sábado, 5 de janeiro de 2013

Idade das Trevas



Segundo o grande Gustave Kobbé (na versão de The Complete Opera Book organizada pelo conde de Harewood), a ópera, como hoje é conhecida, nasceu na Itália logo no início do século 17. 

Foi no ano de 1600 que estreou em Roma La Rappresentazione di Anima e di Corpo, de Emilio de'Cavalieri. Esta ópera foi encenada pela segunda vez em Cambridge, no Gitton College, apenas em 1949, seguida de demais apresentações durante várias décadas seguintes nos Estados Unidos e países europeus. 

O tema desta íntima união entre música e teatro é extraordinariamente atual: os conflitos entre corpo e alma. 

As personagens são o Tempo, a Inteligência, o Corpo, a Alma, o Prazer, o Eco, entre outras abstrações. O Tempo comenta que tudo muda na vida humana. A Inteligência lembra que o espírito humano jamais está satisfeito. O Prazer seduz o casal Corpo e Alma. Alma consulta o Céu, o qual responde pela voz de Eco o que são os verdadeiros prazeres. 

Esta obra marca um período histórico fundamental: a transição da Idade Média para a Renascença. Era a transição das Trevas para a Luz. E, curiosamente, elementos fundamentais dos dois períodos estão fundidos na mesma peça. Aparentemente de'Cavalieri percebeu que principalmente mudanças significativas demandam longos e delicados períodos de transição.

Hoje, sem dúvida alguma, seria fundamental que as novas gerações conhecessem o drama de de'Cavalieri, com libreto de Agostino Manni, para que pudessem refletir sobre a época que hoje vivem. Isso porque estamos novamente mergulhando em meio a trevas e precisamos renascer.

Um leitor deste blog (e, portanto, um indivíduo que se interessa pelo conhecimento) disse recentemente, em mensagem privada, que ele foi incompetente na universidade, justificando o abandono dos estudos formais. Vivemos em um sistema opressor o bastante para garantir sentimento de culpa em jovens interessados que simplesmente não se adaptaram ao atual sistema de ensino. Portanto, eles acreditam que são incompetentes. E o sistema continua intocável.

Alguém poderia argumentar que o sistema educacional vigente é seletivo, determinando, por mecanismos darwinianos, quem deve vencer na sociedade e quem deve perecer. No entanto, não é este o mecanismo que está em jogo. Aqueles que perecem, continuam a procriar. Quem fracassa no sistema educacional não é eliminado das sociedades humanas. Portanto, precisamos prestar um pouco mais de atenção na educação, antes que ela se volte contra a própria sociedade.

É claro que há aqueles que não têm interesse algum em ciência, cultura ou educação. Tais indivíduos certamente merecem algum tipo de felicidade em seus meios sociais. Mas o problema realmente grave é a existência de uma massa significativa de jovens motivados e apaixonados que frequentemente encontram fortes motivos para desânimo e até abandono em nossas escolas, do primário à pós-graduação. Portanto, o que existe nas escolas, para muitos, é escuridão e não conhecimento.

Outro leitor, recentemente, confundiu carreira com emprego, no contexto de discussões sobre as universidades públicas brasileiras. Em sua mentalidade, estar empregado em uma universidade pública garante uma carreira. Não consegue perceber que uma brilhante carreira acadêmica pode ser seguida mesmo sem qualquer vínculo empregatício fixo, como foi o caso do grande matemático húngaro Paul Erdös. E não consegue perceber que há milhares de professores empregados que não seguem carreira alguma, pois falta qualquer senso de unidade e objetivo no que fazem profissionalmente.

O primeiro leitor mencionado também perguntou como equilibrar satisfação pessoal com satisfações financeira e acadêmica. Não percebia, pelo menos até aquele momento, que a prioridade deve ser um delicado equilíbrio entre as felicidades pessoal e do contorno social. Se um indivíduo abraça uma carreira por paixão, é tendência natural que ele/ela consiga o retorno financeiro que lhe garanta uma vida confortável. E é tendência natural que conquiste respeitabilidade em seu círculo profissional, desde que ofereça algum retorno social relevante. Mas ainda que nada disso seja realizado (afinal, o fator sorte sempre tem o seu imprevisível peso), pelo menos terá vivido uma vida honesta, na qual jamais se escravizou às crenças amalucadas de familiares e amigos que acreditam serem capazes de julgar qual é o melhor caminho profissional a ser seguido pelos jovens.

No entanto, poucos percebem a vida dessa forma. E, assim, a maioria decide pelo sofrimento de vidas em busca de realizações estipuladas por todos, menos por si mesmos. 

A ciência vive hoje uma ampla e confusa crise. Os adeptos do cientismo, por exemplo, afirmam que somente a ciência permite acesso ao verdadeiro conhecimento. Esta postura certamente compromete a credibilidade da atividade científica. Aliás, este é um tema que pretendo explorar em alguma postagem de 2013. Importantes periódicos científicos estão sendo extintos ou mudando radicalmente seus corpos editoriais. Isso porque há um movimento mais ou menos organizado para viabilizar o acesso gratuito ao conhecimento para qualquer cidadão do mundo que tenha à disposição um computador conectado à internet, bem como melhorar a qualidade da produção científica. Afinal, a maioria dos sites genuinamente confiáveis, do ponto de vista científico, são pagos. Portanto, a democratização do conhecimento é um discurso ainda hipócrita. O plágio nos meios acadêmicos é uma indústria que cresce todos os dias. Os sistemas educacionais da maioria das instituições de ensino no mundo são péssimos. Todos estes fatos e muitos outros apontam para a percepção de que hoje vivemos em um período que caminha para a escuridão. Mas o fenômeno social que melhor evidencia isso ainda é a indiferença. 

Em tempos de ditaduras, reinados e impérios os motivos para a revolta popular eram claramente visíveis. Em tempos de estados ditos democráticos, a ilusão de troca de poder ofusca a percepção de que ainda vivemos sob perigosa opressão. A mais importante lição que governos aprenderam com o passar dos séculos é que a tal da democracia esfria ânimos ou, pelo menos, os controla. No Brasil, a cada quatro anos ocorre uma revolta popular conhecida como processo eleitoral, visando obviamente a mudança no Governo Federal. Mas as mesmas famílias e os mesmos grupos ainda se mantém no poder. E se alguém não familiar assume um cargo eletivo, torna-se imediatamente isolado, sem poder articulador. Portanto, essa revolta popular com agenda marcada encontra sérias limitações.

O futuro sempre esteve nas mãos dos jovens. Mas os jovens dos estados democráticos ficam cada vez mais insensíveis, indiferentes. Não percebem o poder da propaganda e, portanto, não a aplicam. Não percebem o poder de simplesmente se recusarem a ter aulas com professores ruins, em escolas ruins, regidas por sistemas ruins. Estão sendo vencidos por uma educação obsoleta que jamais os libertará enquanto se submeterem a ela. Pois ainda confiam no voto.

A democracia ainda é o melhor sistema político, perante a falta de outras ideias. Mas democracia não é exercitada apenas através do voto. O exercício da democracia é também a permanente exigência por educação, segurança, saúde e justiça. E nenhuma dessas instituições em nosso país funciona com propriedade e responsabilidade social. Portanto, o exercício da democracia é principalmente a crítica, a denúncia, a revolta.

Para compreender um pouco melhor os efeitos anestésicos da falsa democracia brasileira cito um exemplo muito particular. 

Uma conhecida de meu filho, recentemente, entrou em crise. Ela comprou nozes e, em casa, descobriu que tinha esquecido de comprar o quebra-nozes. Portanto, ela não tinha a menor ideia de como quebrar aquelas duras cascas. Expôs sua crise no facebook e, então, uma extensa discussão teve início: use um martelo; não tenho martelo; use um rolo de macarrão; não tenho rolo de macarrão; tô com vontade de comer nozes etc.

Imagino que qualquer esquilo ficaria perturbadoramente intrigado como um membro da espécie dominante do planeta não consegue abrir uma simples noz. Arquimedes de Siracusa repetia incansavelmente para todos, incluindo escravos, políticos, cientistas e comerciantes: "Dê-me uma alavanca e moverei o mundo!" Ninguém mais aguentava aquele repetitivo discurso do velho engenheiro e pensador. Mas parece que a alma de Arquimedes está finalmente morrendo, após dois milênios, pelo menos no coração de muitos jovens. Fala-se sobre Arquimedes nas escolas, mas poucos percebem o significado de suas palavras.

Indiferença é isso! Indiferença é não perceber sequer que uma porta é uma alavanca e que, portanto, não apenas move o mundo mas também abre nozes (especialmente na segura região da dobradiça). A garota em questão usa uma sofisticada realização da máquina de Turing, conectada a uma complexa rede internacional de computadores, para revelar que não consegue abrir uma bendita noz. Sua mente está simplesmente anestesiada. E esta dormente mente vota. Ela espera que outros mudem a sua moribunda realidade.

Até poucas décadas atrás existia o persistente e justificado medo global do fim das civilizações humanas resultante de conflito nuclear. Tempos depois preocupações em escalas bem menores surgiram, associadas a agentes menos compreendidos pela população, como variações mortais do vírus da gripe, AIDS, terrorismo, entre outras paranoias sociais. Mas o pior inimigo da espécie humana é, certamente, sua passiva ignorância. Trata-se de uma ignorância que não permite uma usuária da internet abrir uma noz. Uma ignorância resultante de simples indiferença em relação ao mundo, mesmo quando sente incontrolável vontade de comer nozes. Uma ignorância que não permite perceber que o corpo perece quando a alma morre.

O grande bardo jamais poderia antecipar que sequer o mundo dentro de uma casca de noz seria inacessível a indivíduos que supostamente teriam contato imediato e facilitado com diferentes culturas, diferentes civilizações, diferentes realidades globais, através da magnífica internet.

É claro que há aqueles que não são indiferentes. Mas mesmo estes estão mergulhados em meio à escuridão de uma ciência em crise e de uma educação incompetente, como já apontamos acima.

O perturbador é que todos vivemos em meio a trevas, mas sem qualquer sinal de uma nova renascença. 

No final do século 20, Steve Wolfram foi comparado a Isaac Newton por alguns. Após ter apontado falhas fundamentais na maneira como hoje compreendemos e fazemos ciência, escreveu em um livro a sua proposta de um novo tipo de conhecimento científico. No entanto, decidiu frear sua produção acadêmica para ganhar dinheiro. Adaptou-se a um mundo que não mais reconhece a existência da alma. E, sem alma, não há conflito com o corpo. E, sem conflito, o direito à escolha foi substituído por diretrizes ditadas por todos, menos por nós mesmos. O direito às mudanças foi substituído pelo voto.

Não falo da alma com caráter místico ou religioso. Mas ainda falo de uma alma supostamente imortal e que transcende o corpo. Trata-se da mesma alma que perturba o corpo com perguntas como: "Devo seguir a carreira que amo ou a carreira que dá dinheiro?", "Por que estou nesta sala de aula se não suporto este professor?", "Por que estou neste emprego se não suporto este trabalho?", "Quem sou eu para fazer alguma diferença?", "Como posso fazer alguma diferença?"

Quando a alma morre, só resta um tipo de pergunta: "Como que eu abro esta noz?" É neste momento que percebemos que apenas o corpo está falando, pois a garota que citei estava simplesmente com fome.

Diante disso tudo, apenas uma coisa se mostra certa: o Brasil como hoje se encontra não consegue se sustentar por muito mais tempo. É hora de mudar. Mas não através de votos.

5 comentários:

  1. Olá, Adonai! Pois é, isto foi tema de muitas conversas nossas. Lembra da história do gato e da curiosidade? além de várias outras que comentei com vc? Lembra de uma conversa específica em julho de 2010 que falei do meu método em sala (com o poema VERDADE de Drummond e outras "técnicas" que uso para tentar "acordar" os alunos?). Então. Quando falei em outro post seu que democracia era ter senso crítico, era justamente neste sentido. Como saber dos nossos direitos e como saber COMO reivindicar os mesmos? Com senso crítico. Sabendo argumentar. O problema é que as pessoas hoje em dia não sabem dialogar. Querem vencer no grito ou no silêncio. Um exemplo: semanas atrás perguntei a uma pessoa do face por que havia postado uma pergunta que deveria ser feita a mim, para um terceiro indivíduo. Ela apenas manteve silêncio. Não soube (ou não quis) justificar seu ato. Pura e simplesmente a avisei que cortaria contato com ela, expliquei que não quero na minha vida pessoas que agem de má fé. Esperei retorno (sempre dou todas as chances da pessoa se explicar; vai que ela tem um motivo que desconheço). Novo silêncio, então a cortei do face. Sim! É hora de mudar! Por isso participo de passeatas, de petições, de abaixo-assinados, de manifestações. Divulgo, critico e denuncio. Sempre fiz isso, mas ultimamente tenho feito mais. Creio que a idade nos traz menos medos (apesar de sempre - desde jovem - eu buscar enfrentar meus medos. Fiz rapel por causa do pavor de altura, tentei aprender a nadar sozinha por causa do medo de água etc). Mas, pergunto: como mudar desde a raiz? Pois sou professora universitária e é difícil mudar algo tão fixo nos alunos. Quando digo que é para me contestarem, percebo o titubear deles. Quando falo que é para pesquisar por conta (e de propósito dou falsas informações - as corrigindo na aula seguinte, caso nenhum aluno foi atrás para confirmar), percebo o medo deles de ir "contra" um professor. A curiosidade é básica. Isto foi sufocado neles, seja por pais que foram castrados, seja por professores igualmente reprimidos. Sei que a proposta é de longuíssimooo prazo. Mas temos que mudar a educação SIM! Desde a base, mas em todos os âmbitos. Todas as séries JUNTAS! Complicado? sim. Impossível? Não creio. Gosto do ditado: "não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez!"

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  2. Graças a Deus que sei abrir nozes de várias formas, e sempre as consumi sem jamais ter um quebra nozes em casa. Acho de bom tamanho essa moça fazer um chá de panelas e pedir um quebra nozes, senão corre o risco de passar pela vida sem a delicia de uma noz.

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  3. Quando leio os textos do senhor oscilo entre um ceticismo melancólico e uns lampejos de esperança.

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    1. Verô!

      Você está descrevendo exatamente como eu me sinto. Este país é uma montanha-russa sem fim.

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  4. Foi muito bom ler esse email e encontrar alguém que pensa exatamente como eu!

    Eu acredito que a solução para todos os problemas do mundo é: SEGUIRMOS A NOSSA VOCAÇÃO, isto é, o anseio da alma.

    Assim, todos encontrariam a satisfação e felicidade genuína do sucesso, e o mundo não mais atribuiria essas palavras a DINHEIRO ou STATUS.

    Todos seríamos mais competentes nos nossos trabalhos, e o mundo evoluiria tremendamente.

    O TER não valeria mais que o SER.
    PEITOS E BUNDAS não valeriam mais que o CORAÇÃO.

    E ninguém mais reclamaria da segunda-feira.

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