segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Usando a educação para melhorar a política partidária no Brasil


Começo esta postagem com dois fatos aparentemente díspares:

1) Tempos atrás publiquei uma postagem neste blog sobre um hipotético diálogo entre loucos internados em um hospício. Eu queria expor publicamente minha suposta habilidade para antecipar argumentos aparentemente sensatos em um contexto social insano.

2) Ontem à noite vi pela televisão um debate transmitido ao vivo entre os candidatos à Presidência da Nova República Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Comparando esses dois fatos percebi que sou um lamentável amador quando o tema é "diálogos insanos". Ambos os candidatos à presidência eram incapazes de apresentar respostas objetivas, bem articuladas ou sequer honestas às perguntas feitas por eles mesmos. Durante o debate me senti como um louco em um ambiente de loucos, muito pior do que minha imaginação consegue alcançar. E como já percebi que a arte da argumentação está longe de ser remotamente sensata ou interessante até mesmo na população brasileira que deve decidir em quem votar nas eleições presidenciais, decidi escrever esta postagem, na esperança de que sirva de inspiração para a sistemática implementação da prática dos debates em nossas escolas.

Quando o político grego Clístenes (565 a.C. - 492 a.C.) propôs uma nova ordem política chamada "democracia", na qual significativos segmentos sociais decidiriam quem governaria o Estado, os gregos imediatamente perceberam a ampla importância social da arte da argumentação, também conhecida como a arte da persuasão. O bom político grego era uma pessoa que sabia argumentar.  

O conceito de democracia passou por grandes mudanças desde a sua concepção na Antiga Grécia. Hoje em dia não são apenas as elites sociais que votam, mas todos os cidadãos que pagam impostos e até mesmo jovens que nem ingressaram no mercado de trabalho ainda. Ou seja, a proposta grega do que se entende por democracia avançou, do ponto de vista de processo eleitoral. No entanto, a arte da argumentação piorou e muito. Esta situação coloca a democracia sob séria ameaça. Ao contrário do que muitos pensam, o que define um regime democrático não é apenas um fator social conhecido como "processo eleitoral", mas, principalmente, uma sólida educação para todos.

Anos atrás Cleverson Bastos e Vicente Keller publicaram o excelente livro Aprendendo Lógica (Vozes, 2000). Eu já discuti sobre esta obra em postagem anterior. É simplesmente uma belezinha, justamente por tratar de lógica do ponto de vista informal e, portanto, acessível a qualquer pessoa que tenha como pré-requisito a capacidade de leitura. Explorando temas fundamentais como meios de convencimento, sofismas e silogismos, é um livro perfeitamente adequado para estudos no ensino médio. Se juntarmos a essa obra outros textos clássicos como O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, temos uma excelente base teórica para dar início à prática do debate em escolas.

A arte da persuasão é assunto de extrema importância não apenas em qualquer ambiente social que anseie pelos ideais da democracia, mas até mesmo entre profissionais de inúmeras áreas do saber. Se o leitor clicar aqui, por exemplo, terá acesso a um excelente artigo sobre o tema, publicado pela Harvard Business Review. O artigo em questão é focado no mundo dos negócios. Mas a arte da persuasão encontra aplicabilidade em direito, medicina, engenharia, artes, história, idiomas, filosofia e ciências em geral.

Como desenvolver a arte da persuasão nas escolas? Através da prática de debates, principalmente entre alunos que tenham estudado as obras acima mencionadas, entre muitas outras. 

A prática do debate em escolas é uma tradição em muitos países, mas não no Brasil. Existem até mesmo competições nacionais de debate escolar em nações como Estados Unidos e França. Usualmente debates em escolas são promovidas da seguinte forma:

1) Alunos ouvem um determinado tópico e assumem uma posição em relação ao assunto apresentado.

2) Se os alunos forem membros de times, eles discutem entre si a respeito do tema.

3) Alunos ou times apresentam declarações iniciais.

4) Inicia-se o debate através de réplicas e tréplicas, obedecendo a regras de tempo de argumentação coordenadas por membros de uma equipe organizadora do debate.

5) Uma comissão julgadora decidirá qual equipe ou aluno venceu o debate.

Em um mundo no qual temas como nazismo ou terrorismo versus revolução social são praticamente anátemas, e em um país como o nosso, no qual muitos políticos já falam em censura da imprensa, a prática do debate escolar se mostra fundamental para garantir o estado democrático para as gerações futuras. 

Outra forma para a condução de debates é a prática do "advogado do diabo". Em meus tempos de escola, por exemplo, um professor dividiu uma turma em duas equipes. Uma das equipes deveria defender a importância do dinheiro na sociedade e a outra equipe deveria defender o fim do dinheiro, independentemente das crenças pessoais de cada um sobre o assunto. Lamentavelmente apenas dois alunos participaram do debate, o qual não foi bem sucedido. E não foi bem sucedido justamente porque a cultura do debate simplesmente não existe em nosso país. O brasileiro tem contato com debates apenas em épocas de eleições. E usualmente ele é um agente passivo que apenas acompanha debates entre candidatos a cargos políticos. Este fato vai em completo desencontro a qualquer regime democrático.

Portanto, se você é professor, estimule o debate em sala de aula, independentemente da área que lecione. Debates podem ser promovidos envolvendo assuntos muito diversos, como política ou até mesmo matemática. O estímulo ao debate em sala de aula tem a vantagem de rápida e naturalmente se estender ao seio da família e a outros segmentos sociais, incluindo a vida política partidária que tanto assusta em nossa nação. Afinal nossa pseudo-democracia já é piada no exterior.

6 comentários:

  1. Bela análise, prof. Adonai. Pena que professores do ensino fundamental, médio e superior não pratiquem o debate entre seus alunos como forma de avaliação. O motivo, talvez, seja o esforço a mais que um debate exige do professor. Afinal de contas, alguém terá que controlar a euforia dos jovens alunos. Coisa que não aconteceria em um simples seminário, por exemplo. No meais, professor, agradeço pela dica de aula. Lembrarei dela quando for professor.

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  2. Na biblioteca do ensino médio tinha um livro o qual afirmava que Maxwell debatia suas teorias com seu cão. Nesta cidade (quiçá país) caso se queira ventilar qualquer assunto mais sério, não demora para que se ganhe a alcunha de interlocutor enfadonho ou "filósofo", este em tom jocoso. O debate fértil é sem dúvidas válido, mas parece ser melhor ver quanto deu o jogo do Coxa. Maxwell tinha razão. Penso que cada criança deveria aprender sobre política desde cedo, sendo parte do currículo, e saber pelo menos alguns dos 38 estratagemas de Schopenhauer.

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  3. Adonai

    Meu primeiro contato com raciocínio lógico em termos específicos como disciplina foi por meio da obra "Use a Lógica", de D. Q. Mclnerny.

    Foi um bom começo?????

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    1. Leandro

      Infelizmente não conheço este livro. No entanto, é sempre necessário conhecer muitas obras, principalmente os clássicos. Eu, por exemplo, tive meus primeiros contatos com cálculo diferencial e integral a partir de livros péssimos.

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  4. Não é uma boa ideia debates em escolas se os alunos não tiverem um bom ensino. Uma vez teve um debate na minha escola como nem mesmo os professores sabiam algo sobre argumentação, lógica e educação só saiu briga, argumentos religiosos e falácias. Eu mesmo fiquei calado e tive de me contentar em fazer a prova de recuperação por não participar.

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