quarta-feira, 22 de abril de 2015

As mais importantes contribuições da história da ciência


Apresento aqui uma lista das mais importantes contribuições da história da ciência. Os critérios para a escolha são dois: (i) impacto social e (ii) longevidade das ideias inerentes às contribuições. As ideias aqui discutidas estão restritas aos ramos integrantes da hard science (ciências naturais e formais). Ciências humanas não são consideradas.

9) Philosophical Transactions. Philosophical Transactions of the Royal Society foi o primeiro periódico dedicado exclusivamente à comunicação de pesquisas originais, dando origem ao sistema de periódicos científicos hoje existente. A primeira edição foi veiculada em 1665. Hoje esta publicação se divide em Philosophical Transactions A e Philosophical Transactions B, sendo ainda uma das mais conceituadas revistas científicas. O nome é uma referência à filosofia natural, algo hoje conhecido como ciência. Não basta ter uma ideia. É fundamental torná-la pública. 

8) Teorema Fundamental do Cálculo. O Teorema Fundamental do Cálculo é um dos resultados mais surpreendentes e impactantes da história da ciência. Estabelece uma relação entre derivadas (que permitem modelar localmente fenômenos físicos) e integrais (que permitem resgatar comportamentos globais dos fenômenos modelados via derivadas). Os primórdios deste resultado remontam ao século 17, por iniciativa do britânico Isaac Newton e do alemão Gottfried Leibniz. E suas ramificações sociais persistem até os dias de hoje, fundamentando a física e encontrando aplicações imprescindíveis em engenharias, economia, ecologia, psicologia, medicina e ciências biológicas em geral, entre outros ramos do conhecimento. 

7) Teoria Heliocêntrica. Pensadores anteriores a Copérnico desenvolveram ideias para localizar a posição do ser humano perante o universo. Entre eles, os mais conhecidos são Aristóteles e Ptolomeu. No entanto, o polaco Nicolaus Copérnico foi o primeiro a conceber uma ideia na qual o ambiente em que vive o ser humano não é privilegiado. A teoria heliocêntrica coloca o sol como centro do universo. Essa visão cosmológica foi extraordinariamente polêmica no século 16, principalmente por conta de atritos com poderosas forças religiosas. Até mesmo Martinho Lutero (supostamente um revolucionário) protestou contra o heliocentrismo. Mas a semente foi plantada e germinou ao longo dos séculos, apesar de extrema dificuldade de divulgação da obra de Copérnico: o ser humano e suas crenças podem não ser tão importantes perante o Cosmos.

6) Teoria da Evolução das Espécies. A obra dos britânicos Charles Darwin e Alfred Wallace, publicada no século 19, mudou dramaticamente a biologia, conferindo uma coesa unidade para esse ramo do conhecimento. E também mudou radicalmente a visão então dominante sobre a identidade da espécie humana. Com uma proposta científica para explicar a história e a diversidade da vida na Terra, as ideias originais desses dois grandes pensadores já passaram por muitas mudanças significativas. Mas a visão essencial sobrevive: a vida hoje existente nem sempre foi o que é; ela se transforma sob a ação de princípios que podem ser avaliados racionalmente. O impacto social da teoria da evolução atingiu não apenas a ciência, mas também tradicionais crenças religiosas e até mesmo as artes, incluindo peças cinematográficas de perene repercussão, como Planeta dos Macacos e 2001 - Uma Odisseia no Espaço.

5) DNA. A descoberta feita em 1953 pelo britânico Francis Crick e pelo norte-americano James Watson, da estrutura da molécula que armazena informações genéticas, deu origem à biologia molecular. Ou seja, a compreensão da vida e de sua evolução depende fundamentalmente de uma visão físico-química. A repercussão da descoberta da estrutura molecular do DNA e de seu papel nos seres vivos atinge a medicina e até mesmo o sistema legal de nações, e ainda repercute no desenvolvimento de códigos de ética, entre outras consequências marcantes. O recente nascimento da engenharia genética promete também impactos muito mais radicais no século 21.

4) Máquinas de Turing. O britânico Alan Turing publicou em 1936 um célebre artigo no qual lançou as bases matemáticas da moderna computação digital. Seu trabalho consiste simplesmente em estabelecer o alcance e os limites daquilo que pode ser computado. Graças a avanços matemáticos e tecnológicos subsequentes, as ideias seminais de Turing viabilizaram o computador digital, que encontra aplicações em inteligência artificial, medicina, engenharias, educação, entretenimento, matemática, ciências biológicas, física, química, administração de empresas, artes, logística, estatística, arqueologia e inúmeras outras áreas da cultura humana.

3) Física quântica. Aqui estão incluídas a mecânica quântica, as teorias quânticas de campos e o modelo padrão. Ao contrário dos outros itens desta lista, a concepção da física quântica não pode ser atribuída a um, dois ou três nomes. Planck, Einstein, Bohr, Schrödinger, Dirac, von Neumann, Bohm, Heisenberg, Hilbert, Pauli, Born, de Broglie, Fermi, Bose, Dyson, Salam, Guell-Mann, Feynman, Schwinger, von Laue, Yukawa e o brasileiro Lattes são alguns dos nomes associados a esta que é, provavelmente, a mais bem sucedida teoria física da história, em termos de precisão em resultados experimentais, apesar de suas inconsistências com as atuais teorias cosmológicas. Além de mudar completamente visões intuitivas e filosóficas sobre o mundo em que vivemos, encontra aplicações em tecnologia de ponta com profunda repercussão social.

2) Geometrias Não-Euclidianas. A concepção das geometrias não euclidianas, devida ao russo Nicolai Lobatchevsky, ao húngaro János Bolyai e ao alemão Carl Friedrich Gauss, foi um divisor de águas na matemática e, consequentemente, nos ramos do conhecimento que a empregam. Os reflexos das geometrias não-euclidianas atingiram até mesmo a filosofia, incluindo principalmente a visão de Thomas Kuhn sobre ciência normal e ciência extraordinária. Matemática deixou de ser uma mera ferramenta aplicável ao mundo real e adquiriu um status genuinamente independente. Outra lição fundamental aprendida é que tradição (mesmo que seja milenar) não deve sustentar ideias científicas. O exemplo das geometrias não-euclidianas ensinou a comunidade científica mundial a pensar de forma independente, sempre em busca de novos modos de percepção.

1) Fogo. A mais impactante descoberta científica não foi feita por um ser humano, mas por ancestrais de nossa espécie: o domínio do fogo. E, associada ao domínio do fogo, temos a culinária. Sem o hábito de consumir alimentos preparados a base de fogo, nossa espécie ainda estaria passando a maior parte do dia ingerindo cerca de cinco quilos de alimento cru, apenas para garantir a mera sobrevivência. O fogo afastou predadores naturais, produziu conforto, gerou uma alimentação mais saborosa, saudável e calórica e garantiu a evolução de nossos cérebros. Tal evolução do cérebro humano abriu espaço para o nascimento da linguagem escrita, da agricultura, da urbanização, da ciência, da filosofia, da história e das artes. Sem fogo, você não estaria lendo postagem alguma neste momento, mas procurando por comida, com o único propósito de sobreviver. 

Aqueles que protestarem quanto à ordem acima apresentada ou quanto à ausência das teorias da relatividade de Einstein, da metodologia científica de Galileu, da impactante obra de Louis Pasteur, ou da Biblioteca de Alexandria, não se preocupem. Cada pessoa comprometida com ciência tem a sua própria visão a respeito do tema. A questão principal é que uma avaliação das mais importantes contribuições da história da ciência não deixa de refletir a visão pessoal de cada um sobre o que é realmente relevante. Quer fazer a sua lista?

38 comentários:

  1. Não seria o caso de mencionar os nomes de Raymond Gosling e, especialmente, Rosalind Franklin, ao falar da descoberta da estrutura do DNA?

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    1. Muitíssimo bem lembrado, Stafusa. A história da descoberta da estrutura molecular do DNA e seu papel para a vida é bastante conturbada.

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  2. FOGO! Claro...fiquei surpreso ao vê-lo aqui. Surpresa boa e muito bem explicada pelo articulista.

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    1. Ainda a roda, a agricultura e a domesticação?

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  3. Adonai

    Na minha lista não poderia faltar “Os Elementos” de Euclide, desde que é a compilação de todo o conhecimento matemático da época. Além disso é o precursor do método axiomático e o geradoras geometrias Não-Euclidianas…

    Outra observação sobre as geometrias Não-Euclidianas, o seu aparecimento evidenciou o fato de que geometria de fato é Física, o que a relatividade geral de Einstein confirmou, ideia que já tinha sido defendida por vários filósofos da matemática.

    Ainda constaria a Mecânica Hamiltoniana que fundamenta todas as demais teorias como a quântica e a relatividade…

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    1. Mariia

      De fato, Os Elementos é a obra científica de maior impacto na história.

      Com relação à mecânica hamiltoniana, realmente ela abriu portas para um universo de possibilidades.

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  4. Os explosivos criados por Alfred Nobel mudaram a humanidade, infelizmente no sentido bélico; as contribuições e idéias dos alquimistas; o que seria da filosofia-matematica moderna sem o livro Principia Mathematica? O que seria da relação entre perimetro da circunferencia e o proprio diametro sem o π? O que seria deste blog sem a elaboração da internet? Mas concordo com a "6) Teoria da Evolução das Espécies" porque o livro "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life" é um dos livros mais brilhantes e ja feitos desde a descoberta da escrita!

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    1. Marginal

      Confesso que fui intencionalmente tendencioso nesta postagem. Considerei apenas impactos construtivos. Assim como os explosivos de Nobel, poderíamos também lembrar da bomba atômica, cujo impacto social talvez seja maior do que até mesmo a Teoria da Evolução. Pessoas parecem se intimidar mais com uma ameaça nuclear do que com teorias.

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    2. Adonai

      Duas observações suas que me marcaram bastante: "Pessoas parecem se intimidar mais com uma ameaça nuclear do que com teorias." e " O Capistalismo só domina ainda a humanidade porque não é ideologia."
      Isso me faz pensar que o ser humano é violento e capitalista por natureza...

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  5. Eu colocaria a "Teoria da Evolução das Espécies" mais a frente nesta lista, e acho que na minha iria entrar as teorias de einstein.
    1 - Física Quantica
    2 - Teoria da evolução das espécies
    3 - Eletricidade
    4 - Geometria Euclidiana
    5 - Maquina de Turing
    6 - Teoria da Relatividade
    7 - Teorema do Cálculo
    8 - Teoria da Gravitação
    9 - Genetica
    10 - Vácinas

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    1. Danimar

      A elaboração de uma lista dessa natureza inevitavelmente revela tendências de quem a elabora. Ou seja, é muito provável que eu esteja sendo apenas ignorante ao não colocar a Teoria da Evolução mais na frente. E gostei de sua inclusão de Vacinas. Definitivamente a concepção de vacinas transformou a humanidade.

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  6. Adonai,

    alguns comentários:

    a) "o polaco Nicolaus Copérnico foi o primeiro a conceber uma ideia na qual o ambiente em que vive o ser humano não é privilegiado"

    A primazia não caberia a Aristarco de Samos?

    b) "Essa visão cosmológica foi extraordinariamente polêmica no século 16, principalmente por conta de atritos com poderosas forças religiosas"

    Apenas para dar uma noção mais exata da dimensão dos atritos, segue um trecho extraído do (excelente) livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental":

    Alguns estudiosos modernos de Copérnico afirmam que era padre, mas não existe nenhuma evidência direta de que tivesse chegado a receber as ordens maiores, embora tivesse sido nomeado cônego do cabido de Frauenburg no final da década de 1490. Fosse qual fosse o seu estado clerical, porém, o certo é que nasceu e se criou em uma família profundamente religiosa, na qual todos pertenciam à Ordem Terceira de São Domingos, a associação de fiéis vinculada à Ordem que estendera aos leigos a oportunidade de participar da espiritualidade e tradição dominicanas.

    Como cientista, Copérnico era uma figura de renome nos meios eclesiásticos, tendo sido consultado pelo V Concílio de Latrão (1512-1517) sobre a reforma do calendário. A pedido dos amigos, de colegas acadêmicos e de vários prelados, que o instavam a publicar o seu trabalho, Copérnico acabou por ceder e publicou Seis Livros sobre as Revoluções das Órbitas Celestes, que dedicou ao papa Paulo III. em 1543. Antes ainda, 1531, tinha redigido para os amigos um sumário do seu sistema heliocêntrico que viria a atrair as atenções até do papa Clemente VII; este convidaria o humanista e advogado Johann Albert Widmanstadt a dar uma conferência pública no Vaticano sobre o tema, ficando muito bem impressionado com o que ouviu.

    No seu trabalho, Copérnico conservou muito da astronomia convencional da sua época, a qual se devia quase por completo a Aristóteles e, acima de tudo, a Ptolomeu (87-150 d.C), um brilhante astrônomo grego para quem o universo era geocêntrico. A astronomia copernicana partilhou com a dos seus precursores gregos alguns aspectos, tais como a perfeita esfericidade dos corpos celestes, as órbitas circulares e a velocidade constante dos planetas. Mas introduziu uma diferença significativa ao situar o Sol, ao invés da Terra, no centro do sistema; no seu modelo, a Terra e os outros planetas moviam-se em tomo do Sol.
    Apesar do feroz ataque dos protestantes, que viam no sistema copernicano uma frontal oposição à Sagrada Escritura, esse sistema não foi objeto de uma censura católica formal até que surgiu o caso Galileu.

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    1. Enfant

      Enquanto escrevi o trecho sobre Copérnico, pensei muito se eu manteria a redação "foi o primeiro". Geralmente esse tipo de afirmação gera polêmica. É como comparar Einstein com Poincaré, para decidir quem pensou antes na teoria da relatividade restrita. Decidi pela versão acima apresentada por conta, principalmente, dos critérios escolhidos: impacto e longevidade. O que hoje se sabe sobre a obra de Aristarco de Samos se deve principalmente a citações feitas por Arquimedes e Plutarco. A maioria dos textos de Aristarco foi destruída. Além disso, Aristarco parece ter sido influenciado por Filolau de Crotona, o primeiro a propor uma Terra em movimento. Porém, não há evidências sérias de que Copérnico tenha sido influenciado por Aristarco. O fato é que as ideias de Copérnico atendem aos critérios de impacto de longevidade, diante da realidade que começou com a ruína da Biblioteca de Alexandria e o nascimento da Era Cristã.

      Com relação às forças religiosas que menciono na postagem e que você questiona, não conheço o livro que você cita. Mas o pouco que conferi, agora há pouco na internet, sugere que se trata de uma tese muito semelhante às ideias defendidas por Pierre Duhem, pioneiro na defesa do cristianismo (particularmente o catolicismo) como um agente de construção da civilização ocidental, especialmente na Idade Média.

      Com relação a objeções à obra de Copérnico, elas não foram apenas de caráter religioso. E essa omissão foi falha minha. Uma excelente discussão se encontra no link abaixo.

      http://plato.stanford.edu/entries/copernicus/

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    2. Oi, Adonai

      comentando:

      01 - "É como comparar Einstein com Poincaré, para decidir quem pensou antes na teoria da relatividade restrita."

      Einstein e Poicaré foram contemporâneos, mais de mil anos separam Aristarco de Copérnico...

      02 - "Decidi pela versão acima apresentada por conta, principalmente, dos critérios escolhidos: impacto e longevidade."

      A ideia heliocêntrica pode ter tido maior impacto e longevidade com Copérnico, mas a primazia é de Aristarco. São duas coisas diferentes. Mas a ideia de Aristarco também causou forte impacto em sua época, ele foi acusado de impiedade. Várias referências o mencionam como o Copérnico da Antiguidade. Desculpe a insistência, é que a ausência de menção a Aristarco grita-me como uma injustiça de sua parte.

      03 - "O que hoje se sabe sobre a obra de Aristarco de Samos se deve principalmente a citações feitas por Arquimedes e Plutarco. A maioria dos textos de Aristarco foi destruída."

      Mas e daí? Primazia é primazia, independente de seus escritos terem sido perdidos ou não. Ele mereceria no mínimo uma citação sua ao lado de Copérnico, da mesma forma que você citou (corretamente) Wallace ao lado de Darwin.

      04 - "Além disso, Aristarco parece ter sido influenciado por Filolau de Crotona, o primeiro a propor uma Terra em movimento."

      Mas Filolau não colocou a Terra girando em torno do Sol, embora a colocasse (e ao Sol também) girando em torno de um fogo central. Estamos discutindo aqui a primazia da ideia heliocêntrica.

      05 - "Porém, não há evidências sérias de que Copérnico tenha sido influenciado por Aristarco. O fato é que as ideias de Copérnico atendem aos critérios de impacto de longevidade, diante da realidade que começou com a ruína da Biblioteca de Alexandria e o nascimento da Era Cristã."

      A ideia de Aristarco também causou impacto, embora não tão grande como na época de Copérnico. E não sei que ideia você tem da ruína da Biblioteca de Alexandria, mas posso lhe assegurar que a imagem da grande biblioteca ardendo, reduzindo a cinzas boa parte do conhecimento humano, é um mito. Não vou entrar em detalhes aqui, mas posso lhe adiantar que havia muitas cópias de muitos livros em vários lugares, e que o trabalho de compilação salvou uma boa parte do conhecimento que merecia ser salvo. Por exemplo, pouco havia na Matemática grega que valesse a pena além do que foi efetivamente salvo de Euclides de Alexandria (sua própria obra, os “Elementos”, era um compêndio) e de seus comentadores, de Arquimedes de Siracusa, de Apolônio de Perga, de Diofanto de Alexandria, de Papos de Alexandria, mesmo de Cláudio Ptolomeu de Alexandria. O essencial se manteve; no caso específico do exemplo que dei, o da Matemática, veja, as obras de todos esses alexandrinos sobreviveram, mesmo com o tal “incêndio” (que não ocorreu, ao menos no modo que a mitologia popular imagina...). Claro que houve perdas, claro que lacunas se formaram, mas, no geral, o arcabouço foi mantido.

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    3. Enfant

      Seu argumento para sustentar que fui injusto em relação a Aristarco é, sem dúvida, interessante. Mas, como você já deve ter percebido ao longo de várias postagens, sou adepto à necessidade de fontes originais. E extensa obra de Aristarco foi perdida. Sem dúvida posso estar sendo injusto. Mas é o critério que prefiro adotar. Porém, de forma algum defendo que este critério seja inquestionável. Por isso mesmo acho seu argumento interessante.

      Com relação a obras perdidas da Biblioteca de Alexandria, creio que seja ousado demais sugerir que o que havia de mais relevante na matemática grega foi salvo da destruição. Não apenas obras de Aristarco foram perdidas, mas também de Hipacia de Alexandria. Aparentemente Hipacia contava com uma obra extraordinariamente rica, que foi dizimada em nome de Deus, mas por motivos reais muito terrenos.

      Portanto, não vejo como defender de forma inquestionável que algum "arcabouço" foi preservado. Mas, um dia, quem sabe, poderemos responder a essas questões.

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  7. Tudo isto é, no mínimo, impressionante... E pensar que há pessoas que detestam a ciência simplesmente pelas suas crenças dogmáticas que mais cegam e atrapalham a descoberta de questionamentos e contemplações com a vida que testemunhamos desde crianças tão naturalmente; não é a toa que a ciência, na dita idade "moderna", era chamada de filosofia natural.

    Além disso, fiquei instigado com a listagem sobre o DNA em sua lista, me fez lembrar sobre um livro que ainda não pude ler e que devo quando puder, isto é, "O que é a vida?" de Schrödinger.

    Henrique Trindade

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    1. Henrique

      Este livro de Schrödinger foi uma das principais influências sobre a obra de Francis Crick. É um livro magistral.

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  8. Prezado Adonai,
    o elemento fogo parece ser um estranho na sua lista e o único pré-histórico. Pessoalmente tenho certeza que espécies mais avançadas que a nossa podem ou já se desenvolveram em ambientes onde fogo inexiste.
    Sim, forjamos o mundo e nós mesmos com fogo. Não vingaríamos como espécie sem. A civilização é movida a fogo, chegamos à Lua em 'fogoetes'! Seu uso mudou nossa história muito antes de chegarmos a compreende-lo, da mesma maneira que estamos transformando nosso utilizando as propriedades quânticas da matéria, que ainda não conseguimos entender completamente. Contudo, outros aspectos inerentes à nossa história evolutiva, como o fato de podermos ficar em pé e manipular objetos, podem ser entendidos como até mais importantes do que o fogo para a sobrevivência e desenvolvimento de nossa espécie tal como ela é. Então, neste sentido, entendo que as 10 maiores contribuições para a nossa ciência, todas pré-históricas, estão relacionadas com o desenvolvimento do que chamamos consciência. Todas estão fortemente amarradas com conceitos tão fundamentais para o pensamento científico que nem nos damos conta delas. Minha lista:
    1.Causalidade
    Quando tomamos consciência deste princípio, entendendo que depois que o tigre-dentes-de-sabre encontra-se com um neandertal, o amigo já era e a culpa foi do tigre, demos um salto evolutivo aplicando o princípio a outros raciocínios e conceitos.
    2.Generalização
    Se o dentes-de-sabre pode comer a tia e o irmão, então pode comer qualquer parente. Este é um passo intelectual não trivial, que dá a vantagem de dispensar transmissão de informação via genoma.
    3.Indução
    Não basta ver o tigre comer um parente por dia, é preciso induzir que, se nada mudar a situação, o próximo pode ser você. Este princípio empregado junto com os dois anteriores propiciou outro salto evolutivo.
    4.Quantificação e enumeração
    Saber quantos mamutes são necessários para alimentar a prole, que cresceu depois que os dentes-de-sabre foram eliminados, foi outra vantagem enorme em relação aos que gastavam energia demais caçando toda a manada ou aos que levavam apenas um mamute e tinham de passar a noite fora da caverna por conta do mau humor da patroa.
    5.Cronologia
    Se o amigo da lua demorasse mais de uma lua para voltar para sua caverna, pode ser que encontrasse a mulher nos braços de outro, e possivelmente a prole morta. Planejar e executar ações considerando o fluxo do tempo é vantajoso.
    6.Relação de ordem
    Caçar o maior mamute com o menor esforço não é fácil. Comparar conceitos como perto/longe, menor/maior, rápido/lento permitiu otimizar ações. Outra vantagem.
    7.Tentativa e erro
    Esta é a primeira das não diretamente relacionadas à capacidade cognitiva. Mas é um princípio fundamental de todo empreendimento humano, ciência inclusive.
    8.Fogo
    9.Ferramentas
    Sem os utensílios para corte como o sílex ou bambu usado na china pré-histórica estaríamos praticamente na mesma que os outros símios. Muitos pesquisadores acreditam que a produção de ferramentas e potes contribuiu em muito no desenvolvimento de nosso córtex.
    10.Listas de coisas
    Comecei a ler esta postagem com muita desconfiança. Puro preconceito contra listas. Pensando nisso concluí que listar coisas foi um grande passo para o desenvolvimento da ciência. As listas, começando com as de animais caçados ou de inimigos trucidados, que decoraram nossas cavernas foram um prenúncio da escrita, devem ter fortalecido a capacidade de fazer cronologias e certamente levaram ao registro dos eventos celestes e a astronomia, só para começar. De modo geral, todas as ciências naturais começaram como listagens, de seres vivos, roxas, elementos químicos, etc. Em última análise, a Philosophical Transactions não é muito mais do que uma lista de artigos científicos.
    Professor, não quero ser desrespeitoso com minha forma de escrever, nem parecer fora da casinha, mas admito estar demasiadamente longe do pensamento acadêmico, que certamente é a referência. Por isto peço sua ajuda, para me esclarecer se estas ideias minhas estão longe demais do aceitável.
    Abraço,
    Daniel

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    1. Grande Daniel

      Eu também não gosto de listas, principalmente feitas por outros. Mas gosto de pensar em minhas próprias listas. E você igualmente pensou em uma. É claro que eu poderia manter a lista que fiz apenas para os meus olhos. Mas decidi compartilhar, simplesmente porque sempre desejo estimular discussões, mesmo que eu corra o risco de expor bobagens.

      Gostei muito da lista que você fez. Certamente coloca a cuca pra funcionar. Mas confesso que fiquei intrigado com uma afirmação sua: "Pessoalmente tenho certeza que espécies mais avançadas que a nossa podem ou já se desenvolveram em ambientes onde fogo inexiste." Você poderia detalhar isso?

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    2. Prezado Adonai,
      como a discussão que seguiu, sobre TE, me pareceu mais interessante do que qualquer coisa que eu tivesse a dizer demorei em te responder. Certamente a TE tem tudo a haver com o que eu deveria escrever, mas não posso escrever por pura falta de conhecimento de causa. Contudo não vou me Abster em defender o que te disse. Minha argumentação está muito mais para a de Giordano Bruno do que para Galileu Galilei. Ambos defenderam e ampliaram as idéias de Copérnico, mas só Galileu apresentou argumentos novos e concretos. É claro que eles eram pensadores e eu um viajante.
      Estou um pouco arrependido em ter me metido nisso pois me deu mais trabalho pensar em como justificar esta pequena frase do que deu escrever a lista que fiz.
      então vou apenas resumir minhas premissas sem justificar:
      1) vida está condicionada apenas à manutenção e replicação de informação;
      2) consciência e inteligência são consequências altamente prováveis da vida;
      3) mais de 99% da matéria visível do universo é plasma;
      4) plasma existe desde antes do surgimento das estrelas;
      5) desconheço impedimento para o surgimento de vida no plasma (esta é a mais frágil);
      6) não faz sentido falar em fogo no plasma;
      Assim juntando estas premissas creio que consigo dar uma mínima sustentação para minha afirmação de que devem existir seres maiis avançados onde não faz sentido falar em fogo.
      Estou ciente que isto parece papo de maluco mas creio que é um bom chute.

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    3. Caro Daniel

      Sem dúvida a ideia é intrigante. Realmente parece papo de maluco. Mas esse tipo de papo maluco sempre me interessou. Grato pela curiosa resposta.

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  9. Bem, vejo a TE de Darwin irrelevante na Biologia Moderna. Não estou me referindo a genética, obviamente, mas o cerna da TE de Darwin, a macroevolução. Mas antes de explicar o porque disso, é de ajuda elucidar em quê a Teoria da Evolução, ou a Teoria Neo-Darwinista, é fundamentada :

    1 - A Tese do Ancestral Comum
    2 - A Tese das Mutações Aleatórias e da Seleção Natural

    Meus comentários sobre a Teoria da Evolução, obviamente, serão relacionados à essas duas teses. Uma palavra que vou usar muito daqui pra frente, no meu discurso, é "extrapolação".

    Muitos de nós provavelmente pensa que se pudéssemos mostrar que mutações aleatórias e seleção natural, explicassem, por exemplo, como um morcego e uma baleia poderia evoluir a partir de um ancestral comum, teríamos certamente mostrado o poder dos mecanismos evolutivos. Mas na Evolução, essa demonstração hipotética (pois ninguém jamais conseguiu tal prova), seria absolutamente irrelevante em comparação com a grande variedade da vida. Bem, pode-se pensar também que se mutações aleatórias e seleção natural pudessem explicar, por exemplo, a evolução de um cavalo a partir de um animal de vários-dedos, seria uma poderosa evidência para a eficácia dos mecanismos Darwinianos. Considere a imagem da FIGURA 1 abaixo:

    http://www.talkorigins.org/faqs/comdesc/images/phylo.gif

    Nessa imagem, FIGURA 1, se vê os vários filos, ou grandes grupos, do Reino Animal. Agora, observe o grupo do topo em que o morcego e a baleia são ambos mamíferos. Essa é apenas uma subcategoria dos cordados. Então, juntamente com répteis e aves, você tem estes dois mamíferos -morcego e baleia- que pertencem a este único filo dos cordados. Assim, percebe-se que a evolução de um morcego e de uma baleia a partir de um ancestral comum, é "café pequeno" e uma trivialidade em comparação com a vasta gama do Reino Animal. Isso nada sugere, para explicar, por exemplo, como uma baleia e um ouriço-do-mar (que se vê em outro filo), poderia evoluir a partir de um ancestral comum. Sem falar do morcego e da esponja (que é ainda um filo mais distante). Poderia citar milhares e milhares de outros. E o que isso indica? Que a extrapolação dos mecanismos explicativos da nossa experiência limitada para a história da evolução da vida, é uma extrapolação de proporções gigantescas!

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  10. Se esta extrapolação não foi de tirar o fôlego, considere a FIGURA 2 abaixo (Árvore da Vida) :

    http://www.texscience.org/rep.../800px-Phylogenetic_tree.png

    Na FIGURA 2 (Árvore da Vida), todos filos da FIGURA 1 (isto é, toda FIGURA 1), estão contidos no pequeno galho onde diz "Animals". Eu amo essa modéstia! Todos filos, todo o Reino Animal, está contido naquele pequeno galho chamado "Animals". Note que também há um galho chamado "Plants". Lá estão contidas todas as plantas.Todo o Reino Vegetal está contido naquele pequeno galho. E estes são apenas dois galhos no ramo dos eucariontes, que são animais que possuem células com núcleo. Há ainda outros domínios, como os de certas bactérias, a serem contabilizados. A extrapolação da eficácia destes mecanismos darwinianos -seleção natural e mutação aleatória- das experiências, para produção e evolução de todos os seres vivos, é uma extrapolação gigantesca de tirar o fôlego, concorda? Ora, sabemos, pela História da Ciência, que tais extrapolações geralmente falham. Vamos sair um pouco da Biologia, e ir para nossa área, Física, para exemplificar isso : a tentativa de Einstein em extrapolar um princípio da relatividade geral para o movimento de corpos acelerados e em rotação. É um belo exemplo de extrapolação mal sucedida (existem muitos outros). Einstein foi incapaz de enunciar com sucesso um princípio da relatividade geral que pudesse eliminar rotações e acelerações absolutas. Em vez disso, o que ele descobriu foi uma nova Teoria da Gravidade, uma das suas maiores descobertas. A Teoria da Relatividade Geral não é realmente uma teoria relativística no sentido de eliminar rotações e acelerações absolutas. É uma teoria gravitacional, que enuncia uma nova teoria da gravidade, que substitui à de Newton. Embora Einstein teve sucesso limitado na Teoria Especial na eliminação do movimento uniforme absoluto , descobriu-se que este princípio não pode ser extrapolado, de modo a relativizar todo movimento. Da mesma forma, somos obrigados a perguntar, no caso dos mecanismos de mutação aleatória e seleção natural, que são os fundamentos da Evolução : "Qual é a evidência para esta extrapolação extraordinária a partir do desenvolvimento limitado que se vê através dos mecanismos de mutação aleatória e seleção natural, para o grande cenário da evolução?". Vamos considerá-las. As evidências típicas que são oferecidas em nome dos mecanismos darwinianos para sustentar a hipótese de mutações aleatórias e seleção natural nos bilhões de anos, são coisas como :

    1. Experiências genéticas para produzir novos tipos de rosas, cavalos, sementes, galinhas [...]
    2. Os experimentos com as mariposas na Inglaterra, em que mariposas coloridas e mariposas escuras variavam sua população com base na quantidade de poluição industrial que escurecia as árvores.
    3. E por fim, a resposta de bactérias e outros microorganismos às drogas - mutações que causam resistência nas bactérias por exemplo- de modo que temos de desenvolver novas drogas para "matar" tais microorganismos, visto que sofrem mutações deixando-lhes mais resistentes.

    A Teoria Neo-Darwinista, extrapola todas essas supostas evidências, tal como Jonathan Wells ressalva:

    O problema mais fundamental da teoria da evolução, a origem das espécies, permanece por ser resolvido. Apesar de séculos de reprodução artificial, e décadas de experiências em laboratório, nunca ninguém chegou a observar a especiação (a evolução duma espécie para outra) através da variação e da selecção. O que Darwin afirmou que era verdade para todas as espécies nunca foi observado em espécie alguma. (The Politically Incorrect Guide to Darwinism and Intelligent Design, 2006, p. 64).

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  11. Se fosse um biólogo iria trabalhar para tentar melhorar a Teoria da Evolução, que já se tornou um paradigma da Biologia Moderna ou descartá-la de vez. Faria isso, ao invés de ficar por aí afirmando que a Evolução é um fato e que não devemos questioná-la, como vejo a mídia mainstream fazer, e até mesmo alguns biólogos formados. E por incrível que pareça, colocar tal teoria, em pé de igualdade com a Física Quântica, tão respaldada e cheia de aplicações! A TE de Darwin, por outro lado, é uma teoria que não é testável.

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    1. Douglas

      Não estou colocando a teoria da evolução em pé de igualdade com a física quântica, da mesma forma que não coloco em pé de igualdade as geometrias não euclidianas e a teoria heliocêntrica. Todas as teorias das ciência reais apresentam problemas. A própria física quântica apresenta inconsistências preocupantes. Um exemplo bem conhecido é a relação spin-estatística, demonstrada no regime relativístico e aplicada no regime não-relativístico.

      A questão é que teorias da física quântica e a teoria da evolução abriram portas para a ciência, de uma forma que raramente se testemunha.

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    2. "A TE de Darwin, por outro lado, é uma teoria que não é testável."

      No livro “O Relojoeiro Cego”, Dawkins cita três meios de refutação da Teoria da Evolução:

      - Com achados fósseis. Se encontrarmos um fóssil de um mamífero, cuja datação radioativa apontar na mesma época dos dinossauros, e em uma região onde a abrangência fóssil de Dinossauros for significativa, diga: “Adeus evolução”.

      No mesmo livro, Capítulo 10, Dawkins cita outra maneira de refutar a Teoria da Evolução:

      - Análise comparada de proteínas. A evolução prevê seqüências muito próximas de cadeias polipeptídicas em espécies cuja Biologia diz ser muito próximas.

      Se na análise as sequências forem muito diferentes, estatisticamente, então isso seria uma evidência contrária à evolução, o que a refutaria.

      Dawkins cita outro caso que poderia falsear a evolução no mesmo livro: a demonstração da complexidade irredutível.

      Teoricamente, se fosse demonstrado que um órgão complexo não poderia ter sido formado por sucessivas e pequenas modificações ao decorrer do tempo, seria um dano letal à teoria.

      Essa questão do gradualismo parece ser um ponto na T.E onde teoricamente o falseamento é possível, mas não há meios metodológicos para falsear.

      Até hoje ninguém conseguiu demonstrar a impossibilidade do gradualismo, parece realmente ser uma premissa não falseável (na prática) na teoria.

      Apesar de existirem fósseis intermediários mostrando pequenas modificações ao longo do tempo, ainda não encontramos meios para testar o gradualismo, e, até hoje, ninguém encontrou um método capaz para por à prova tal premissa central na evolução.

      A evolução por ser uma teoria muito ligada ao tempo, parece ter premissas falseáveis e outras não. Felizmente a mesma é falseável em algumas premissas, em outras, aparenta não ser. Se pudéssemos voltar ao tempo, tudo poderia ser resolvido.

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  12. Checando fontes confiáveis é fácil saber que já se observou especiação sim, inúmeras vezes.

    Vários exemplos - "baleias" orcas, plantas Tragopogon, vários peixes, borboletas Heliconius, moscas Rhagoletis - são mencionados numa antiga matéria da Scientific American:
    http://blogs.scientificamerican.com/science-sushi/evolution-watching-speciation-occur-observations/

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  13. Stafusa, não há evidências observáveis da mudança de espécies. Como disse, não me refiro à genética. Variabilidade genética é algo bem conhecido dentro de um espécie, como o Darwin testemunhou com os tentilhões, ou até mesmo entre nós seres humanos (afinal de contas um japonês, e eu, um ocidental, ainda somos homo sapiens). Porém, variabilidade genética, não deve servir como evidência para a macroevolução, pois são coisas que não se relaciona. A hereditariedade certifica-se disso. A Evolução, por outro lado, é uma tentativa de explicar como insetos, peixes, plantas e até mesmo seres humanos surgiram a partir da, a princípio, da geração espontânea. Bem, enfim, apenas quis deixar minha contribuição aqui para mostrar rapidamente que a Evolução é uma hipótese, ainda hoje, realmente problemática.

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    1. Leia http://www.talkorigins.org/faqs/comdesc/ para 29 evidências da macroevolução.

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  14. Olha que interessante, Enfant, logo na página 1, eles usam a mesma figura que usei no meu comentário, o da Àrvore da Vida. Sinceramente? Eu acho que pode-se ver claramente que tais experiências não fazem muito para justificar a extrapolação dos mecanismos neo-darwinistas na produção da história evolucionária grandiosa da vida. Na verdade, muito pelo contrário! Tais experiências, mostram os limites encontrados na produção das variedades desejadas. Posso citar como exemplo disso, o célebre estudo das moscas-da-fruta que dura mais de 1 século e com pelo menos 3000 mutações induzidas nas moscas a fim de que uma nova espécie fosse gerada ou que uma "boa" mutação surgisse nas moscas; sabe quais foram todos os resultados? Aberrações. O experimento que poderia ser uma forte prova da Evolução, a colocou numa posição frágil. Mesmo selecionando as moscas menos aberrantes, nenhuma delas conseguiu "entregar" a Evolução. Essas experiências com animais geneticamente modificados, só fizeram elucidar os limites que a seleção natural e a mutação aleatória podem realizar. O que esperávamos que confirmaria a hipótese neo-darwinista, teve um efeito contrário ; a refuta. Vamos tomar agora às experiências com as mariposas. Chamar tal evidência das célebres mariposas inglesas de "insignificante", seria creditá-la um elogio indevido. O que aconteceu nesse caso foi que a proporção de mariposas coloridas diminuiu, e que a de mariposas pretas, cresceu. Mas as mariposas coloridas, nunca evoluíram para mariposas escuras. Portanto, tomando como evidência o poder da seleção natural e mutações aleatórias, para produzir a grande mudança evolutiva, seria realmente pagar um elogio indevido chamar tais evidências das mariposas e de outros experimentos, como "insignificante".

    O conceito de mutações aleatórias, que é um dos princípios da Teoria Neo-Darwinista, reforça o quão improvável é o surgimento da vida e seu desenvolvimento pela evolução química. Qual é a evidência de que a seleção natural operando em mutações aleatórias? Mesmo em bilhões e bilhões de anos, isso nada me diz a favor dessa hipótese. A probabilidade que eu ganhe 10 vezes seguidas na mega-sena num sorteio, será tão absurdamente improvável quanto a probabilidade que eu ganhe na mega-sena 10 vezes seguidas em 1 bilhão de sorteios. Não importa se isso foi em trilhões de anos. A probabilidade de tais eventos sucessivos ocorrerem, como a formação de um órgão por pura evolução química às cegas, é absurdamente improvável. Não é apenas o órgão que deve evoluir, mas toda a estrutura morfológica e fisiológica do organismo, compativelmente, e simultaneamente. Não é apenas "uma mutação". Colocar o tempo ou a "arena" em uma "eternidade", não faz da evolução, mais provável. Uma comparação rude, mas qualitativamente equivalente, seria a de colocar peças de um avião numa casa, e deixá-las por bilhões de anos até que por algum raio ou outro fenômeno natural sucessivo, aquelas peças formassem pouco a pouco, um avião! Na verdade, essa não é uma boa comparação. Com a Vida, é ainda mais "milagroso".

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    1. Douglas, sugiro que leia o artigo de Dawkins, "A Ilusão do Design", que mostra o erro probabilístico que você comete:

      http://www.ceticismoaberto.com/ciencia/2547/a-iluso-de-design

      O texto até cita o exemplo que você deu do avião.

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  15. Vou ler e comentar mais tarde. Enfant, você citou o Dawkins que disse que é possível refutar a TE de Darwin através do registro fóssil. Bem, é de amplo conhecimento que não se vê no registro fóssil ancestrais simples, tornando-se complexos. Além das coisas que citei sobre extrapolação, há muitos outros problemas da TE, como por exemplo, à origem dos sexos. Como organismos diferentes, poderiam originar através de mutações aleatórias, dois órgãos completamente distintos, mas totalmente compatíveis, numa mesma época e num mesmo local? Será mesmo que cometo um erro probabilístico nesse sentido? Até os dias de hoje, a origem dos sexos, é um tema controverso dentro da TE de Darwin. Será mesmo que o design nos organismos é uma ilusão? Me parece que mutações aleatórias originando dois órgãos sexuais compatíveis em organismos distintos numa mesma época e local, que é ilusão.

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    1. O problema é que para você a teoria da evolução de Darwin-Wallace está baseada numa combinação de mutações aleatórias e seleção natural. Não está. Na época de Darwin-Wallace (Fase 1), não havia sequer o conceito de mutações aleatórias. O que se entendia era seleção natural e seleção sexual. Seleção sexual quer dizer a seleção daqueles (genes) que vão morrer e daqueles (genes) que vão prosperar. E as mudanças no organismo, como seriam? Aleatórias? Lamarckianas? Cegas? Darwin pensava que elas eram...lamarckianas. Depois surgiu a teoria neo-darwinista da evolução (Fase 2). Nesta teoria surgiu a ideia de mutações cegas, mutações aleatórias, como a fonte de mudança nos organismos. Só que este é um conceito antigo e errado. As mutações não são aleatórias, não do jeito que a maioria das pessoas pensa. Então chegamos à Fase 3, e aí é importante ler os escritos de James Shapiro, em http://shapiro.bsd.uchicago.edu/publications.shtml. Shapiro introduz a noção de 'inteligência bioquímica'. Shapiro apresenta uma terceira via como sendo uma alternativa a Dawkins (neodarwinismo caduco) e Behe (design inteligente emburrecedor). A teoria evolutiva atual não é neo darwinista. A comunidade científica *continua* se dizendo neo darwinista ou mesmo darwinista sem nem mesmo pensar a fundo o que quer dizer ser darwinista ou ser neo darwinista. À luz dos conhecimentos da teoria evolutiva atual e da ciência evolutiva atual, um biólogo evolutivo se dizer neo darwinista ou se dizer darwinista é a mesma coisa que um químico se dizer alquimista. O problema é que se um biólogo evolutivo se disser darwinista, nada acontece. Contudo se um químico se disser alquimista, ele perde o emprego. Isso dá margem a que pessoas como Richard Dawkins não apenas se digam alquimistas (neo darwinistas e darwinistas) como, de quebra, nos declarem que existe de fato a pedra filosofal (mutações aleatórias como a fonte das novidades evolutivas sobre as quais atuarão a seleção natural).

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    2. Algumas citações:

      01 - Livro "Evolution,"de Nicholas H. Barton et al (2007). Este livro obteve reviews muito favoráveis de publicações acadêmicas de prestígio, como Nature Genetics. Link: http://evolution-textbook.org/index.html

      Pág. 347- In fact, mutation is actively regulated and manipulated in organisms in many ways. (induced under stress, increased in specific regions of the genome) see chapter 23... ...For now, note that even when there is some control over the rate of mutation, the particular mutations that are seen are not directly linked to their adaptive value.

      Pág. 659 - Mutation is inevitable, because the genetic material cannot be replicated with perfect accuracy. However, mutation rates are under genetic control... However, there is also evidence that mutation rates are not as low as they could be.... ...So we need to explain why mutation rates are as they are.

      Págs. 662-663 - Some genes have evolved mechanisms to raise their mutation rate. .. ... evolution of high mutation rates at these particular loci. ... Pathogenic bacteria have evolved a variety of mechanisms for increasing mutation rates at specific *contingency loci*. Most involve *microsatellites*

      Págs. 715-717 - "In particular, some scientists emphasize the importance of *exploratory systems* that constrain and shape initially random variation so as to produce a final well-coordinated outcome. There is a loose analogy with natural selection, which shapes random variation over many generations of replication to produce organisms with high fitness. Indeed, in some cases these systems actually depend on natural selection between replicating lineages within a developing organism. ... ...A simple example is the development of vertebrate limb. ... ...The vertebrate immune system relies on natural selection ...In this section, we have emphasized processes that allow complex organisms to be coded by compact genomes and to develop reliably despite unpredictable perturbations. These features also make it much easier to generate novelties, because any change is likely to at least maintain existing functions and may specify an advantageous se of coordinated phenotypic changes without requiring an improbable coincidence of multiple changes to the genome."

      02 - "Evolution" (2005) de Futuyma.

      Pág. 461 – The Origin of New Genes. These mechanisms (for the origins of genes) include lateral gene transfer, exon shuffling, gene chimerism, retrotransposition, motif multiplication, and gene duplication. [nota: Futuyma lista como meios para o surgimento de novos genes vários mecanismos que claramente caem fora do que se consideraria serem erros; eles se encaixam mais apropriadamente na categoria "changes performed by the cell's machinery, often as an attempt to increase its survival capabilities"].

      Resumindo, os organismos podem realizar duas coisas: 1- Reduzir as alterações indesejadas. 2- Aumentar a possibilidade de que alterações (mutações) serão do tipo vantajosa. Uma vez que, no que diz respeito a este último, é impossível para a célula (pelo menos quase sempre) saber exatamente qual mudança é necessária, o melhor que ela pode fazer é direcionar as alterações para onde é mais suscetível de produzir resultados benéficos. Ela pode, assim, tanto *dirigir as próprias alterações* quanto também *restringir o tipo de mudanças* que será feito.

      Isso é o que Shapiro cunhou como engenharia genética natural.

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  16. Sim, eu me refiro ao Neo-Darwinismo como pode-se ver no meu comentário. Acho interessante você referir algo como "inteligência bioquímica" como uma terceira via ao neo-darwinismo. Mas será que essa palavra é adequada, "inteligência"? Me parece que a teoria cada vez mais se aproxima do Design Inteligente de Behe. O fato é que o Neo-Darwinismo não é um fato estabelecido e ainda carece de explicações (inclusive testáveis) de seus mecanismos fundamentais. O resto é pura especulação e extrapolação, para dizer de modo curto e grosso. O biólogo evolucionista Francisco Ayala, diz que a palavra "evolução", pode ser usada para dizer pelo menos 3 coisas diferentes :

    1 . O processo de mudança e diversificação dos seres vivos ao longo do tempo. É neste sentido que os biólogos dizem que a evolução é um fato. Mas, obviamente, este fato é inócuo para o Criacionismo e não seria disputado até mesmo pelo mais fundamentalista teórico da Terra Jovem Criacionista.

    2. Reconstrução da história evolutiva, mostrando como várias linhagens ramificaram-se uma das outras na árvore universal da vida.

    3. Os mecanismos responsáveis por mudanças evolutivas. Darwin recorreu à seleção natural operando com variações aleatórias nos seres vivos, a fim de explicar a adaptabilidade dos organismos ao seu ambiente. Com o desenvolvimento da genética moderna, mutações genéticas vieram para dar suporte o mecanismo darwiniano de seleção natural, fornecendo uma explicação para as variações em que a seleção natural atua. Assim, podemos chamar essa hipótese "neo-darwinismo".

    Evolução nos sentidos de 2 e 3 não é um fato estabelecido, apesar do que é dito e do que se acredita na cultura popular. Se você pensou em evolução, no sentido de 1, é realmente um fato estabelecido. Mas no sentido de 2 e 3, há muito boas razões para ceticismo sobre os mecanismos neodarwinistas por trás da mudança evolutiva. A adequação desses mecanismos é hoje fortemente contestada por alguns dos principais biólogos evolucionistas. Segundo Ayala, "A segunda e terceira questões-que procuram verificar a história evolutiva, bem como para explicar como e por que a evolução ocorre, são questões de investigação científica ativa[...] Muitos assuntos são menos certos, outras são conjectural, e ainda outros. . . permanecem largamente desconhecidos "(Darwin e Design Inteligente). Com relação a (2) Ayala enfatiza: "Infelizmente, há muito, muito, muito a ser descoberto ainda. Para reconstruir a história evolutiva, temos de saber como os mecanismos funcionam em detalhes, e nós temos apenas uma vaga idéia de como eles operam a nível genético, como a mudança genética está relacionada ao desenvolvimento e para funcionar. . . . Eu estou querendo dizer que o que seria descoberto seria não só detalhes, mas alguns princípios importantes ". Além disso, rejeitar a teoria evolutiva darwinista não significa necessariamente adotar uma visão sobrenaturalista; a Teoria de Darwin tem algumas inconsistências, que é um paradigma da Biologia Moderna. Biólogos de renome até dizem que o "Neo-Darwinismo está morto.

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  17. Douglas, só vi hoje sua resposta. Comentários:

    a) Mas será que essa palavra é adequada, "inteligência"?

    Sim, se você entender inteligência como a capacidade de um sistema de interagir com seu ambiente de modo adaptativo, garantindo seu bem estar e sobrevivência. Sobre essas e outras questões, recomendo a leitura do texto: http://obraspsicografadas.org/2012/o-que-a-questo-do-design-inteligente-na-evoluo-biolgica/

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  18. Não ouso elaborar esse tipo de lista; é possível encontrar trabalhos revolucionários onde menos se imagina. Contabilidade, por exemplo: no livro Desafio aos Deuses, o Bernstein cita o desenvolvimento (não a invenção) que Fibonacci e Paccioli deram à contabilidade por partidas dobradas, e afirma que isso foi algo tão revolucionário quanto o desenvolvimento da máquina a vapor alguns séculos mais tarde.

    Sebastiao

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