sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Qual é a sua fantasia?


Esta postagem reflete algumas impressões pessoais minhas sobre o antagonismo entre percepções realistas e fantasiosas do mundo e de nós mesmos. O texto é oportuno, levando em conta recentes discussões promovidas neste blog. Aproveito a oportunidade para avisar que novas parcerias estão se formando com o propósito de contribuir para o futuro educacional brasileiro. Ou seja, aparentemente teremos boas novidades nos próximos meses. 

Em 2001 os pesquisadores Harald Merckelbach, Robert Horeselenberg e Peter Muris, da Maastricht University, Holanda, publicaram um artigo no periódico Personality and Individual Differences sobre um teste que classifica quais pessoas apresentam tendências à fantasia.

O conceito de tendência à fantasia é novo em psicologia. Foi introduzido em 1983 por S. C. Wilson e T. X. Barber. Eles estavam interessados em estudos sobre susceptibilidade à hipnose. 

Frequentemente pessoas com fortes tendências à fantasia reportam vívidas memórias de suas infâncias, projeções da consciência para fora do corpo, experiências telepáticas, abduções por seres extraterrestres, contatos com pessoas mortas, profundas sensações religiosas, entre outros fenômenos que produzem considerável ceticismo entre aqueles que são considerados mais racionais. Tais pessoas com tendências à fantasia, segundo Wilson e Barber, são mais facilmente hipnotizáveis. Mais recentemente, no entanto, outras pesquisas apontaram que esta conclusão é altamente questionável. 

Porém, psicólogos ainda procuram compreender a tendência à fantasia. Sabe-se, por exemplo, que fantasias frequentemente são usadas para lidar com memórias desagradáveis, especialmente da infância e adolescência. É praticamente senso comum entre especialistas que pessoas com tendências à fantasia são mais facilmente suscetíveis a desenvolver e aceitar falsas memórias. 

Wilson e Barber chegaram a conceber um questionário de 103 itens para fins de avaliação da tendência à fantasia de um dado indivíduo.

Não sou um especialista em psicologia, apesar de já ter lido uma quantia considerável de livros e artigos nesta área. Minha impressão pessoal é que a psicologia não conta com um caráter epistemológico e metodológico tão maduro quanto, por exemplo, a física. Acredito que isso se deva à própria natureza dos objetos de estudo de psicólogos. Parece-me sensato dizer que a compreensão da mente humana é um desafio muito maior do que o entendimento dos fenômenos naturais usualmente estudados por físicos. 

Considerável parte da epistemologia da física se sustenta na matemática. E parte da metodologia da física está focada em experiências laboratoriais que podem ser reproduzidas em diferentes partes do mundo. Já o emprego de métodos matemáticos em psicologia é ainda muito recente, apesar de ter conquistado considerável avanço nas últimas décadas. E muitas das experiências concebidas por psicólogos acabam se resumindo a meros estudos de caso. Um exemplo clássico é o estudo do perfil psicológico de assassinos e estupradores seriais. Há uma dificuldade muito grande para psicólogos terem acesso a mentes criminais de extrema violência, para fins de pesquisas.

No entanto, certamente o estudo de psicologia deve ser levado adiante em nossa sociedade, pelo menos enquanto as demais ciências reais não abordarem os problemas da mente humana de maneira mais satisfatória.

Seguem abaixo algumas das perguntas (de resposta sim/não) de um questionário elaborado por Merckelbach e colaboradores, inspirado no trabalho de Wilson e Barber, e brevemente discutido no artigo citado. O objetivo desses autores é estabelecer uma correlação entre tendências à fantasia e dissociação, processo no qual pensamentos, ações e comportamentos se desintegram em suas componentes, fugindo ao controle do indivíduo. 

Peço ao leitor que leia criticamente essas questões selecionadas e pense sobre cada uma delas antes de prosseguir à leitura da postagem:

1) Quando criança, eu achava que bonecos e bichos de pelúcia com os quais eu brincava eram seres vivos.

2) Quando criança, eu tinha meu próprio amigo imaginário ou animal de faz-de-conta. 

3) Quando criança, eu conseguia facilmente me identificar com a personagem principal de uma história ou de um filme.

4) Quando criança, eu tinha a sensação de que era outra pessoa (uma princesa, um órfão etc.)

5) Muitos dos meus amigos e familiares não sabem que tenho fantasias.

6) Muitas de minhas fantasias apresentam uma intensidade realista.

7) Consigo recordar de muitos eventos que ocorreram antes dos meus três anos de idade. 

8) Frequentemente tenho a sensação de que consigo prever eventos que acontecerão no futuro. 

Pois bem. Agora pensemos um pouco sobre algumas dessas questões. 

À questão 7, por exemplo, sem hesitar eu responderia positivamente. De fato lembro até mesmo de eventos que ocorreram antes de meu nascimento, como a Segunda Gerra Mundial. Lembro porque li a respeito deste evento em vários livros de história. À questão 8 eu também responderia com um sonoro SIM. Se estou a caminho de casa, prevejo que chegarei ao meu destino. Se abandono uma pedra no ar, prevejo que ela cairá. E geralmente minhas previsões estão corretas. 

Se alguém ainda perguntar se leio os pensamentos de outras pessoas, também posso responder que sim. Afinal, muitos pensamentos se expressam na forma de linguagem corporal e expressões faciais. Eventualmente até cometo erros em minhas leituras. Mas leituras podem ser feitas de maneira errada até mesmo quando estudamos um texto de matemática. 

Aliás, posso ler agora mesmo os pensamentos de você, leitor. Neste momento você está pensando sobre as ideias apresentadas neste texto. Portanto, sou um telepata!

A questão 3 também é muito ambígua. Um dos motivos para algumas histórias serem mais populares do que outras (sejam contadas oralmente ou na forma de filmes) é justamente porque o grande público consegue se identificar com elas. E esta evidência entra em choque com a avaliação psicológica usual de que pessoas com tendências a fantasias constituem um pequeno grupo na sociedade. 

Convido o leitor a avaliar criticamente as demais questões acima, bem como outras que aparecem em testes semelhantes. 

Por que escrevo sobre isso, neste blog? Por dois motivos:

I) Para mostrar algumas evidências da fragilidade epistemológica e metodológica da psicologia. Uma vez que muitos estudos de psicologia estão limitados ao emprego de linguagens naturais, torna-se muito difícil avaliar seus limites de alcance, enquanto atividade científica. Por isso físicos usam matemática como a principal linguagem! Justamente porque a matemática faz uso de linguagens menos ambíguas e menos vagas do que qualquer linguagem natural. É claro que existem conceitos que são, por excelência, vagos. Um exemplo é a noção de careca. Se uma pessoa não tem cabelo algum, certamente é careca. Se tem apenas um, dois ou três fios de cabelo, também será considerada careca. No entanto, quantos fios de cabelo uma pessoa pode ter, de modo que ainda seja considerada careca? Não há resposta sensata a esta questão e que possa ser expressa através de um número inteiro. No entanto, existem teorias matemáticas, como a teoria de conjuntos fuzzy, que permitem lidar, de forma epistemologicamente bem definida, com conceitos vagos. Deste modo fica evidente que o alcance da matemática para modelar o mundo chamado de real é considerável.

II) Para colocar na mesa de discussões o fato de que os conceitos de realidade e fantasia não são exatamente claros, na literatura ou mesmo no cotidiano. Frequentemente a noção de realidade depende de fatores filosóficos e sociais. Na filosofia, por exemplo, a mecânica quântica coloca em xeque a hipótese realista, segundo a qual o comportamento do mundo físico independe do ato da observação. E em sociologia sabe-se que a transformação de um homem em lobo, urso, leão ou outros animais, é algo considerado muito real, dependendo da cultura local. 

Além disso, vivemos em um mundo no qual pessoas conseguem não acreditar em fantasmas, fadas e gnomos, mas que também conseguem acreditar que jamais houve o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial e que o homem jamais pisou na Lua. Por conta da internet e outras mídias, a quantia de informações veiculadas no mundo é tão grande que frequentemente pessoas encontram sérias dificuldades para distinguir o real da fantasia. Tanto é verdade que conheci uma moça que não sabia ao certo se dinossauros existem ou não. Ou seja, eventualmente a incapacidade de distinguir fantasia de realidade pode ser devida a mera ignorância e não a quaisquer tendências à fantasia.

Mas o mais importante é observar que muitos dos grandes cientistas foram pessoas que perceberam o mundo de forma a transcender aquilo que normalmente se considerava real. Afinal, como convencer um cidadão europeu da Idade Média que seres vivos invisíveis a olho nu poderiam matar pessoas? As noções de vírus e bactéria são hoje consideradas como reais. Mas nem sempre foi assim.

Cito um exemplo mais pontual e que é realmente radical.

Nikola Tesla (1856-1943) acreditava ter o dom da telepatia, pelo menos em um certo período de sua vida. E muitos que o conheceram ficaram absolutamente convencidos desse suposto dom. 

Desde sua infância, a mente de Tesla foi bombardeada por clarões e visões, tão nítidos quanto a aparência do mundo considerado real. Ele chegava a empregar essas visões em benefício próprio. Como engenheiro e inventor, Tesla criava mentalmente suas experiências com eletricidade, magnetismo e eletromagnetismo. Para ele era absolutamente indiferente (pelo menos em certas situações) se uma experiência era realizada em laboratório ou apenas mentalmente. As imagens puramente mentais fluíam diante de seus olhos e ele chegava a ajustar seus equipamentos imaginários, para obter melhores resultados. 

Seu concorrente Thomas Edison não contava com este dom. Logo, Edison mais cometia fracassos do que sucessos em seus experimentos e inventos. 

O resultado disso foi muito curioso. O limitado Edison defendia o emprego de corrente contínua, para fins de transmissão de energia a longas distâncias. Tesla, por outro lado, inventou o motor de indução de corrente alternada, sem escovas (algo considerado impossível na época). Isso garantiu a transmissão de corrente elétrica a longas distâncias, com uma perda mínima de energia (em comparação com a corrente contínua). E este é o sistema usado até os dias de hoje, no mundo todo. 

Para combater o invento de Tesla, Edison chegou a eletrocutar publicamente vários cães com corrente alternada. Seu objetivo era mostrar que o invento de Tesla era extremamente perigoso, um devaneio de um irresponsável sonhador. Mais interessante ainda era a maneira como Edison promovia suas demonstrações teatrais. Ele ministrava vários choques elétricos em cães, com sua corrente contínua, a ponto de deixar o animal extremamente machucado mas ainda vivo. Em seguida, ele concluía o processo com uma última e fatal descarga elétrica de corrente alternada. Testemunhas afirmaram que o espetáculo era realmente grotesco.

Tesla foi um indivíduo que poderia ser facilmente diagnosticado como uma pessoa com tendências a fantasias. Teve centenas de visões, alegou ter sido o responsável pelo grande evento de Tunguska (explosão que dizimou florestas na Sibéria, em 1908, e que foi registrada por sismógrafos no mundo inteiro) e chegou a crer que tinha recebido mensagens de rádio vindas de marcianos. No entanto, o mesmo Tesla foi o responsável pela corrente alternada, por modernos métodos de transmissão de ondas eletromagnéticas sem fio e por demais ideias absolutamente revolucionárias, mas que hoje são muito reais, como a transmissão praticamente instantânea de imagens e sons por todo o planeta e até mesmo aviões militares controlados à distância. 

Creio que psicólogos deveriam focar sua atenção sobre diferentes tipos de mentes com tendências à fantasia. Isso porque algumas delas são as grandes responsáveis pelos mais profundos avanços dos conhecimentos científico e tecnológico. Algumas dessas mentes fantasiosas simplesmente operam como o sonho de Goethe: o desejo de associar asas do corpo a asas do espírito.

Certas visões fantasiosas de hoje são simplesmente a base da realidade de amanhã.

Há um certo perigo inerente em um texto como este. Afinal, durante grande parte de minha vida fui procurado por pessoas de equilíbrio mental questionável, mas que acreditavam ser capazes das mais geniais ideias científicas.

Conheci um indivíduo que afirmava que o universo tem a forma de um cubo. E ele usou máquinas de misturar tintas para provar suas ideias. Tive contato também com um sujeito que estava convencido de que o sol jamais poderia produzir energia por processo de fusão nuclear pois, se fosse o caso, jamais seria possível a vida na Terra. E, muitos anos atrás, um amigo telefonou para mim no meio da madrugada para dizer que são sete as forças fundamentais da natureza. 

A cada uma dessas pessoas eu ouvi atentamente, na esperança de filtrar alguma ideia que pudesse ser aproveitada. Mas jamais foi o caso. 

Por outro lado, conheci também aqueles que tiveram ideias mais modestas, porém aproveitáveis. Com alguns deles consegui desenvolver projetos que renderam publicações em veículos especializados internacionais.

Eu mesmo já tentei desenvolver ideias mirabolantes que, mais tarde, provaram ser absurdas. Cheguei a crer que variáveis ocultas dependentes de tempo poderiam ser usadas para violar as desigualdades de Bell em certas interpretações clássicas para a mecânica quântica. Psicólogos que seguem as ideias de Barber e Wilson poderiam facilmente interpretar isso como uma ideia meramente fantasiosa (se eles soubessem o que é o teorema de Bell). E eles estariam certos.

No entanto, conceber ideias que hoje não pareçam reais ou realistas é um dos papéis do cientista. Um cientista é, entre outras coisas, um sonhador. Muitos sonhos jamais se tornam realidade. Mas outros, que representam uma minoria, valem a mais profunda dedicação. 

No momento sonho com um Brasil dedicado à inovação, ao mérito, à seriedade, à educação, à ciência, à tecnologia. Para muitos e, às vezes, até mesmo para mim, isso parece um sonho absurdo. Para muita gente a simples ideia de que o Brasil tenha condições de se tornar referência mundial na produção de conhecimentos pode parecer uma mera fantasia.

Quando comparei a realidade acadêmica norte-americana com a brasileira, alguns questionaram por que não fiz comparações com universidades europeias. Evitei tal comparação porque certos países europeus, como França, Alemanha, Itália e Inglaterra, contam com uma tradição intelectual muito mais antiga do que os novatos do continente americano. As diferenças sociais e históricas entre esses países e o nosso são gigantescas. No entanto, os Estados Unidos e o Brasil são nações que nasceram praticamente na mesma época. 

Tesla foi um europeu que revolucionou a ciência e a tecnologia no final do século 19 e na primeira metade do século 20. Porém, em sua autobiografia, ele enfatiza que suas contribuições são essencialmente norte-americanas. Isso porque os Estados Unidos ofereceram condições quase ideais para o desenvolvimento de seus sonhos. 

Podemos, em nossas terras, fazer algo semelhante. Podemos e devemos facilitar para que sonhos sejam ouvidos e, eventualmente, desenvolvidos. 

A realidade que hoje existe no Brasil cria barreiras enormes para o cultivo de sonhos. Mas a proposta que eu e tantos outros apresentam é a de que esta realidade mude. São poucos, mas existem sonhadores em nossas terras. E alguns deles podem ter ideias que merecem real apoio e investimento. 

Não é a mesmice dos procedimentos usuais da academia brasileira que permitirá o florescer dessas ideias. Mas é a crítica a tais procedimentos que pode abrir a mente daqueles que sonham e daqueles que querem sonhar. 

Entre realidade e fantasia, confesso que o segundo é bem mais sedutor. 

10 comentários:

  1. Como leigo penso que existem categorias distintas de reconhecimento da realidade; fantasia é diferente de alucinação, que é diferente de sonho, que nada tem haver com anseio,
    desejo e por ai vai... Talvez a pergunta mais adequada seria como cada um de nós percebe a realidade. Não sei qual seria a resposta. Dizem que o indivíduo reconhece as cores de uma forma única. Como eu percebo o vermelho é diferente do modo como o outro o vê, portanto, a percepção de nossas realidades será sempre distinta. Quando algo é concebido como uma ideia, uma fórmula, uma arte ela será gestada pela criatividade manifesta e dificilmente pelo racionalismo puro. De fato a loucura, ou talvez, fantasia, sonho seja necessário... Há algum tempo li uma frase de Krishnamurti (não havia nada de "normal" nele) que me trouxe conforto com relação ao alcance dos sonhos de um mundo melhor. Começa com a seguinte pergunta: "que pode fazer um só indivíduo, de efeito na história: Pode realizar alguma coisa importante com sua maneira de viver? Pode indubitavelmente. Vós e eu não podemos, é verdade, sustar as guerras imediatas ou criar uma instantânea compreensão entre as nações; mas pelo menos podemos suscitar no mundo de nossas relações diárias, uma básica e efetiva transformação".

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  2. Achei algumas ideias do texto interessantes, porém, como psicólogo, discordo de boa parte do que foi escrito, e tentarei resumir minhas razões para isso.

    1) Pessoas com tendência à fantasia não são necessariamente menos racionais, como diz o texto. Também não é verdade que seja "altamente questionável" a maior hipnotizabilidade desses participantes; o fato é que existem grupos distintos de pessoas susceptíveis à hipnose, incluindo aqueles que alguns autores definem como "fantasizers". O envolvimento imaginativo e a fantasia continuam sendo construtos interessantes para estudo nessa área.

    2) O blog faz críticas inadequadas à pesquisa de Wilson e Barber e ao conceito de tendência à fantasia, quer porque desconhece mais amplamente essa literatura e os avanços e mudanças que ocorreram desde o estudo pioneiro desses dois autores, quer porque desconhece o procedimento empregado por eles naquela ocasião. As oito questões levantadas pelo blog não consideram a frequência ou intensidade dessas experiências, mas apenas sua presença ou ausência. Embora ocorram com praticamente todas as pessoas, há indivíduos que relatam essas experiências com maior frequência. Adonai interpreta as questões de uma forma crítica que não tem necessariamente a ver com a maneira que uma pessoa responderia usualmente. Quando se fala da previsão de acontecimentos futuros, por exemplo, uma boa parte das pessoas vai pensar em poderes paranormais. Ele sugere uma interpretação não paranormal que é simplesmente uma má compreensão da intenção do teste.
    Na verdade, os pesquisadores eram bem ais cuidadosos que isso. Wilson e Barber usavam um questionário bem mais longo, e levavam duas horas ou mais para entrevistar os sujeitos. Era uma entrevista bem aprofundada.

    3) Por outro lado, Adonai parece desconhecer a maneira como os instrumentos são geralmente construídos e aplicados. Antes de um instrumento ser amplamente divulgado, é feito um pré-teste onde várias dessas incompreensões são corrigidas. Os instrumentos passam depois por várias etapas de validação psicométrica (consistência interna, teste-reteste, análise de fatores, validação convergente e divergente etc.), aferidas por cálculos estatísticos em diferentes amostras. Essas pesquisas dão confiabilidade ao instrumento e alguns desses testes foram aprimorados ao longo de anos, em diferentes amostras de diferentes países. Os instrumentos também passam por adaptações transculturais que adequam as respostas ao contexto cultural em que são aplicados. Os resultados obtidos com esses procedimentos vão dizer se o instrumento está só medindo qualquer coisa sem sentido ou se está aferindo alguma variável subjacente. Escores em alguns desses instrumentos também se correlacionam a variáveis controladas em experimentos, o que indica que estão relacionados a eventos reais e concretos e não a ilusões.

    4) Mas eu concordo que, em geral, questionários e escalas possuem vários problemas. As entrevistas qualitativas, conquanto menos objetivas, ajudam a resolver essas incompreensões e aprofundar casos individuais. Eu particularmente sou mais partidário da pesquisa qualitativa do que quantitativa em psicologia, por uma série de motivos. Mas não devemos exagerar muito na crítica, pois os instrumentos psicométricos são muito úteis e ajudam na generalização de resultados. Muitos desses instrumentos, por exemplo, são capazes de identificar pessoas com alguma patologia, apresentando acertos que são muito próximos daquilo que um clínico aferiria por si mesmo. Isso facilita grandemente o nosso trabalho. A experiência também nos diz que, quanto maior a amostra, menor o número de pessoas como o autor do blog que entende as questões da forma não esperada, se o instrumento foi bem construído. Esses equívocos e desvios acabam se diluindo, e muitos desses instrumentos mostram tamanha consistência ao longo do tempo que indica que não estão aferindo qualquer coisa.

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    1. Everton

      Agradeço pelas críticas. Pensarei a respeito com muito cuidado. No entanto, preciso fazer uma advertência: os autores do artigo citado chamam atenção, entre outros fatos, justamente da falta de validação psicométrica em vários desses testes. De qualquer modo, é excelente poder contar com profissionais da psicologia por aqui.

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    2. Caro Adonai,

      Não consegui encontrar no artigo nenhuma crítica específica à validação psicométrica, apenas uma revisão da literatura sobre susceptibilidade hipnótica, ao longo do texto. Talvez não se trate do mesmo artigo a que você se refere. Eu me refiro a: "fantasy prone personality: implications for understanding imagery, hypnosis, and parapsychological phenomena".
      De qualquer forma, concordo que alguns testes não são validados, como questionários originais usados em pesquisas. Alguns testes traduzidos também não passaram por adaptação e validação para o contexto brasileiro, por exemplo. Mas essa é uma falha que as pesquisas posteriores tendem a compensar. Quando um teste não tem boas propriedades psicométricas, acaba não sendo muito usado e desaparece ou é melhorado.
      Um abraço.

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    3. Everton

      De fato não estamos discutindo sobre o mesmo artigo. Foi falha minha. Eu deveria ter feito a citação completa. O título da publicação é "The Creative Experiences Questionnaire (CEQ): a brief self-report measure of fantasy proneness". Saiu no volume 31 (2001), páginas 987-995, do periódico Personality and Individual Differences (Pergamon Press).

      Validação é uma ferramenta absolutamente fundamental para definir caráter epistemológico. Fico satisfeito ao saber que você concorda com isso.

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    4. Complementando...

      No entanto, apenas a validação psicométrica não basta. É condição necessária, porém não suficiente. Dados estatísticos podem facilmente iludir pesquisadores.

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    5. Concordo contigo. E obrigado pela referência. Um abraço.

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  3. Continuando...
    5) Adonai, concordo com suas observações sobre a definição do que é fantasia mudar muito dependendo do contexto e também com suas observações sobre a relatividade do real e do fantasioso mesmo em nosso cotidiano. Quero apenas chamar sua atenção novamente para o fato de que, não só as pesquisas identificaram sim diferentes mentes com tendência à fantasia como você sugere, como também os pesquisadores estão cientes desse relativismo, e sabe-se que existe, por exemplo, uma profunda relação entre fantasia, genialidade e loucura. Portanto, a pesquisa de Wilson e Barber foi extremamente frutífera, e abriu portas para que víssemos a questão da fantasia justamente do modo como você defende, e não o contrário! Não sei se você leu o artigo original dos autores, que eu tenho comigo e posso te enviar, se quiser, mas eles curiosamente citam o próprio Nikola Tesla!

    Um abraço.
    Everton de Oliveira Maraldi
    Doutorando em Psicologia Social pelo IP-USP

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    1. Everton

      Conheço sim o trabalho de Wilson e Barber. Mas você bem deve saber, também, que houve muita controvérsia sobre este artigo. Nem poderia ser diferente, dada a originalidade do projeto.

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  4. Vislumbrar certas coisas ou idéias é, na maioria das vezes, uma experiência frustrante. Você não ter a capacidade de saber se aquilo foi real ou apenas uma ilusão é uma tortura. Dai só te resta a escolha de acreditar naquilo ou não. Mas e quando a escolha não basta e você quer uma resposta?...
    Desde os dez anos, quando assisti ao filme Contato (aquele com a Jodie Foster), essas questões vem me incomodando.

    Sebastião

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