domingo, 5 de julho de 2015

Rio e Recife: sobre duas viagens minhas


Este primeiro semestre de 2015 que agora termina foi marcado, entre outras coisas, por duas viagens que fiz. Em virtude das atividades realizadas neste blog, fui convidado para participar como palestrante em dois eventos: I Verão Professor Global, realizado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro; e II Congresso de Ensino Jurídico, realizado na Faculdade de Direito de Recife (FDR), da Universidade Federal de Pernambuco. 

Faço aqui um breve relatório dos dois eventos.

Ambos foram marcados pela presença de poucas pessoas. Mesmo assim percebi diferenças significativas entre CBPF e FDR. 

O evento do CBPF foi definido pela participação dominante de experientes profissionais. Havia um único jovem estudante presente o tempo todo. A única palestra genuinamente interessante foi proferida por José Abdalla Helayël Neto, na qual este brilhante físico apresentou um relatório sobre atividades exercidas por ele para viabilizar a inclusão de classes sociais marginalizadas pela sociedade, criando condições para que jovens de famílias economicamente carentes possam realizar estudos universitários em boas instituições, tanto brasileiras quanto estrangeiras.

Durante um intervalo para almoço cheguei a ouvir de dois professores (um afirmou e o outro concordou) a seguinte frase: "A única pessoa que mantém o CBPF funcionando hoje é o Helayël." 

Perguntei: "Mas e o Tsallis? Ele trabalha aqui, não?" A resposta foi um "É" bastante desanimado. O evento nada gerou e desperdiçou tempo e preciosos recursos públicos. 

Já o evento organizado por alunos da FDR foi completamente diferente. Apesar de contar novamente com pouquíssimos participantes (em comparação com o tamanho do corpo discente da instituição), eram em sua maioria jovens. 

Os professores participantes se dividiram entre aqueles que fortemente apoiam os alunos e aqueles que repetem os velhos jargões "Mas isso é muito difícil de mudar", "A iniciativa de vocês é louvável, mas não temos dinheiro" etc. Os estudantes que participaram do evento também tinham opiniões eventualmente divergentes. Mas o que senti entre eles é um genuíno esforço para melhorar consideravelmente a qualidade do curso de direito da UFPE. 

A Faculdade de Direito de Recife sempre está entre as que mais aprovam alunos no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sistema extremamente rigoroso para controlar o mercado de oferta de serviços advocatícios em nosso país. Se professores tivessem uma representação institucional tão forte como a OAB, certamente não reclamariam tanto dos baixos salários. No entanto, muitos alunos da FDR estão extremamente insatisfeitos com a maneira como o estudo de direito é tratado no Brasil. Uma excelente discussão sobre este tema se encontra aqui

Em função desta insatisfação, o grupo de estudos Direito em Foco organizou e realizou dois congressos sobre ensino jurídico. O congresso do qual participei resultou em um documento encaminhado para autoridades, tendo como meta principal a melhoria gradual do ensino de direito em uma instituição que é referência nacional. Para acessar o documento, basta clicar aqui. Ou seja, verbas públicas foram usadas para efetivamente atingir metas. Algumas melhorias já foram conquistadas no plano pedagógico da instituição. Mas muito ainda precisa ser feito.

No primeiro dia do congresso (conforme informações que recebi) houve tumulto. Em virtude da presença do Reitor da UFPE, Anisio Brasileiro de Freitas Dourado, sindicalistas tentaram impedir a realização do evento e alunos do Diretório Acadêmico, simpatizantes de movimentos de greve, apoiaram esta baderna com um simples silêncio. Por conta da intervenção de uma jovem estudante e de um advogado trabalhista, a manifestação contrária à realização do congresso acabou se dissolvendo. Um importante evento planejado com meses de antecedência acabou encontrando dificuldades por conta de entusiastas de movimentos de greve sem a mais remota ideia do papel de uma universidade perante a sociedade. Mas, tudo bem. O evento transcorreu muito bem, apesar de divergências iniciais.

Fiz minha breve apresentação no mesmo prédio onde houve reuniões de abolicionistas no século 19. Ou seja, trata-se de um lugar ideal para mudanças e, quem sabe, revoluções. Conversei com uma encantadora jovem estudante que me disse ter ingressado no curso somente na segunda chamada. E ela afirmou que sente responsabilidade por todos os colegas talentosos que conheceu mas que não puderam ingressar no curso, por conta do processo de seleção da instituição. Foi esse tipo de jovem que vi em Recife. E é esse tipo de jovem que imprime esperança, para mim e muitos outros.

Eu não queria publicar esta postagem. O que eu realmente queria era convencer jornalistas para veicular matéria com os conteúdos aqui expostos, promovendo algo semelhante com o que fiz em favor da equipe Polyteck. Isso porque este blog tem visibilidade muito menor do que certos veículos de comunicação em massa. Conversei com alguns jornalistas que conheço, mas não houve receptividade, por conta de fatores que não precisam ser expostos aqui. Uma pena. Logo, não tive escolha. Aqui está o relatório sobre algumas das atividades e conquistas de estudantes de direito em nosso país. 

Há necessidade enorme que estudantes entendam de uma vez por todas como deve ser um movimento estudantil. Panelaços ou peladaços nada mudam. Bandeiras vermelhas, gritaria, baderna, idealismos sem valor prático algum, nada mudam. O que muda é o cultivo e o desenvolvimento do conhecimento. Tirar a roupa e bater panela é coisa de macaco de circo. E repetir jargões eternos que nada mudaram até os dias de hoje é coisa de alguém indigno de "descender do macaco". É o cultivo do pensamento original e relevante que deve definir as novas gerações. Mas não creio que macacos de circo consigam entender ou sequer ler uma postagem como esta. Novamente, uma pena.

7 comentários:

  1. A oab e sua reserva de mercado, entre outras cousitas mais...

    www.facebook.com/rgellery/posts/679975622135078

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  2. Adonai,

    triste saber os descaminhos da CBPF. Isso me lembra o "finado" IFT de 30 anos atrás, pois o atual está completamente descaracterizado, desde a sua incorporação pela UNESP. Do ponto de vista de resgate histórico, tínhamos dois institutos de física teórica à saber: um no Rio, que é o CBPF e o IFT de São Paulo. Triste saber que hoje em dia resta somente um e se encontra em caminhos perigosos....enfim, sina nossa.
    Tenho a sensação de que fazer pesquisa séria em física teórica será para alguns poucos "gatos pingados" nesse país...que coisa! Outro fato que me incomoda e muito é o atual desvirtuamento da formação de futuros pesquisadores...está-se comprometendo não somente gerações futuras, mas também o futuro desse país.....o difícil será quebrar os muros que as nossas universidades se encastelaram....

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    1. Marcelo

      Ainda tenho dificuldade para acreditar nisso tudo. É até mesmo um desrespeito ao legado de Cesar Lattes e tantos outros. Até a Plataforma Lattes é uma demonstração deste descaso.

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  3. Prof. Adonai,
    O exame da OAB não é tão rigoroso assim. O que acontece é que, embora a unificação do exame tenha elevado o nível da prova, há uma massa de alunos mal preparada pelas faculdades de direito, sobretudo as particulares (vide a diferença de aprovação entre as particulares e as públicas).
    A despeito de opinar sobre os principais temas nacionais, a participação política da OAB não pode ser hipertrofiada, já que ela tende a ser apenas formal, até pela qualidade ruim dos dirigentes da entidade. Hoje em dia não se pode imaginar que existam advogados com lastro político relevante, como era Rui Barbosa, por exemplo.
    Também vale mencionar que os grupos de escritórios, que dominam politicamente a OAB, são os piores patrões possíveis. Pagam salários baixos, não pagam verbas trabalhistas previstas legalmente e oferecem condições precárias de trabalho, sendo que o acúmulo de trabalho sobre os advogados não-sócios é uma regra.
    Na verdade, se os advogados tivessem uma representação institucional tão forte como os sindicatos, possivelmente não haveria tantos dos baixos salários na advocacia.
    Rodrigo

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    1. Rodrigo

      Visão curiosa essa. Grato pela colaboração.

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  4. Adonai,

    nesta semana saiu uma reportagem abordando um assunto relevante para quem pensa sobre educação universitária brasileira e seu respectivo status no mundo: (vide link abaixo)
    http://educacao.uol.com.br/noticias/2015/07/07/brasil-cai-em-ranking-de-universidades-do-brics-so-usp-fica-no-top-10.htm#comentarios
    Essa notícia atual simplesmente coroa as postagens suas Adonai, mostrando que as discussões feitas por ti são atuais e de relevância para uma reflexão mais amadurecida e que certamente não resvala no slogan "Brasil, patria educadora". Entretanto, gostaria de convidá-lo a escrever considerações adicionais sobre tal atraso .... Abraços

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    1. Marcelo

      O Brasil está apodrecendo de dentro para fora. Pensarei com cuidado sobre a sua proposta. Por enquanto, agradeço pelo importante apoio e pelo link. Vou divulgá-lo.

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