domingo, 6 de janeiro de 2013

O Certo, o Errado e o Brasileiro



Existem pelo menos três maneiras para executar uma tarefa ou defender uma ideia: a certa, a errada e a brasileira. 

Neste texto exploro um pouco sobre certos comentários a conteúdos deste blog feitos no facebook

1) Estabilidade de professores nas instituições públicas de ensino superior. As melhores universidades do mundo são centros de excelência que produzem conhecimentos científicos e tecnológicos de extrema relevância. Como já disse o grande físico britânico David Bohm (ex-professor da Universidade de São Paulo), "A ciência para ser construída requer uma certa atitude mental, que eu chamaria de atitude crítica [...], independente de que se goste ou não, quer dizer, não é o seu desejo que determina se o que você diz é verdadeiro." [transcrito de entrevista realizada durante o Simpósio de Física em Homenagem ao 70.o aniversário de Mario Schenberg]. No entanto, políticas científicas e acadêmicas são frequentemente definidas a partir de desejos e não de mentalidades críticas. Isso porque praticamente qualquer atividade política é definida por desejos, mesmo quando o assunto é ciência. Este é um ponto extremamente importante: a fundamental diferença entre ciência e políticas científicas. A política científica brasileira tem se caracterizado, entre outras coisas, pela estabilidade irrestrita concedida a qualquer professor de instituição pública de ensino superior que tenha sido aprovado em estágio probatório. Esta atitude corporativista é contrária ao senso crítico, simplesmente porque avaliações de desempenho entre professores de tais instituições são inócuas. Aqueles que defendem a estabilidade frequentemente afirmam que ela viabiliza condições para críticas à instituição, sem represálias políticas injustas. Isso é verdade. No entanto, a estabilidade concedida a todos acaba mutilando gravemente a auto-crítica de qualquer instituição, como facilmente verificamos na prática. Cito um exemplo bem conhecido. O filósofo brasileiro Otávio Bueno é Professor Titular e Chefe do Departamento de Filosofia da University of Miami. É também editor-chefe do periódico Synthese, um dos mais importantes da área de filosofia da ciência. E ele conta com estabilidade de emprego em sua instituição! Mas isso foi conquistado após quase vinte anos com posições de trabalho na Universidade de São Paulo, na University of Leeds, na University of York, na California State University e na University of South Carolina. Sua estabilidade foi conquistada após 120 artigos publicados em periódicos de grande prestígio e inúmeras conferências e apresentações muito bem sucedidas em congressos internacionais. O nome disso é mérito! É claro que um cientista com o perfil de Otávio Bueno jamais se acomodaria com a estabilidade. Mas podemos assumir que todo professor aprovado em um estágio probatório de três anos merece estabilidade? Certamente não. É claro que todos desejam a estabilidade. Mas ciência não se promove com desejos.

2) QI. Brasileiros frequentemente afirmam, em tom irônico, que qualquer profissional de nosso país precisa de QI (quem indique). Esta é uma anedota simplesmente irresponsável. No caso de professores universitários e pesquisadores, é claro que o profissional precisa de indicação! Um bom professor universitário ou um bom pesquisador deve ser reconhecido pelos seus pares. Caso contrário, como confiar nele? Não são apenas artigos publicados que definem um bom pesquisador. Não são apenas opiniões de alunos de uma instituição de ensino que definem um bom professor. É fundamental a interação com colegas das mais variadas instituições. E tais interações ocorrem principalmente por contato pessoal. Este é um dos motivos para existirem tantos congressos e simpósios na comunidade acadêmica internacional. A indicação não é um mal. A indicação é uma necessidade social e profissional. Quando o matemático chinês Liangzhong Hu fez contato comigo por e-mail, pedindo para que eu fosse seu tutor de pós-doutoramento na Universidade Federal do Paraná (UFPR), examinei seu résumé e, em seguida, solicitei três cartas de recomendação. Recebi duas da China e uma da Itália. As cartas eram simplesmente indicações que enfatizavam a seriedade e a competência de Liangzhong Hu. Aceitei este importante pesquisador para a realização de seu estágio de pós-doutoramento e hoje ele é professor concursado da UFPR, responsável por importantes contribuições em álgebras não comutativas aplicadas em teorias de campos.

3) Fraudes em Concursos Públicos. Fraudes em concursos públicos para fins de contratação de professores em instituições de ensino superior têm sido cada vez mais frequentes no Brasil. No entanto, é erro grave condenar toda e qualquer fraude. Concursos nas universidades públicas são fortemente engessados por regras supostamente rigorosas mas evidentemente sujeitas a falhas graves. No caso das universidades federais, os candidatos devem fazer uma prova escrita (para avaliar conhecimento) e uma prova didática, bem como defender seu memorial, além de apresentar Curriculum Vitae devidamente documentado. Não existe, em tais concursos, qualquer avaliação pessoal que torne o processo mais flexível. E flexibilidade é extremamente importante. Cito outro exemplo que vivenciei pessoalmente. Anos atrás presidi um concurso público no Departamento de Matemática da UFPR. Um dos candidatos era um alemão cujo conhecimento matemático e experiência acadêmica eram inquestionáveis. No entanto, na prova escrita ele respondeu apenas a três das cinco questões obrigatórias. Isso ocorreu simplesmente porque ele estava extremamente cansado no dia da prova. As três questões que ele respondeu foram desenvolvidas de forma impecável. No entanto, a nota mínima exigida em tal prova era sete. Resultado: três professores da comissão julgadora atribuíram nota seis a este candidato e, portanto, ele foi reprovado. Se eu tivesse exercido alguma pressão sobre esses três membros da comissão, certamente o resultado teria sido outro: este alemão seria hoje professor da UFPR. No entanto, tal atitude poderia ser caracterizada como fraude. Como bom cordeiro, segui as rígidas e estúpidas regras. Eu também presidi um processo seletivo para professor substituto no qual um dos candidatos era notoriamente conhecido como um professor que causava graves problemas em sala de aula. Devemos admitir profissionais com este tipo de perfil em uma instituição que busca por excelência? Creio que não.

Em suma, as universidades públicas brasileiras, especialmente as federais, deveriam se espelhar um pouco mais nos modelos bem sucedidos que ocorrem fora de nosso país. Isso porque as nossas universidades fazem muito menos do que poderiam. Sem produção de conhecimento e tecnologia, o Brasil será um eterno dependente de outras nações. Sem produção de conhecimento relevante, jamais poderemos garantir nossa soberania econômica, social e política. Sem produção de conhecimento, jamais teremos justiça social.

10 comentários:

  1. A QUESTÃO DO QI

    Quando David Bohm foi obrigado a deixar os EUA por causa da perseguição macartista, ele teve de solicitar à Einstein uma carta de recomendação para ser pesquisador em Israel.

    De fato, é tradição no meio acadêmico recorrer a um certo tipo de indicação entre seus pares. Acredita-se que essa prática contribui para o reconhecimento dentro da comunidade científica.

    No Brasil, contudo, a tradição do QI (quem indica) tem gerado o pernicioso espírito de amiguismo no ambiente acadêmico, o qual é responsável pela feudalização dos grupos nas universidades, comprometendo assim a própria produção de conhecimento e tecnologia.

    Pessoalmente, sempre detestei depender de alguém para conseguir algo cientificamente. Odiava depender de aulas e de provas dos professores para aprender física e matemática. Detestei pedir carta de recomendação a professores para ingressar no mestrado, na UnB. Felizmente, no CBPF não precisei nada disso para entrar no doutorado!! Na fase de pós-doutoramento na UNICAMP e na UFMG, meus contatos com os supervisores foram realizados diretamente, isto é, sem mediação de outros professores e/ou pesquisadores. No entanto, o mesmo não aconteceu com o Prof. Ulrich Weiss, na Alemanha. Desconfiado de que os europeus apreciam as chamadas recomendações, pedi ao Prof. Almir Caldeira, da UNICAMP, que escrevesse um e-mail ao Weiss. É impressionante notar como as pessoas se sentem valorizadas e prestigiadas com esse tipo de conduta!!!

    O mais importante de ser enfatizado é que cientificamente não precisamos de carta de recomendação ou de quem indica para termos ideias. Publicar artigo na Physical Review Letters não exige nenhuma indicação. As ideias são mais relevantes.

    Separar o que é acadêmico do que é científico, separar a Física dos físicos tem sido a maior lição pedagógica da minha vida de estudioso.

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  2. A QUESTÃO DA ESTABILIDADE

    Estabilidade é uma questão acadêmico-burocrática; não é algo científico. Para termos ideias férteis, precisamos de uma ambiente universitário que propicie isso. Dirac e Hawking contam que foram obrigados a fazer duas provas: uma para entrar e outra para sair da universidade.

    O nosso modelo de universidade é medíocre. A maioria dos nossos professores é ruim. O ambiente universitário é intelectualmente paupérrimo. Diante desses problemas estruturais, a estabilidade é uma questão menor. Passa ao largo dos verdadeiros problemas que impedem o desenvolvimento científico do país.

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  3. A QUESTÃO DOS CONCURSOS PÚBLICOS

    Em um país com pouca tradição científica, com déficit intelectual em todos os estratos sociais, a questão da contratação de professores nas universidades brasileiras não poderia ser mais deplorável do que é.

    O amiguismo acadêmico causa a formação de feudos nas universidades. Se não publicar com seus confrades, se não fizer as continhas, se não limpar os equipamentos do laboratório de seu orientador-amigo, será muito improvável ser aceito dentro do feudo.

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    1. Bolivar

      Agradeço pela importantíssima contribuição, principalmente em sua discussão sobre estabilidade. Fortemente acredito que nossas universidades refletem características fundamentais do país como um todo. Admito sim a possibilidade de que nossa educação e ciência jamais poderão se destacar para além do que já fizeram. Mesmo assim espero estar errado. Combato a estabilidade não com o propósito amalucado de transformar as universidades públicas em centros de excelência, mas com o objetivo de mostrar que nosso ensino superior está fundamentalmente errado. Talvez, desta forma, alguma gota de progresso ocorra.

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  4. Acho que vale a pena mencionar o receio que a maioria das pessoas tem, com relação à maior flexibilidade na contratação e com relação a indicações:
    É verdade que i) elas permitem corrigir falhas inevitáveis (ou não) dos critérios de avaliação, e ii) abrem a possibilidade de se dar preferência a candidatos com competência reconhecida por seus pares;
    Mas, ao mesmo tempo:
    i) a flexibilização permite distorcer resultados e; ii) indicações podem ser feitas em função de amizades e favores ao invés de competência (aliás, o conceito de "QI" é pejorativo exatamente por possuir essa a conotação).
    Num país com tradição de nepotismo o receio de que o segundo caso se torne o mais comum poderia ser justificado.
    Um argumento a favor da flexibilização talvez seja que hoje em dia a flexibilização já existe, mas só para o mal:
    pessoas que favoreceriam amigos já são desonestas o bastante para distorcerem os concursos, rígidos como estão, enquanto aquelas preocupadas com a qualidade dos contratados, tendem a ser as com escrúpulos demais para violarem as regras.

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    1. Stafusa

      Há um discurso que tenho repetido para muita gente. As instituições pilares de qualquer nação são educação, saúde, segurança e justiça. Nenhuma delas opera com propriedade sem as demais. Portanto, os casos de suspeita de fraude sempre devem ser investigados, com agilidade, firmeza e independência. Sem justiça forte, não há educação forte.

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  5. Ao ler este texto me lembrei de Ignác Fülöp Semmelweis esse Obstetra observou que a taxa de mortalidade em mulheres após o parto éram maiores na ala próxima ao laboratório de dissecação, onde os internos saíram do laboratório até as salas de parto sem nenhum
    hábito de higiene, notou também que um amigo morreu com a mesma infecção destas mulheres após se cortar enquanto examinava uma mulher com febre puerperal. Então o que separava a vida da morte éra simples, lavar as mãos e desinfetá-las antes do parto, mais nimguém o ouviu e outro tanto desdenharam da sua orientação. A exemplo de Semmelweis o professor Adonai sabe qual o problema e quais as medidas a serem tomadas mais são raras as pessoas dispostas a lavar e desinfentar o sistema educacional das universidades brasileiras.

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  6. Ao ler este texto me lembrei de Ignác Fülöp Semmelweis esse Obstetra observou que a taxa de mortalidade em mulheres após o parto éram maiores na ala próxima ao laboratório de dissecação, onde os internos saíram do laboratório até as salas de parto sem nenhum
    hábito de higiene, notou também que um amigo morreu com a mesma infecção destas mulheres após se cortar enquanto examinava uma mulher com febre puerperal. Então o que separava a vida da morte éra simples, lavar as mãos e desinfetá-las antes do parto, mais ninguém o ouviu e outro tanto desdenharam da sua orientação. A exemplo de Semmelweis o professor Adonai sabe qual o problema e quais as medidas a serem tomadas mais são raras as pessoas dispostas a lavar e desinfentar o sistema educacional das universidades brasileiras.

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  7. Acho que cabe mencionar aqui o seguinte questionamento. Quando as leis são injustas ou perniciosas, é correto desobedecê-las? Se sim, em quaisquer casos? Ou devemos obedecê-las e tomar uma atitude ativa no sentido de mudá-las? É uma questão sobre a qual eu ainda não cheguei a qualquer conclusão (não que já tenha realmente pensado a sério sobre isso), mas creio que o caminho para sua resposta passe pelo conhecimento do valor das leis e do que vale mais que elas.

    "Food for thought".

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  8. Fui aluno de universidade federal...Agora sou da PUC...Noto imensa diferença...Noto que os professores da particular tem extremo zelo em saber se o aluno que pergunta a questão mais "besta" entendeu a matéria. A matéria é a mesma. Os alunos são igualmente inteligentes...

    Na faculdade federal em que estudei era comum e tido quase como glorioso, que a cadeira de análise, por exemplo, rodasse 90% dos alunos. O departamento de física exibe, com orgulho, sua série temporal de rodar 50% dos alunos de Física I. Nós estamos falando dos alunos dos vestibulares de engenharia mais concorrido! Por toda e qualquer medida objetiva, não podem ser tomados por imbecis ou mentecaptos!

    Numa disciplina de computação, um professor rodou um colega, que entregou duas páginas de demonstrações, porque o NÃO SE DEU CONTA de que o aluno havia entregue duas, e não uma, páginas. Na visão torpe do professor, o aluno fizera meia prova. Rodou o aluno com base em meia prova. Quando o aluno foi se queixar, dissera que NADA FARIA, POIS JÁ TINHA ENTREGUE AS NOTAS!

    Em uma discliplina de Álgebra, após termos feito a prova em casa, o professor as enrolou em um rolo, colocou-as debaixo do braço e disse (ispis literis): "Pessoal, quem não me mandou tomar no c* nestas provas, passou com C". O quê?????

    Numa disciplina de Probabilidade, o professor era, com toda certeza um psicopata. Não apenas passava as aulas falando de sua moto, como investia sexualmente nas alunas, assediando-nas, ocasionalmente obtendo sucesso. Foi PRESO EM FLAGRANTE POR ESPANCAR SUA MULHER, NO CARRO, COM UMA BARRA DE FERRO. Réu primário, blah blah blah, Justiça brasileira, CONTINUOU DANDO AULA, NORMALMENTE, COMO SE SUA CONDUTA AMORAL NADA TIVESSE A VER COM A INSTITUIÇÃO.

    Em discplina de Pesquisa Operacional, depois de muito quebrar a cabeça, investir em livros, descobri, ex-post-facto, que o professor DAVA A EXATA MESMA PROVA HAVIA 10 ANOS! Apenas o trouxa aqui achava que se tratava de uma prova legítima! A maioria sequer estudou, mas PASSOU!

    Eu não quero generalizar, mas percebo os efeitos nocivos da estabilidade de emprego nestes casos.

    A universidade é Ufrgs. Eu detesto faculdade federal.

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