quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Perspectiva de um aluno sobre as ciências humanas no Brasil


Apesar de certas críticas fervorosas, continuarei disponibilizando espaço neste blog para jovens que estão apenas iniciando suas carreiras profissionais. Na verdade, sonho em publicar postagens que sejam transcrições de depoimentos até mesmo de analfabetos. Isso porque este blog se concentra nas relações entre educação (com ênfase em matemática) e sociedade. E são muitos os segmentos sociais afetados por processos formais e informais de educação. Por isso temos neste site colaborações de pessoas com perfis muito distintos entre si, incluindo cientistas de renome internacional (como Newton da Costa e Steven Krantz) e jovens estudantes de graduação, como o mais recente colaborador Bruno D'Ambros. 

Pouco tempo atrás eu convidava pessoas para publicarem textos neste blog. Nos últimos meses, porém, já tenho recebido submissões de artigos, como é o caso do material de D'Ambros. Raramente me recuso a publicar. Isso ocorre nas seguintes circunstâncias: 1) quando são textos exageradamente pessoais e 2) quando são textos que pouco incrementam nas discussões já promovidas neste blog.

Uma das grandes dificuldades de se publicar colaborações reside na capacidade dos leitores para assimilarem tais textos. A arte da leitura e interpretação - já percebi há algum tempo - é dominada por pouquíssimas pessoas. 

Eu, por exemplo, não concordo com alguns pontos cruciais no texto de D'Ambros. No entanto, isso não é motivo para ignorar esta importante contribuição. Lendo o depoimento de Bruno D'Ambros, percebe-se uma crítica às ciências humanas em geral. E é sobre este ponto, principalmente, que percebo um exagero nas suas críticas. No entanto, não se pode ignorar o fato de que suas impressões pessoais, perfeitamente justificadas, refletem o fato de ele estudar ciências humanas no Brasil. 

Não muito tempo atrás, publiquei uma postagem que mostra claramente como o estudo de filosofia é tratado de maneira superficial e até boba em nossas terras. O colaborador Youssef Cherem, escreve aqui sobre o medíocre ambiente profissional de seu cotidiano como professor de história da arte. E o colaborador Ítalo Oliveira apresenta neste link uma extensa discussão das mazelas do ensino de direito em nosso país.

Ou seja, diferentemente de certos ramos das ciências exatas e das ciências da saúde, ainda não existe em nosso país uma boa referência institucional quando o assunto é ciências humanas. Esta área do conhecimento ainda é tratada de forma primária e precisa urgentemente de um processo de internacionalização, para estimular jovens talentos a realizar pesquisas impactantes em filosofia, sociologia, educação, direito, política, artes e, quem sabe, até mesmo antropologia.

Para aqueles que prestarem atenção nas palavras de Bruno D'Ambros, deve ficar clara a seguinte mensagem: o obscuro vocabulário frequentemente empregado por profissionais de ciências humanas em nosso país serve apenas ao propósito de ocultar a ignorância inerente ao discurso e, consequentemente, àquele que discursa. Desta forma o autor mostra como até mesmo pessoas inteligentes conseguem se transformar em lamentáveis criaturas de profunda boçalidade. Para isso, basta cursar ciências humanas no Brasil.

Desejo a todos uma leitura crítica.
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O Futuro das Ciências Humanas
de Bruno D'Ambros


O jogo atroz de complicar o que é simples e de dificultar o que é fácil é, infelizmente, encarado tradicionalmente por muitos sociólogos, filósofos etc. como sua legítima missão. Foi assim que aprenderam e é assim que ensinam. Não há nada a fazer. Até o ouvido já está deformado: já só se consegue ouvir as palavras grandiloquentes (Karl Popper).

Foi-se o tempo em que as ciências humanas tinham algo de relevante para dizer ao mundo. Estou sendo misericordioso, porque pode ser que elas, na verdade, nunca tenham tido nada de importante a dizer de fato. O que elas se tornaram após a segunda metade do século XX não passa de um agregado de disparates, tolices e, em alguns casos, delírios completos. Perfeitos casos clínicos acadêmicos.

Tenho experiência. Sou um estudante de ciências humanas de uma universidade federal no sul do Brasil. Estou me formando. Há quatro anos venho presenciando cotidianamente estes delírios. Há quatro anos tenho visto a destruição sistemática de cérebros. Permaneci incólume graças aos meus estudos individuais em filosofia. Se não fosse por eles, estaria no mesmo lodo. Esta destruição tem várias causas possíveis: a própria educação brasileira, a incompetência dos professores ou a simples indiferença e ignorância dos alunos. Mas penso que a principal causa seja a própria disciplina em questão, as ciências humanas: história, geografia, sociologia, psicologia e, certamente, a rainha do nonsense, a antropologia. Perante tal quadro de disciplinas é impossível que qualquer sistema educacional, por melhor que seja, produza bons frutos.

A completa inutilidade atual destas disciplinas reside no fato delas terem perdido o elo que as ligava à realidade e passado a julgar o mundo segundo suas fantasias psicologizantes, relativizantes, subjetivistas, intencionalistas, fenomenologistas etc. Uma questão de método. Quando tudo passa a ser mera construção social, histórica, linguística, subjetiva, cultural, o caminho final não é outro senão o delírio verborrágico inócuo. Aliás, não tão inócuo assim, porque os pobres alunos que deste delírio participam acabam não só adotando suas ideias mirabolantes como também o modo de vida mirabolante. Se fossem somente proposições absurdas, tudo bem, algumas aulas de lógica dariam conta, mas parece ser condição sine qua non adotar todo um modo de vida igualmente absurdo. 

Como seu conteúdo é completamente inútil, a única maneira dos alunos verem aplicação é na política. Assim, não raro, grande parte dos participantes de seus cultos (os diversos -ismos das ciências humanas) acabam sendo aqueles que estão balançando algum cartaz por aí, fechando alguma rua, pichando algum muro com suas instrutivas frases politizadas ou fazendo parte daquelas antigas guildas mafiosas chamadas partidos políticos. Tentar dialogar com os partícipes destes cultos é praticamente impossível porque não há diálogo, no sentido platônico, não há a apresentação de argumentos e contra-argumentos, há tão somente fanatismo acadêmico, muitas vezes mais ferrenho do que qualquer religião poderia imaginar. Para quem duvida, basta participar de uma aula de antropologia e se verá qual a situação.

Quantas vezes já não presenciei, atordoado, professores que não sabem argumentar, expor ideias, que sequer sabem do que estão falando, que se escondem por trás de termos ininteligíveis, de frases rebuscadas, de citações aleatórias de Foucault, Barthes, Kristeva, Derridá, Lacan, Deleuze (sempre franceses!), que acham que inventaram a roda em filosofia, que possuídos, em transe, em completo delírio esbravejam que “odeiam a classe média porque ela é uma aberração” (mas ganham seus trocados com livros didáticos para catequizar os mais pobres coitados do ensino médio), que estão à frente da “greve x”, do “manifesto y”, do “abaixo assinado z”. Professores cuja última atividade é ensinar.

Os alunos formados em alguma ciência humana raramente sabem sequer as regras básicas de gramática. Aliás, gramática? Regras? “Há outras formas menos opressoras de se comunicar!” dizem. Talvez esta seja a resposta que tu recebas ao argumentar que o aluno, ou mesmo professor, não sabe conjugar verbos. Ou se, durante uma conversa, tu não consigas entender a relação entre x e y ele simplesmente te dirá: “Lógica? Há outras formas menos opressoras de pensar!” Então tu, pobre interlocutor confuso, vendo que é impossível argumentar, tentará, numa última tentativa de boa vontade, contar alguma piada para amenizar a situação, mas ele, o nosso caro “cientista humano” te dirá: “Piada? Esta forma machista, patriarcal, eurocêntrica e opressora de diversão às custas da dor alheia. Há outras formas de se divertir.” E então, é provável que te convide a terminar a profícua conversa inalando ou ingerindo alguma substância suspeita do ponto de vista de seus efeitos químicos.

Se eu fosse prescrever uma solução para tudo isso, simplesmente aconselharia uma volta a um método bem eficaz aplicado na Idade Média, o Trivium – gramática, lógica e retórica – o que era a filosofia analítica da linguagem da época. A gramática para aprender-se a escrever, usar as regras sintáticas e morfológicas para textos; a lógica para aprender-se a pensar, argumentar e expor ideias completas e coerentes e, finalmente, a retórica, para não se morrer de enfado ao ouvir nosso amigo “cientista humano” expor suas verborragias.

Pensar, que é o que as ciências humanas mais fazem, é essencialmente uma atividade linguística. Se não se sabe usar sequer as ferramentas mais básicas da linguagem acima expostas, como pensar coerentemente? A consequência só poderia ser o completo diálogo de surdos que temos hoje nas ciências humanas: um fala a, o outro b, e um terceiro c e ninguém se entende; mas todos vão para o bar discutir o futuro dos pandas ou da democracia no Congo ou da tribo dos Xinauaua do Acre “frente às políticas neoliberais e conservadores do nada-nadificante do ser-aí segundo o pós-perspectivismo foucaultiano.”

O futuro das ciências humanas? Chuto duas possibilidades: 1) ou elas cada vez mais voltam a se identificar novamente com a Filosofia, donde surgiram, e assim desaparecem do mapa; 2) ou elas cada vez mais se multiplicam em sub-disciplinas de “síntese” e se perdem cada vez mais em seus próprios jargões, delírios e jogos de poder por um lugar ao sol em algum novo departamento que se queira implantar em alguma decadente universidade pública brasileira. Infelizmente acredito que esta segunda opção é mais provável. 

Um caso final: durante um semestre, em um disciplina que eu cursava, havia um guri da Física que também havia pego a referida disciplina como optativa. Conheci-o no início. Pareceu-me inteligente, perspicaz, rápido e objetivo. As qualidades que se espera de um físico. Nunca mais o vi. Alguns semestres depois reencontrei-o. Havia transferido de curso. De Física para... Antropologia (!!!). Conversei com ele. Além do (salvo engano) completo desaparecimento das qualidades citadas, havia agora em seu corpo penduricalhos indígenas de todos os tipos, além de um profundo desprezo por  dinheiro, proporcional ao número de “mano” que ele falava. Desde lá tenho tido um palpite: se Einstein entrasse para um curso de ciências humanas no Brasil sairia um Tiririca. 

Um comentário:

  1. Um texto interessante, mas de uma desilusão um pouco exagerada. Como Adonnai disse, grande parte disso reflete o fato de ele estudar ciências humanas no Brasil. Acho que grandes esperanças levam a grandes desilusões, e, no caso das ciências humanas no Brasil, as grandes desilusões podem institucionais ou em relação às próprias disciplinas. Lembro-me de que tive um professor de história, também economista, que dizia que achava engraçado a economia não ser considerada entre as ciências humanas. O que ele diz tem todo sentido. Por outro lado, o autor do texto afirma que o que o salvou foram seus estudos individuais de filosofia, por conta própria -- o que coloca em xeque sua própria afirmação de que as ciências humanas são completamente inúteis. Outra coisa é sua defesa do Trivium -- se não se trata de "ciências humanas", não sei do que se trata. Como antropólogo de formação (na pós-graduação), concordo com algumas colocações, mas depois de um tempo eu vi que não podemos nos colocar no nível dos estudantes de graduação e nem mesmo de pós deste país. Existem pessoas sérias, e existem pessoas orgulhosas e afetadas, beirando o ridículo (como um professor que, ao ser perguntado por um aluno se acreditava nas crenças da tribo que ele estudava, retrucou: "Perguntar o que você pergunta é a mesma coisa que dizer que o número dois é alto e verde".) Ainda hoje considero que as pessoas mais competentes, e até mesmo em alguns casos, brilhantes, como profissionais, que conheci pessoalmente, vêm do curso em que me graduei: as relações internacionais. Para terminar, comento que realmente as coisas estão ficando esquisitas: ao comentar um erro comum, que poderia ter sido corrigido e desculpado como mero erro de digitação, em uma correspondência aberta e oficial, recebi essa resposta de uma "colega": "Ainda bem que você não é professor de português" -- como se eu estivesse errado! Mas acabei convencido de que nunca é bom deixar passar essas coisas em branco.

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