sábado, 28 de março de 2015

Paulo Freire e a matemática do oprimido


Recentemente um amigo meu mencionou a respeito de uma tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP), sobre a influência de Paulo Freire e Ubiratan D'Ambrosio na formação do professor de matemática no Brasil. Na tese defende-se que "os atuais processos de formação de professor de matemática ainda são fortemente sedimentados numa formação alienada aos ditames de uma sociedade de classes, que não permite ao futuro professor compreender e fazer uso da necessária autonomia inerente à sua atuação, o que o faz atuar como um intelectual orgânico a serviço da consolidação da hegemonia da classe dominante." 

Pois bem. Nesta postagem foco exclusivamente na influência de Paulo Freire sobre a educação brasileira, com ênfase na matemática. Sobre a obra de D'Ambrosio pretendo discutir em outro momento, apesar de haver importantes pontos em comum entre ambos os autores. 

Paulo Freire foi, sem dúvida alguma, um educador e um pensador. Não foi uma pessoa que apenas teorizava a respeito de educação, mas alguém que efetivamente alfabetizou, um indivíduo que fez a diferença em nosso país e fora dele. Além disso, sua extensa obra sobre educação o projetou internacionalmente, como um nome respeitável. 

No entanto, não podemos ignorar a exagerada, deturpada e aparentemente doentia veneração que existe em nosso país, quando o nome de Paulo Freire é lembrado. 

O livro mais famoso de Freire é Pedagogia do Oprimido, com dezenas de milhares de citações, tanto do texto original quanto de suas traduções para inglês, espanhol e hebraico. Neste texto Freire faz uma intrincada discussão sobre reflexos sociais e individuais de relações entre (socialmente) oprimidos e opressores. Seu foco é o processo educacional, o qual é um poderoso agente que pode ser usado tanto para exercer mudanças sociais como para simplesmente manter aquilo que muitos chamam de status quo

Antes de discutirmos de maneira mais detalhada algumas das teses de Freire, é importante esclarecer dois pontos comumente ignorados em nossa nação:

1) Freire deixa claro que Pedagogia do Oprimido é um aprofundamento de discussões promovidas em seu livro Educação Como Prática da Liberdade. No entanto, também deixa claro que o tema abordado é amplo, e que sua obra deve ser entendida como mera introdução

2) Freire também deixa claro que suas teses defendidas em Pedagogia do Oprimido são o resultado de simples observações feitas no Brasil e, posteriormente, no Chile, durante seu período de exílio político. Ou seja, ele não se sustentou em estudos científicos ou filosóficos para qualificar, por exemplo, como é possível "roubar a humanidade" de alguém. Neste sentido Freire combina, em seu livro, pensamento crítico, sobre o que observou, com uma visão pessoal (e, portanto, restrita às suas próprias limitações) sobre humanidade. 

Já chamei atenção, recentemente, para falhas graves de Jean Piaget, quando este importante pensador suíço afirmou que crianças são incapazes de pensar sobre o pensar. Por que Piaget errou? Porque pessoas, por mais inteligentes que sejam, estão sempre sujeitas ao auto-engano. Até mesmo a NASA já foi (coletivamente) vítima do auto-engano, resultando em uma das maiores tragédias da história da exploração do espaço.

Como o nome de Paulo Freire está fortemente associado a marcantes ideologias políticas, o auto-engano se torna ainda mais provável. É neste momento que boas ideias e discussões pertinentes passam a ser possíveis referências para visões preguiçosas e distorcidas sobre sociedade e educação. 

Assim como Piaget, Paulo Freire foi um precursor. Mas suas palavras não devem, em hipótese alguma, ser consideradas como conclusivas. 

O livro em questão, de Paulo Freire, pode ser facilmente interpretado como uma visão dicotômica da sociedade, dividindo-a em duas classes: opressores e oprimidos. Os opressores são violentos (podendo exercer violência até mesmo de forma mascarada por uma falsa generosidade) e os oprimidos temem a liberdade (não poderá a consciência crítica conduzir à desordem?). Esta é a leitura mais usual da obra de Freire. Exemplo disso é a tese acima citada, no primeiro parágrafo. 

No entanto, há uma outra maneira de ler Pedagogia do Oprimido. A relação entre opressor e oprimido, para Paulo Freire, é de notável riqueza. Segundo o próprio autor, "o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos."

Este é um ponto importantíssimo que Freire detalha em várias passagens do livro. 

A aparente dicotomia opressor-oprimido de Freire pode ser entendida como um ponto de partida para despertar atenção, um simbolismo, uma inspiração para apenas iniciar análises críticas sobre o espírito humano e a repercussão deste sobre a sociedade. Caso contrário, a leitura da obra de Freire se torna uma mera caricatura social. Isso porque existe uma riqueza fenomenal de classes sociais em nosso país, que não se reduzem a apenas duas. E isso se deve, em parte, ao fato de que o Brasil se insere em uma realidade maior do que ele próprio, chamada de mundo

Aqueles que estudam em escolas consideradas de elite em nosso país, não fazem parte de qualquer elite mundial. Tanto é verdade que há inúmeros exemplos de conteúdos matemáticos estudados de forma fragmentada e até errada em livros, apostilas e sala de aula, independentemente de classe social. Exemplos são encontrados em trigonometria, cálculo diferencial e integral, aritmética elementar, lógica e até história da matemática, entre muitos outros. Em nossas universidades há também uma resistência aparentemente intransponível para que professores estrangeiros possam lecionar em inglês. E como aprender matemática sem conhecimentos básicos de inglês? 

Esta semana houve um show em Porto Alegre, RS, de Jack White. Todos os milhares de fãs que acompanharam a apresentação do mestre de cerimônias dispensaram o tradutor. Eram mais de três mil jovens que reagiam instantaneamente à apresentação feita em inglês. Houve momento em que o tradutor se sentiu deslocado, pois todos ali entendiam o que era dito. Por que isso? Porque os fãs de Jack White são realmente fãs. Procuram entender toda a cultura associada à sua imagem artística e não apenas as músicas. É uma questão de motivação. Uma matemática lecionada de forma fragmentada e dogmática (com persistentes erros que causam uma desagradável impressão de arbitrariedade) é uma matemática que não motiva pessoa alguma. E se não há motivação, por que conhecer a cultura matemática mundial? Por que conhecer, por exemplo, inglês?

A condição de opressão, ressaltada por Paulo Freire, somente pode ser combatida, segundo ele mesmo, com a busca pela liberdade. O oprimido de Freire é uma pessoa sem liberdade. Porém, o autor ressalta que o medo da liberdade (comum ao oprimido) não apenas pode manter seu estado social de oprimido como pode, também, conduzi-lo a pretender ser um opressor. E este é um ponto que educadores, professores e pedagogos simplesmente não demonstram entender, quando o objetivo é discutir educação matemática. Isso porque a essência da matemática radica em sua liberdade. E essas palavras não são minhas, mas de Georg Cantor, o criador da teoria de conjuntos. Teoria de conjuntos é provavelmente a teoria mais massacrada pela ignorância de nossos educadores, professores e pedagogos. A prática mostra que a contagiante ignorância de nossos educadores é sim uma opressão contra o espírito livre da matemática. Consequentemente, é uma opressão sobre praticamente todos os inúmeros segmentos sociais de nosso país. Do ponto de vista da educação matemática, o Brasil inteiro é um estado oprimido por ele mesmo. Uma instituição como o IMPA não é um segmento social. É apenas uma instituição que luta para construir um segmento social.

Freire não conhecia matemática. E nem precisava. Mas se educadores pretendem aplicar ideias de Freire no ensino e na educação matemática de nosso país, certamente precisam conhecer muito bem esta área do saber. Caso contrário, estarão desrespeitando o espírito livre defendido pelo próprio Freire, como forma de combate à opressão. Matemática não é aquilo que se ensina em nossas escolas.

Ignorância é um agente de opressão. Mas um agente muito pior é a ilusão de conhecimento, a qual assola nosso país, especialmente as universidades. 

Cito um exemplo de ilusão de conhecimento no próprio livro de Freire. Segundo ele, "Quem melhor, que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão?"

A primeira pergunta, de caráter retórico, sugere que o oprimido está melhor qualificado para compreender o significado de uma sociedade opressora. Isso, claro, é falso. Afinal, o oprimido de Freire pode ser facilmente compreendido como um ignorante, uma pessoa praticamente cega diante de questões sociais, educacionais, culturais, artísticas, científicas, religiosas, históricas. 

Já a segunda pergunta sugere que o oprimido sente de forma mais marcante os efeitos da opressão. Isso sim faz sentido. Afinal, uma pessoa com câncer sente os sintomas de sua doença. Mas isso não a qualifica para compreender o que exatamente é o câncer que invade o seu corpo. 

Freire defende um diálogo crítico e libertador com os oprimidos. Analogamente, um médico deve conversar com seu paciente, para melhor diagnosticá-lo. Mas não pode se limitar ao diálogo. Precisa de muito mais do que uma simples conversa. O médico precisa de ciência do mais alto nível para poder tratar o paciente.

Por um lado, cabe ao oprimido a busca pela liberdade sugerida por Freire. E, por outro, cabe ao opressor o real estímulo à liberdade de todos os segmentos sociais, começando pela sua própria. 

A ilusão que ameaça nosso sistema educacional e, particularmente, o ensino de matemática, é a crença de que noções superficiais sobre sociedade bastam para escrever teses e gritar em favor de movimentos políticos ingênuos e frequentemente mal intencionados. 

Estudemos Paulo Freire sim. Mas filtremos o que ele diz. E, mais importante, avancemos o que ele começou. 

É bem sabido que o conhecimento científico não é ainda acessível de forma democrática, seja no Brasil ou no mundo. Isso porque a indústria de periódicos científicos movimenta bilhões de dólares ao ano, sendo altamente lucrativa. É contra esse tipo de problema que devemos todos lutar. Não importa se uma pessoa estuda mecatrônica na USP ou separação silábica em uma aldeia no meio da floresta amazônica, todos devem ter acesso ao conhecimento. 

Pedagogia matemática sem matemática? Não, por favor. Isso não é conhecimento. 

90 comentários:

  1. O senhor pensa em escrever alguma coleção de livros didáticos de matemática para o ensino básico? Eu mesmo tenho vontade de um dia escrever livros de física para o ensino médio que não tenham os mesmos vícios que os livros atuais. O problema é que o conteúdo que eu acho importante é diferente do que o MEC acha. Assim, dificilmente tal livro seria publicado

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    1. Leonardo

      É possível sim convencer o MEC a distribuir boas coleções didáticas. Um exemplo é reportado na postagem abaixo.

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2014/09/colaborador-do-blog-matematica-e.html

      Quanto a mim, tenho alguns projetos em andamento e outros na prancheta. Mas escrever uma coleção de livros didáticos para o ensino básico não é um deles.

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    2. Leonardo.
      Publicar livros didáticos no Brasil,salvo engano meu,tem de passar TAMBÉM no crivo DAS EDITORAS que me parece ser altamente ligadas no projeto político da turma ao redor do poder atualmente.
      Recentemente a maioria das editoras fornecedoras do governo(estatizou a emissão de livros principalmente os de 1o e 2o graus) teve capital estrangeiro entrando em seus comandos.
      Este capital é o mesmo que distribui títulos HONORIS CAUSA aos governantes brasileiros lá fora em UNIVERSIDADES em que eles mantém o domínio.
      Assim para ter seus livros publicados além do trabalho de elaborá-los certamente terá de abrir o cerco político ideológico nas editoras.
      Só como ilustração,os livros atuais estão chegando ATRASADOS,com FALHAS e muitas vezes em EXCESSO em muitas escolas já que como sabemos :se quer que algo não funcione um dos caminhos é deixar um governo administrá-lo.
      http://jornaldaparnaiba.blogspot.com.br/2013/01/livros-e-material-escolar-desperdicados.html
      http://r.search.yahoo.com/_ylt=A0LEV2MDjBdVkRkAGznz6Qt.;_ylu=X3oDMTE0NWtmNm52BHNlYwNzcgRwb3MDMgRjb2xvA2JmMQR2dGlkA01TWUJSMDFfMQ--/RV=2/RE=1427635332/RO=10/RU=http%3a%2f%2fwww.netoferreira.com.br%2fjudiciario%2f2013%2f01%2fabandono-de-materiais-escolares-da-gestao-castelo-sera-apurado-2%2f/RK=0/RS=_1_P2XZTyJhSJLnemL9D951fcps-
      http://r.search.yahoo.com/_ylt=A0LEV2MDjBdVkRkAHznz6Qt.;_ylu=X3oDMTE0dXRkNzJxBHNlYwNzcgRwb3MDNARjb2xvA2JmMQR2dGlkA01TWUJSMDFfMQ--/RV=2/RE=1427635332/RO=10/RU=http%3a%2f%2fwww.blogpajeudagente.com%2f2014%2f02%2fblog-flagra-livros-didaticos.html/RK=0/RS=TdsP3Ufs6lbzlMP2GjdLIrTA0R8-
      E são centenas de casos anualmente..
      abraços

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    3. Já pensou em então escrever um livro de física a nível de divulgação científica?

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    4. Anônimo

      Estou definindo tema para um livro. Mas não será de divulgação científica.

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    5. Leonardo

      Adoraria ter encontrado nos meus tempos de 2º Grau (ou ensino médio, como queira) obras que seguissem uma proposta semelhante a do livro Conceptual Physics, do Paul Hewitt.

      Sebastião

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    6. Sebastião

      Eu acho esse livro do Paul Hewitt muito bom, mas acho que física sem matemática (física conceitual) não é física. Esse livro é meio pobre nesse aspecto.

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    7. Este comentário foi removido pelo autor.

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    8. De fato, a obra do Hewitt precisa ser complementada por um livro mais "convencional". Por ter sido obrigado a decorar fórmulas a esmo, tendo a considerar o livro do Hewitt um oásis, e foi a partir dele que realmente entendi a importância do "Gedankenexperiment".

      Sebastião

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  2. Adonai
    Espero que este comentário entre,pois estou com dificuldades,tendo trocado de navegador agora.
    O Sr. P.FREIRE conjuga para mim de forma meio simplista de ver a filosofia do coitadismo.
    Se ao ir para o exílio tivesse a coragem de se internar lá pelo hemisfério norte,certamente teria tido um choque tão gigantesco como muitos de formação e princípios ideológicos comunistas como P.FRANCIS,por exemplo.
    Não posso sequer me classificar como periferia de estudioso em matéria correlata ao ensino,mas não tenho qualquer notícia de qualquer região ou local que tenha aplicado o MÉTODO sugerido por P.FREIRE e tenha tido sucesso ou se teve qual foi.
    O viés ideológico que vejo nas menções de P.FREIRE por si só me sugerem afastá-lo já que quando deixamos ou submetemos UM AGENCIA ou GOVERNO a nos querer ensinar e uniformizar qualquer ação ou o método educacional só vejo nuvens negras à frente.O ensino dito convencional que vejo tem por si só sofrido avanços importantes principalmente pelo seu feed back e os resultados que estamos tendo para mim são excelentes.
    Onde tem falhado?. Em locais onde governos ILUMINADOS e cheios de IDÉIAS metem as patas ou onde própria população despreza ou desconhece(?) o conhecimento como forma de evoluir.
    abraços

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    1. Shami

      Interessante você mencionar Paulo Francis. Foi um jornalista e crítico que escrevia textos sensacionais sobre cinema e muito infelizes sobre outros temas. São as contradições de nossa espécie.

      Com relação a Paulo Freire, de fato ele alfabetizou muita gente. Se, porém, aplicou método espelhado em sua obra, essa já é outra questão muito diferente. Aplicar a ideias de Freire para fins de ensino é como aplicar as ideias de Wittgenstein para fazer ciência. Simplesmente não dá. Freire tinha um discurso abrangente e vago demais para permitir aplicações. Esta é uma das confusões que se faz por aqui.

      Concordo com você sobre o viés ideológico de Freire. Ele mesmo se filiou a partido político e participou de movimentos populares altamente questionáveis. E essas iniciativas prejudicam a reflexão sobre vários textos dele.

      Assim como em Francis, há ideias interessantes em Freire. A diferença é que Francis não virou mártir dos pseudointelectuais de nosso país.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Não passou de um doutrinador que fez muitos seguidores do miolo país afora... e com isso ainda se tornou o "patrono" da educação de banânia, ou seria patrono da doutrinação...

    As matérias que tive que cumprir no Centro de "Educação" da UFPE não passaram de discurso sobre lutas de classes, fomentação de ódio e inveja pela competência alheia, sempre baseadas no mimimi oprimidos versus opressores desse comunista...

    Será que ele foi exilado porque era um educador ou um agitador de massas?

    Por exemplo, Newton Carneiro Affonso da Costa foi exilado?

    Se os professores desse país se ativessem a ensinar suas matérias já estaria de bom tamanho, porém, além da vagabundagem, ainda usam o tempo pago com dinheiro público pra doutrinação, fomentar luta de classes e pregar o ódio e a inveja...

    Pior que tal doutrinação não se resume ao sistema público...

    Ah, como fica claro naquele texto do Theodore Dalrymple que te enviei, quando se vive às custas do Estado babá, na média, "não se quer nenhuma educação" e isso não é só em banânia...

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    1. Krishnamurti

      Peço que veja minha resposta ao comentário de Shami, acima.

      Newton da Costa não foi exilado. Chegou a ser detido em um momento em que tinha viagem marcada para a antiga União Soviética. Mas isso acontecei porque as autoridades confundiram Platão com Plutônio. Não é brincadeira. Isso aconteceu mesmo. Mas o fato é que da Costa jamais se envolveu em questões políticas, apesar de já ter sido simpatizante do comunismo, durante a juventude. Desistiu de ser comunista justamente quando conheceu de perto o que se fazia na Mãe Rússia.

      Com relação ao texto que enviou para mim, agradeço imensamente. Mas ainda estou pensando em como usá-lo.

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    2. Prof. Adonai,recomendo a leitura destas análises sobre a obra de Paulo Freire (em especial,a terceira) :

      1 - http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/autoajuda-marxista-22a0glwqi2zmaeq0l5t7uhlxq

      2 - http://tomatadas.blogspot.com.br/2014/05/vale-pena-ler-o-que-e-metodo-paulo.html

      3 - http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/04/sobre-pedagogia-de-paulo-freire-1-uma.html

      4 - http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2012/04/sobre-pedagogia-de-paulo-freire-2.html

      Saudações,

      Francisco

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    3. Francisco

      Eu já conhecia as referências 3 e 4. Discussão muito boa, mas ainda muito tendenciosa. Existe no fator "Paulo Freire" um embate político difícil de ser superado. A existência de oprimidos e opressores é muito real. Pode ser identificada até mesmo em unidades familiares, quem dirá em sociedades. No entanto, em geral as pessoas não estão preparadas para lidar com esse problema. Conheço feministas, por exemplo, que defendem a completa exclusão de homens da sociedade. E são feministas que leram vasta literatura sobre movimentos sociais pelos direitos das mulheres. A verdade é que vivemos em um mundo ensandecido.

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    4. Concordo quanto ao debate ser ainda muito tendencioso.Penso que se dá muito mais importância,nesses casos, à "pessoa" (sua filiação ideológica, partidária etc.) em detrimento "daquilo que é dito" por esta mesma pessoa (afinal,mesmo o sujeito que fala muita besteira pode estar certo de vez em quando).As discussões de ordem político-social ainda despertam paixões inconsequentes em muitos,tornando bastante complicada a tarefa de separar o joio do trigo quando se vai emitir um julgamento sobre esses assuntos.Sobre a existência de "opressores" e "oprimidos" sob a ótica freiriana,parece-me assaz concreta para ser simplesmente ignorada (como fazem muitos críticos de Paulo Freire); no entanto,divirjo bastante das interpretações/visões de mundo (Weltanschauung) que procuram reduzir a maioria dos conflitos existentes na sociedade a um embate binário/maniqueísta entre estas duas macrocategorias (ex: branco x negro; pobre x rico; homem x mulher etc.).Ao se adotar tal postura,ignora-se por completo a complexidade da vida humana,que não é composta apenas de rótulos coletivos simplificadores,mas também de indivíduos com suas próprias singularidades,fraquezas,virtudes (ou seja,a gama de características que fazem cada de um de nós ser único).Enfim,com essa atitude,corre-se o risco de que a análise das partes pereça perante à visão uniformizadora do todo.


      Francisco

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    5. Este é o ponto, Francisco. O grande van Gogh, por exemplo, foi um oprimido em vida. E era branco, europeu, homem e genial. A necessidade de oprimir é muito profunda em nossa espécie.

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    6. «No final de 2014, conversei sobre Paulo Freire com uma pessoa de quem gosto muito e que tem opiniões opostas às minhas. Ela perguntou se eu tinha lido algum dos livros dele. Só A Importância do Ato de Ler, mas há tanto tempo que não me lembro de quase nada, respondi. Nunca li Pedagogia do Oprimido, confessei. Você não pode criticar o que não conhece, acusou ela. Prometi que leria Pedagogia do Oprimido e escreveria uma resenha. Aqui está.»

      http://reaconaria.org/resenha/pedagogia-do-oprimido/

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    7. Krishnamurti

      Grato pela excelente referência. No entanto, o que me preocupa é que textos como este não mudam opiniões, nem de adeptos e nem de rivais das ideias de Freire.

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    8. Adonai, só mudam os que estão dispostos a mudar. Doutrinados militantes, que sempre estão ligados a partidos políticos de ideologia comuno-socialista, não estão dispostos a mudar, provavelmente precisam é de tratamento psiquiátrico e de cadeia.

      Seus textos podem ser muito úteis para quem ainda não se deixou contaminar pelo discurso esquerdista monopolizador das "virtudes" e não tem opinião formada sobre o assunto abordado.

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    9. Krishnamurti

      Convenhamos, o alcance deste blog é microscópico. Mas tenho aprendido muito com ele. E estou buscando alternativas. Tenho trabalhado exaustivamente nisso. O blog ocupa uma pequena fração de meu tempo. Estou trabalhando em uma forma diferente para discutir sobre ciência e educação.

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    10. Um dos "legados" do embusteiro para a "educação" desse país, a progressão continuada...

      «Entendo a educação popular como o esforço de mobilização, organização e capacitação das classes populares; capacidade científica e técnica. Entendo que esse esforço não se esquece, que é preciso poder, ou seja, é preciso transformar essa organização do poder burguês que está aí, para que se possa fazer escola de outro jeito. (2002, p.19).»

      http://www.anpae.org.br/simposio2011/cdrom2011/PDFs/trabalhosCompletos/comunicacoesRelatos/0132.pdf

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    11. "Newton da Costa não foi exilado. Chegou a ser detido em um momento em que tinha viagem marcada para a antiga União Soviética. Mas isso acontecei porque as autoridades confundiram Platão com Plutônio. Não é brincadeira. Isso aconteceu mesmo. Mas o fato é que da Costa jamais se envolveu em questões políticas, apesar de já ter sido simpatizante do comunismo, durante a juventude. Desistiu de ser comunista justamente quando conheceu de perto o que se fazia na Mãe Rússia. "

      Adonai, quais foram as impressões do Newton da Costa sobre a educação na URSS?

      Sebastião

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    12. Sebastião

      Segundo da Costa, havia contradições na educação soviética. A matemática era de altíssimo nível, assim como a física. Já em estudos sobre biologia, especialmente genética, havia forte interferência do Estado que resultou em grande atraso educacional e científico.

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    13. Também tive esta impressão após tomar conhecimento dos ótimos livros da matemática e física da Mir, assim como de Trofim Lysenko e sua influencia nefasta.
      Acho que a Mir foi a melhor coisa que saiu da URSS, e seus livros valem 1000x mais que qualquer ideologia política.
      Grigori Perelman deve ter estudado por aqueles livros.

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  5. Diz Paulo Freire: "Quem melhor, que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão?" "O “entender” aí não significa “teorizar sobre”, mas entender na pele, na boca do estômago.

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    1. Anônimo

      Se for verdade, Freire errou ao ser descuidado com o vocabulário. Além disso, o que significa "entender na pele"? Textos com ideias boas precisam ser escritos com muito cuidado.

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    2. Quem não é mulher negra, pobre e moradora de favela não saberá não entenderá na pele o que é ser mulher negra, pobre e moradora de favela numa sociedade opressora. O nível de entendimento que é o "entendimento na pele" é em algum sentido o mais profundo de todos. Acho que foi isso que ele quis dizer.

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    3. Anônimo

      A pergunta foi retórica. Jamais deve interessar o que a pessoa quis dizer. Não há como saber o que alguém quer dizer, sem que o diga. Freire escreveu algo sem sentido. Só isso.

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    4. Dizer que o que Paulo Freire escreveu é sem sentido tá tão ou mais errado que dizer que dividir por zero não tem sentido. Você entende na pele o que é escrever um blog sobre matemática e educação. Você sente na pele todas as angústias, expectativas, frustrações, pequenas alegrias e esperanças de escrever um blog assim. E nesse sentido bastante importante sabe mais sobre o que é ser um escritor de blog sobre matemática e educação do que alguém que nunca escreveu um mas é um expert na criação e manutenção de blogs, mas que nunca teve um. A mesma ideia para os oprimidos que vivem numa sociedade opressora.

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    5. Anônimo

      Exemplo bem colocado o seu. Não, eu não sei "na pele" o que é ser um escritor de blog. Existem muitas coisas que não entendo, relativamente a este blog. Apenas *sinto* que é uma atividade extremamente desgastante, com retorno muito pequeno. Não consigo entender, por exemplo, certos comportamentos, certas reações e certas indiferenças. Mas tenho tentado entender isso tudo. Justamente por conta disso, procuro outras formas de comunicação, as quais devem ser colocadas em prática nos próximos meses. Há uma diferença gigantesca entre sentir e saber.

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    6. Adonai, tá bom, se você não sabe na pele o que é ser um escritor de blog, não há mais o que dizer rs. Só finalizo dizendo que entender é mais amplo do que você imagina. Você já entende mais sobre o que é escrever um blog do que admite para si mesmo (porque acha que entender é algo menor do que de fato é). Que o diga Poincaré, quando enunciou a conjectura que não provou.

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    7. Anônimo

      Seus exemplos têm sido úteis. A conjectura de Poincaré é ótima. Veja o exemplo da Conjectura de Euler sobre somas de potências. Foi provada como sendo errada em 1967. Uns acertam e outros erram. Não sei qual é a sua noção sobre conhecimento, mas precisa pensar melhor em suas ilustrações.

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    8. Adonai, você é que precisa pensar melhor nas minhas ilustrações. O fato de algumas conjecturas de grandes matemáticos estarem erradas não invalida meu argumento, pois muitas estavam corretas ainda que seus autores não conseguissem prova-las analiticamente, o que mostra que 'entender' é algo que vai além da capacidade de descrever analiticamente. Da mesma forma, os oprimidos de uma sociedade opressora em geral entendem bem o que é ser oprimido numa sociedade opressora, ainda que não disponham de educação suficiente para teorizar e discorrer analiticamente sobre o tema. E vale ressaltar que não ter essa educação é um dos ingredientes de ser oprimido numa sociedade opressora. Por isso, Paulo Freire lutava por uma educação libertadora, que permitisse aos oprimidos entender num outro nível, mais analítico, a sua condição de oprimidos e o funcionamento da sociedade em que vivem, para, dessa forma, terem condições de mudar essa sociedade e se libertarem da opressão. Numa frase sintetizadora de Paulo Freire: "Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”.

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    9. Anônimo

      Discurso curioso. Você faz uma distinção entre entender e entender analiticamente. Tudo bem. É a sua terminologia. Uso o termo "entender" como significando "possuir conhecimento". Aparentemente você atribui outro significado. Poincaré não demonstrava conhecimento daquilo que conjecturou. Por isso se usa o termo "conjectura". É uma forma de diferenciar especulação de conhecimento. A Eva que você menciona sente e pode especular. Mas dificilmente entenderá (conhecerá) sua posição social. Mais provavelmente ela especulará. O dom da especulação é, aparentemente, inerente a todas as pessoas (exceto talvez em casos excepcionais de certas doenças mentais). .

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    10. Poincaré entendia sim do que estava falando quando fez sua conjectura e se chama 'conjectura' não porque supostamente Poincaré não entendesse do que falava, mas simplesmente porque não demonstrou analiticamente o seu entendimento.

      Entender analiticamente é um tipo de entendimento que não abrange tudo o que é o entendimento. Tanto que se coloca o advérbio "analiticamente", que é para caracterizar um 'modo' de entendimento.

      Além disso, tem sentir que é entendimento e, digo mais, tem sentir que é um tipo de entendimento que vai até onde o entendimento analítico não vai (e a recíproca também é verdadeira).

      Um exemplo: se você der uma martelada no seu dedo você vai entender sobre a dor num sentido que quem nunca sentiu uma dor assim nunca vai entender ainda que seja um capacitado teórico do sistema nervoso humano.

      Outro exemplo: os oprimidos de uma sociedade opressora entendem sobre o que é ser oprimido numa sociedade opressora melhor que escritores de blog que nunca pertenceram a uma classe social oprimida.

      O que Paulo Freire defende é que o reconhecimento e valorização do entendimento dessas pessoas é condição necessária para se construir práticas e teorias educacionais que as capacitem a entender analiticamente sua condição social e a sociedade em que vivem.

      A aquisição dessa nova dimensão (a analítica) de entendimento de sua posição de oprimidos é condição necessária, segundo Paulo Freire, para que elas contribuam na transformação da sociedade opressora em que vivemos e, dessa forma, se libertem da opressão que sofrem hoje.

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  6. Gostaria de fazer duas perguntas.

    1) Os fragmentos

    "A ilusão que ameaça nosso sistema educacional e, particularmente, o ensino de matemática, é a crença de que noções superficiais sobre sociedade bastam para escrever teses e gritar em favor de movimentos políticos ingênuos e frequentemente mal intencionados"

    e

    "Pedagogia matemática sem matemática? Não, por favor. Isso não é conhecimento"

    constituem uma crítica à tese referenciada no início do post?

    2) Qual sua opinião sobre esta crítica de Olavo do Carvalho?

    (Verdão em Vídeo - 6 min) https://www.youtube.com/watch?v=-Mlc68kAuA8

    (Versão em Texto) http://www.olavodecarvalho.org/semana/120419dc.html

    AAnooniimoo

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    1. Anônimo

      As críticas acima são sobre a tese de doutorado e sobre a prática usual de não levar pedagogia matemática a sério em nosso país.

      Com relação às críticas de Carvalho, sobre Freire, elas não refletem algo relevante. É claro que as propostas de Freire geram controvérsia! Afinal, não sei o que é pior: a pessoa ser louvada ou mal falada. De uma forma ou de outra sempre persiste a distorção de ideias, particularmente em caso de enaltecimento. Freire trouxe para a superfície o real problema do oprimido versus opressor. O problema é que ainda está na superfície. E parece que ficará assim por muito tempo.

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    2. Adonai,

      As críticas que Carvalho faz (pelo menos na parte em texto) são somente cópias do seguinte compêndio de críticas a Freire: http://www.bmartin.cc/dissent/documents/Facundo/Ohliger1.html#I.

      Essa página faz parte de um conjunto de páginas: http://www.bmartin.cc/dissent/documents/Facundo/index.html

      Nesta página podemos ver que o resultado da implementação de uma política educacional de alfabetização em Guiné-Bissau: http://www.bmartin.cc/dissent/documents/Facundo/section7.html.

      Este link: mje.mcgill.ca/article/download/7044/4986 também oferece um resumo crítico das ideias de freire. Inclusive em ocasiões em que o prof. Adonai já deu vários exemplos: discutir termos que não são definidos. Entre eles, "opressão". O que esse termo tem de diferente da "exploração" marxista e seus corolários? "any situation in which 'A' objectively exploits 'B' or hinders his pursuit of self affirmation as a responsible person." Freire gives no criteria for judging what objective exploitation would be or what a responsible person would be. His explanation of oppression appears both tautological and dangerous. Freire certainly labored in situations in Brazil which one would surely term oppressive, yet he has not adequately analyzed these situations when he divides Brazilian society into oppressors and oppressed."

      As conclusões são as seguintes: "From this analysis, it appears that there are serious problems involved with the Freire Method. These make it difficult to transfer the method to situations in other cultures and groups which have attempted to work with it have already come face to face with these difficulties which exist both at the theoretical and methodological levels. Nevertheless, there is still reason for educators to examine Freire's philosophy of education. The enduring value of Freire lies, I believe, in his emphasis on the political nature of knowledge." Isso não passa de uma declaração de boas intenções. E além disso, não passa de senso comum. Como citado, talvez Freire seja útil para uma discussão da filosofia da educação. Mas como resultado prático, e até que me provem o contrário, com casos concretos, todas as aplicações de seu método obtiveram resultados pífios.

      À primeira vista, o caso de Freire tem semelhanças com o de Edward Said, com o qual tenho que lidar: mais um "teórico" pós-moderno que enfatiza a "natureza política do conhecimento" mas com ideias cuja aplicação não é possível. Eu sempre digo aos meus alunos que, "na melhor das hipóteses", Said não vai ajudar a entender o Oriente Médio, pois ele nunca produziu conhecimento objetivo. (Ele afirmava isso com todas as letras.) Ele era um militante político. E tanto Freire quanto Said são ídolos da academia.

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    3. Youssef

      Excelentes referências! No entanto, não vejo sentido em simplesmente repudiarmos Freire, uma vez que ele alcançou uma grande notoriedade. É preciso sim ler sua obra com muito maior responsabilidade do que usualmente se pratica. O problema é que ele não apresentou boa fundamentação para suas ideias e que elas não são, portanto, aplicáveis com responsabilidade.

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    4. Adonai, o repúdio, às vezes, é necessário justamente *porque* ele alcançou grande notoriedade. Digo isso porque, como disse, o caso de Said é bem parecido. "É preciso sim ler sua obra com muito maior responsabilidade do que usualmente se pratica." Acho que isso só vai acontecer quando o tirarmos de seu pedestal e analisarmos com objetividade suas premissas, seus conceitos, seus resultados. Tendo a ver que se alguém não apresenta boa fundamentação conceitual e empírica para suas ideias, e se essas ideias não são aplicáveis com responsabilidade, voltamos ao nível das boas intenções: poético, utópico, mas ingênuo. Em suma, uma ideologia.

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    5. Youssef

      Uma coisa que aprendi com pessoas ligadas ao cinema é o peso da forma, quando se conta uma história. Não basta ter uma boa ideia. É necessário saber expor a mesma. E não creio que educação se promova de maneira muito diferente. Eu, por exemplo, ainda faço experiências (inclusive neste blog) sobre diferentes formas para expor ideias. E já estou trabalhando em formas mais visuais para expor ideias.

      Concordo plenamente contigo. Mas isso nada muda. Seu discurso é racional. E a verdade é que vivemos em um mundo que dá pouco espaço para a razão. É preciso pescar de outras maneiras.

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  7. Adonai, você disse que "cabe ao opressor o real estímulo à liberdade de todos os segmentos sociais, começando pela sua própria." Talvez fosse verdade num mundo ideal, mas num mundo ideal não existiriam opressores e oprimidos. Sobre esse ponto o Paulo Freire disse algo que acho bastante realista: "Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica."

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    1. Anônimo

      Exatamente! Por conta disso sou realmente pessimista em relação ao futuro de nossa espécie.

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    2. "Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica." Mas é exatamente isso que ele espera: de que classe Freire acha que é? De que classe são seus seguidores? Críticos apontam: "his Christian ethics in which the petty bourgeoisie commits class suicide in solidarity with the oppressed in a sort of "Mystical transformation of hitherto very materially determined beings, the leadership class, by an act of sheer moral and religious will.""(http://www.bmartin.cc/dissent/documents/Facundo/section7.html)

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    3. Paulo Freire era de classe média. Era filho de policial militar e na infância chegou a passar fome. Classe opressora é outra coisa. Via de regra os que admiram Paulo Freire tampouco pertencem à classe opressora.

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    4. Então cabe tudo à vanguarda dos iluminados, que não estão nem entre os oprimidos nem entre os opressores, que são completamente libertos das amarras dos interesses materiais, proceder à elevação material e espiritual daqueles iludidos pela falsa consciência (as massas proletárias e campesinas) e exploradores conscientes ou inconscientes (os capitalistas e a pequena-burguesia que os apoia). A classe média pode tender tanto à extrema-esquerda quanto à extrema-direita. Nada prova que a "classe opressora" não pode vir a ser constituída, no futuro, pelos anteriores oprimidos. Freire é Gramsci e Lênin misturados numa teoria econômica de amor universal e abnegação cristã não-assumida. Um experimento interessante seria imaginar como seria aplicada sua "teoria" na União Soviética, na China etc. O diálogo acaba quando alguém contesta a ideologia dos iluminados. Nesse sentido, Marx e os marxistas mais respeitáveis têm muito mais a dizer do que ele.

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    5. Youssef, Paulo Freira concordava com sua afirmação de que nada prova que a classe opressora não pode vir a ser constituída, no futuro, pelos anteriores oprimidos. Por isso ele alertava que "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". E por isso, também, ele lutava para que a educação fosse libertadora.

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    6. Anônimo, estou ciente de que ele concordava com isso. Mas ele achava isso compreensível, e até mesmo aceitável. Nisso ele não era muito diferente de tantos outros revolucionários de esquerda de sua geração: “Mesmo que haja – e explicavelmente – por parte dos oprimidos, que sempre estiveram submetidos a um regime de expoliação, na luta revolucionária, uma dimensão revanchista, isto não significa que a revolução deva esgotar-se nela". O olho-por-olho revolucionário é aceitável como lição de moral. Restringir os direitos dos exploradores depois de serem retirados do poder é para fazê-los sentir "na pele" o que eles (conscientemente ou não) faziam que os explorados sentissem. A cada página que leio da "Pedagogia do Oprimido", com toda a verve da verborragia que lhe é característica, que acaba sendo empolado e enfadonho, não consigo deixar de ver alguém profundamente imerso em sua época, imensa e energicamente dedicado a uma causa, mas perseguindo um sonho religioso/moral e político baseado numa visão dogmática da natureza humana. Custo a reconhecer qualquer originalidade em seu suposto método, ou qualquer novidade nos objetivos desse método. Ele julga a educação "tradicional" como considerando o aluno incapaz de produzir conhecimento, mas, colocada nesses termos, a capacidade de qualquer um (até um escravo) de produzir conhecimento, e de chegar ao conhecimento por seu próprio raciocínio, já é evidente desde os diálogos socráticos, pelo menos. Às vezes ele chega a ser risível, citando Lênin para dizer que não há revolução "com ateísmo": "não há revolução com verbalismo, nem tampouco com ateísmo..."

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    7. Youssef, o recado da frase do Paulo Freire que você pinçou no início do seu comentário é exatamente o contrario do que você disse. Se ler a frase de maneira imparcial vai ver que ele está alertando justamente contra o olho por olho e não dizendo que isso é aceitável moralmente, como você interpretou. Além disso, não confunda 'explicavelmente' com 'justificadamente'.

      Você acha mesmo que dá para as pessoas receberem a educação tradicional e ao mesmo tempo aplicarem a si mesmas o método socrático de descobrimento? O Paulo Freire achava que não e a realidade mostra que ele tava certo. A educação tradicional está baseada na (suposta) transferência de (suposto) conhecimento e o Paulo Freire achava que esse método não possibilita a produção de conhecimento, que é o que ele achava que a educação deve estimular.

      Quando Paulo Freire diz que "não há revolução com verbalismo, nem tampouco com ateísmo" ele não está dizendo que os verbos, a palavra, os discurso e a não crença em divindades são impedimentos à revolução. Tem que ler essa frase no seu contexto (a menos que você tenha necessidade de rir de Paulo Freire). E no contexto em que essa frase está inserida ela significa uma defesa da práxis como condição necessária para a transformação da sociedade. A práxis vai além dos discursos sem ideias e sem prática que os sustentem e vai além dos 'ismos' (e aí o ateísmo foi só um exemplo) como bandeiras por si mesmos. Da mesma forma, a práxis vai além do ativismo sem teoria e conhecimentos teóricos. E a frase que você citou está nesse contexto, de defesa da práxis. Realmente não acho que Paulo Freire seja "risível" por defender isso.

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    8. Este comentário foi removido pelo autor.

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    9. Anônimo, se está escrito que "a revolução não deve se esgotar" na "dimensão revanchista", isso implica necessariamente que ele pensava que a revanche faz parte da revolução. Às vezes é difícil ser imparcial quando o próprio Freire cita reiteradamente Lênin, Castro e Mao. Ele não é abertamente a favor do "troco", mas é leniente com ele; não é abertamente a favor da violência, mas a considera necessária em certos contextos. Eu não estou confundindo explicar com justificar; mas dizer que a violência é compreensível é um passo para dizer que quem comete violência tem razão ao fazê-lo, e é um passo para não agir contra essa violência.

      Em momento algum eu disse que eu acreditava que o método socrático seria aplicado automaticamente ou facilmente. Tomando sua frase ao pé-da-letra ("Você acha mesmo que dá para as pessoas receberem a educação tradicional e ao mesmo tempo aplicarem a si mesmas o método socrático de descobrimento?"), teoricamente sim, assim como é possível a um escravo sem educação formal nenhuma aplicar esse método. Eu citei o exemplo de Sócrates só para evidenciar a falta de originalidade e método na concepção de Freire.

      Eu disse: "Ele julga a educação "tradicional" como considerando o aluno incapaz de produzir conhecimento". Mas ou essa afirmação deve ser qualificada, ou então deve ser citada alguma fonte histórica, um pedagogo, algum autor que afirme isso. A "educação tradicional" (prosopopeia?) pode considerar que haja um percurso que deve ser seguido antes da produção de algum conhecimento inovador. Mas estou para ver um pedagogo afirmar que quem recebe educação é incapaz de produzir conhecimento. Ou então, a noção de conhecimento de Freire é diferente... talvez para ele conhecimento seja consciência de classe e liberdade seja liberdade para fazer a revolução.

      Você diz: "O Paulo Freire achava que não e a realidade mostra que ele tava [sic] certo." O que a realidade mostra é que as aplicações de seus métodos não produziram nenhum prêmio Nobel, nenhum aumento significativo de escolaridade ou alfabetização (até que me mostrem uma pesquisa empírica que demonstre isso), nenhum aumento no bem-estar econômico ou social, nenhuma produção de conhecimento científico.

      Você diz: "A educação tradicional está baseada na (suposta) transferência de (suposto) conhecimento"
      Então, me mostre qual é a transferência "verdadeira" ou "real"; e me mostre o verdadeiro conhecimento. Estou começando a acreditar que Freire tinha uma noção do conhecimento não como conhecimento científico, mas como "conscientização" ou "gnose".

      Você afirma: "Quando Paulo Freire diz que "não há revolução com verbalismo, nem tampouco com ateísmo" ele não está dizendo que os verbos, a palavra, os discurso e a não crença em divindades são impedimentos à revolução."
      Sim! O que ele está dizendo, com todas as letras, é que **não há revolução com ateísmo**. Desculpe-me, neste caso o português não poderia ser mais claro. E ele citou Lênin para isso. É isso que é risível. Ora, todos os ateus revolucionários russos, chineses e sei lá mais quem -- como é que não há revolução com ateísmo? Claro que há!
      A defesa da práxis é banal e qualquer marxista tacanho ou estudante de filosofia/sociologia sabe disso. Freire não é risível por isso, mas por afirmar que ateus não fazem a revolução.

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    10. Ao sacar do contexto as frases do Paulo Freire você está dilapidando as ideias que elas expressam. Em nenhum momento ele defendeu o revanchismo ou o 'olho por olho'. Em particular, a frase que você citou (e que é, literalmente, uma nota de rodapé do livro A Pedagogia do Oprimido) é exatamente para alertar para o risco de que a revolução se atrofie em revanchismo.

      A mesma descontextualização você faz com a frase sobre o ateísmo. O 'ateísmo' aí é só um exemplo de 'ismo' que ele usa. A tese dele é a de que a revolução não acontecerá com a defesa vazia de 'ismos' (como, por exemplo, o 'ateísmo') sem uma fundamentação teórica e sem a prática da experiência.

      Sobre o legado e contribuição intelectual de Paulo Freire, que você bota em questão, eu te digo que em 1963 ele utilizou pela primeira e última vez seu método de alfabetização de adultos, alfabetizando 300 cortadores de cana em menos de dois meses. No ano seguinte ele foi convidado pelo presidente João Goulart para coordenar um programa nacional de alfabetização de adultos, mas com o golpe dos militares o programa não foi implementado, Paulo Freire foi preso por querer difundir uma educação crítica à classe oprimida.

      Ele foi exilado, vivendo fora do Brasil por 15 anos e seu programa de alfabetização de adultos nunca foi plenamente implantado. Mas isso não significa que ele não tenha tido um papel de fundamental importância pois ele com suas obras e pensamentos faz pensar. Inclusive, vale salientar que hoje são aplicados em algumas regiões adotam métodos de ensino fundamentadas nas teorias de Paulo Freire. Ainda é cedo para saber os resultados, pois são projetos recentes.

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    11. Pois é, Anônimo, ele não defendeu mas foi leniente e contemporizou com a ideia da desforra. Do tipo, "não é legal, mas faz parte". Eu não descontextualizei, pois nunca disse que ele defendeu a violência -- muito pelo contrário, só foi condescendente com ela. Espírito dos tempos? Talvez. Mas veja o significado de "leniente", "contemporizar", "condescendente".

      Eu não descontextualizei a frase sobre o ateísmo: eu só interpreto o que a frase diz para mim, eu não fico imaginando. Eu entendo o que verbalismo é (ora, eu li o livro...), e o que ateísmo é. Eu entendo que ele condena as duas coisas. Não é só um exemplo de "ismo", "ateísmo" não é uma palavra gratuita, principalmente face a dois "ismos" positivos segundo ele: o profetismo e o humanismo (este, o humanismo revolucionário).

      Quanto aos resultados, não são tão animadores nos contextos em que foi implementado seu "método". Em primeiro lugar, nada me leva a crer que seu suposto método divirja fundamentalmente do método de alfabetização de Laubach (1884-1970), exceto no que tange à mobilização revolucionária -- algo que, hoje em dia, está "datado", para dizer o mínimo.

      Em segundo lugar, lugares onde obtive dados (Porto Rico, EUA, Guiné-Bissau etc.) foram um retumbante fracasso. Há o caso em que foi descoberto que, depois da "conscientização", os alunos não queriam ser alfabetizados (Nigéria: http://www.iiz-dvv.de/index.php?article_id=285&clang=1).
      Se Freire voltou ao Brasil em 1980, e, segundo consta, coordenou o projeto de alfabetização do PT, sendo secretário da educação de SP, já está mais que na hora de saber dos resultados.
      "Mas isso não significa que ele não tenha tido um papel de fundamental importância pois ele com suas obras e pensamentos faz pensar."
      Depende. Importância pode ser negativa ou positiva. Muitas obras "fazem pensar". Ser "fundamental" é muito mais do que ser influente: Freire é só mais um de muitos. Aposto que, para a maioria das pessoas do mundo, ele não faz a mínima diferença.

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    12. Youssef, você acaba de avançar um passo mais na manipulação e distorção das palavras de Paulo Freire. Ao contrario do que você diz, ele jamais afirmou que ateus não fazem a revolução. Esse tipo de confusão que você faz é fruto de óbvia manipulação do pensamento de Paulo Freire. O que ele disse é que ateísmo (ou qualquer outro 'ismo' puro e simples, assim como a verbologia) não faz revolução. Tanto é verdade que ele introduz essa frase como uma explicação de um pensamento de Lenin que era ateu e líder da Revolução Russa, uma das maiores da historia da humanidade.

      Com relação ao tema de um possível revanchismo dos oprimidos, ao contrario do que você afirma, o recado de Paulo Freire, na nota de rodapé do seu livro A Pedagogia do Oprimido, não é o de que o revanchismo "não é legal, mas faz parte" e sim o de que o revanchismo "pode vir a fazer parte, não é legal e devemos estar atentos para supera-lo caso venha a acontecer". Talvez seja prudente eu salientar aqui que o "pode", nesse caso, é no sentido de possibilidade e não de permissão, como fica fácil perceber quando não se tira a frase de Paulo Freire do seu contexto.

      Tirar frases do seu contexto pode levar a conclusões aberrantes como por exemplo essa a que você chegou de que Paulo Freire foi um pensador condescendente com a violência. Você mesmo admitiu que tem dificuldades em ser imparcial quando o tema é Paulo Freire. Essa confissão é saudável e mais saudável ainda será um esforço para superar essa sua dificuldade.

      Com relação ao seu questionamento sobre o impacto do legado de Paulo Freire para a humanidade, eu tenho que respeitar sua opinião. Mas, divirjo da sua opinião e concordo com o julgamento altamente favorável ao trabalho de Paulo Freire compartilhado por instituições e organismos da mais alta relevância, como a UNICEF e as universidades de Harvard, Cambridge e Oxford, para citar algumas.

      Uma vez mais, respeito sinceramente a sua opinião sobre o Paulo Freire e, vendo que ela é tão desfavorável a ponto de acha-lo inócuo e risível, espero que um dia você possa deixar um legado maior que o dele.

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    13. Anônimo

      Em seus dois últimos parágrafos você usou o argumento da autoridade e insinuou o argumento da contra-autoridade. Isso é emprego de falácias. Isaac Newton não precisou da autoridade de Cambridge para validar suas ideias. Só peço que tenha mais cuidado no futuro.

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    14. Anônimo, admito que a frase sobre ateísmo de Freire possa ter uma segunda interpretação: mas temos que convir que ela é bem ambígua, por causa do contexto mesmo em que se insere. Muitos revolucionários achavam, no mínimo, que a religião era um empecilho à revolução. Não duvido que muitos afirmassem que seria impossível ser um crente e, ao mesmo tempo, revolucionário. Isso porque, num nível simbólico, a crença num paraíso revolucionário na Terra pode substituir a crença no além.
      Freire mistura pensamentos místicos com políticos. Ele mesmo fala numa linguagem profética. Como educador e revolucionário, ele queria fazer a revolução no campo a que era mais afeito. No entanto, apesar da boa índole, digamos assim, ele não dirigia, até onde eu sei, uma palavra de crítica a alguns dos maiores ditadores e facínoras da humanidade. Também não sei a opinião que ele tinha da URSS e do declínio do bloco soviético. Se você souber, me agradaria saber. Duvido que esses países aceitariam o método dele, seja por motivos pedagógicos, seja por motivos políticos.

      Finalmente, eu apresentei dados de pesquisadores sobre resultados práticos do método de Freire. Também respeito sua opinião. Mas é interessante ver levantado o argumento de autoridade. Minha irreverência ao método de Freire baseia-se em dados empíricos. Você não apresentou nenhum, além dos 300 cortadores de cana alfabetizados em poucos meses. (Nada prova que eles pudessem ser alfabetizados com outro método eficaz na mesma velocidade, e até agora não vi nenhum estudo sobre esse evento, se houver, por favor, me indique.) O fato é que a taxa de analfabetismo no país decaiu constantemente nos últimos 50 anos -- sem a implementação de seu método. Seria interessante saber o que ele teria a dizer sobre o analfabetismo funcional -- se você tiver alguma referência, por favor me indique. Por força do costume, não levo a sério o argumento de autoridade. Faz pouca diferença para mim alguém ser louvado pela UNICEF ou por quem quer que seja. Se alguém não me convencer com dados, argumentos, conceitos, relações causais ou experimentos, se não me apresentar evidências, fica impossível. Também tenho pouca propensão a rebater argumentos ad hominem (vindos de alguém que não quer se identificar), ironias ou estratégias congêneres.

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    15. Não, Adonai, não houve uso de nenhuma falácia. No penúltimo parágrafo eu somente apresentei um fato. Note que eu não disse que Paulo Freire foi relevante e deixou um legado positivo para a humanidade 'porque' UNICEF, Harvard, Oxford e Cambridge acham que ele foi relevante e deixou um legado positivo para a humanidade (isso sim caracterizaria a falácia do argumento de autoridade), mas eu somente apresentei o posicionamento dessas instituições e disse estar de acordo com elas. Da mesma forma, nessa discussão já foram disponibilizadas vários links e transcrições de opiniões de terceiros desfavoráveis ao educador brasileiro, sem que isso fosse considerado falácia.

      Da mesma forma que Isaac Newton não precisou da autoridade de Cambridge para validar suas ideias, Paulo Freire não precisou da autoridade de Cambridge, Oxford, Harvard, Stanford, Bologna e tantas outras para validar sua ideias. Os dois foram pensadores de alta relevância, cada um na sua área, e tiveram o reconhecimento de prestigiosas universidades não porque precisassem disso, mas porque fizeram jus a isso.

      Cabe lembrar que, sem que isso gerasse nenhuma advertência, aqui já foram usadas falácias de verdade, por exemplo ad hominen (Paulo Freire foi um embusteiro, sem mais) e diversas descontextualizações de frases do pensador discutido aqui.

      O último parágrafo não foi falácia. Nem sequer foi uma tentativa de argumento. Foi tão somente um desejo sincero, pois acho que seria ótimo se tivéssemos pessoas mais relevantes e com um legado mais positivo que o de Paulo Freire em temas educacionais.

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    16. OK. Sendo este o caso, recomendo que em eventuais discussões futuras procure se concentrar nas aplicações das ideias de Freire (assumindo que elas existam) ou em eventuais ramificações sociais ou até mesmo filosóficas. Aplicando as ideias de Newton foi possível construir maravilhas, bem como destruir também. Este é o ponto mais importante de todos. Não faz sentido esperar que as ideias de Freire sejam somente benéficas ou somente malignas. Ele foi um pensador sim e um importante pensador. Mas mesmo pensadores podem ter suas ideias usadas para destruir. É importante estarmos prontos para diferenciar boas aplicações daquelas que são meramente destrutivas. Este é um aspecto que gera muitas confusões: aqueles que defendem que as ideias de Freire não prestam, podem estar focando somente nas aplicações ruins; e aqueles que defendem que as ideias de Freire são maravilhosas, podem estar focando apenas na aplicações construtivas.

      Com relação a eventuais falhas minhas em chamar atenção de outros comentaristas, de fato isso pode acontecer. Mas sempre que percebo, procuro intervir. Você não é o primeiro para quem escrevo e provavelmente não será o último.

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    17. Pois é Adonai, seria mesmo bem mais interessante e produtivo discutir as ideias e aplicações das ideias de Paulo Freire, mas fica difícil fazer isso se o pensamento e postura do autor sofrem manipulações e são tergiversadas de maneira tão grosseira.

      Bom, você pede para que eu me concentre nas aplicações das ideias de Paulo Freire. O que eu penso é que as coisas nesse ponto já complicam bem mais porque as aplicações das suas ideias não depende essencialmente delas e menos ainda do seu autor, mas de uma grande complexidade com uma enorme quantidade de variáveis, como vontade política, capacidade econômica do Estado, cultura, motivação e capacidade individual de quem procura entender e aplicar aquelas ideias, etc.

      A meu ver, as ideias de Paulo Freire são aplicadas com uma eficiência e correção que ficam muito, mas muito mesmo, aquém do valor dessas ideias. Mas insisto que a meu ver isso não é por culpa, falha ou falta de valor das ideias de Paulo Freire em si, mas é uma consequência de outros fatores, como os que mencionei acima.

      Algo parecido ocorre com as ideias de Piaget.

      Via de regra, as pessoas não entenderam as ideias de Paulo Freire. Tanto os que o apoiam como os que o atacam.

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    18. Anônimo

      Creio que entendo o que diz. Minha pergunta é se essa dificuldade para aplicar as ideias de Freire não se deve ao fato de que ninguém até hoje desenvolveu de forma metódica tais ideias. A impressão que tenho é que Freire apenas jogou noções intuitivas, sem qualificar coisa alguma. Isso justificaria a existência de múltiplas interpretações ao que ele afirmou. É algo que acontece com frequência entre ideias originais. As ideias realmente originais comumente nascem como concepções vagas e altamente discutíveis. É possível que seja o caso com Paulo Freire.

      Por exemplo, como seria a relação opressor-oprimido? Seria equivalente a uma relação presa-predador, como descrita no sistema de Lotka-Volterra? Se pudermos modelar as relações opressor-oprimido via equações de Lotka-Volterra, poderemos usar esse modelo para realmente compreender relações de poder entre opressores e oprimidos? Se não pudermos usar tais equações, qual metodologia seria mais adequada para fins de compreensão e aplicação?

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    19. Acho que é por aí mesmo Adonai. O problema é que para desenvolver de forma metódica as ideias de Freira, é preciso entende-las.

      E entende-las não é uma tarefa trivial. Alguém poderia pensar que os acadêmicos estão aptos para isso. Mas acho que não, pois para entender suficientemente bem para desenvolver as ideias de Freire não basta teoria, é preciso praxis. E os acadêmicos não vão para as periferias ou campo alfabetizar ninguém. Assim, a contribuição dos acadêmicos no que diz respeito às ideias de Freire, não pode ir muito além da verbologia.

      Sobram então os professores. Eles tem o que aos acadêmicos lhes falta: contato com a realidade nua e crua da tarefa de educar. O problema é que, em geral, aos professores falta ao que aos acadêmicos sobra: fundamentação teórica para desenvolver as ideias de Freire. Assim, a contribuição dos professores no que diz respeito às ideias de Freire, não pode ir muito além do ativismo.

      E, como disse Paulo Freire, ativismo e verbologia não se fazem revolução (educacional).

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    20. Anônimo

      A questão de entender Freire sempre será vaga. Prova disso são as discussões intermináveis sobre o tema. O que pode ser feito é a concepção de modelos matemáticos que pretendam descrever relações entre opressores e oprimidos, eventualmente *inspirados* em ideias de Paulo Freire. Tenho pensado nisso e creio que exista um caminho natural. As equações de Lotka-Volterra descrevem relações simples entre presa e predador. Creio que esse modelo (muito bem conhecido) pode ser adaptado da seguinte forma: presa e predador não podem inverter papeis em ecossistemas; no entanto, opressor e oprimido podem em redes sociais. Creio que esta seja uma diferença crucial. Tentarei escrever um sistema de equações diferenciais que modele revoluções sociais.

      No entanto, você tem razão ao insistir na questão da prática. Qualquer que seja o modelo criado, ele precisa ser confrontado com situações reais. Pensarei com cuidado sobre a questão.

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    21. Anônimo, até agora você só discutiu no abstrato. Você não apresentou nada concreto. Então o problema não é com as ideias de Freire porque elas não teriam tido a chance de ser aplicadas? E os casos em que elas foram efetivamente aplicados, que foram citados? Nem pontos interessantes sobre as ideias de Freire sobre os quais eu realmente não tenho conhecimento (nem sei se existem), nada disso você apresentou. Eu apresentei vários casos em que o "método" dele não funcionou. Onde estão os estudos de caso? Vamos acompanhar aí, digamos, um grupo de 20 alunos com o "método PF" (aliás, esse "método" vai até que nível?), e outro com outro método. Ou vamos utilizar a parte não ideológica de seu método, que seria, basicamente o método Laubach, e constrastar com os resultados do método de Freire. Que pedagogo "gênio" já teve essa ideia? Quais foram os resultados?

      Laubach desenvolveu uma linguagem escrita para um povo sem escrita, e conseguiu alfabetizá-los em sua própria língua em questão de semanas.

      "O que eu penso é que as coisas nesse ponto já complicam bem mais porque as aplicações das suas ideias não depende [sic!] essencialmente delas".

      As aplicações não dependem somente das ideias, mas dependem necessariamente das ideias. Até agora só tenho visto aplicações fracassadas de uma ideologia turva.

      Você qualifica comentários com adjetivos eminentemente subjetivos e moralistas, arvorando-se como o exegeta-mor de Freire. Em momento algum eu usei de adjetivos desse naipe: "manipulações", "tergiversadas", "grosseiras". [Aliás, "tergiversar" é verbo *intransitivo*: ninguém "tergiversa algo".]

      Você afirma: "A meu ver, as ideias de Paulo Freire são aplicadas com uma eficiência e correção que ficam muito, mas muito mesmo, aquém do valor dessas ideias." Se eu substituir Paulo Freire por Rousseau, Marx, Buda, Jesus Cristo ou Benjamin Franklin, fica na mesma. É uma frase vazia. Além disso, você postula, não "prova", o valor dessas ideias.

      "Via de regra, as pessoas não entenderam as ideias de Paulo Freire. Tanto os que o apoiam como os que o atacam."
      Essa desqualificação direta de interlocutores abstratos, sem apresentar evidências, não me soa bem. Com elas, você procura se apresentar como um intérprete mais "crível" de Freire.
      Sinceramente, nem as ideias em si nem a linguagem de Freire são difíceis de entender (o estilo de Freire pode ser intragável, mas nem discuti isso). Sinceramente, difícil de entender é Heidegger, Kant, Derrida, Habermas. Freire, não. Qualquer um lê a "pedagogia do oprimido" numa sentada, não há nada de imensamente profundo nesse livreto.

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    22. (continuação)
      "O problema é que para desenvolver de forma metódica as ideias de Freira [sic!], é preciso entende-las. [sic!]"
      Bom, me mostre o desenvolvimento metódico nas ideias do próprio Freire -- se as ideias são dele, o desenvolvimento metódico deveria ter vindo dele próprio.

      "E entende-las [sic!] não é uma tarefa trivial. Alguém poderia pensar que os acadêmicos estão aptos para isso. Mas acho que não, pois para entender suficientemente bem para desenvolver as ideias de Freire não basta teoria, é preciso praxis."
      >>Claro, Lênin, Rosa Luxemburgo, Che Guevara, Mao, Pol Pot e Kim Il-sung talvez conhecessem as ideias de Marx melhor porque eles tinham "práxis"... Todos os estudos que li sobre aplicações práticas das ideias de Freire eram de quem 1) acreditava nessas ideias e 2) as praticava. E as aplicações não me dão subsídios para levar a sério as ideias dele, mesmo se eu der um voto de confiança cego nas supostas boas intenções dele. Do jeito você descreve, nem as ideias de Marx, nem as ideias de Freire, nem as ideias de Juliano o Apóstata (um cara muito bem-intencionado) serão aplicadas -- e quando aplicarem, dirão que não foi uma aplicação boa, porque a culpa não é das ideias, é da estrutura ou sei lá de quem mais. O engraçado é que toda uma massa de pedagogos brasileiros é obrigada a engolir Freire sem esboçar um pingo de pensamento crítico. Freire é só mais um intelectual bonitinho que se você criticar vai ser linchado por seu professor e não vai passar de ano. Nem sei quem mais ainda está na moda, mas critique Foucault, Habermas, Said & Cia., e sentirá na pele como é ser uma ovelha-negra nas ciência humanas neste país.

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  8. Infelizmente até nas universidades de exatas a matemática é tratada não como algo que limita a mente, mas como uma mera ferramenta. Isso impacta profundamente na capacidade de abstração das pessoas.

    Hoje em dia percebo que muitos assuntos que estudei na faculdade poderiam ser facilmente transpostos para o ensino médio. Basta que haja vontade de reformar o currículo escolar, além da maneira de ensinar. Perdemos muito tempo com aulas expositivas, muita repetição desnecessária e muita mastigação do conteúdo pelos despreparados professores para que os despreparados alunos entendam algo.

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  9. Professor Adonai,

    Primeiramente me desculpe pela ignorância em relação aos questionamentos a seguir. Dias atrás assisti um video (não consigo encontrar o link), mas existem muitos outros afirmando que a terra não gira ao redor do sol. Uma das explicações, no video que assisti, questiona que se a terra gira de fato, se uma aeronave ficasse parada no ar, quando pousasse estaria em outro lugar, e por aí seguem outros argumentos... Poderia comentar a respeito dessas teorias. Ainda a respeito deste tema, como é feito o calculo para a volta a terra de astronautas considerando a rotação da terra?
    Obrigado

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    1. Anònimo

      Pensarei a respeito do que pede. Mas não creio que o público-alvo leia este blog. Os argumentos que você apresenta podem ser facilmente respondidos com o conceito de movimento relativo.

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  10. Fico pensando em um oprimido que tomasse consciência de que era um oprimido e resolvesse mudar a situação. Teria ele de ser um opressor?

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    1. João Luiz

      Sua pergunta é ótima. Parece ser instintivo em nossa espécie não gostar daquilo que é diferente de nós. Não me surpreenderia se alguém descobrisse que o Homo Erectus foi extinto pelo próprio Homo Sapiens, o opressor. E, para piorar a situação, o Homo Sapiens criou critérios de distinção baseados em raça, religião, política, economia e até gostos pessoais.

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    2. Creio que a questão não seria "não gostar..", mas sim aceitar. Um dia ouvi de um pesquisador dos mais graduados no "sistema de avaliação" (entre aspas proposital) vigente, que o inimigo teria de ser destruído, referindo-se àqueles que não concordavam com ele. Foi muito triste. E saber que são homenageados como líderes.
      Creio necessário entender porque alguém se torna opressor ou oprimido. Sei que um dos aspectos, o medo, transita nas duas classes. Para mim classificar os indivíduos, em geral, em uma das duas classes é de uma visão completamente equivocada. O mundo é muito mais do que apenas isso. Temos de evoluir!!!!!!!!!

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    3. João Luiz,

      A dominação (econômica ou política), termo que prefiro a "opressão", a rigor não está presente nem nos dominantes nem nos dominados. Alguém se torna um ou outro quando transita entre essas esferas; do contrário, ele é só mais um agente numa estrutura que escapa a suas volições. A questão da distinção apontada por Adonai é, creio eu, inerente à linguagem, e, portanto, inerente à cultura e à constituição da espécie humana face ao mundo natural. Temos que também lembrar que a dominação nunca é integral: uma dominação política nem sempre acarreta uma dominação econômica; uma dominação religiosa nem sempre acarreta uma dominação econômica ou política. Existem distintas autoridades, principalmente com o advento do Estado moderno e do capitalismo. Então, de fato João Luiz, limitar-se a classificar os indivíduos entre uma ou outro polo é reduzir e simplificar demais (não chamaria opressor e oprimido de "classes" no sentido marxista, da forma como Freire utiliza o binômio, trata-se de muito mais fluido e indeterminado -- e muito mais maniqueísta, talvez, do que simples "classes" baseadas na posse dos meios de produção).

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    4. Prof. Adonai,
      Se não me engano, Michel Foucault desenvolve teoria a respeito de como as pessoas que são vítimas de "opressão" tendem a replicar esse comportamento; a análise dele não é meramente individual, mas inserida dentro de um contexto social.
      Att.
      Rodrigo

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    5. Bem lembrado, Rodrigo. Foucault discutiu muito sobre essas relações de poder. Seria interessante saber se alguém já comparou Freire com Foucault.

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    6. Opa!
      Achei alguma coisa: BRIGHENTE, MIRIAM FURLAN. A EDUCAÇÃO DE EDUCADORES À LUZ DE MICHEL FOUCAULT E PAULO FREIRE: DO CORPO DISCIPLINADO E NEGADO À LIBERTAÇÃO DO CORPO OPRIMIDO ' 01/11/2011 117 f. MESTRADO ACADÊMICO em EDUCAÇÃO Instituição de Ensino: PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ .
      Saudações a todos,
      Rodrigo

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    7. Muito obrigado, Rodrigo. O tema parece realmente natural. Resta saber se a dissertação é boa e se rendeu frutos. Com o tempo, eu lerei.

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  11. Vamos lá então! Dominação independente do tipo que seja, sempre exigirá um dominado. Um indivíduo que seria apenas mais um agente em uma estrutura que escapa a suas volições, logicamente seria um dominado.
    Creio que a questão é entender o que faz um indivíduo pertencer a qualquer uma das classes (dominadora; dominada).
    Penso que o autoconhecimento, ou seja, a consciência de si mesmo, independente do ambiente onde se encontra é que pode mudar a questão. Vejo hoje a maioria das pessoas andando no automático. Se quiseres questionar uma pessoa sobre um tema cultural, religioso ou apenas dogmático, verás que haverá dominação e esta pessoa provavelmente se afastará de você no momento que você a fizer pensar sobre essas questões.
    Os paradigmas vigentes são extremamente fortes. Se eu disser que a educação institucional obrigatória é desnecessário, acredito que sequer terás estímulo em discutir comigo. Dirá logo que surtei.
    Desta forma se vão instalando em nosso “consciente” estruturas predeterminadas, que direcionam nosso comportamento. Isto pode ser para o bem ou para o mal. Veja-se casos de doutrinação.
    Dominação tem uma compreensão mais profunda. No momento que a fragmentamos em diversos setores de dominação, perdemos o foco do âmago da questão.
    Já li, neste ou em outro assunto recente por aqui, que existe pouco espaço para razão. Porque isto acontece? Penso que este é um excelente assunto para discussão!

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    1. João Luiz

      De fato parece um tema excelente para discussão. Mas hoje confesso que estou mais inclinado a seguir um caminho diferente. Os super-temas (dominação, opressão, educação, sociedade) parecem não surtir efeitos positivos no Brasil. Estou trabalhando em um novo projeto (produção de vídeos) que, creio eu, terão alguma chance de ilustrar princípios através de exemplos. É preciso ter paciência. Se o Brasil se transformar em alguma sociedade remotamente civilizada, isso acontecerá dentro de algumas gerações.

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  12. Prof. Adonai,

    De toda essa história sobre Paulo Freire:

    - Me impressiona muito como as pessoas se apegam ferreamente ao que é escrito pelos grandes pensadores, sem contextualizar os assuntos. Por exemplo, você pode ler o Manifesto Comunista do Karl Marx de várias formas, mas não se pode esquecer que esse escrito é, antes de tudo, um MANIFESTO político, não propriamente um texto "acadêmico", como seria O Capital.

    - É preciso também saber se situar diante dos grandes pensadores. Eric Hobsbawm, por exemplo, afirma que jogaria fora quase tudo do marxismo, menos à questão do materialismo (filosofia materialista); essa sim a grande contribuição de Karl Marx para a humanidade. Esse grande historiador soube encontrar seu caminho dentro do marxismo, apesar das ressalvas que tinha ao próprio sistema filosófico de Marx.

    - Todo grande pensador é alvo de contestação, o que não lhes tira o vigor. Freud e Carl Jung ainda hoje encontram forte crítica ao modo como construíram, cada qual, a psicanálise. Por isso, indago: todos os escritos deles seriam imprestáveis, a anular as teorias concebidas por eles? Hegel teria sua filosofia inutilizada pelas críticas de Karl Marx?

    - Não se pode confundir os seguidores de determinada corrente filosófica com o próprio filósofo; especialmente no espectro da esquerda, nem tudo que se escreve ou se faz em nome de "A" ou "B", encontra respaldo no próprio pensador. Ou por qual motivo Marx teria dito, já no final da vida, que não era mais marxista, quando viu os comentários daqueles que se debruçavam sobre seus livros?

    - Os grandes pensadores devem ser sempre lidos, com o coração aberto, mas com a mente em vigilância, aguçada. Italo Calvino tem o livro "Por que ler os clássicos", no qual afirma que os grandes livros "nunca terminam de dizer aquilo que tinha para dizer". É isso: os grandes pensadores sempre estarão a nos ensinar uma flexão nova, mas não definitiva sobre as coisas da vida.

    Saudações,

    Rodrigo

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    1. Rodrigo

      Quando eu crescer quero escrever como você. Escreveu pouco e foi direto ao ponto nevrálgico da questão. É exatamente isso! Isaac Newton, por exemplo, escreveu ideias que beiram o misticismo, quando tratou da mecânica e até do cálculo diferencial e integral. Se os físicos tivessem parado por aí, perdendo tempo com exegeses sem fim da obra de Newton, jamais teríamos ido à Lua.

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    2. Opa!
      ´Brigado, hein!
      Meu comentário foi apenas uma opinião de curioso.
      Saudações,
      Rodrigo

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  13. Realmente Rodrigo, “.... com coração aberto, mas com a mente em vigilância e aguçada.”
    Penso que assim devemos proceder quando quisermos compreender realmente o nosso mundo.
    Ressalto um aspecto que considero relevante e deve ser analisado: posso pensar e discutir sobre algum tema sem ler “grandes pensadores”? Tenho lido muita literatura em que aqueles que escrevem, adoram citar fulano ou beltrano, somente porque dá credibilidade. Muitos limitam-se a citar grandes pensadores. Alguns criticam escritos somente porque não citou pensadores importantes. Eu penso que antes de qualquer paradigma científico, é mais importante apreciar com coração aberto... os argumentos. Já vi artigos em que certos argumentos são escritos somente porque um “grande pensador” escreveu.
    Eu penso ainda que é de fundamental importância entender o espaçotempo que vivemos. Muitos antigos pensamentos são inadequados para o momento atual. Muito facilmente somos contaminados por pensadores do passado levando-nos a esquecer nossa própria liberdade de pensar.
    Acho perfeitamente possível se realizar grandes pensamentos sem sequer ler pensadores do passado.
    Gostaria de deixar claro que não condeno a leitura dos “grandes pensadores”, apenas penso que devemos não deixar que eles nos aprisionem, ou mais atual, nos oprimam!
    Eu penso que devemos com urgência urgentíssima, estimular o livre pensar. Pensar nosso momento, nossa vida, nossa sociedade, nosso ambiente, e assim por diante.
    Vamos dar espaço à razão.

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  14. O proprio Paulo Freire convida os educadores a ler a dinamica social através de categorias ingênuas (luta de classes), buscando mobilizá-los para movimentos politicos (que eu considero) mal intencionados. Uma obra que finge buscar a libertação, mas que sem estabelecer de que liberdade estamos falando (certamente nao são as liberdades individuais da filosofia liberal), esconde sua real intenção. Não é um livro sobre pedagogia, e sim um livro sobre a importancia de usar a educação como ferramenta política, com base em uma leitura muito específica da sociedade.

    Já sobre os erros de matemática dos livros didáticos, ora, isso é fácil de entender. O conhecimento escolar de matemática não é, e nem tem como ser, o mesmo corpus de conhecimento dos matemáticos. As inadequações existentes sao fruto de transposição didática. Trata-se de um problema da didática da matemática.

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    1. Fabio

      Fico feliz que alguém tenha finalmente tocado na questão dos erros de matemática em materiais didáticos. No entanto, sua conclusão é precipitada. Não há transposição de fato. Isso porque existe um distanciamento social muito grande entre pesquisadores de matemática e professores de matemática. E existe distanciamento também entre pedagogos da matemática e matemáticos. A tese de doutorado que cito é um exemplo típico.

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  15. Caro professor Adonai, parabéns pelo excelente texto. Merece ser re-lido pela honestidade intelectual.

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  16. O que significa aprender a ler? C E L U L A R. Será que é aprender a decodificar a combinação de letras com determinados ruídos correspondentes a essa combinação? Ou será que pode ser algo mais e também ser capaz de reconhecer ou visualizar mentalmente um celular ao fazer aquela correspondência? Ou será que podemos (ou devemos?) dar ainda um passo mais e associar também àquela sequência de caracteres o seu significado e histórico social e o próprio papel do aprendiz nas relações sociais que resultaram no objeto cujo nome estou aprendendo a ler ('celular')?

    Isso significaria aprender o que é o minério coltán, o que é a República do Congo, o que são as grandes corporações de telefonia e como elas se relacionam com a República do Congo e seus interesses nas minas de coltán desse país. Significaria também aprender qual o meu papel, a minha função, a minha atuação em todo o processo de relações sociais implicados na produção e consumo de celulares. Essa seria uma proposta de aprendizado muito mais completa, complexa e profícua do que simplesmente aprender a produzir certos sons ao se deparar com a sequência de caracteres: C E L U L AR ou simplesmente aprender a identificar um objeto que corresponda àquela sequência de caracteres.

    Essa proposta mais ousada é a de Paulo Freire. É por isso que ele disse que "não basta ensinar a ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. Fazer isso, não é nada fácil, por motivos óbvios. Mas Paulo Freire foi importantíssimo por chamar a atenção para a importância de transcender a educação estática, fria, formal, puramente técnica para uma educação que se comprometa com o desafio de efetivamente compreender o mundo em que vivemos, condição necessária para transformá-lo de maneira consciente em um lugar mais justo e humano.

    (Brasileiro)

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  17. «Paulo Freire e o assassinato do conhecimento»

    http://abr.ai/1EZVcLV

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    1. Paulo Freire é um cadáver adiado que procria. Quando o Brasil vai tomar vergonha na cara e enterrá-lo de vez?

      Júnior

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    2. Vale lembrar que além de ser o principal mentor da fracassada LDB de 1996, Paulo Freire também é quem trouxe a famigerada Progressão Continuada na prefeitura de Sâo Paulo, e que depois foi copiada por muitos outros governos. Ou seja, a destruição feita por ele foi completa.

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