quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Diálogo?


Peço desculpas ao leitor, pelo fato desta postagem ser extensa. Mas lamentavelmente não posso omitir detalhes.

Quando publiquei a postagem na qual critico certas posturas dos ocupantes de prédios da UFPR, recebi uma resposta e um convite do movimento OCUPA EXATAS UFPR. Antes que esta resposta fique enterrada de uma vez por todas no Facebook, reproduzo aqui o texto original na íntegra, veiculado no dia 14 de novembro deste ano:

"Caro Professor Adonai,

Muitos dos que aqui ocupam o bloco PA e PC foram e são seus alunos, e por isso apreciamos seu oportuno posicionamento.

Algumas de suas críticas ao movimento são compreenssíveis, porém não se confirmam.

Citamos alguns exemplos, rebatendo algumas dessas críticas:

'Já não é fácil ter que encarar alunos que não estudam, que não perguntam, que não questionam o conhecimento supostamente estabelecido, que não conhecem coisa alguma do mundo onde vivem. Mas mais difícil ainda é encarar um movimento desfocado e inconsistente, em um ambiente míope e intelectualmente estagnado'

A greve estudantil, assim como as ocupações surgem exatamente para estudar, perguntar e questionar mais o mundo que vivemos, especificamente neste caso o modelo político vigente, que permite que a MP746 seja imposta sem o necessário diálogo e debate, o mesmo com a PEC 55. Se a condução desse debate está enviesada é passível de divergências, mas é inegável que se está discutindo e procurando entender melhor os meandros da PEC e da MP do que anteriormente ao movimento.

'O que se faz realmente necessário é conhecimento! E falo de conhecimento que demanda real esforço para ser alcançado.'

E conhecimento não é o que estamos tentando construir? Estamos nos esforçando para convidar os cursos ao debate, com contrários e favoráveis a nossas pautas. Assembleias de cursos, aulas públicas, reuniões constantes, leitura dos textos da PEC e da MP, estudos da história econômica do país para nos situarmos e entendermos essas medidas em todas suas dimensões, enfim, abordagens distintas para a análise mais completa que nos é possível, fugindo de simplificações e discursos enlatados.

'Os manifestantes demonstram serem ignorantes ou mal intencionados. Isso porque as melhores ideias jamais precisaram de movimentos populares para se estabelecerem. O domínio do fogo, a concepção da agricultura, a mecânica newtoniana, o cálculo diferencial e integral, a mecânica quântica, a teoria dos jogos e a teoria da evolução das espécies são ideias que naturalmente se inseriram nas sociedades desenvolvidas, por serem esteticamente belas e profundamente práticas. Houve aqueles que se sentiram ameaçados pelas ideias de Darwin e pela teoria heliocêntrica, entre outros exemplos históricos. Mas eles foram naturalmente calados pelo tempo.'

Aqui o argumento mais infeliz. Uma resposta completa e exemplificada nos demandaria mais espaço. Resumiremos alguns pontos.

Esquece-se do sangue derramado na luta pela consolidação do que o senhor afirma 'ideias que naturalmentes se inseriram nas sociedades desenvolvidas'. As grandes transformações sociais, as revoluções, banhadas ao sangue popular, que permitiram o surgimento de novas eras, rompendo o obscurantismo de eras anteriores, e.g., do feudalismo ao capitalismo, simbolizada também pela sangrenta revolução burguesa de 1789, na França.

O que seria da sua liberdade de cátedra sem o passado de luta de movimentos populares? O quão diferente seria o panorama da - ainda desigual - ciência brasileira, se não fosse pela luta de movimentos de emancipação da mulher, da liberdade do negro, pela democracia? Quantos colegas seus foram perseguidos, perderam o cargo, foram presos, torturados na luta pela liberdade de pensamento? Quantos novos Marie Curie, Ada Lovelace, Milton Santos, Neil deGrasse, Albert Einstein, Alan Turing poderíam ter surgido, mas ficaram pelo caminho, fuzilados, impedidos, esquecidos, proibidos por aqueles que alegavam, em nome da ciência de sua época, a legitimidade da opressão à mulher, do racismo, da perseguição a minorias étnicas e sexuais? 

A nossa luta é política, e isso não exclui a racionalidade. O senhor tenta passar a imagem de 'jovens despreparados emocionalmente', 'irracionais', mas em momento algum vemos alguma fundamentação para essas ilações, a não ser alguns sofismas muito comuns da crítica rasa que abundam pela internet, fruto da 'era da informação', citada também no seu texto. Não vemos análise alguma das pautas do movimento, a PEC 55 e a MP 746, o mais importante no momento.

'Parte de meu trabalho é lecionar para muitos alunos que não estudam, que não refletem, que não discutem.'

Aqui estamos estudando, refletindo e discutindo.

'Em contextos sociais, se uma ideia precisa ser imposta, isso significa que provavelmente não é uma boa ideia, mas apenas um delírio compartilhado por um punhado de hasteadores de bandeiras.'

A nossa pauta é exatamente a luta contra essas ideias impostas sem que suas necessidades sejam demonstradas: a PEC e a MP. O que fazer quando uma medida de amplo alcance e transformação como estas nos são impostas? Consentir ou reagir? Sobre a ocupações, o que estamos impondo é exatamente o que o senhor diz que mais falta aos alunos: o questionamento e a reflexão.

Finalmente, supor que aqui falte 'capacidade de discernimento' é subestimar aqueles que são e foram alunos seus. Como aqui defendemos as melhorias na pesquisa, qualidade da educação, sem cultivarmos inimigos internos, seja docente ou discente, decidimos convidá-lo para um diálogo em que as divergências sejam debatidas, com reflexões e questionamentos de ambas as partes, em que ideias não sejam impostas, mas construídas. Propomos uma data ainda essa semana, como sua agenda lhe permitir. 

Aguardamos uma resposta com data e local de sua preferência.

Atenciosamente, 

Ocupa Exatas UFPR."

Imediatamente respondi, aceitando o convite e propondo o debate para o dia 16 de novembro, às 19:00h. No dia seguinte à minha resposta, eu ainda não havia recebido qualquer retorno. Insisti. Foi quando finalmente recebi a seguinte mensagem:

"Estamos buscando um consenso no horário internamente, pois no ímpeto da resposta nos esquecemos das diversas atividades que os comandos de greve e as ocupações estão realizando essa semana, as quais não podemos atropelar. 

Teremos alunos participando da J3M do depto. de matemática, alunos da física em assembleias de curso,alunos da computação comprometidos com minicursos e oficinas até sexta-feira. Ainda temos também os professores que continuam a dar aula e a cobrar presença. Como o senhor dá aulas no horário de quarta às 19h, sugerimos para a próxima semana, dia 23, no mesmo horário, no auditório do departamento de informática, onde há conforto suficiente para todos. Aproveitaremos o tempo até lá para ampliar a divulgação, convocando mais estudantes e docentes a contribuir com o evento.

Ansiamos pelo debate."

No mesmo dia 15 respondi que eu concordava com a nova data. Perguntei se eu poderia fazer a divulgação do debate. Não obtive resposta. 

No dia 18 de novembro, motivado em parte por certos comentários anônimos que recebi em meu blog, insisti novamente com o movimento OCUPA EXATAS UFPR. Eu queria saber se eu poderia divulgar a data, o local e o horário do debate. Eu precisava apenas da confirmação desses alunos. Recebi a seguinte resposta:

"Sim, professor. Pode divulgar."

E foi o que fiz! Anunciei em minha página pessoal Facebook que, no dia 23 de novembro, haveria um debate entre alunos do movimento de ocupação e eu. Este debate aconteceria às 19:00h no auditório do Departamento de Informática da UFPR.

Pois bem. Cheguei ao local, na data e no horário combinados. Estavam lá cerca de vinte alunos meus e uma professora da UNIBRASIL que tem acompanhado com interesse esses movimentos estudantis recentes. No entanto, não havia um único representante dos alunos ocupantes. Não fomos recebidos por aluno algum do OCUPA EXATAS UFPR.

Por volta das 19:30h, dois alunos meus se dirigiram para o bloco PC, um dos prédios ocupados. Eles queriam saber por que não havia membro algum do movimento de ocupação para participar do debate. Segundo esses meus dois alunos, os ocupantes nada sabiam a respeito de debate algum. 

Por volta das 19:40h, um rapaz se aproximou de mim e pediu desculpas pelo transtorno provocado. Ele se identificou como um dos membros do OCUPA EXATAS UFPR. Segundo este rapaz, que afirmou ser aluno de Ciência da Computação, houve falha de organização para o debate, provocada por tumultos ocorridos na UTFPR. Minutos depois, outro membro do OCUPA EXATAS UFPR se aproximou de mim com um discurso semelhante. Estava bastante óbvio que o segundo membro do OCUPA EXATAS UFPR nada sabia a respeito do primeiro. 

Pois bem. O que aprendi com isso? Aprendi que não existe seriedade entre os alunos do OCUPA EXATAS UFPR. Em momento algum recebi qualquer mensagem pedindo para adiar a data do debate. Os alunos deste movimento simplesmente ignoraram um convite feito por eles mesmos.

Como não tive chance de conversar com aqueles que ironicamente se dizem abertos ao diálogo, coloco aqui mesmo o que eu gostaria de ter dito a eles:

1) É uma mentira a afirmação de que "[a] greve estudantil, assim como as ocupações surgem exatamente para estudar, perguntar e questionar mais o mundo que vivemos". Receber somente professores e alunos que apoiam o movimento, não cria ambiente algum de esclarecimento. Sou abertamente contra este tolo movimento estudantil. No entanto, fui convidado para um debate que foi posteriormente ignorado pelos próprios alunos ocupantes.

2) Comparar este movimento de ocupação de prédios públicos com a Revolução Francesa é simplesmente um disparate. Se esses alunos ocupantes realmente se julgam capazes de derramar sangue em um país como o nosso, no qual há liberdades que simplesmente não existiam na França monárquica, então eles estão dominados por uma cegueira ideológica potencialmente incurável. Além disso, qual é o critério racional que estabelece que derramamento de sangue é uma boa ideia? Já não basta o que aconteceu com Guilherme Irish? É este o tipo de legado que os ocupantes querem deixar para o país? É este tipo de legado que os ocupantes esperam de seus opositores? Não conseguem perceber que esta pobre noção de revolução somente coloca pai contra filho, alunos contra alunos, pessoas contra pessoas? Ou será que estes ocupantes acham que o Governo Federal se importa com o sangue derramado de um aluno que tentou lutar contra o sistema vigente?

3) A menção a preconceitos contra minorias também é ingênua. Por um lado, ignora outras visões preconceituosas (como a de que revoltas populares constituem caminhos legítimos para resolver problemas sociais). E, por outro lado, ignora o papel da educação no combate real, honesto e natural aos preconceitos. Não são gritos e imposições que serão capazes de vencer preconceitos. Pelo contrário, gritos apenas tornam as pessoas mais surdas. Pessoas jamais podem ser honestamente convencidas por mecanismos artificiais definidos por imposições arbitrárias. Quando digo que as melhores ideias conquistam naturalmente seu espaço, eu jamais insinuei que elas rapidamente conquistam seu espaço. A luta contra preconceitos não ocorre na forma de batalhas sangrentas, mas na forma de educação. É uma educação que deve começar na família, se formalizar nas escolas e se estender com o convívio diário com diferentes visões de mundo.

4) A partir do momento em que meus alunos e eu somos impedidos de entrar em uma sala de aula, definitivamente não tenho liberdade de cátedra alguma. Por conta disso, fortemente recomendo que parem de ser hipócritas.

5) As pessoas mais qualificadas para avaliar o eventual impacto da PEC 55 e da MP 746 jamais serão encontradas entre alunos que ocupam prédios públicos e muito menos entre aqueles que defendem ideologias radicais. Aprendam com a ciência de hoje, como são avaliados impactos sociais! O mundo evoluiu muito desde a Revolução Francesa. Aprendam com gente como Philip Tetlock, este sim um cientista político sério!

6) Alunos podem sim promover mudanças significativas para a sociedade. Querem saber como? Então aprendam com colegas seus! Aprendam com o exemplo da Polyteck!

7) Aqueles que querem mudar sociedades precisam, antes de mais nada, de cultura científica. Quem, entre os ocupantes, conhece teoria das decisões e sabe aplicá-la? Teorias científicas não são meros caprichos humanos. Teorias científicas ajudam a definir estratégias de impacto. A melhor decisão não é aquela que produz o melhor resultado! A melhor decisão é aquela que é tomada com bases racionais. 

8) Não existe UFPR! A Reitoria da UFPR entrou com pedido de reintegração de posse dos prédios ocupados ao mesmo tempo em que o Setor de Educação da UFPR publica nota de apoio ao movimento estudantil. Ou seja, a UFPR carece de unidade institucional. Isso mostra que os alunos, sejam ocupantes ou não, estão mergulhados em uma realidade desprovida de referências. 

9) Os alunos ocupantes apelaram para a estratégia da imposição justamente porque eles não contam com qualquer outra forma de apoio institucional. Os alunos ocupantes estão sozinhos nesta luta já perdida. E é neste momento que cabe a reflexão honesta: se não podemos lutar agora, devemos primeiramente nos armar. E a arma a ser usada é educação.

10) Como uma pessoa pode ser educada de forma sensata no Brasil? A resposta que proponho é a seguinte: iniciativa honesta e livre de ideologias ultrapassadas. Assim como André Sionek, Fábio Rahal e Raisa Jakubiak lutam diariamente contra um sistema engessado, disforme e quebrado, influenciando construtivamente milhares de estudantes por todo o país, cada um de nós pode fazer exatamente a mesma coisa. Se apenas três jovens são capazes de fazer a diferença, lutando consistentemente contra a mediocridade de nossa educação, imaginem o que milhares de alunos ocupantes poderiam estar fazendo agora!

Eu adoraria estar apoiando os alunos que são contrários ao atual governo federal. No entanto, praticamente todas as pessoas de nossa nação carecem de referenciais para um convívio social saudável. E os alunos, ocupantes ou não, igualmente navegam como meros náufragos nesta realidade corrompida de cola na escola, de agendamentos não cumpridos, de falta de sintonia com os mais recentes avanços das ciências e das artes, de jeitinhos desonestos para lidar com problemas do cotidiano.

Recebi neste blog comentários anônimos de alguém que disse que estaria presente ao debate, para me ensinar os princípios básicos da boa argumentação. Este alguém não se manifestou. E eu estava lá! Novo blefe dos encapuzados que se escondem no anonimato. E por que fazem isso? Porque são covardes. Porque não entendem que, em um debate, o que está em jogo são ideias e não pessoas. Alguns me disseram que eu perderia no debate. Outros disseram que eu ganharia. Tolices! Não estou disputando qualquer campeonato de debates. Estou apenas tentando acrescentar algo construtivo em meio a um ambiente de tumulto.

Se não querem ajuda, nada posso fazer. Não posso ocupar casas de ocupantes. Não posso forçá-los ao diálogo. 

Durante toda a minha vida estudei em escola pública. Tínhamos aulas de Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira. Essas disciplinas eram evidentes propagandas políticas da ditadura militar, semeadas entre jovens que não tinham acesso a internet, que não tinham acesso a visões diferentes de mundo. Engolimos a propaganda ideológica de morrer pela pátria e viver sem razão? Não! O que fizemos? Estudamos! Fizemos contato com a NASA, para recebermos por correio informações a respeito de outras realidades. Buscamos conhecimentos fora da escola. Criamos nossos próprios laboratórios domésticos. Escrevemos nossas próprias histórias ficcionais. Fizemos concursos para estabelecer quem escrevia a melhor enciclopédia. Fabricamos nossa própria pólvora. Fabricamos nossos próprios rádios sem pilhas. Participamos de feiras de ciências, sem apoio de professor algum. E conquistamos prêmios nessas feiras! Cavamos, lutamos, estudamos. Alguns de nós se tornaram médicos, químicos, matemáticos, filósofos e, claro, professores. E agora o que temos? O que temos são alunos que acham chata a leitura do Discurso do Método, de Descartes, e outros que ocupam prédios. Temos jovens que são norteados por visões tolas a respeito de revoluções sociais, verdadeiras vítimas de uma educação boçal que valoriza o consumo e esquece por completo o mundo das ideias, o mundo das verdadeiras revoluções produzidas pela ciência e pelas artes.

Gritar palavras de ordem em uníssono com alunos não é forma alguma de apoio à educação. Apoio à educação ocorre de forma diária e lenta. É algo que consome décadas de dedicação. Não se conquista educação da noite para o dia. Não se conquista educação com um clique no computador ou um berro na esquina. Se alguém neste mundo se julga informado por ter acesso à internet, este mesmo alguém deve agradecer aos céus por não estar sendo testemunhado pelos seus antepassados.

Lamento muito não poder levar a sério nem mesmo os jovens deste país. É realmente uma pena. Os jovens eram a minha última esperança. E até mesmo esta esperança está sob ameaça.



Na foto acima vemos o autor desta postagem e seus alunos, discutindo sobre mecânica celeste em frente ao prédio ocupado por alunos grevistas.


Na foto acima vemos o autor desta postagem e seus alunos, aguardando em vão os membros do OCUPA EXATAS UFPR.

domingo, 13 de novembro de 2016

Sobre as ocupações



Há mais de um ano encerrei as atividades normais deste blog, por motivos que já expliquei. No entanto, nas últimas semanas têm ocorrido uma série de eventos que me obrigam a escrever algo por aqui. Não estou retomando as postagens do blog! Apenas publico, em condição extraordinária, um texto que eu não queria escrever, sobre eventos que eu não queria que estivessem acontecendo. Mas eles estão aí. 

Manifestantes estão ocupando instalações da UFPR e de outras instituições de ensino. Eles argumentam serem contrários à PEC do Teto dos Gastos e à MP 746. Não querem a PEC, sob o alegado argumento de eventual perda de investimentos para a educação nos próximos anos. E não querem a MP 746, sob a alegada argumentação de que este tipo de mudança deveria ser amplamente discutida, antes de qualquer implementação.

Recentemente enviei uma mensagem aberta para os meus alunos de Geometria Analítica e de Tópicos de Lógica e Fundamentos da Matemática. A mensagem, veiculada no Facebook, dizia:

"Os dois blocos de sala de aula onde leciono estão ocupados por alunos grevistas. Na prática, este movimento está colocando povo contra povo, criando um ambiente de desrespeito à liberdade de trabalho e de estudo. A posição da UFPR em relação a essas ocupações é bastante confusa, como era de se esperar. O Setor de Ciências Exatas está trabalhando para acomodar professores que ministram aulas para cursos que não aderiram à greve, segundo comunicado que recebi agora há pouco. Já a Procuradoria Jurídica da UFPR julga que não cabe a Coordenações de Curso e Chefias de Departamento decidir sobre continuação ou não das aulas. Segundo este órgão, esta é uma decisão individual de cada professor. O Conselho Universitário ainda discutirá sobre a presente situação, na próxima semana. E a Reitoria simplesmente não se posicionou (oficialmente) a respeito. O movimento sequer é mencionado na página principal da UFPR. Levando em conta todos esses fatores, anuncio a minha posição: nos dias e horários letivos em que não houver chuva, estarei em frente aos respectivos blocos ocupados, pronto para lecionar ao ar livre. Farei atividades especiais com os meus alunos que comparecerem. Com os alunos de Geometria Analítica discutirei sobre o sistema Terra-Lua e as Leis de Kepler. Com os alunos de Tópicos de Lógica discutirei sobre falhas típicas de lógica na UFPR e no país. Portanto, se teremos aula ou não, isso depende agora da meteorologia e da disposição de meus alunos."

Esta mensagem teve 236 curtidas, 30 compartilhamentos e 25 comentários. É um resultado inexpressivo, diante da realidade colorida e desfocada do Facebook. Mas ainda está acima de minha média pessoal, sobre o pouco que publico naquela popular rede social.

Na última sexta-feira houve pancadas de chuva em Curitiba, mas fui para a aula anunciada. Cheguei por volta das 19:00h. A maioria de meus alunos de Geometria Analítica compareceu. O Setor de Ciências Exatas, a pedido meu, reservou uma sala de aula em prédio não ocupado pelos manifestantes. Mas meus alunos preferiram realizar aquela atividade atípica em um gramado, em frente ao prédio ocupado onde deveríamos ter aula naquele horário. A grama estava úmida, o ambiente era pouco iluminado e umas gotas de chuva pingavam sobre nossas cabeças. Mas ninguém se intimidou. Pelo contrário, há muito tempo eu não percebia participação tão ativa de meus alunos. Parece que uma discussão sobre mecânica celeste ao ar livre os estimulou de alguma forma, ainda que temporariamente. 

No entanto, preciso colocar algumas preocupações minhas, referentes principalmente a algumas inconsistências que percebo, vindas de todas as partes envolvidas.

1) Os manifestantes não percebem que eles mesmos carecem de capacidade de discernimento, talvez até por conta de estarem sob a contaminação de um péssimo sistema de ensino. Cito exemplos: (i) Na página Facebook do movimento OCUPA UFPR foi publicado o seguinte: "Os serviços essenciais da UFPR continuam durante as ocupações, feito as aulas de português para refugiados." Ora, por que aulas de português para refugiados são essenciais e aulas de matemática para alunos da UFPR não são? Qual é a lógica subjacente a este discurso?

(ii) Na mesma página há uma divulgação da Marcha do Orgulho Crespo. Trata-se de uma manifestação de valorização da estética afro-brasileira. Bem, o que isso tem a ver com a ocupação da UFPR? É tão difícil assim manter o foco? 

(iii) Ainda nesta página foi publicada uma foto na qual aparecem cinco alunos e dois professores, dentro de uma sala. Na legenda se lê: "Aula pública sobre materialismo histórico e estado de exceção com os Profs. Delcio e Geraldo." Bem, por que uma aula sobre materialismo histórico e estado de exceção, em ambiente fechado, é estimulada? Por que esses professores podem contar com acesso a sala e outros não? Será que uma discussão sobre materialismo histórico é mais libertadora do que uma discussão sobre cônicas e quádricas?

2) Os manifestantes afirmam serem contra decisões governamentais, mas punem colegas seus que querem estudar. 

3) Os manifestantes demonstram serem ignorantes ou mal intencionados. Isso porque as melhores ideias jamais precisaram de movimentos populares para se estabelecerem. O domínio do fogo, a concepção da agricultura, a mecânica newtoniana, o cálculo diferencial e integral, a mecânica quântica, a teoria dos jogos e a teoria da evolução das espécies são ideias que naturalmente se inseriram nas sociedades desenvolvidas, por serem esteticamente belas e profundamente práticas. Houve aqueles que se sentiram ameaçados pelas ideias de Darwin e pela teoria heliocêntrica, entre outros exemplos históricos. Mas eles foram naturalmente calados pelo tempo. A luta que os atuais manifestantes deveriam abraçar se chama ciência, história, arte, estudo, trabalho. Se eles honestamente julgassem as ideias governamentais como imposições artificiais e descabidas, não tentariam usar os mesmos métodos governamentais para fins de imposição de outras ideias artificiais e descabidas. Em contextos sociais, se uma ideia precisa ser imposta, isso significa que provavelmente não é uma boa ideia, mas apenas um delírio compartilhado por um punhado de hasteadores de bandeiras.

4) A Universidade Federal do Paraná (UFPR) está cometendo um grave erro, ao tolerar ocupações de partes de suas instalações. A UFPR jamais se pronunciou oficialmente com relação a alguma medida do atual Governo Federal. Portanto, tolerar essas invasões significa uma abertura de precedente. Se, no futuro, qualquer grupo organizado de alunos decidir invadir instalações da UFPR em nome de qualquer outra causa, esta mesma instituição deverá ser consistente e aceitar a ocupação, por tempo indeterminado. A UFPR está se transformando em palco sem agendamento.

5) Os alunos que são contrários aos manifestantes também têm agido de forma irracional, a partir do momento em que entram em conflito verbal ou físico contra os ocupantes de prédios da UFPR. É um erro julgar que fulano ou beltrano são inimigos. No Brasil não há inimigos. O que existe por aqui é um crescente caos. O grande inimigo do povo brasileiro é a sua profunda ingenuidade. E esta ingenuidade existe por conta de ignorância. Precisamos sim de mais ciência, de mais arte, de mais sonhos, de mais trabalho. 

Nosso país vive uma realidade de liberdade de expressão, sem liberdade de pensamento. Pessoas são inevitavelmente tendenciosas, não há como evitar. Mas esta ingênua liberdade de expressão que se desenvolve no Brasil se sustenta apenas no impensado discurso de respeito à opinião alheia. No entanto, não é de respeito que estamos precisando! O que se faz realmente necessário é conhecimento! E falo de conhecimento que demanda real esforço para ser alcançado. A suposta era da informação que vivemos está apenas tirando o foco das pessoas. Por isso que manifestantes são tão confusos! Por isso que as pessoas acham que devem tolerar ideias, por mais malucas que sejam! Por isso que a UFPR não sabe agir! 

O lado irônico disso tudo é aquela sensação que sempre me invade, quando escrevo neste blog: a de que estou apenas perdendo meu tempo por aqui.

Tentarei dar continuidade às minhas aulas. Nas próximas vezes tentarei usar eventuais salas de aula que eu consiga. Não é prática a ideia de discutir matemática, sem um quadro que possa ser usado para escrever. Já não é fácil ter que encarar alunos que não estudam, que não perguntam, que não questionam o conhecimento supostamente estabelecido, que não conhecem coisa alguma do mundo onde vivem. Mas mais difícil ainda é encarar um movimento desfocado e inconsistente, em um ambiente míope e intelectualmente estagnado. Minha sorte é que conto com projetos que desenvolvo independentemente da vontade da maioria. Isso faz parte de meu treino. Não preciso de clubes, partidos ou associações para me sentir importante. 

Vi grupos de manifestantes andando pelo Centro Politécnico da UFPR como verdadeiras matilhas. Vi um dos prédios onde leciono, com vidros quebrados cobertos por tapumes improvisados. Se estas pessoas precisam invadir e coibir para sentirem que fazem alguma diferença neste mundo, posso apenas lamentar pela extrema fragilidade emocional delas. Mas eu não defendo bandeira alguma. Apenas trabalho. E esta é a pior das ironias. Parte de meu trabalho é lecionar para muitos alunos que não estudam, que não refletem, que não discutem. Sou pago para impor um conhecimento que não é desejado. E, por conta disso, finalmente me pergunto: do que diabos estou reclamando?

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Foi bom enquanto durou


Caros amigos, esta postagem anuncia o fim das atividades regulares do blog Matemática e Sociedade. 

Há algum tempo eu já sabia que este fórum não poderia durar indefinidamente. Mas hoje ficou claro que não devo dar continuidade a novas postagens minhas. Se alguma pessoa quiser veicular texto próprio por aqui, certamente o farei com prazer. Mas eu mesmo não publicarei novos textos meus. O motivo principal se resume da seguinte forma: já escrevi o que eu queria escrever. Se eu persistir com novos textos meus, estarei apenas fazendo propaganda. E propaganda é algo que nunca me agradou. Gosto de ideias, mas não de ideologias. As ideias mais importantes já colocadas são as seguintes:

1) As universidades brasileiras não funcionam e jamais funcionarão, enquanto nosso país insistir com esta visão avessa a mérito, competitividade, colaboração, empreendedorismo e ousadia.

2) A maioria dos professores de matemática não leciona. Eles apenas falam sozinhos em sala de aula, deixando seus alunos igualmente sozinhos. Alunos entram ignorantes em sala de aula e saem inseguros sobre eles mesmos. 

3) Conteúdos de matemática são apresentados em sala de aula de forma dogmática e errada, sem qualquer cultivo ao senso crítico. Não há debates sobre matemática em sala de aula. Logo, não se estuda matemática no Brasil.

4) Alunos de cursos superiores são, em geral, indivíduos que não se interessam por ciência ou cultura em geral. Querem apenas diplomas. Buscam apenas salários, para alimentar uma cultura consumista desprovida de sonhos. E sonhar com casa na praia e carro na garagem não é sonhar.

5) Brasileiros em geral (incluindo professores) não têm a mais remota ideia do que seja educação. E não querem saber.

6) A estabilidade irrestrita concedida a professores de universidades públicas é um veneno social. Mas a ignorância desses mesmos professores não permitirá que esta realidade mude. 

7) Professores universitários em nosso país são, em geral, um péssimo exemplo social em sala de aula e no cotidiano. 

8) Brasil não é um país democrático. Não existe liberdade de expressão, uma vez que não existe liberdade de pensamento. Não existe liberdade de escolha, uma vez que são ignoradas as escolhas.

9) Domina a cultura do medo em nossa nação. Alunos não questionam professores ou autores de livros e apostilas. Professores se acomodam em suas carreiras, sejam em instituições públicas ou privadas. Governantes temem a perda de popularidade, tornando-se escravos da opinião popular. 

Agradeço a todos os colaboradores e comentaristas que enriqueceram este blog com ideias, críticas e informações. E agradeço aos leitores silenciosos que apenas acompanharam com interesse os textos aqui veiculados. Sei que fiquei devendo textos prometidos há algum tempo. Mas espero contar com a compreensão daqueles que propuseram parcerias e solicitaram discussões sobre temas específicos. Assuntos sobre matemática, educação e sociedade jamais se esgotam. Porém tento crer que já colaborei bastante por aqui, dentro dos limites impostos pela internet. 

Comentários ainda são bem-vindos e serão respondidos, enquanto este site estiver no ar. 

Um grande abraço a todos

Adonai

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Teoria do caos e histórias de amor


Em postagem do início deste ano publiquei um texto que faz breves referências ao emprego de matemática para modelar histórias de amor. O que segue abaixo é uma adaptação de artigo mais detalhado sobre o tema e que publiquei na última edição da revista Polyteck.

Este blog está com as suas atividades parcialmente suspensas por tempo indeterminado. No entanto, é com grande satisfação que compartilho o presente artigo com os leitores de Matemática e Sociedade. Agradeço à equipe Polyteck pela gentileza de permitir a reprodução do artigo em questão neste blog. 

Dedico esta postagem a Bárbara Guerreira, a mulher com quem aprendo a cada dia aquilo que é realmente importante.
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O Caos do Amor
de Adonai Sant'Anna 

Há um preconceito, muito comum, de que a matemática tem um caráter frio e determinista, ao passo que relações humanas são imprevisíveis e não quantificáveis. No entanto, a quantificação de conceitos vagos ou obscuros, referentes a sentimentos humanos ou até mesmo escolhas pessoais, não é novidade. Estatísticos e, especialmente, aqueles que trabalham com análise multivariada de dados, conhecem várias aplicações bem sucedidas de modelos matemáticos para antecipar preferências de clientes sobre produtos e serviços. E equações diferenciais constituem a ferramenta mais empregada por cientistas para descrever a dinâmica de problemas complexos, que vão desde modelagens em física e engenharia até a tomada de decisões estratégicas em empresas. 

Em cálculo diferencial e integral, o conceito de derivada é empregado para modelar localmente fenômenos do mundo real, como a queda livre de um corpo ou o decaimento radioativo de uma porção de plutônio enriquecido. E o conceito de integral é empregado para resgatar a dinâmica desses fenômenos em escalas que transcendem um comportamento localizado em torno de um único instante. 

As primeiras aplicações de equações diferenciais ocorreram em física teórica. Tradicionalmente, a sua aplicação se restringiu quase que exclusivamente, nos últimos três séculos e meio, a áreas científicas e tecnológicas já muito acostumadas com a quantificação de grandezas como massa, carga elétrica, corrente, campos e potenciais. Com o passar do tempo, elas passaram a ser empregadas em áreas do conhecimento como engenharia, química, biologia, medicina, economia e, recentemente, até mesmo em psicologia e artes.

Uma descoberta feita pelo matemático francês Henri Poincaré, em 1890, surpreendeu cientistas do mundo inteiro. Ele percebeu que mudanças mínimas em condições iniciais de um sistema dinâmico descrito por certas equações diferenciais apresentavam repercussões gigantescas com o passar do tempo. A ideia de que pequenas causas poderiam repercutir na forma de grandes efeitos era algo já antecipado séculos antes por historiadores. Mas Poincaré foi o primeiro a discutir um fenômeno análogo em um contexto matemático: a evolução dinâmica de um caso particular do problema de três corpos - em mecânica clássica - em relação às condições iniciais. E a ferramenta matemática empregada foi justamente equações diferenciais. 

Nascia então um campo de estudo de sistemas de equações diferenciais não-lineares cujas soluções são extremamente sensíveis a condições iniciais, chamada de Teoria do Caos. As aplicações advindas dessa descoberta têm sido inúmeras. Entretanto, nos últimos anos foi possível acompanhar aplicações surpreendentes em áreas das ciências humanas que, tradicionalmente, são avessas a modelagens matemáticas. Entre os exemplos mais notáveis está a modelagem de histórias de amor. 

De acordo com Sergio Rinaldi, Pietro Landi e Fabio Della Rossa, "[a] evolução de relações românticas é marcada por todas as características típicas já conhecidas na teoria dos sistemas não-lineares". Isso porque relações amorosas se modificam com o passar do tempo, frequentemente passando por tumultos e então evoluindo para estados praticamente estacionários, mas ainda extremamente sensíveis a perturbações, mesmo que sejam pequenas.

Os três pesquisadores acima citados estão se especializando no tema, principalmente por conta da liderança de Sergio Rinaldi, um engenheiro eletrônico italiano que tem se destacado consideravelmente tanto em estudos sobre aplicações de sistemas dinâmicos quanto em divulgação científica. Entre os resultados alcançados e recentemente publicados, há sistemas de equações diferenciais usados para: (i) descrever a dinâmica do relacionamento entre Scarlett e Rhet, no filme E o Vento Levou...; (ii) interpretar matematicamente a história de amor entre Elizabeth e Darcy, no grande clássico da literatura Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; (iii) analisar a instabilidade do relacionamento entre a Bela e a Fera, na conhecida produção dos estúdios Disney; (iv) e até mesmo avaliar a frequência de relações sexuais entre casais estáveis.

Em geral, os modelos propostos para descrever histórias de amor são compostos por duas equações diferenciais ordinárias, uma para cada parceiro. As variáveis de estado correspondem a sentimentos e são funções reais dependentes do tempo. Valores positivos dos sentimentos podem ser interpretados como variando de simpatia a paixão. E valores negativos podem ser associados com estados emocionais que variam de antagonismo a desdém.

As equações diferenciais costumam ser descritas a partir de uma igualdade entre a taxa de variação de sentimentos (dada por uma derivada em relação a tempo) e uma função que depende explicitamente do estado emocional de ambos e do apelo sexual do(a) parceiro(a). 

A modelagem matemática de relações amorosas serve não apenas ao propósito de identificar zonas de estabilidade e instabilidade emocional, como também para avaliar a consistência de histórias de amor imortalizadas pela literatura e cinema. Se uma história de amor não cativa o público, é possível que exista nela uma inconsistência matemática. Daí o interesse desses modelos na arte milenar de contar histórias.

Um dos resultados obtidos, no caso do filme A Bela e a Fera, foi a interpretação de uma bifurcação de sela-nó (bifurcação de dobra) que permite compreender a evolução de uma história de amor. Tal história seria caracterizada por uma surpresa repentina provocada pela inevitável explosão de sentimentos dos envolvidos. Outro resultado curioso e recente é a evidência de que caos emocional pode se manifestar, em certos casos particulares, de forma independente de qualquer contexto social em que os protagonistas de uma história de amor estejam inseridos.

Há, naturalmente, questões em aberto no que se refere ao emprego de equações diferenciais para o estudo de relações amorosas. Um deles é o caso de triângulos amorosos, tema ainda não bem compreendido neste contexto. Rinaldi e colaboradores chegaram a desenvolver um estudo muito particular sobre o triângulo amoroso retratado no filme Jules et Jim, de François Truffaut. Mas as condições exploradas no modelo proposto ainda são bastante idealizadas. 

Claramente é uma área de pesquisa que está apenas engatinhando, uma vez que a maioria dos artigos se refere a estudos de caso (E o Vento Levou..., A Bela e a Fera, Orgulho e Preconceito, entre outros). Uma descrição mais ampla sobre relações de amor ainda precisa ser feita. No entanto, relações de amor e rejeição não precisam se referir necessariamente a casos amorosos de casais. Por que não modelar matematicamente, por exemplo, processos de discussão, aceitação e rejeição em ciência?

A teoria da relatividade geral de Einstein é um ótimo exemplo. Ele introduziu uma constante cosmológica em sua equação de campo, para sustentar uma crença pessoal em um universo finito, fechado e estático, no qual a densidade de energia da matéria define a geometria do espaço-tempo. Pouco depois, de Sitter apresentou uma solução para a equação de campo de Einstein, com constante cosmológica, para um universo sem matéria alguma.

Ao longo das décadas seguintes, a constante cosmológica passou por altos e baixos, sendo aceita ou rejeitada por físicos, em uma intrincada sequência de argumentos - ocasionalmente até ingênuos. Os físicos ainda estavam aprendendo com a própria teoria iniciada por Einstein. 

Em virtude de profundas sutilezas teóricas e de sensíveis observações experimentais, a teoria da relatividade geral não foi desenvolvida por Albert Einstein, como muitos pregam. Ela foi apenas concebida pelo físico alemão. O crescimento e o amadurecimento desta teoria foi um processo gradual, que já dura um século e ainda continua, graças ao árduo e refinado empenho de muita gente. Um exemplo que certamente vale a pena lembrar é o trabalho do físico brasileiro George Matsas que, em 2003, resolveu o célebre paradoxo do submarino, no contexto da teoria da relatividade geral.

Até hoje persistem casos de físicos que procuram insistentemente rejeitar as ideias de Einstein sobre a gravitação. Em contrapartida, há também toda uma cultura de mistificação em torno da física quântica, como bem aponta Giancarlo Ghirardi, em seu excelente livro Sneaking a Look at God's Cards. Essas dinâmicas sociais em torno de ideias científicas não poderiam também ser modeladas via equações diferenciais? As relações entre cientistas e teorias científicas não seguem padrões que podem ser descritos através da matemática?

A teoria do caos tem por meta exatamente a compreensão de fenômenos imprevisíveis. E a aceitação de uma nova ideia, assim como o amor, é um fenômeno com consequências difíceis de serem antecipadas.

domingo, 26 de julho de 2015

Pré-cálculo em vídeo


A disciplina que mais vezes lecionei até hoje foi cálculo diferencial e integral. E demorei anos para finalmente entender de forma qualificada uma das maiores dificuldades encontradas pelos alunos: linguagem.

Admito que sou tão lento para entender alunos quanto eles são para entender matemática. Sempre parti do pressuposto de que alunos de matemática, física, química e engenharias são pessoas fortemente motivadas por matemática. No entanto, há uma falha grave neste preconceito meu. A maioria de meus alunos é escrava daquilo que se leciona nos ensinos fundamental e médio. Portanto, não há como eles sequer criarem a mais remota intuição sobre o que é matemática. E, para piorar, não há qualquer sombra de iniciativa neles.

O tópico padrão para iniciar estudos em cálculo diferencial e integral é o conceito de limite. E o conceito usual de limite de funções reais envolve o emprego de quantificadores lógicos. Bem. O que, afinal, egressos das infelizes instituições de ensino fundamental e médio de nosso país sabem sobre quantificadores lógicos? Nada. Simplesmente nada. Esses alunos nunca foram estimulados a pensar, a criar, a questionar. São meros escravos do sistema de ensino e ainda sofrem de uma variante da Síndrome de Estocolmo. Eles são incapazes de questionar professores e livros. 

Em função disso, decidi criar o vídeo abaixo. É um vídeo que explora de maneira simples, colorida e provocativa algumas noções muito básicas sobre os dois quantificadores lógicos mais usuais. São eles o quantificador universal e o quantificador existencial. 

O objetivo principal é familiarizar jovens e demais interessados com elementos muito básicos das linguagens usualmente empregadas em matemática. 

O vídeo abaixo é o terceiro episódio da série "Matemática - Mundo Invisível", uma iniciativa do blog Matemática e Sociedade. Espero que estudantes e até mesmo docentes possam aproveitar bem este material. 

Um texto que complementa de forma detalhada a presente postagem se encontra aqui

Se você deseja baixar o vídeo, com diferentes opções de formato, clique aqui



Terceiro episódio da série Matemática - Mundo Invisível, produzida pelo blog Matemática e Sociedade. Neste vídeo é apresentada uma visão intuitiva sobre quantificadores lógicos. É um material apropriado para quem precisa conhecer pré-cálculo. Professores e educadores em geral podem usar livremente este vídeo em sala de aula, desde que ele não seja comercializado.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Primeiro vídeo da série "Matemática - Mundo Invisível"


O primeiro vídeo da série "Matemática - Mundo Invisível" está finalmente disponível para visualização e download gratuito no canal Vimeo Adonai Sant'Anna

Meses atrás anunciei que esta série iniciaria a partir de agosto deste ano. No entanto, decidi colocar o primeiro vídeo no ar um pouco antes. Os demais estão em fase de finalização e deverão ser lançados a partir do próximo mês, conforme prometido. 

O vídeo mais curto da série é justamente o primeiro, com duração inferior a três minutos. Nos demais serão abordados temas pontuais e, por conta disso, terão duração consideravelmente maior. 

Meu principal objetivo com esta série é a proposta de um formato específico para ensino a distância que seja realmente diferente daquilo que se faz em salas de aula tradicionais. Os vídeos que produzo contam com certas limitações de qualidade de imagem e de som. Afinal, multimídias não estão entre as minhas especialidades. Além disso, tenho contado com ajuda apenas do músico Don Healy. Mas espero que esses vídeos deixem claro o que proponho. 

Não faz sentido usar tecnologias avançadas de áudio e imagem com o propósito de gravar um professor em frente a uma lousa, fazendo aquilo que qualquer docente já faz em seu cotidiano: expor assuntos de forma improvisada. Também não faz sentido a expectativa de que alguém aprenda algo relevante sobre matemática a partir de vídeos educativos. Matemática somente se aprende com leitura, reflexão e discussão. E não há como discutir com um vídeo.

Mas o que faz sentido é a produção de vídeos educativos que realmente se beneficiem de novas tecnologias capazes de oferecer algo muito difícil (ou até impossível) de ser implementado em uma sala de aula. E o que também faz sentido é a produção de vídeos de fácil acesso que sejam capazes de motivar jovens estudantes. 

Portanto, esta é a proposta:

1) A produção de vídeos educativos nos quais são empregados recursos áudio-visuais usualmente não encontrados em uma aula tradicional. Aula tradicional é aquela definida por um professor que apresenta, oralmente e por escrito, conteúdos para uma turma de alunos. 

2) A produção de vídeos sustentados por roteiros planejados com antecedência e rigorosamente seguidos. Ou seja, nada de improvisos. Os roteiros devem definir não somente a narração em off, mas também as imagens a serem utilizadas, a sequência de cenas e a trilha sonora complementar.

3) A produção de vídeos que sirvam exclusivamente ao propósito de motivação. 

Os recursos que tenho empregado, por enquanto, são os seguintes:

I) Blender, um programa de computação gráfica extremamente poderoso, mas de uso nada amigável. Para que o leitor tenha ideia daquilo que pode ser feito com Blender, clique aqui. Para compreender as dificuldades de seu uso, basta fazer o download gratuito aqui. Existem muitos canais YouTube com ótimos tutoriais. Basta navegar e trabalhar.

II) Photoshop Elements. Este é um software muito conhecido que emprego para a produção de still images

III) Wondershare, um programa para edição de vídeos muito fácil de usar e com uma quantia razoável de recursos, incluindo efeitos especiais. Seu principal limitante é a existência de uma única pista de som durante o processo de edição. 

IV) Acid Music Studio, um software para gravação e edição de som. O resultado certamente não é profissional. No entanto, é um programa que não custa muito caro e permite um resultado final mais ou menos satisfatório.

V) Behringer U-PHORIA UM2. É a mais simples placa de som Behringer. Se o leitor quiser resultados de melhor qualidade, recomendo no mínimo o modelo U-PHORIA UMC202. 

VI) Computador SONY VAIO. Não é a melhor máquina para a produção de vídeos. Em alguns casos, vídeos relativamente simples criados com Blender, de 40 segundos de duração, exigiram cerca de dez dias de processamento de máquina para a renderização. Este problema se tornou realmente marcante na produção do quinto vídeo da série. Para desenvolver uma intuição sobre o conceito de infinito, usei o Blender para criar uma sala de espelhos. Esta sala de espelhos deu muito trabalho para o computador SONY. 

VII) Microfone Shure SM58 e fone de ouvido Shure SRH440. Bem, funcionam. 

VIII) Softwares complementares. 

Os vídeos disponibilizados no meu canal Vimeo são de acesso gratuito e permitem download também gratuito. Críticas e sugestões podem ser feitas aqui mesmo ou no próprio canal Vimeo. Estou produzindo inicialmente apenas cinco vídeos. Os temas dos próximos quatro são os seguintes: matemática e música, matemática e imagens, quantificadores lógicos e teoria de conjuntos. A produção de demais vídeos dependerá da receptividade dada aos primeiros.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O índio astrônomo


Na divisa entre Mato Grosso do Sul e o Departamento de Amambay, na República do Paraguai, existe a cidade de Ponta Porã, que faz fronteira livre com a cidade de Pedro Juan Caballero. Esta cidade fica em uma região que, em tempos remotos, foi ocupada por vários povos indígenas, incluindo principalmente os índios caiuás. Com a colonização promovida pelo homem branco, muitos aspectos da cultura desses povos indígenas passaram a ser ameaçados. Por um lado, a contaminação cristã introduziu entre os índios a (até então) inédita noção de pecado, levando muitos ao alcoolismo e até mesmo ao suicídio. Por outro, jovens índios passaram a assimilar a cultura do homem branco, ignorando suas próprias raízes. Como os índios brasileiros não contam com linguagem escrita, todo o conhecimento desses povos sobre ervas medicinais e ritualísticas, animais, astronomia e mitos, ficou sob os cuidados quase que exclusivamente de pajés. Pajés, além de detentores do conhecimento indígena, são também curandeiros e orientadores espirituais. 

Foi em meio a esta transição entre a morte das culturas indígenas e a dominante colonização promovida pelo homem branco que nasceu Germano Bruno Afonso, um descendente de índios.

O sobrenome Afonso foi herdado de colonizadores espanhóis. Mas Germano domina os idiomas Tupi, Guarani, Espanhol, Português, Francês e Inglês. 

Desde a infância conhece muito bem a astronomia tupi-guarani. Este foi o seu primeiro contato com as estrelas, constelações, Sol e Lua e seus reflexos sobre o mundo terreno. 

No lugar de simplesmente assimilar a cultura do homem branco, em detrimento da indígena, Germano encontrou uma solução realmente original e única. Ele usou a cultura do homem branco para hoje resgatar suas raízes no céu tupi-guarani. 
Germano Bruno Afonso

Germano graduou-se em Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na mesma instituição obteve seu mestrado em Ciências Geodésicas. Doutorou-se em Astronomia de Posição e Mecânica Celeste pela Université Pierre et Marie Curie (Paris VI) e realizou estágio de pós-doutorado no Observatoire de la Côte d'Azur, na França. 

Em parceria com pesquisadores franceses de renome publicou trabalhos importantes sobre perturbações não-gravitacionais em satélites artificiais, com especial atenção dedicada ao satélite LAGEOS. Trouxe este conhecimento ao Brasil, o qual foi desenvolvido posteriormente em parceria com alunos seus de pós-graduação. Tive a sorte de ser seu orientado durante meu mestrado, na UFPR. Esta parceria resultou em um estudo inédito sobre a variação do tempo de resposta da Terra aos efeitos de marés provocados pela Lua

Mas, aos poucos, Germano começou a retornar às suas origens. Afinal, este era o seu chamado, a sua verdadeira missão. 

Criou e desenvolveu diversos projetos de arqueoastronomia e etnoastronomia indígena brasileira. Parte de seu trabalho pode ser encontrada no livro O Céu dos Índios Tembé, vencedor do Prêmio Jabuti de 2000. Outra fonte de ricas informações pertinentes e bem mais abrangentes é o site Astronomia Indígena

Germano sempre foi um entusiasta da ciência e da cultura em geral. A correlação entre este tipo de postura e senso de humor é simplesmente inevitável. Ele gostava de provocar o físico chinês Bin Kang Cheng com frases do seguinte tipo: "Como dizia Confúcio, água mole em pedra dura tanto bate até que fura." Cheng chegou a questioná-lo um dia: "Eu não acho que Confúcio tenha dito isso." E Germano respondeu: "Se não disse, deveria ter dito."

Enquanto fui seu orientado, Germano aparecia na sala de estudos dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Física da UFPR e perguntava para mim: "E aí, Adonai. Algum teorema novo?" Preocupado, eu respondia negativamente e ele completava: "Nem mesmo um corolariozinho?"

Durante o mestrado era patente o interesse de Germano por assuntos pouco convencionais mesmo entre físicos. Colaborei com ele, compondo uma música tema para um software que Germano desenvolveu, reproduzindo parte da sabedoria milenar chinesa do I Ching. Além do software, Germano publicou um livro sobre a codificação binária dos 64 hexagramas do I Ching. E isso era algo realmente fascinante.

Foi com Germano que aprendi os modos de pensar de físicos, criaturas que mais se parecem com magos (ou pajés) do que com cientistas. Físicos tradicionais não se preocupam com preciosismos matemáticos. Trocávamos ideias usando expressões que fariam qualquer lógico-matemático torcer o nariz, como "basta virar a equação de ponta-cabeça" ou "esta não linearidade das equações diferenciais está atrapalhando o progresso da ciência". 

Germano sempre deixou muito claro que a intuição do físico vale muito mais do que aquilo que ele sempre chamou de "altas matemáticas". De nada vale fazer contas complicadas, se não houver uma poderosa e elegante intuição física. E este foi um aprendizado de extraordinária importância, que persiste comigo, ainda que eu tenha posteriormente seguido o caminho da fundamentação lógica e matemática de teorias físicas. 

Germano é o único pesquisador brasileiro dedicado ao resgate do conhecimento astronômico de povos indígenas de nosso país. E ele chegou no momento certo. Se não fosse por este mestiço de sangue e espírito, em uma ou duas gerações todo o conhecimento astronômico dos povos que nossa cultura subjugou estariam irremediavelmente perdidos. Apesar de índios brasileiros falarem muitos outros idiomas além de Tupi e Guarani, essas duas línguas sempre têm operado como ponte de comunicação. Sempre existe algum índio que domina Tupi ou Guarani. E sua fluência nestes idiomas aprendidos durante a infância abre "portas". Pajés respeitam o índio de sobrenome Afonso e de nome com óbvia referência européia. Em um ritual realizado em uma das tribos visitadas, ele chegou a ser batizado como Doé, nome sagrado. Esta é uma grande honra, pois Doé (em Tukano) é a primeira estrela vista ao anoitecer. Um título que Germano carrega com grande carinho, ao lado de seu diploma francês. Neste sentido Germano é algo como a versão brasileira de Lawrence da Arábia.

Hoje Germano trabalha no Centro Universitário UNINTER, em Curitiba, Paraná. Conversei pessoalmente com ele poucas horas atrás, acompanhado de outra pessoa extraordinária sobre a qual um dia escreverei aqui. Era o único professor presente nos silenciosos corredores daquele prédio, no início da noite de sexta-feira. 

Bem. Alguém tem que trabalhar. Afinal, como sempre diz Germano, nada deve atrapalhar o progresso da ciência. 

Um brinde ao índio astrônomo!