sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Poder do Professor


"Tenho pensado muito nas desgraças da humanidade e cheguei à conclusão que, para seus males, não há remédio. Porque esse enfermo, muitas vezes secular, crava o punhal no peito de seu médico, mata-o e logo fecha os olhos, dizendo tranquilamente: 'Na verdade, era um bom médico.'" J. E. A.

Como já escreveu o autor acima citado "para ser feliz, o homem deve viver como ermitão no meio da sociedade". 

Tive a felicidade de trabalhar em parceria com Glaci Zancan em uma comissão criada pela Pró-Reitoria de Planejamento da UFPR, anos atrás. Ela era uma fervorosa defensora da meritocracia na vida acadêmica. Zancan morreu pouco depois de se aposentar e hoje se diz: "Ela foi uma grande pensadora." 

Em 2009, no Dia Internacional da Mulher, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do bizarro estado do Paraná chegou a instituir o troféu "Mulheres da Ciência - Glaci Zancan". Mas o fato é que a meritocracia neste país ainda é um discurso completamente ignorado no seio da vida acadêmica brasileira. A macacada daqui (não é pretensão minha ofender os macacos) sequer entende o significado desta palavra, insistindo como crianças perdidas que concursos públicos avaliam mérito. Portanto, pergunto: existe alguma homenagem real a Glaci Zancan? Existe algum reconhecimento real sobre a sua obra? Ou a única homenagem que faremos é para algumas mulheres que, por conta de hercúleo esforço individual, conseguem realizar pesquisas técnicas, mas cujas visões realmente relevantes são simplesmente ignoradas? 

A escultura "Fita de Moebius" (uma óbvia referência matemática), da artista plástica Patrícia Fumiko Tristão, foi escolhida para o troféu Mulheres da Ciência. Tal escultura simboliza o infinito. O objetivo é expressar o desejo de que o prêmio se perpetue. Mas o que exatamente será perpetuado? Foi criado, de fato, um prêmio à altura dos ideais de Glaci Zancan? Em conversas que tive com esta renomada pesquisadora jamais fiquei com a impressão de que ela estivesse satisfeita com as políticas locais e nacionais de ciência e tecnologia. A impressão era exatamente a oposta. Mas essas políticas têm se perpetuado, sem a necessidade de símbolos com apelos poéticos. É como o filme Gabriela, de Bruno Barreto: queremos mudanças sim, desde que as coisas continuem como estão. Esta película é um excelente retrato do Brasil. 

Na postagem Sem Fronteiras? ilustrei como se perpetua o pacto de silêncio sobre nossa educação. Mas este pacto de silêncio é sustentado somente fora da sala de aula. Afinal, no dia-a-dia de nossas instituições de ensino, se promove algo bem mais ativo. Como disse a personagem de Richard Burton no filme Equus (de Sidney Lumet), "Paixão pode ser destruída por um doutor. Não pode ser criada." Este princípio garante que os boçais encontrem terreno livre na sociedade e que os sonhadores sejam esmagados, mesmo quando são hipocritamente reconhecidos após as suas mortes. E esta visão não é exclusivamente minha e muito menos original. Ver, por exemplo, a postagem assinada pelo Professor José Mario Martínez, que recebeu uma inesperada avaliação negativa de um leitor deste blog.

O doutor que a personagem de Richard Burton menciona é um médico psiquiatra. Mas a citação é perfeitamente cabível para os influentes professores que infestam as salas de aula deste país, em uma sociedade que ignora por completo a noção de mérito profissional na docência.

O único poder comum a todos os professores é o da destruição. E estou me referindo à destruição de sonhos dos jovens. São raríssimos os docentes que têm condições de exercer o poder da construção. E mais raros ainda são aqueles que efetivamente exercem este poder. Vejamos um exemplo histórico bem conhecido: Carl Friedrich Gauss. 

Quando o húngaro Janos Bolyai resolveu o polêmico problema do quinto postulado de Euclides, seu pai Farkas Bolyai ficou extremamente orgulhoso do filho. Afinal, um problema que persistiu entre as mais brilhantes mentes durante dois mil anos foi finalmente resolvido. O velho Farkas enviou, então, carta para o amigo Gauss, o qual já havia recusado anteriormente Janos como pupilo. Gauss, o mais importante matemático da época, respondeu que o trabalho do jovem Janos era interessante, mas que ele próprio já havia resolvido esta questão anos antes. Apenas preferiu não publicar o resultado. Tal resposta do grande mestre Gauss desestimulou profundamente o iniciante Janos, o qual simplesmente abandonou a carreira de matemático. Um ano depois, de maneira independente, o russo Nicolai Lobachevsky descobriu a mesma solução para o mesmo problema. Publicou o resultado e hoje ele é conhecido como o criador das geometrias não euclidianas. A criação das geometrias não euclidianas foi um rompimento de paradigma científico que revolucionou toda a ciência moderna. O historiador Eric Temple Bell chegou a se referir a Lobachevsky como o Copérnico de todo o pensamento humano. 

Não existem evidências de que Gauss tenha tentado desestimular Janos Bolyai propositalmente. Ao que parece, ele foi apenas honesto. Mas esta honestidade destruiu um sonho. Gauss chegou a escrever para um amigo uma carta, na qual se referia ao jovem Janos como um talento matemático de primeira grandeza. No entanto, jamais o apoiou diretamente. Por isso o leitor deve tomar muito cuidado ao interpretar minha tese: "O único poder comum a todos os professores é o da destruição." Não estou insinuando que professores em geral queiram destruir os sonhos de seus alunos. Apenas digo que, em geral, é o que fazem. Como especialmente no Brasil a profissão de professor é abraçada por fracassados do ensino médio (os melhores alunos do ensino médio geralmente procuram outras carreiras), fica mais evidente o poder destruidor destes profissionais. Trata-se de uma cadeia sem fim, um segmento autofágico da sociedade brasileira. 

Tendo isso em mente, recomendo apenas o seguinte aos jovens sonhadores:

1) Evitem discussões prolongadas com docentes desestimuladores e incompetentes. Estes docentes sempre terão apoio social muito mais poderoso do que um jovem que normalmente é considerado inexperiente e ingênuo.

2) Procurem e mantenham contato próximo com profissionais e colegas que compartilhem de sonhos semelhantes. Mas sempre desconfiem daqueles que são dominados por certezas a respeito de suas visões.

3) Procurem e mantenham contato íntimo com amigos e familiares que apoiem seus sonhos, mesmo que não sejam capazes de compreender os aspectos técnicos envolvidos. Todos os grandes pensadores puderam contar com o suporte de familiares e amigos.

4) Mantenham distância daqueles que contaminam seus sonhos, mas jamais deixem de ouvir o que eles têm a dizer. Mesmo de uma pessoa invejosa é possível aprender algo a respeito de nós mesmos. Mesmo daqueles que fracassaram em suas vidas profissionais poderemos eventualmente aprender lições importantes. 

5) Não se desestimule com críticas negativas e não se anime com elogios. Apenas reflita sobre o que vê, ouve e lê. E discuta criticamente com seus pares sobre as questões que julga relevantes. 

4 comentários:

  1. Olá prof. Adonai.

    Quando o professor mencionou que "especialmente no Brasil a profissão de professor é abraçada por fracassados do ensino médio (os melhores alunos do ensino médio geralmente procuram outras carreiras), fica mais evidente o poder destruidor destes profissionais" o professor realmente quis dizer que os alunos medíocres no ensino médio, quando conseguem avançar no Ensino Superior, geralmente escolhem a carreira de magistério? Em poucas palavras, seria como disse uma vez Roberto Requião que os professores estão nesta profissão porque não foram competentes em seguir outra carreira.

    Esta tendência à generalização é perigosa e seria bastante provocador de ânimos se isso fosse dito aos professores do Ensino Básico. Seria um sintoma de que "a verdade dói?"


    Gostaria que o professor esclarecesse mais este ponto e também o motivo disso acontecer. Será que um modelo inspirado na educação sul coreano ou finlandês seria uma solução? Pelo que entendo da situação, se adotássemos um modelo assim, haveria bastante professores desempregados, aumentando-se ainda mais a carência desses profissionais. Parece que há seu lado positivo, pois aqueles que restariam, realmente poderiam alavancar a educação e não seriam atrapalhados pelos ex-colegas medíocres e incompetentes.

    Pessoalmente, estou inclinado a concordar com o professor quando me recordo de alguns professores que tive, mas sempre entendi como uma incompatibilidade natural entre mim e o professor, restando apenas me "adaptar" à situação. Além disso, infelizmente, em outras carreiras também se encontram profissionais medíocres, às vezes até colocando em risco a integridade física das pessoas. Então, de certa forma, isto seria uma situação "normal".

    Um abraço.

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    1. Caro Adam

      Anos atrás vi uma estatística na qual se apontava que os 10% melhores alunos de ensino médio na Finlândia seguiam a carreira de professores, enquanto os 10% piores do ensino médio brasileiro (aprovados em vestibulares) investiam em licenciaturas. Lamentavelmente não tenho em mãos esta estatística (perdi a fonte). Mas cheguei a discutir sobre isso com um grupo de investidores estrangeiros (que dispunha de 7 bilhões de dólares, mas não sabia o que fazer com o dinheiro), visitando o Rio de Janeiro anos atrás.

      Entendo sua preocupação e eu também percebo que estamos em uma situação realmente complicada. Não vejo solução eficaz para a educação brasileira sem mudanças políticas drásticas. Mas considero que seguir o modelo finlandês de ensino fundamental parece uma ótima ideia.

      Roberto Requião é uma das criaturas mais estúpidas que já pisou nesta terra. Mas neste ponto ele tem razão. Nossos professores são profissionais fracassados.

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    2. Olá prof. Adonai.

      Particularmente, me considero um prof. bastante limitado (quem sabe até me incluiria entre os incompetentes, pois não acessei uma pós-graduação), mas a realidade em sala de aula é muito difícil. Eu confesso que não consigo motivar os alunos, fazer com que percebam a importância do tema da aula, mesmo dando exemplos de aplicabilidade em coisas cotidianas, ou seja, me sinto inútil e improdutivo. O que prof. acha disso?

      Um abraço.

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    3. Oi, Adam

      Em primeiro lugar, competência não se avalia por titulação. Tanto é verdade que a UFPR está repleta de doutores ignorantes em suas áreas. Em segundo lugar, seus alunos recebem uma constante e perene influência social muito mais poderosa do que as suas aulas: as respectivas famílias. Você se meteu em uma situação complicada, ao abraçar o ensino como profissão neste país. Na UFPR eu até que tive sorte, pois no início havia muitos alunos motivados e dedicados. Hoje a situação está bem pior. Você, especificamente, foi um dos melhores alunos da melhor turma que já tive em toda a minha vida profissional. Precisa encontrar um ambiente de trabalho que o abrigue com igual responsabilidade e dedicação. Caso contrário, seu futuro será realmente desanimador.

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