quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dia do Professor


Recentemente fui convidado para participar de uma discussão sobre o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Li esta obra quando tinha doze ou treze anos. Na tentativa de resgatar minha memória sobre a trama, percebi que havia lacunas. Então decidi reler o livro de Huxley em uma tradução de Vidal de Oliveira e Lino Vallandro deste grande clássico da literatura.

A trama gira em torno de um choque cultural entre o Selvagem (raramente chamado pelo seu nome, John) e uma civilização humana localizada em um futuro não muito distante, na qual todas as pessoas são produzidas pela indústria genética, a qual determina condições intelectuais e físicas que as pessoas devem ter para atender a necessidades do mercado de trabalho. Já o Selvagem é um bastardo que nasceu de forma natural em uma comunidade isolada da civilização, onde os humanos ainda são vivíparos, como nos dias de hoje.

Há um momento no livro em que Bernard Marx (homem geneticamente projetado para ser membro de castas superiores, mas cuja aparência física sugeria algum erro em seu desenvolvimento artificial no Centro de Incubação) usa o amigo Selvagem para conquistar elevado status social. E, como era de se esperar, em um certo ponto Selvagem não aceita mais esta covarde estratégia de Bernard. Ou seja, Bernard usufrui de sua nova condição social de prestígio por pouco tempo e acaba sendo menosprezado pelas castas superiores de maneira muito mais marcante do que sua aparência física (resultante do suposto erro em sua incubação artificial) pudesse justificar. Como reação emocional, Bernard decide se vingar de Selvagem. O motivo é simples: "Uma das principais funções de um amigo é suportar os castigos que nós gostaríamos, mas não temos possibilidade, de infligir aos nossos inimigos."

Pois bem. Hoje é o dia do professor. E professores são profissionais que tradicionalmente reclamam muito. Jamais se percebem greves de publicitários, advogados, arquitetos, psicólogos, engenheiros ou corretores de imóveis. Greves existem entre bancários, funcionários públicos e professores, ou seja, profissionais acostumados a esperar por reconhecimento de instâncias superiores, e não profissionais acostumados a avançar suas carreiras, conquistando novos espaços na sociedade. 

É claro que existem professores altamente satisfeitos com suas carreiras. Mas são exceções. Quem convive com professores sabe que são pessoas que usualmente reclamam muito. Mesmo este blog, mantido por um professor, concentra muitas reclamações. 

Professores reclamam de patrões que pagam pouco e cobram muito. Reclamam de alunos que não se interessam por suas aulas. Reclamam de governos que não investem em educação. Reclamam de pais de alunos que não estimulam o aprendizado de seus filhos. Reclamam de colegas que não reclamam junto com eles. Reclamam sem parar.

É claro que a posição social de um professor é delicada, dada a natureza de sua atividade profissional. Educação invariavelmente estimula o descontentamento. Sempre há mudanças a serem promovidas quando o assunto é educação. Sempre existem lacunas que devem ser preenchidas, caminhos que devem ser alterados, políticas que devem ser atualizadas, conhecimentos que devem avançar. 

No entanto, professores ainda são seres humanos, com todas as falhas de caráter que podem se manifestar em qualquer pessoa. E se insatisfações fazem parte do cotidiano de um profissional, devemos avaliar com especial cuidado as possíveis consequências sociais do trabalho deste profissional; especialmente levando em conta o fato de que professores exercem considerável influência praticamente diária sobre crianças e adolescentes. 

Indo direto ao ponto, minha pergunta é: Professores podem descarregar suas frustrações profissionais sobre os próprios alunos? 

Voltando à obra de Huxley... Quando Bernard Marx estava no auge de seu prestígio social, ele se afastou de seu amigo Helmholtz Watson. Ao perder o novo status, pediu desculpas a Helmholtz e este as aceitou. A magnanimidade de Helmholtz perturbou Bernard. Portanto, assim como Selvagem, Helmholtz também deveria ser castigado. Isso porque Bernard voltou a se sentir socialmente inferior. E o magnânimo perdão de Helmholtz colocava Bernard em posição mais baixa ainda.

Professores frequentemente são lembrados e até enaltecidos, principalmente em datas como a de hoje. Eventualmente alunos prestam homenagens e até fazem brincadeiras carinhosas, como levar uma maçã ou uma melancia (como aconteceu comigo anos atrás) para o professor. Mas isso provoca algum sentimento de real ou perene satisfação? A resposta só pode ser negativa, uma vez que greves de professores volta e meia são notícias na mídia. E quando ocorrem greves, certamente são os alunos que pagam o preço maior por esta insatisfação.

E mesmo quando não há greves, podemos assegurar que professores não descarregam suas frustrações sobre os alunos, assim como Bernard Marx decidiu se vingar de sua perda de breve prestígio social, procurando atingir seus amigos mais próximos? 

Quando um professor reclama com seus alunos da desvalorização de sua profissão, ele está construindo algo? O que esses alunos podem fazer a respeito? 

Quando professores reclamam com amigos e familiares sobre suas frustrações profissionais, ele está construindo algo? O que seus amigos e familiares podem fazer a respeito? 

Este é um dos motivos para a existência deste blog. Como sou professor, fico impossibilitado de não reclamar. Mas não quero reclamar das minhas frustrações diante de amigos, familiares ou alunos. Quero reclamar para quem esteja disposto a ouvir e fazer algo a respeito. Mas também não quero reclamar de minhas frustrações pessoais, as quais interessam apenas a mim. Quero reclamar apenas de minhas frustrações com a educação como um todo. E a reclamação que faço hoje é sobre certas reclamações de professores.

Poderíamos analisar o contexto de reclamações de professores da seguinte maneira. Se o professor não é valorizado em sua instituição, saia da instituição e vá para outra! Se não existe instituição que o valorize, abrace outra carreira! Se não existe carreira alternativa adequada para o professor, que o faça se sentir profissionalmente melhor, então provavelmente a culpa é dele mesmo! 

No entanto, sempre existem nuances que jamais podem ser ignoradas, como contextos familiares e sociais e até mesmo pessoais. O fato é que o problema da insatisfação de professores não é fácil de resolver, a não ser em casos muito particulares. Mas pelo menos um exercício de auto-crítica precisa ser realizado por aqueles que têm como profissão o ensino. 

Dia dos professores não deveria ser uma data a ser celebrada com mensagens automáticas e socialmente condicionadas de parabéns, como se pratica na sociedade futurista de Admirável Mundo Novo. Dia dos professores deveria ser uma data de reflexão de cada profissional do ensino. E a reflexão deve ser a seguinte: "O que mudou para melhor em minha atividade profissional  no ano que passou?" Se a resposta for "nada", então o profissional de ensino deve responder à seguinte questão: "O que posso fazer para melhorar minha atuação profissional?" 

Não há problema algum em reclamar, desde que as reclamações sejam feitas pelos canais certos e desde que sejam formuladas no sentido de buscar por soluções. Como educação é um fenômeno social no qual governos desempenham forte papel, os canais certos são as mídias de alcance público (jornais, revistas, televisão, rádio e internet), as mídias de alcance especializado (periódicos científicos e livros acadêmicos) e o contato direto com aqueles que exercem cargos de poder. 

Focar reclamações diante de amigos, familiares ou alunos não é, em geral, uma estratégia eficaz. Pelo contrário, é uma estratégia que geralmente apenas cansa quem ouve. Focar reclamações diante de colegas de trabalho também não ajuda, a não ser que uma massa crítica de colegas esteja empenhada em exercer ações que busquem por mudanças. 

Professores devem perceber que a profissão abraçada é ímpar. É uma profissão na qual a insatisfação é ingrediente básico (uma vez que educação demanda insatisfação), a dependência de políticas governamentais é muito forte e o produto vendido é raramente apreciado mas fundamental para o desenvolvimento de sociedades inteiras. Diante deste contexto social, um professor deve saber muito mais do que a matéria que leciona. Ele deve saber como se destacar socialmente, sem depender de um Selvagem que o faça se sentir melhor consigo mesmo. 

Se um professor não é valorizado na instituição onde trabalha, por que ele não cria então um ambiente que precise dele naquela instituição? Esta é uma saída bem mais interessante do que o simples abandono da instituição, conforme sugeri acima. 

Enfim, insisto nesta postagem que professores precisam ser muito mais criativos do que normalmente mostra a prática. Essa necessidade da criatividade existe justamente por conta das características ímpares desta profissão, as quais raramente são contempladas com seriedade pelos próprios profissionais de ensino. Se isso não for feito, o resultado será inevitavelmente trágico, como ocorre no final do livro Admirável Mundo Novo. Recomendo a leitura.

9 comentários:

  1. Professor Adonai

    Sempre gostei muito da arte de ensinar. Porém antes de mais nada precisava sobreviver e com o baixo salário não tive escolha: optei por me tornar bancário.

    Para advogados, arquitetos e demais profissionais que você citou acima é muito fácil não fazer greve, afinal suas respectivas carreiras são bem valorizadas financeiramente.

    Defendo uma ideia radical. Que nenhum jovem siga a carreira de professor.Quem sabe com se faltar realmente professores neste país, mude alguma coisa.

    Reclamar dos professores que reclamam é fácil. Quero ver alguém ir dar aula pra 40 alunos por sala por 1500 contos por mês. Nem pião de usina ganha tão pouco.

    Desculpe mais uma vez o desabafo. Me interessei em ler o livro.

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    1. Hugo

      Valorização de uma profissão opera de maneira semelhante à valorização social de pessoas. A iniciativa sempre deve partir daquele que busca a valorização. Professores, geralmente, não fazem isso. Apenas esperam que os outros os valorizem. Tenho certeza de que você gostará muito do livro de Huxley.

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  2. Adonai,

    Concordo que os professores deveriam procurar forma diferentes de manifestação contra a suas insatisfações enquanto docentes. Uma que não prejudicasse tanto os pobres alunos. Mas é preciso enaltecer que o governo nunca realizou mudanças em uma manifestação que não fosse radical. Em alguns estados, como no meu Ceará, até mesmo as manifestações mais radicais muitas vezes não são ouvidas. Então, acho que o problema não está no professor, e sim na falta de audição dos governos.


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    1. Fernandes

      Educação é um fenômeno social que envolve diversos segmentos. Responsabilizar um único desses segmentos não é uma atitude realista. Existe sim culpa de governos, assim como existe a acomodação de professores e a indiferença entre famílias. Somos todos responsáveis.

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  3. Os professores estão insatisfeitos. Mas nada traz mais prazer que transmitir conhecimentos aos descendentes.

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  4. Olá Prof. Adonai

    Gostaria de compartilhar aqui o editorial da última Revista Brasileira de Ensino de Física, que trata sobre ensino/aprendizagem de física. Caso haja interesse, seria muito interessante ver suas impressões sobre o que é discutido no artigo. http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/364001.pdf

    Matheus.

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    1. Matheus

      Grato pela referência. O texto é interessante. Mas ainda acho que os problemas do ensino em massa independem de metodologias de ensino. O uso do termo "resultados promissores" no último parágrafo remete a mera propaganda. Quais são os critérios para se avaliar resultados promissores em sala de aula? São critérios adotados por professores que acreditam na metodologia?

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  5. "[...] Reclamam de alunos que não se interessam por suas aulas. [...]"

    Particularmente, esta é minha única reclamação e o motivo central para não estar em sala de aula. Quanto às demais reclamações, penso que cada professor deve fazer por merecer antes de sair exigindo aumentos salariais. Neste sentido, também não me agrada a ideia de classe sindical e análogos pois nem todos os indivíduos de uma dada classe profissional merecem igual valorização.

    "[...] Se um professor não é valorizado na instituição onde trabalha, por que ele não cria então um ambiente que precise dele naquela instituição? Esta é uma saída bem mais interessante do que o simples abandono da instituição, conforme sugeri acima. [...]"

    Concordo plenamente.

    Entretanto, particularmente, não me considero inteligente o bastante para fazer isto, ainda mais em uma sociedade em que as profissões vinculadas ao ganho direto de dinheiro (ciências jurídicas com suas ações judiciais que podem render altos numerários, ciências sociais aplicadas, dentre outros) são mais valorizadas e prestigiadas do que aquelas que não têm por objeto de estudo aspectos relacionados ao dinheiro ou à riqueza........

    Inclusive, recentemente, li numa apresentação virtual da disciplina de Direito e Legislação de um curso à distância que atividades econômicas relacionadas à pesquisa e à ciência em geral são menos importantes do que aquelas vinculadas ao comércio e às empresas.

    Está certo que o contexto do que estava escrito não aparentava desvalorizar a pesquisa e as ciências em geral, mas sim mostrar a importância e o impacto sociais da atividade comercial ao longo da história, mas que soa estranho e gera desconforto, quanto a isto não há dúvidas.......

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    1. Leandro

      Você poderia indicar onde encontro esta apresentação virtual de Direito e Legislação?

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