domingo, 17 de fevereiro de 2013

Movimentos estudantis



Movimentos estudantis no Brasil são comumente ridículos. Muitas vezes são sustentados pela infiltração de partidos políticos em organizações estudantis ou por discursos medíocres durante movimentos de greve. Durante minha graduação participei da única manifestação estudantil que achei valer a pena: uma passeata em branco. Os manifestantes se vestiram de branco e carregaram cartazes em branco, distribuindo panfletos em branco pelas ruas do centro de Curitiba. O evento chegou a ser reportado por uma emissora de televisão. Era uma bela caricatura de várias passeatas que já ocorreram neste país.

No entanto, quando lecionei no Colégio Estadual do Paraná (CEP), em 1989, fui testemunha de um movimento estudantil que me fascinou. Os alunos daquela instituição estavam revoltados contra a direção da escola e organizaram uma manifestação de grande porte. Era noite e dezenas de professores do CEP estavam em um grande salão. A partir das janelas era possível ver o pátio da escola, completamente ocupado por manifestantes que encenavam o enterro simbólico do diretor, com direito a um grande caixão e um boneco caricatural. Uma equipe de televisão, afiliada à Rede Globo, apareceu e uma câmera foi apontada para os alunos do pátio. Estes, em uníssono, começaram a cantar: "Nós não somos bobos, abaixo a Rede Globo!" Obviamente nenhuma reportagem sobre o evento foi veiculada por aquela emissora. Liberdade de expressão, tudo bem. Mas não falem mal de mim.

Porém quero focar aqui a respeito de outros movimentos estudantis muito mais importantes e que devem servir de exemplo para os jovens deste país. 

Em várias ocasiões fui convidado por estudantes a ministrar palestras ou mini-cursos em diferentes instituições. Cito dois exemplos opostos, relativamente a porte institucional: Unicamp e IMAJ. 

Anos atrás um grupo de estudantes me convidou a ministrar uma palestra na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no interior do estado de São Paulo. Eles organizaram um evento com diversas atividades voltadas à matemática e aos fundamentos. 

O Professor Walter Carnielli, por exemplo, desenvolveu um mini-curso sobre os teoremas de Gödel, que teve ótima receptividade entre os participantes. No meu caso, fiz uma exposição e discussão sobre a teoria de quase-conjuntos, uma teoria de conjuntos que prescinde do conceito de igualdade e que encontra curiosas consequências quando aplicada em determinados problemas da mecânica quântica. Acontece que durante aquela semana de atividades de interesse a inúmeros estudantes da instituição, seus professores não os dispensaram das aulas. Houve o pedido formal por parte da comissão organizadora, mas foi negado. Ou seja, mesmo em uma universidade considerada como uma das melhores do país, não houve apoio a um movimento estudantil simples, autêntico e com profundo mérito acadêmico. Observe o leitor que não estou falando de um movimento político ideológico, mas de uma simples semana de estudos extracurriculares úteis para formação e cultura geral. 

Fico extremamente feliz quando um aluno meu prefere assistir a uma palestra de interesse dele do que a uma aula minha. Este aluno demonstra que não está se conformando com o básico oferecido por sua instituição de ensino. Diversidade de ideias é fundamental para o estímulo à criatividade e à formação acadêmica. Mas o corpo docente matemático da Unicamp parece não pensar dessa forma.

O IMAJ, meu segundo exemplo, é o Instituto de Matemática de Jacarezinho (hoje extinto), no norte do estado do Paraná. Apesar do pomposo nome, não era de fato um instituto de matemática, uma vez que não havia e nunca houve qualquer matemático importante associado a essa instituição. Tratava-se novamente da iniciativa de um grupo de alunos da faculdade local, que estava interessado em promover avanços na matemática. Havia uma liderança estudantil forte, promovida principalmente por Thiago Pedro Pinto e alguns seguidores (também estudantes). 

Fui para lá. Tive que ministrar minha palestra no cinema da cidade, pois não havia outra sala grande o bastante para atender a todos os participantes interessados, que vieram às centenas (incluindo professores e meros curiosos). É uma cidade de interior, com produção matemática nula, apesar da extraordinária dedicação de alguns docentes, demonstrando visível interesse pelo contato com pesquisa. O acesso à cidade é somente por carro ou ônibus, com estradas muito ruins. Os membros do IMAJ conseguiram um espaço físico no qual organizaram uma pequena biblioteca e um único computador conectado à internet. Mas faltava material humano permanente. Havia um professor em especial que, apesar de não ser pesquisador no sentido estrito do termo, atuava como consultor técnico para a polícia do estado de São Paulo. E ele usava, em suas aulas de física, exemplos práticos sobre como reconstituir acidentes de trânsito a partir de evidências físicas deixadas no asfalto, em arbustos, postes etc. Isso estimulava muito os alunos. A literatura sobre a física de acidentes de trânsito é muito pobre em nosso país. Esse professor conseguiu realizar verdadeiros milagres naquela cidadezinha, estimulando entusiasticamente seus pupilos. E não apenas estimulava alunos, como também promovia importantes aplicações da física. Usando conhecimentos de mecânica clássica ele chegou a inocentar um motorista de caminhão acusado por um policial (supostamente testemunha ocular) de matar uma família inteira em acidente ocorrido na estrada.

O fato é que há demanda, há a necessidade pelo conhecimento. E é com isso que eu conto quando escrevo neste blog. Essa demanda não existe apenas nos grandes centros, mas nos lugares mais remotos também. Isso porque a curiosidade é algo que nasce com as pessoas, apesar de a sociedade fazer de tudo para matá-la, usando as escolas como matadouros do intelecto.

Movimento estudantil legítimo é isso: a luta construtiva contra o cotidiano castrador de sala de aula. 

Thiago Pedro Pinto é um exemplo marcante. Estudou em um ambiente academicamente pobre, apesar de eventuais contatos com gente intelectualmente motivada e competente, como o professor acima mencionado. Hoje Thiago é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, realizando doutorado em educação na Unesp (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"). O projeto de pesquisa do Professor Thiago é um resgate histórico do antigo Projeto Minerva. Convido os interessados a contribuir com o seu trabalho neste site. Quem não quiser ou puder colaborar, que aproveite a oportunidade para ouvir gravações do Projeto Minerva. É uma curiosa viagem no tempo, para os anos 1970 e 1980. 

16 comentários:

  1. Este assunto é extremamente importante.

    Nosso país já chegou a ter um movimento estudantil realmente articulado ?

    Como eram as organizações no ensino médio e fundamental ?

    Acho inevitável lembrar (devido à intensa exposição da menina) da experiência da Isadora Faber e o seu diário de classe
    https://www.facebook.com/DiariodeClasseSC

    Eu acho admirável, e sinceramente, adoraria ouvir relatos de experiências semelhantes de outras e outros alunos. Será que isto se espalhou, ou é apenas uma mosca azul ?

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  2. AS: "Movimento estudantil legítimo é isso: a luta construtiva contra o cotidiano castrador de sala de aula." --- Manja só: A) "luta construtiva" tem tudo a ver com pragmatismo; "contra cotidiano castrador" é coisa do pragmatismo; B) reparar que o problema está em "luta" e "contra" já que instala linha de fronte com um embate dum lado (necessidades e pontos de vista) versus outro lado; evidente que no sistema de formação isso deve ser condenado/banido. --- Eis que surge uma pergunta: "como fazer para desaparecer os sentidos de embate/conflito?". --- Pois o que rola por aí a boca pequena: C) o pragmatismo deve ser promovido dentro da escola, em sala de aula para as classes de todas as séries na forma de educação; D) para a mente se tornar pragmática deve dominar alguns truques cognitivos que são aplicados fluentemente no mundo da gente adulta (profissionais, papais, mamães e vovozinhas); E) no mundo adulto em torno de 99,99% das atuações se envolvem com "construtivos" e "castramentos"; e dá tudo certo, pra cima e pra baixo, bate e rebate, toma lá dá cá, vai que é tua, a cada um o que é seu; F) na escola o pragmatismo deverá ser bancado pelo sistema de educação (independente do ensino) para desenvolver capacidades de raciocínio, de deslanchar o modo de pensar/bolar/inventar por processo cognitivo. --- Nota: este comentário não vai além deste blog.

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  3. Quem vai à escola ou universidade estudar não tem tempo pra participar de movimento estudantil, simples assim...

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    1. Kynismós!

      Talvez você tenha razão. Mas você estenderia isso a professores também? Ou seja, professor que se dedica a ensino, pesquisa e extensão não tem tempo para política universitária?

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    2. Sim, os professores mais dedicados e produtivos que conheci no DF-UFPE não participavam de assembleias sindicais, na verdade nem a greves aderiam, dado que pra preparar aulas excelentes, bem orientar alunos e fazer pesquisa séria o tempo gasto é absurdo, pelo menos na área de exatas, como o Sr. bem sabe...

      Porém isso de certa forma é ruim, pois tais professores em uma assembleia estariam preocupados com a busca da excelência e não da mediocridade, e quando não participam das assembleias deixam as decisões nas mãos dos sindicalistas esquerdopatas profissionais.
      Tais professores deveriam se agregar pra tentar compor uma massa crítica e se opor ao sindicalismo profissional, já que diferentemente dos estudantes têm maturidade pra isso...

      Segue exemplo de um dos melhores professores que tive no DF, uma consulta a essa página mostra bem que se trata de um profissional extremamente dedicado ao ensino (a pesquisa e orientações igualmente) e que não restringe suas aulas ao livro texto, sempre procurando trazer questões e métodos atuais sobre a disciplina que está ministrando, diga-se de passagem que não é lá muito bem quisto pela maior parte do alunado:
      https://sites.google.com/site/eletromagnetismo1a/

      Quanto ao movimento estudantil, em toda instituição na qual estudei, era composto em sua maioria pelos alunos vagabundos, aqueles só reivindicam direitos mas nunca cumprem seus deveres e nunca saberão o que é a busca pela excelência... ademais o bom estudante também não tem maturidade e nem estímulo pra se envolver em movimentos estudantis e ficar brigando com a vagabundagem...

      Por esse motivo, falta de maturidade, sou totalmente contra o voto aos 16 anos, quase todo jovem com essa idade acha que vais salvar o mundo, porém como bem disse o Winston Churchill:
      "Quem chegou aos 20 anos e nunca foi comunista, não tem coração. Quem chegou aos 30 e ainda é, não tem cérebro".

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  4. Adonai


    Só tem um pequeno erro em sua postagem: as estradas e rodovias para Jacarezinho hoje em dia estão bem melhores e são raros os trechos ruins a este nível que vc menciona. :)

    No mais, perfeito.

    Isto de usar a Mecânica Clássica em investigações de acidentes de trânsito é algo que, de fato, deveria ser melhor explorado no ensino.

    Se não me engano, o princípio usado na análise de colisões entre veículos nas rodovias seria o da Conservação do Momento, não é?????

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    1. Leandro

      Muito bom saber disso. De fato, eu deveria ter sido mais cuidadoso na redação, uma vez que não vou a Jacarezinho há muito tempo.

      Com certeza princípios de conservação devem ser aplicados, tanto de momento linear quanto angular.

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  5. Bem, professor Adonai.
    Eu concordo quando você diz que os movimentos, em sua maioria são sustentados pela infiltração de partidos políticos. Na época em que estudei na Unicamp, de 1982 a 1987, quem não fosse petista não era muito bem visto pelos colegas, mas vou citar um caso de como estes movimentos podem ser úteis.
    Naquela época, os alunos que não tinham condições de alugar uma casa para morar em Campinas, também não dispunham de quase nenhum apoio da universidade. Parece que o máximo que ela fazia era servir de fiadora, se não me engano. Para falar a verdade, nem sei como isso funcionava direito, pois tive muita sorte de conhecer um grupo de colegas que já haviam alugado uma casa velha, e então me aceitaram lá. Lembro-me de outros amigos que não tiveram a mesma sorte que eu, e acabaram morando em pensões, e conheci um que optou por viajar todos os dias,de Santa Bárbara d'Oeste até Campinas. O fato é que o problema da moradia era visível.

    Eu me lembro de um movimento estudantil que decidiu ocupar (invadir) algumas salas do prédio do Ciclo Básico, que estavam momentaneamente desocupadas. Um colega de minha república chegou a morar lá durante algumas semanas. A reivindicação é que a universidade se dispusesse a criar um alojamento para os estudantes menos favorecidos economicamente.

    Fiquei sabendo há uns anos que este espaço já existe na Unicamp, e de uma forma ou de outra, acredito que nossa reivindicação da época ajudou nesta conquista.
    Muitas vezes, estes movimentos dos alunos por melhoria do ensino e das condições de moradia são importantes, e se havia infiltração de estudantes petistas ou não nestes movimentos, o fato é que alunos pobres de hoje que entram na Unicamp podem contar com uma opção a mais. Acredito que o dividendo social (ou seria educacional?) talvez tenha sido bem maior do que o político.

    Ah...em tempo. Naquela época eu também era petista, mas agora não sou mais. O PT já foi bem melhor do que agora, mas acho que a oposição é pior ainda. Tá difícil escolher, hoje uma "terceira via".

    Abraço.

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    1. Jairo

      Certamente movimentos estudantis podem ser importantes. No entanto, o que percebo é uma degeneração do conceito. E com relação à sua postura petista nos anos 1980, compreendo perfeitamente. Hoje a influência da ideologia do PT em nosso país é muito mais nociva do que a corrupção.

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    2. Removi os dois últimos comentários de Jairo Grossi a pedido do próprio autor.

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  7. “Isso porque a curiosidade é algo que nasce com as pessoas, apesar de a sociedade fazer de tudo para matá-la, usando as escolas como matadouros do intelecto.

    Movimento estudantil legítimo é isso: a luta construtiva contra o cotidiano castrador de sala de aula.”

    Ao ler isso acabei me lembrando de uma afirmação feita pelo educador Paulo Freire sobre o Ensino Fundamental e Médio nos anos de 1980:

    "A escola não nos ensina a falar uma língua estrangeira nem nossa própria língua, não ensina a cantar ou servir-nos de nossas mãos e nossos pés; não ensina qual a alimentação sadia; como orientar-se no labirinto das instituições; de que modo cuidar de um bebê ou de uma pessoa doente, etc.

    Se as pessoas não cantam mais, mas compram milhares de discos em que profissionais cantam por elas; se não sabem mais comer, mas pagam o médico e a indústria farmacêutica para tratar dos efeitos da má alimentação; se não sabem como educar os filhos, alugam o serviço de educadores diplomados; se não sabem consertar um radinho ou uma torneira, nem como curar uma gripe sem remédio, ou cultivar uma alface, etc., tudo isso acontece porque a escola tem como objetivo inconfessável fornecer às indústrias, ao comércio, às profissões especializadas ao Estado, trabalhadores, consumidores, clientes e administrados sob medida.”

    Este texto foi extraído do livro CUIDADO, ESCOLA! de Paulo Freire e a equipe do IDAC

    Infelizmente isso permanece válido até hoje.

    Para terminar algumas informações interessantes sobre o Ensino no Brasil:

    1. Quantas instituições de ensino superior existem no Brasil? - Segundo o último censo, exatas 2.378. São 99 federais, 108 estaduais, 71 municipais e 2.100 particulares.

    2. Qual é o curso superior com mais alunos matriculados? - Segundo o MEC (Ministério da Educação), não é direito, tampouco engenharia. O campeão é administração, com 705.690 matrículas .

    3. Sobram vagas - Sim, sobram vagas no ensino superior -e não são poucas. Em 2010, segundo o MEC, quase metade não foi preenchida.

    4. O vestibular é uma criação genuinamente brasileira. Ele foi criado em 1911 para ser um critério "objetivo" para seleção nas universidades e evitar problemas como nepotismo e favorecimento

    Fonte: http://wap.noticias.uol.com.br/educacao/album/120228_curiosidades_educacao-f3.htm

    Att, Leonardo

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    1. Grato pelas informações, Leonardo. Elas mostram um país realmente esquisito.

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