sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Para quem não entende




A postagem que divulga o artigo de Scientific American Brasil sobre as universidades federais teve considerável impacto neste blog. Em 24 horas se tornou o segundo mais visualizado, em um universo de 133 textos que têm sido publicados aqui desde 2009. Hoje, três dias depois, já é a mais visualizada de todas as postagens.

Isso significa que o artigo em questão atraiu gente nova para este site. Muitos perceberam claramente que o texto mostra apenas a ponta de um gigantesco iceberg conhecido como educação superior brasileira. Outros, porém, ainda insistem em insinuar ou mesmo afirmar que estou exagerando ou sendo injusto. Há também aqueles que dizem que uso argumentos falaciosos, como se eles soubessem o que isso significa. 

Tento respeitar aqueles que percebem com dolorosa clareza a situação miserável da educação brasileira, em um país que tem todas as condições humanas e econômicas para reverter a atual situação. Tento respeitá-los evitando a repetição de respostas que já apresentei inúmeras vezes aqui, por e-mail, em mensagens do facebook ou em conversas pessoais. Por isso aviso: este texto não é dirigido aos que enxergam, mas aos ingênuos e aos parasitas (termo que empresto de Ulisses Capozzoli) do sistema centralizado e paternalista imposto pelo Governo Federal.

Antes, porém, tenho um pedido a fazer. Todos aqueles que publicaram comentários na postagem sobre a exposição das universidades federais em Scientific American Brasil estão convidados a encaminhar seus textos para a própria revista. Esta é uma estratégia extremamente importante para demonstrar a força de uma ideia. E a ideia é tranformar o Brasil em um país melhor, socialmente mais justo.

Pois bem. Vejamos alguns dos principais argumentos que tenho lido e ouvido em discussões promovidas por pessoas que se recusam a perceber a mediocridade do ensino público superior brasileiro. Os trechos em itálico são reproduções (devidamente editadas por mim) de mensagens que recebi.

1) A estabilidade não é privilégio da carreira docente. Ela é baseada na lei 8112 que rege todo o funcionalismo público federal brasileiro. Concordo que a estabilidade irrestrita é danosa, mas se ela for alterada, tem de ser através de uma reformulação em todo o serviço público brasileiro, e não apenas na carreira docente. Ora, se a carreira já é desprivilegiada por apresentar salário inferior ao de outras carreiras que exigem menos titulação, retirar a estabilidade apenas da carreira docente só iria afastar as pessoas que escolhem a profissão porque desejam de fato trabalhar com educação.

Resposta: Eu jamais defendi que estabilidade irrestrita deve acabar apenas na carreira docente. Insisto nesta categoria profissional por conta de sua gigantesca importância estratégica para a nação. Se Abraham Lincoln conseguiu abolir a escravidão em meio a uma guerra civil em seu país, por que não podemos executar ações muito mais simples, como o fim do comodismo? O término da estabilidade irrestrita para docentes de instituições federais de ensino superior (ifes) pode ser perfeitamente negociado com o Governo Federal. Já tivemos exemplo semelhante no passado. Hoje em dia, por exemplo, esses mesmos docentes não podem contar com o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, um direito de outras categorias profissionais. Isso foi conquistado por negociações. Daí a importância da participação ativa de todos os interessados. Além disso, o discurso da titulação é simplesmente ridículo. Titulação não garante mérito. Mérito se avalia por produção. Há muito professor universitário neste país que julga que seus títulos têm algum valor que os coloca acima do resto da sociedade. Fortemente recomendo que abandonem essa lamentável ideia. Soa como um palhaço que insiste em ser chamado de Doutor Palhaço. 

2) A meritocracia me parece fundamental, no entanto gostaria de ressaltar que não é algo inexistente (mas sim insuficiente, como as Bolsas de produtividade são do CNPq) e não creio que seja a solução definitiva para todos os nossos problemas. Na Universidad do Chile, por exemplo, para cada artigo publicado em journal o professor ganha de 1000 a 4000 dólares. Se não é produtivo ou tem carga-horária baixa de aulas, o professor pode ser demitido em avaliação bi-anual do ministério da educação. Mesmo assim esta instituição não aparece em nenhum ranking a frente da USP, por exemplo. 

Resposta: Jamais afirmei que políticas meritocráticas sérias seriam capazes de alavancar as universidades brasileiras a ponto de fazê-las competir com as melhores instituições de ensino superior do mundo. Apenas afirmo que as atuais políticas acadêmicas de nosso país certamente jamais permitirão que qualquer universidade nossa tenha, algum dia, destaque internacional. A meritocracia é apenas um dos passos que devemos tomar. Certamente o reconhecimento honesto de mérito traria benefícios gigantescos ao Brasil. Mas sempre precisamos avaliar criticamente o que estamos fazendo de errado, em uma eterna busca pelo aperfeiçoamento. Muitos já me disseram que esta é uma visão utópica. Pois o que é utópico para nós, é a realidade dos mais desenvolvidos. Além disso, no artigo há muitas outras críticas, além da falta de meritocracia. Recomendo que o texto em questão seja lido com um pouco mais de cuidado.

3) Sobre os "tenured professors" dos EUA, colo a opinião de um colega exposta na nossa lista de discussão dos professores aqui da UFC, que esteve recentemente viajando por Universidades de lá: "Nos EUA vi diversos "tenured professors" bem fracos, que não pesquisavam e davam aulas ruins. Conseguiram o tenure não por mérito, mas por amizades, jogos políticos etc. e assim continuavam a se manter relativamente bem na carreira acadêmica por anos e anos. Outros, muito bons, não conseguiram porque não se alinhavam ao status quo da instituição - justamente aquilo que a ideia do tenure procura preservar: pluralidade, autonomia etc".

Resposta: Ora, é claro que este problema existe nos EUA! Como eu mesmo havia mencionado no artigo, existem problemas profundos no sistema acadêmico daquele país. Eu mesmo conheci um pesquisador de Stanford que se interessava pela vida sexual de elétrons! Mas casos como esses não constituem prova de que o sistema meritocrático não funciona. Casos como esses apenas provam que qualquer política, por mais sensata que seja, é falível e demanda constante revisão. É fato que, do ponto de vista estatístico, os melhores recebem benefícios não concedidos aos piores, nos EUA. É fato que aquele país é extremamente competitivo, justamente porque existe a perspectiva real de vitória. E é fato também que a competitividade estadunidense cria problemas sociais muito graves e que precisam ser corrigidos urgentemente, como frustrações que eventualmente culminam em tragédias. Mas, apesar desses problemas, é justamente essa competitividade que fez dos EUA a grande liderança científica e tecnológica mundial. É também fato que os professores universitários de nosso país escovam seus dentes com pastas e escovas Colgate (EUA). Eles dirigem veículos de nomes como Volkswagen (Alemanha), Ford (EUA), Mitsubishi (Japão), Renault (França), Fiat (Itália). Esses mesmos professores cuidam da saúde com remédios produzidos por multinacionais de origem estrangeira. Eles comem o quarteirão do MacDonald's em frente a um aparelho de televisão Samsung. E escrevem suas ingênuas opiniões em um computador Sony. Não tenho nada contra o uso dessas tecnologias, oriundas de ciência sólida produzida pelos países desenvolvidos. Mas precisamos também depender menos do conhecimento alheio. Qual é o sonho do Brasil enquanto nação? Ser um eterno dependente da produção científica e tecnológica de outras nações? Somos apenas um bando de consumidores? Consumo não dura para sempre se não houver renda! E, sem conhecimento, garanto que não haverá renda no futuro. Assim como nossos filhos precisam estudar para se engajarem à sociedade, países precisam crescer intelectualmente para se engajarem ao mundo. Sem esse compromisso, tornamo-nos socialmente periféricos, pobres, dependentes da bondade de estranhos.

4) Todos sabemos dos problemas da universidade pública brasileira. Todos temos histórias e experiências pessoais de favorecimento, conchavos, desleixo de professores e funcionários. Neste ponto, textos como estes, que nos fazem refletir sobre como deveriam se proceder as mudanças são importantes demais. Mas acho injusto e negativista demais nos relegar a uma condição histórica de colonizados, elitistas, atrasados e pontos fora da curva. 

Resposta: "Todos sabemos dos problemas da universidade pública?" Como pode ser verdade isso? Se sabem, por que não há mudanças relevantes para melhorar a educação? Vejamos. Já discuti meses atrás sobre algumas das ideias absurdas de Claudio de Moura Castro sobre educação. E a influência política dele é considerável. Isso é saber? Vejo todos os dias livros, apostilas e professores de matemática perpetuando conceitos errados diante de crianças e jovens. Isso é saber? Vejo discursos rançosos, completamente na contramão do progresso, a favor da estabilidade irrestrita. Isso é saber? Leio teses de doutorado e dissertações de mestrado que defendem apenas o ensino da matemática que encontra aplicações no cotidiano de alunos do ensino básico. Isso é saber? Se todos sabem das mazelas da educação, então o que estão fazendo com esse saber? Estão escondendo? Não. A verdade é que não sabem coisa alguma! Além disso, eu jamais releguei nosso país a uma condição histórica de colonizados. Isso é discurso rançoso de gente que não pensa, mas gosta de repetir o que outros afirmam. No entanto, do ponto de vista científico, somos sim um país atrasado. Há ilhas de saber no Brasil, sem dúvida. Mas tais ilhas não são suficientemente articuladas para conferir tradição na produção de conhecimento em nosso país. A questão é simples: afinal, queremos ou não universidades no Brasil? 

5) Lembro que os desinteressados ou descomprometidos são uma minoria dos nossos colegas da UFC. A frase do texto: "A consequência mais óbvia da estabilidade irrestrita para docentes das ifes é a falta de um ambiente competitivo na vida acadêmica pública", para mim é falácia muito grande. Quem faz pesquisa sabe quão competivo é fazer ciência no Brasil (projetos e artigos em bons lugares somente para quem trabalha muito e seriamente).

Resposta: É absolutamente irrelevante se uma afirmação é falaciosa para "mim", para "você" ou para o João da Silva. E, aliás, o que seria uma falácia muito grande? Existem falácias muito pequenas? Se querem argumentar, pelo menos leiam o artigo e exponham suas críticas com melhor qualificação e responsabilidade. O artigo publicado em Scientific American Brasil não se resume a uma única frase. Foi colocado de maneira cristalina que a falta de meritocracia não se encontra nos órgãos de fomento à pesquisa, mas na estrutura administrativa das ifes. Quem não produz, ainda tem seu emprego garantido. Não deveria ser difícil entender isso.

6) Discordo que os problemas da universidade tenham origem na estabilidade do emprego dos professores, como ressalta esse artigo terrível! Os problemas das universidades brasileiras são exatamente o oposto aos apontados no texto: é a terceirização, o emprego precarizado e instável, que aos poucos vai se imiscuindo com muita corrupção e sucateameno privados pela administração que deveria ser pública das universidades. Temos de lutar para levar a lógica do público e gratuito, da estabilidade e do emprego público para fora da universidade, para toda a sociedade, e não ao contrário. Não tentem culpar os professores pelos problemas das universidades. Eles, como nós, somos as vítimas do governo e dos tubarões da iniciativa privada e do sistema financeiro. Já temos inimigos de classe demais nos atacando e não precisamos de mais fogo-amigo nos queimando. Recuso-me a compartilhar um artigo como esse. Acorda, Fasubra: essa extrema-direita que às vezes pipoca aqui e ali (defendendo redução da maioridade penal, atacando prostitutas, sem-teto, sem-terra, professores e grevistas, trazendo fofocas da vida pessoal das pessoas para o debate político, repudiando ex-detentos, e por aí vai uma lista infindável) precisa de uma resposta firme urgente para não se criar.

Resposta: Estabilidade para toda a sociedade? Extrema direita? Ataque a prostitutas? Fofocas da vida pessoal? Fico pensando quantas outras pessoas neste país conseguem ser tão ofuscadas por fanatismo político. Neste caso não há mais o que dizer. 

7) Servidores públicos precisam de estabilidade, até para terem seu direito de existência, independente da posição política/acadêmica garantidos. Em um ambiente que se pretende ser democrático essa possibilidade não pode existir, exceto em casos evidentes de falcatruagem.

Resposta: Estabilidade é necessária para garantir o direito à existência? Devo entender com isso que a maioria do povo brasileiro não tem o direito à existência? 
_________

A essa altura o leitor deve estar percebendo que o nível das críticas tem diminuído consideravelmente.

Tenho analisado o perfil dos contras em comparação com o perfil daqueles que se entusiasmaram com o artigo. Os favoráveis são, em geral, jovens universitários. Eles sentem na pele, todos os dias, a realidade do ensino público superior no Brasil. Em compensação, os contras são comumente professores de ifes ou ativistas políticos que, por algum motivo, creem fazer parte de um movimento esquerdista. Para estes últimos, qualquer ideia contrária aos seus fanatismos pessoais tem origem em alguém que odeia minorias. 

Conheço histórias realmente sórdidas de assassinatos, suicídio, pedofilia, estupro, dependência química e incesto na vida acadêmica brasileira. Jamais as expus e jamais as divulgarei. Isso porque não estou em busca de sensacionalismo. O que quero, em uma primeira instância, é apenas uma coisa: um Brasil genuinamente comprometido com ciência, tecnologia e educação. 

Sonho também com um Brasil que tenha segurança, justiça e saúde. Mas essas lutas não tenho condições de assumir. Cada um de nós deve assumir sua responsabilidade social de maneira focada, mas sempre em sintonia com as demandas coletivas.

21 comentários:

  1. Se alguém ler o seu artigo para um pombo ou cachorro daqueles bem cultos que vivem no forro e nos corredores do centro politécnico, a chance deles entenderem os benefícios do artigo é maior pois esses animais ainda estão dispostos a evoluir já a outra especie que perambula pelas universidades eu tenho minhas duvidas.

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  2. Cada vez fico mais surpreso com a sua maneira de escrever, de argumentar, é perfeita. Conheço uma amiga, que em consequência dos raposas professores universitários teve de abandonar o curso de agronomia, que era sua paixão pessoal.
    Começou com um "tira sarro", depois passou a humilhação, até chegar a abuso sexual. É realmente uma injustiça, professores que nunca são punidos por seus atos. Existem hoje em dia inúmeros casos como esse, de estrema covardia, o professor chega a dizer "Deite comigo se não você não passa".

    "Soa como um palhaço que insiste em ser chamado de Doutor Palhaço."

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    1. Sergio

      Conheci de perto vários casos como este, não apenas na universidade mas nos ensinos médio e fundamental também. Pelo menos duas escolas em Curitiba chegaram a fechar por conta de incidentes como o que você narrou brevemente. Mesmo quando casos de assédio sexual ou moral chegam a comissões de investigação, frequentemente os membros de tais comissões não os levam a sério. Ainda estou pensando em maneiras para lidar com essa situação extremamente comum no Brasil.

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  3. Eu acho que aquela do "todos sabem" a pior.. É pior perceber que eles sabem, mas que nada fazem (uma vez que estão dentro de alguma zona de conforto). TEMOS que fazer algo! TEMOS que mudar! Caso contrário a educação e a ciência continuarão como estão: sem resultados. Matando possíveis mentes brilhantes.

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  4. Excelente, mais uma vez parabéns ao Prof. Adonai. Quem se importa não se cala.

    Que nas críticas ao artigo percebe-se um tom político é óbvio. Só acho difícil acreditar que tenham entendido tudo tão errado, que tenham ficado tão melindrados com o que leram. Ninguém quer perder a moleza, nem que pra isso tenha que demonstrar um analfabetismo funcional sem paralelos.

    O argumento número 6, por exemplo, parece um caso de argumentum ad lazarum, só que mal colocado, cínico, usando a velha e boa "luta de classes" e o apelo ao companheirismo como muletas pra se sustentar. Mais uma vez me recuso a acreditar que tenha vindo de um professor universitário. Lamentável.

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    1. Pois é, Unknown (para futuros comentários peço que use um nome que facilite a identificação). O curioso é que estou me manifestando contrário ao sistema vigente. Portanto, vejo a mim mesmo como alguém de esquerda. Bizarro, não?

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    2. Adonai,

      Você pode bloquear os comentários anônimos.

      Adolfo

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  5. Adonai,
    Muitas vezes chego à conclusão que o Brasil não tem solução, que o problema é a cultura brasileira. A cultura brasileira não é compatível que nenhum tipo de excelência, e avessa a meritocracia e não sabe o que é um trabalho de longo prazo.
    Estou no curso de verão do IME-USP e é impressionante a evasão nesse momento do curso, chega a ser de até 90%. Acredito que terminar o que se começou deve ser um traço de caráter de todos indivíduos, que essa é condição necessária(dentre tantas ouras) para uma nação ir para frente.
    Para piorar hoje Renan Calheiros foi eleito presidente do senado.
    Você acredita mesmo que o Brasil tem condição de competir com naçoes como EUA, Alemanha, Japão...?

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    1. M. Silveira

      Não sei responder à sua questão. Minha crença no Brasil oscila muito. O que posso dizer é que espero que você esteja errado.

      A Inglaterra nunca produziu um único grande compositor, no nível dos grandes mestres como Chopin, Bach, Beethoven, Mozart. Este país já fez maravilhas em ciência e literatura. Mas música parece não ser o forte do povo inglês. Até o Brasil já teve mais destaque em música erudita do que a Inglaterra.

      O que quero dizer com isso é que talvez o Brasil não tenha condições de se destacar como um produtor de ideias. No entanto, a Polônia tem uma história interessante que poderia servir de inspiração à nossa nação. Houve um momento, no século passado, que o governo polonês criou um vasto e sofisticado plano para tornar aquele país uma potência mundial em matemática. E o plano deu certo.

      Estou trabalhando em uma postagem sobre o extraordinário exemplo da Polônia. Mas ainda não tenho todas as informações reunidas.

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    2. Também espero estar errado, mas são muitos exemplos que me fazem chegar a conclusão contrária.
      Não conhecia esse fato da Polônia, vou procurar me informar sobre.

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    3. M. Silveira

      Decidi publicar sobre a história matemática da Polônia nas próximas horas. Ainda não tenho o material necessário para a postagem que eu planejava, mas acho melhor veicular agora mesmo. Quando você ler, compreenderá o que quero dizer. É um exemplo realmente magnífico.

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  6. Prezado Adonai,

    Apesar de não compartilhar seu ponto de vista, respeito-o e admiro o artigo. Mas vamos a algumas ressalvas:

    "Mas música parece não ser o forte do povo inglês" ... bem, não é porque você claramente ignora a existência e beleza do Rock'n Roll daquele país que o mundo também o faça. Cada um em seu quadrado, não é? Mas em tempo: como neste estilo musical a Inglaterra tem excelência, isto já basta para desmontar o axioma básico do seu teorema "geral". Moral da breve história: cuidado ao enunciar teoremas gerais que se sustentam apenas em opiniões e não em fatos empíricos, até porque com isso um mero contra-exemplo desmorona toda uma torre de marfim.

    Mas, voltando ao tema do artigo. De forma análoga ao parágrafo anterior, você não mencionou que na Alemanha (por exemplo) há estabilidade acadêmica para os full-professors e aquele país ainda assim tem elevadíssimo nível de qualidade e produção intelectual nas ciências em geral. Como vemos, a estabilidade em si não é a raiz do mal, mas como ela é obtida o é!
    Senão, vejamos: é fato consumado que na Bavária professores somente podem ser admitidos como tal em instituições onde não fizeram outrora graduação/doutorado. Tudo isso para evitar protecionismo /máfia acadêmica: é lei estadual e centenária.

    Vou ser ácido e provocativo em meu comentário final: já no Brasil, acabe com a estabilidade do emprego docente e ao invés de corrigir os problemas que você levanta neste blog o agravaríamos! Por que? Bem, o primeiro tipo de docente a ser perseguido e demitido (infelizmente!) seria aquele como você, que tenta denunciar a nudez do rei.

    Forte abraço, parabéns pelo artigo e iniciativa,

    Rafael

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    1. Rafael

      Certa vez Dick Cavett perguntou a Paul Simon (espero que conheça sua obra) se ele se considerava um gênio da música, como muitos afirmavam na época de seu auge artístico. Paul Simon, que era um estudioso sério de música, respondeu que na música pop não existem gênios.

      Seu julgamento a meu respeito foi extremamente precipitado. Gosto muito de grupos e músicos como Pink Floyd, Beatles, Rolling Stones, Rare Bird, Yes, Alan Parsons, Michael Jackson, Rick Wakeman, Aphrodite's Child, entre muitos outros. Tenho centenas de CDs, DVDs e Blurays desses artistas. No entanto, comparar essa gente com os grandes mestres da música simplesmente carece de sentido. Isso não é uma questão de opinião. Isso é uma questão sobre o que, realmente, é uma grande música.

      Com relação às suas observações sobre estabilidade, respondo o mesmo que coloquei agora há pouco em outro comentário.

      Países europeus como Inglaterra, Alemanha, França e Itália, entre outros, contam com uma tradição científica e cultural muito antiga. Essa valorização natural à produção do conhecimento faz parte da cultura desses povos. Até mesmo cobrador de ônibus na Irlanda considera obrigatório que qualquer irlandês conheça a obra de James Joyce.

      Já as sociedades do continente americano são muito mais recentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, 40% da população acredita que o mundo nasceu exatamente da forma como está descrito no livro do Gênesis. Sociedades como a norte-americana e a brasileira ainda não alcançaram o nível cultural do continente europeu. Não creio que regras cabíveis à Europa sejam adequadas por aqui.

      Vale observar também que a Europa perdeu muito espaço para o sistema acadêmico norte-americano. Alguém poderia argumentar que este fenômeno é recente demais para quaisquer avaliações mais definitivas. No entanto, creio que se um dia os povos do continente americano atingirem um nível intelectual mínimo para sustentar trabalho honesto sem a pressão da competitividade a extremos, talvez possamos futuramente adotar um modelo mais parecido com o europeu.

      Em suma, não tenha tanta confiança na suposta acidez de suas observações. O mundo é um lugar um pouco mais complicado do que normalmente aparenta para muitos.

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    2. Adonai, obrigado por publicar o meu comentário.

      De forma alguma tentando desqualificar o rock, ou talvez qualificá-lo como um gênero menor, você pode negar o fato de que sua assertiva sobre a habilidade musical dos ingleses foi um desastre. Qualquer forma de arte possui sim um fator humano e subjetivo (ou de opinião se quiser) para definir sua qualidade. O cravo (de Bach) simplesmente não soa bem aos aborígenes, nem o didgeridoo ao alemão. Não há superioridade nisso e sim costume e tradição envolvidos. Afinal, não há um "fator h-normalizado" da música que nos permita comparar a genialidade de autores em estilos diversos e épocas distintas, não é? Como afirmar que Michelangelo foi maior do que Picasso simplesmente por uma "questão sobre o que, realmente, é uma grande pintura"?

      Mas voltando à estabilidade na carreira docente, gostaria apenas de citar que as regras Bávaras que mencionei remontam a um tempo em que a Alemanha era bem menos civilizada do que somos hoje. Atualmente, elas seriam desnecessárias pois a "cultura do jeitinho" foi ultrapassada.
      Não se iluda com argumentos de superioridade cultural européia. Outro contra-exemplo: mesmo sendo culturalmente riquíssima, a Itália como um digno representante europeu é altamente corrupta! Adota-se lá a estabilidade também para evitar o tipo de perseguição política que já descrevi ... claro, a outra face da moeda é abrir uma brecha para a infiltração sistêmica das máfias na acadêmia e queda da produtividade.

      Em verdade, no futuro, não será a América a adotar um modelo mais europeu (na academia) e sim o inverso. Com o passar dos anos vemos crescente número de "tenior tracks" sendo ofertadas no velho mundo para um processo de escrutínio ainda mais competitivo de quem será agraciado com a estabilidade ...

      Vou deixar um link (http://www.youtube.com/watch?v=l3MlxQvDBdw) que você muito apreciará, o Nathan é excelente físico teórico, mas inocentemente ainda não entende porque não se pode arrumar emprego para seus ex-alunos no Brasil usando apenas cartas de recomendação. Faz pensar!

      Abraços,

      Rafael

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    3. Rafael

      Jamais deixei de publicar comentários de pessoas que discordam de mim. Os únicos comentários que não publico são aqueles que promovem ataques pessoais (contra quaisquer pessoas) ou que fazem uso de vocabulário chulo. E mesmo isso tem sido cada vez mais raro por aqui.

      Agradeço pelo link. Assim que puder eu o examinarei.

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  7. Vou resumir relativamente o que entendo sobre os problemas da educação. Meritocracia? Processo de estabilidade dos professores? Desenvolvimento Científico? Tudo muito bonito de discutir, mas sem uma ênfase no real ponto, que em minha opinião: político. Os grandes problemas da educação brasileira em meu entendimento se resumem aos aspectos políticos caro Adonai. Simplesmente fantástico seu texto expondo essas mazelas presentes nas universidade federais, e não somente nelas. Estendo a discussão para todos os níveis educacionais hoje dominados por esta política escarnecedora, que subjuga tudo que foi exposto por você. E porque falo sobre política? Pois é o entrave para as grandes modificações MACRO que deveriam ocorrer na sociedade. Passando pela sociedade, transladando pela ética política e retornando para sociedade na forma de saber, moral, trabalho, respeito e ética. Concordo em muito que foi exposto no seu texto, mas ainda faço algumas ressalvas em relação ao paralelo com as universidades de fora. É uma realidade totalmente diferente, em contraste com o nosso país, e nem digo me referindo a cultura, pois a mesma é uma noção bem mais amplas do que alguns podem supor. Comento mesmo em relação a sociedade em geral. Lhe pergunto: quantas pessoas que pudessem ler seu texto, estariam revoltas com a atual situação de nossas universidade? Poucos, muitos, nenhum? Parabéns pelo ótimo trabalho!

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    1. Nuno

      Normalmente quando se fala em política, as pessoas assumem implicitamente que esta atividade se restringe a um pequeno grupo de profissionais dos bastidores do poder legislativo. No entanto, todos os cidadãos devem perceber que também são criaturas políticas e que, portanto, podem e devem exercer essa atividade. Esta é uma das metas deste blog. Agradeço pelo apoio.

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  8. Professor, essa realidade narrada é, infelizmente, muito parecida com as escolas públicas, onde professores não se preocupam com o aluno e muito menos com a qualidade da aula dada ao aluno. É mais fácil culpar os alunos, como é o caso das escolas. Incrível esse artigo e acredito que a nossa juventude poderá mudar essa situação, desde que seja devidamente conscientizada. ;)

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    1. O problema é este, Cibele. Quem fará a conscientização dos jovens? Professores? Governo? Iniciativa privada? ONGs?

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  9. Caro professor
    Conheci seu trabalho há alguns anos quando pesquisava uma base para meu projeto de mestrado em filosofia da Ciência. Na ocasião, adquiri seu livro "O que é um axioma".
    Sobre o artigo em questão, passei por uma experiência que me veio inteiramente a cabeça enquanto lia seu artigo.
    Neste ano, me inscrevi para uma vaga como professor de Filosofia da Ciência (num curso de licenciatura em Filosofia) numa instituição particular de ensino superior, apresentei uma aula em que usava o experimento de Michelson e Morley como base para análise dos conceitos de experimento, ciência e verdade científica, neste sentido havia um entrecruzamento, uma convergência de linhas filosóficas em que entrava em operação a noção semântica de verdade de Tarski.
    Humildemente não sei se fiz uma boa apresentação.
    Porém o que mais me chamou atenção foi o fato de que ao final de minha apresentação, umas das pessoas que me avaliavam ter perguntado: "e Platão? E Aristóteles? E a Filosofia?
    Pareceu-me evidente, naquele momento, pelo teor da pergunta - que as pessoas não consideravam nenhuma relação entre o que eu havia apresentado e a Filosofia da Ciência. Ainda mais, que tinham uma visão absolutamente ultrapassada do assunto (ela não questionava a falta de diálogo com a tradição filosófica). O que demonstra o abismo existente entre o que se ensina nas Instituições de Ensino Superior e o que se pesquisa em Filosofia da Ciência atual.
    Neste sentido, pergunto ao senhor: se as instituições de ensino superior públicas estão defasadas em termos de atualidade do conhecimento em função da falta de qualidade individual dos professores, que dizer da instituições privadas?

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    1. Sousa Melo

      Não consigo imaginar filósofos brasileiros como Newton da Costa, Oswaldo Chateaubriand ou Otávio Bueno fazendo esse tipo de pergunta. Mas consigo imaginar a maioria fazendo. De fato, entre filósofos brasileiros há excessiva preocupação com exegeses de obras de outros filósofos e pouquíssima preocupação em filosofar (no sentido de fazer avançar a filosofia). E, de fato, são pouquíssimas as instituições privadas de ensino superior em nosso país que conseguem desenvolver algum trabalho de bom nível. Minha recomendação é que você procure contato profissional com pessoas como as que citei acima, e/ou discípulos delas.

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