segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O conflito entre ciência e inovação


The "thousand profound scholars" may have failed, first, because they were scholars, secondly, because they were profound, and thirdly, because they were a thousand. 

Edgar Allan Poe
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Pensamento de grupo é um fenômeno psicológico que ocorre em coletividades de pessoas, no qual o desejo pela harmonia e perpetuação do grupo implica em tomadas de decisões irracionais ou disfuncionais. Este fenômeno é facilmente identificável em casos extremos de gangues criminosas que cometem atrocidades impossíveis de serem realizadas se seus membros não fizessem parte dessas gangues. No entanto, a questão difícil de responder é se pensamento de grupo não afeta de maneira irracional e disfuncional o próprio avanço da ciência.

Ciência está diretamente relacionada ao conhecimento proposicional. E todo conhecimento proposicional pode ser colocado na forma "S sabe que p", onde S é o indivíduo que sabe e p é a proposição que é conhecida. Portanto, ciência é algo que pode ser socialmente compartilhado. Alguns indivíduos sabem e outros não sabem, quando o contexto é alguma proposição p. E, neste sentido, ciência tem um caráter estático. Isso porque conhecer uma proposição p é algo que não muda p

Inovação, por outro lado, é uma operação que, entre outras coisas, age sobre proposições, alterando-as. Logo, ciência e inovação são fenômenos humanos conflitantes. 

Diante disso tudo, o que é o avanço científico? É simplesmente uma constante luta entre ciência e inovação.

Não são raras as pessoas que questionam a institucionalização da ciência, promovida por universidades e centros de pesquisa. Mas são raras as pessoas que percebem a incompatibilidade entre ciência e inovação, usualmente colocadas lado a lado como se fizessem parte de uma mesma missão socialmente nobre e promovida por membros da gangue acadêmica mundial. 

Se um cientista pensa de maneira diferente, em relação aos seus colegas, como ele será percebido? Ele será necessariamente identificado como um promotor de avanços científicos ou como um marginal que apenas gera desconforto, rompendo a harmonia da comunidade acadêmica?

Os estudos de história e fundamentos da ciência ajudam a ilustrar muito bem as ideias acima expostas. Por exemplo, alguém sabe o que é matemática? Não existe uma única definição clara, objetiva e abrangente o bastante para contemplar todas as áreas de estudo da matemática. No entanto, em todas as universidades e centros de pesquisa existe um senso de unanimidade de que há uma área do saber conhecida como matemática. Isso ocorre em função da dominante necessidade de pensamento em grupo, o qual colabora em favor de um senso de harmonia no mundo acadêmico, mas compromete qualquer princípio de inovação. Há vários exemplos históricos que ilustram isso. Um dos mais conhecidos é o axioma da escolha, que criou gigantesca polêmica entre matemáticos da primeira metade do século 20. Isso porque, inicialmente, o axioma da escolha não era ciência. Hoje é.

Ciência é um fenômeno social. Inovação é um fenômeno individual. A luta entre ciência e inovação é um drama épico, uma batalha entre indivíduos e sociedades. Daí a ingratidão da atividade científica. Abraçar uma carreira científica sempre envolve um processo de escolha entre liberdade de pensamento e ciência. E ser professor é algo mais ingrato ainda. Isso porque professores comumente são obrigados a impor ciência aos seus alunos ao invés de estimular a liberdade de pensamento. 

É claro que não pode existir liberdade de pensamento sem ciência. É preciso conhecer proposições p para somente então questioná-las e, quem sabe, mudá-las. E este fato apenas piora o problema da inovação. Isso porque além da batalha entre indivíduos e sociedades, existe ainda uma batalha de indivíduos contra eles próprios. Se o conhecimento de uma proposição p implicar na crença de p, este estado pode dificultar muito qualquer operação de inovação que modifique p

Nunca na história da humanidade houve tanta veiculação de artigos científicos quanto nos dias de hoje. Milhares de periódicos especializados publicam milhares de artigos supostamente inovadores. Mas, a partir do momento em que um artigo de pesquisa é aceito para publicação sem qualquer resistência, podemos garantir que ele representa alguma inovação de fato? Ou será que a maioria dos artigos científicos hoje publicados são simplesmente justificativas para garantir que a ciência de hoje está passando muito bem, obrigado?

Um comentário:

  1. Se um cientista pensa de maneira diferente, em relação aos seus colegas, como ele será percebido? Ele será necessariamente identificado como um promotor de avanços científicos ou como um marginal que apenas gera desconforto, rompendo a harmonia da comunidade acadêmica?
    E ser professor é algo mais ingrato ainda. Isso porque professores comumente são obrigados a impor ciência aos seus alunos ao invés de estimular a liberdade de pensamento.

    Cortei e colei pontos, que considero de importância fundamental para aqueles que gostam de educação e ciência, para pensarem! Pensar de forma livre, cientes de que somos passíveis de sermos dominados por paradigmas. Um exercício de interiorização!

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