim como chocolate amargo, não é para todos.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Como ler sobre ciência sem ficar lelé da cuca


Enquanto desenvolvo os vídeos educativos anunciados, além de cumprir com as minhas obrigações como docente e pesquisador, consigo encontrar algumas brechas de tempo para escrever postagens. Vamos lá.

A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel lançou no mês passado o livro Falando Ciência: Guia prático para comunicar ciência aos seus pares e ao público sem arrancar os cabelos. A ideia da autora, em princípio, é muito boa. Afinal, qual é o valor social do conhecimento científico se ele não puder ser aplicado ou, pelo menos, compartilhado? E como justificar a investigação científica perante o público se seus resultados forem conhecidos apenas por aqueles que desenvolvem a ciência? 

Mas creio que seria igualmente importante alguém escrever uma obra um pouco mais fundamental, intitulada "Ouvindo Ciência: Guia prático para entender ideias novas sem arrancar os cabelos dos outros".

Como muitas atividades sociais (incluindo educação, música, teatro, cinema e política, entre outras), a ciência enfrenta grave crise. A última novidade foi publicada hoje, no site de notícias The Independent. De acordo com Richard Smith, ex-editor do prestigiadíssimo British Medical Journal (BMJ), "a maior parte do que é publicado em periódicos científicos hoje em dia está simplesmente errado ou carece de sentido". Em palestra na Royal Society, Smith relatou um experimento muito simples, realizado quando ele editava o BMJ. Um pequeno artigo científico, contendo oito erros intencionalmente colocados, foi enviado a 300 pesquisadores que costumam trabalhar como avaliadores para aquele periódico. Nenhum dos avaliadores encontrou mais do que cinco erros. A média foi de dois erros encontrados, para cada revisor. E 20% desses revisores não encontrou erro algum. Se o atual sistema de avaliação de artigos científicos - para fins de publicação em periódicos especializados - fosse uma droga sob testes, jamais entraria no mercado. Isso por conta de inúmeras evidências de indesejáveis efeitos colaterais, mas sem evidências convincentes de benefícios, afirma Smith. 

A raiz do problema reside, entre outros fatores, em conflitos de interesses entre pesquisadores e obsessão por modismos científicos. E este fenômeno tem criado também enormes obstáculos para a veiculação de ideias genuinamente originais e relevantes.

Ora. Se a própria comunidade científica encontra crescente dificuldade para conferir credibilidade no que faz, mesmo entre seus pares, o que deve pensar um leigo que se interesse por ciência?

Por conta disso, fiz uma breve lista de dicas para ler e ouvir ciência. Espero que o leitor aproveite bem essas recomendações.

1) Não se impressione com vocabulário técnico. Ciência é uma atividade humana que faz uso de termos linguísticos e modos de pensar nem sempre encontrados no cotidiano do público leigo. Portanto, é muito fácil usar terminologias e modos de inferência que simplesmente induzem ao erro. Um exemplo bem conhecido é o célebre embuste do monóxido de dihidrogênio. Esta substância é o principal componente da chuva ácida, contribui para o Efeito Estufa, pode causar queimaduras severas, acelera a corrosão e oxidação de metais e já foi encontrada em tumores retirados de pacientes com câncer. No entanto, é empregada na fabricação de refrigerantes e sucos industrializados, bem como na produção de fast food. Devemos combater o emprego de monóxido de dihidrogênio na indústria alimentícia? Certamente que não. Afinal, monóxido de dihidrogênio é simplesmente um termo técnico para água.

2) Desconfie de afirmações exageradamente surpreendentes. Se um autor afirma categoricamente algo que lhe parece muito estranho ou surpreendente, consulte especialistas ou outras fontes confiáveis, para cruzar informações. Jamais confie em um único autor, mesmo que publique suas ideias em um veículo científico bem conhecido e respeitado. Procure conhecer a repercussão dessas ideias na comunidade científica. Por exemplo, nenhum físico sensato afirma de maneira categórica que o Big Bang determinou o nascimento do universo bilhões de anos atrás. O que se afirma, de maneira responsável e bem qualificada, é que existem evidências muito convincentes de que o universo conhecido surgiu a partir de uma grande explosão hoje conhecida como Big Bang. Citando mais um exemplo, este mês o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis publicou um pequeno livro em parceria com Ronald Cicurel, no qual defende que máquinas de Turing jamais conseguirão simular o cérebro humano. Este é um belo exemplo muito recente de afirmação bombástica que certamente gera muita desconfiança. Cuidado! 

3) Desconfie do senso comum. Com intimidadora frequência, "senso comum" significa simplesmente "repetição de jargões populares resultantes de reflexão superficial". Afirmações como "é lógico que x = x", "a toda ação corresponde uma reação", "tudo é relativo", "o homem descende do macaco", "é impossível dividir por zero", "postulado é uma verdade evidente", "o gato de Schrödinger está vivo e morto ao mesmo tempo", entre outras, nada têm a ver com ciência. Toda ideia de caráter científico depende de um contexto que deve ser cuidadosamente avaliado. Não se resume ideias relevantes da ciência, de maneira responsável, em uma ou duas frases.

4) Evite autores que opinam sobre ciência sem jamais terem feito contribuições científicas. Para opinar, é preciso conhecer. E, para conhecer, é preciso fazer. Quem faz ciência, publica suas ideias em veículos especializados. Quem não publica em veículos especializados, não conhece ciência. Simples assim. Não existe conhecimento científico passivo, que se aprende apenas lendo. Ciência é uma atividade que demanda sofisticado requinte intelectual, o qual só pode ser desenvolvido com muita prática. Assim como um atleta nada aprende de relevante apenas acompanhando atividades físicas de seu treinador, nenhuma pessoa aprende ciência sem fazer ciência. Livrarias e internet estão repletos de livros e artigos de autores que opinam sobre ciência sem jamais terem se qualificado para isso. É claro que fazer ciência não é suficiente para opinar sobre o tema. Afinal, não são poucos os experientes profissionais que erram gravemente em seus pareceres, como ilustrei acima. No entanto, é fundamentalmente necessário.

5) Desconfie de quem grita e de quem especula. Aqueles que tentam impor ideias, são meros doutrinadores. E ciência não é uma doutrina. Quem tenta impor que "ciência é uma atividade racional", não demonstra racionalidade. Quem afirma ser cético, deve cultivar o ceticismo sobre seu próprio ceticismo. Quem afirma que uma máquina de Turing jamais poderá simular as funções do cérebro humano, está apenas especulando. Conhecimento científico só pode ser adquirido com muito empenho, muita discussão e muita paciência. 

6) Conheça noções básicas de argumentação. Saiba diferenciar argumentos dedutivos de indutivos. Conheça pelo menos as formas mais comuns de falácia. E perceba a diferença entre debates e embates.

A Lógica da Violência


Campo de batalha na Assembleia Legislativa do Paraná e arredores. Professores grevistas da rede estadual, demais servidores estaduais, polícia militar, incontroláveis cães pit bull, gás lacrimogênio, cassetetes, balas de borracha, centenas de feridos. O motivo, segundo a superficial mídia, é o seguinte: Em reunião a portas fechadas, a Assembleia votou favoravelmente pela reforma do sistema previdenciário do serviço público do Estado do Paraná. 

Com tantas decisões arbitrárias, sem sintonia alguma com as necessidades do povo de nosso país, por que esta chamou tanta atenção? Explico de duas maneiras: uma técnica e uma realista.

A explicação técnica é simples, apesar de burra. O Estado do Paraná conta com dois sistemas previdenciários: um antigo e um novo. O antigo era mantido pelo Estado, enquanto o novo é sustentado por servidores. O que a Assembleia fez foi simplesmente transferir a origem do custo do antigo para o novo, colocando em risco a sustentabilidade do novo. Isso explica tanta confusão? Claro que não! Mudanças em sistemas previdenciários são, de tempos em tempos, absolutamente necessárias. Sociedades se transformam e, por conta disso, precisam rever suas políticas internas. Este processo de revisão faz parte de qualquer sociedade, saudável ou não. 

A explicação realista é igualmente simples, porém apavorante. Aqui vai.

1) O povo brasileiro não confia mais em seus governantes. A crise política está definitivamente instalada. Não importa se é PSDB, PT ou qualquer outra sigla partidária. Política virou sinônimo de Profissionalismo em Podridão, Palhaçada, Pilantragem, Prostituição, Patifaria, Perdição. A crise na educação se instalou ao longo de décadas, garantindo a estabilidade da ignorância. A crise na segurança pública se reflete com policiais sem treinamento e mal pagos. A crise na saúde pública é clara, com péssimo atendimento sem respeito algum ao indivíduo. E a crise na justiça se traduz com uma onda de juízes cada vez mais novos e inexperientes e exaustiva lentidão na conclusão de processos. Se o povo não confia mais em seus governantes, como confiar na sustentabilidade da previdência dos servidores estaduais do Paraná, diante das novidades?

2) O povo brasileiro não luta, não ataca. Apenas espera. Acostuma-se com um desestímulo aqui, uma perda ali, desde que ocorra de forma gradual. E nossos governantes, como ocorre em várias outras nações, aprenderam há muito tempo que medidas socialmente nocivas devem ser implementadas aos poucos, corroendo as sociedades lentamente. Foi assim que governantes conseguiram destruir a educação pública em nosso país. Especificamente o povo brasileiro não entendeu ainda o que é democracia. Democracia é o melhor regime político hoje existente. Mas é também uma faca de dois gumes. Democracia jamais funciona em um Estado que depende única e exclusivamente de um processo eleitoral. É fundamental o engajamento direto do povo. É obrigação do povo exigir prestação de contas o tempo todo e não apenas em uma decisão ou outra. Enquanto o povo continuar a se omitir, nossos políticos e a própria mídia continuarão a usar o termo "invasão" para se referir a acompanhamentos e discussões do povo em lugares como uma Assembleia Legislativa. 

3) O povo está com medo. E a verdade é que deveria estar apavorado. A nova decisão da Assembleia Legislativa não atinge o contra-cheque de pessoa alguma, pelo menos por enquanto. Ou seja, não se reflete em consequências imediatas. Mas atinge em cheio o futuro. E, pior, atinge fatalmente um futuro em que esses mesmos servidores não terão mais energia ou sequer saúde para se defenderem. Os servidores que hoje lutam, estão tentando defender o direito à cidadania e à vida digna no momento em que estarão fracos demais para lutar. Mas esta manifestação que ocorre agora é pontual e, portanto, tão desprovida de sustentabilidade quanto a decisão da Assembleia Legislativa do Paraná. Falta ao povo uma visão de contexto. O contexto hoje é de passividade, quando deveria ser de permanente atividade. 

Não são apenas servidores públicos que devem lutar. E servidores não devem lutar apenas pelos seus direitos. Todos devemos lutar. Todos devemos exigir pelos nossos direitos e pelos direitos de nosso vizinho. Devemos exigir não apenas por uma aposentadoria digna, não apenas por um futuro de vida e cidadania. Devemos igualmente lutar por um presente digno. Decisões sobre previdência de servidores públicos não afetam apenas servidores públicos, mas também a todos que dependem desses servidores. Decisões sobre educação, segurança, justiça e saúde afetam a todos os brasileiros que ainda insistem em viver por aqui. Mas quem realmente se importa?

Invadir Assembleias Legislativas, Câmaras de Deputados, Senado, Gabinete da Presidência? Sem dúvida. Mas não apenas hoje. Exigir de nossos governantes? Certamente! Mas não apenas uma vez a cada dois anos ou em raros momentos de lucidez.

As eleições brasileiras já viraram piada fora de nosso país. Como já disse um estadista francês, décadas atrás, o Brasil não é um país sério. E nada mudou. Ainda somos conhecidos como uma nação de mulheres bonitas, carnaval e futebol. É ótimo que tenhamos mulheres bonitas, carnaval e futebol. Mas nenhuma nação se sustenta a base disso. 

Aprendamos de uma vez por todas o que é democracia. Democracia é uma prática diária e não apenas uma esperança.