quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Filosofia do Medo


A última postagem deste blog rapidamente se colocou entre as mais visualizadas desde 2009, o que demonstra que o tema desperta interesse. No entanto, algumas pessoas julgam que o levantamento realizado sobre pesquisadores do CNPq não foi justo. Muitos alegam que filosofia tem certas peculiaridades diferentes de áreas como matemática, física ou ciências biológicas. Por conta disso, em filosofia não se poderia usar critérios internacionais de publicação em periódicos especializados (indexados em Web of Knowledge - WoK) para fins de avaliação de produtividade acadêmica. Como eu mesmo não entendo o que seriam essas peculiaridades (apesar de meu doutoramento ter sido em filosofia, pela USP), resolvi aplicar os mesmos critérios de avaliação sobre outros filósofos que trabalham em diferentes partes do mundo. Vejam os resultados preliminares:

R. Lanier Anderson (Stanford University). Ele tem nove artigos em periódicos indexados em WoK. Um dos artigos tem doze citações.

Christopher Bobonich (Stanford University). Ele tem catorze artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles tem doze citações.

Michael E. Bratman (Stanford University). Ele tem vinte e sete artigos publicados em periódicos indexados em WoK. Um deles tem cento e noventa e duas citações.

Solomon Feferman (Stanford University). Ele tem quarenta e nove artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles tem quarenta e seis citações.

Otávio Bueno (University of Miami). Este brasileiro que trabalha nos Estados Unidos é autor de pelo menos* trinta e dois artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles conta com dez citações. 

Walter Carnielli (Unicamp). Outro brasileiro que já publicou pelo menos* trinta e três artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles tem quarenta e quatro citações.

Jean-Yves Beziau (UFRJ). Este francês trabalha atualmente no Brasil e conta com pelo menos* doze artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles tem 4 citações.

Simon Evnine (University of Miami). Tem doze artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles conta com dez citações.

Susan Haack (University of Miami). Tem pelo menos* quarenta e um artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles tem doze citações.

Frank Arntzenius (University of Oxford). Conta com vinte e oito artigos publicados em periódicos indexados em WoK. Um deles tem trinta e três citações.

Brian Leftow (University of Oxford). Cinquenta artigos em periódicos indexados em WoK. Um deles tem cinco citações.

Simon Saunders (University of Oxford). Autor de pelo menos* vinte artigos veiculados em periódicos indexados em WoK. Um deles tem quarenta e uma citações.

Em suma, comparando os exemplos acima com a produção filosófica daqueles que são supostamente a elite da área em nosso país, ficam evidentes os seguintes fatos:

1) Se existe alguma expressividade internacional na produção filosófica brasileira, ela não está representada pela maioria dos pesquisadores do CNPq, pelo menos no nível mais alto, 1A. 

2) Se existe alguma relevância nas pesquisas de profissionais como Guido Antonio de Almeida (UFRJ), Ivan Domingues (UFMG), Luiz Henrique Lopes dos Santos (USP), Marilena de Souza Chauí (USP), Nelson Gonçalves Gomes (UNB), Oswaldo Chateaubriand Filho (PUC-Rio), Paulo Eduardo Arantes (USP), Raul Ferreira Landim Filho (UFRJ), Renato Janine Ribeiro (USP), Ricardo Ribeiro Terra (USP) ou Roberto Cabral de Melo Machado (UFRJ), ela é praticamente ignorada pela comunidade filosófica internacional. São todos eles pesquisadores nível 1A do CNPq, mas com produção quase invisível no cenário mundial.

3) A filosofia que parece ser praticada no Brasil é a filosofia do medo. Assim como existem alunos que são dominados pelo medo de participar de aulas, também existem professores/pesquisadores que têm medo de expor suas ideias perante o mundo. Este é o inconveniente perfil da filosofia no Brasil: ela é marcada por publicações predominantemente locais. 

Outras críticas foram feitas à postagem sobre pesquisadores do CNPq. Algumas pessoas demonstraram claramente nunca terem ouvido falar de Web of Knowledge. Houve quem dissesse que Web of Knowledge "não está com nada". Tais reações também são consistentes com um Brasil não apenas isolado do resto do planeta, mas perigosamente ignorante e ingênuo. 

Sempre ouço pessoas dizerem, em tom de conformismo: "É a realidade brasileira. É a realidade brasileira..." E sempre respondo: "Não existe uma realidade brasileira. Brasil é uma Ilha da Fantasia." O nosso país comumente confunde trabalho com ocupação. Raramente se trabalha neste país. Vivemos em uma nação na qual gente demais se mantém simplesmente ocupada de segunda a sexta e vegeta nos fins de semana. Mas, em produção real, são poucos os envolvidos. 

Recebi agora há pouco e-mail de um brasileiro que trabalha no departamento de filosofia de uma universidade dos Estados Unidos. Reproduzo abaixo parte da mensagem:


"[s]into uma diferença imensa no método americano em relação ao qual fui ensinado no Brasil. Apesar de sempre ter gostado de filosofia analítica, o que era exigido de mim na graduação era simplesmente interpretação de textos; nunca me pediram para escrever se algo era certo ou errado. Nunca interessou se eu poderia construir um argumento a favor ou contra um problema filosófico. Sou Teaching Assistant de Intro to Philosophy e exijo de meus alunos (mesmo quem está no primeiro semestre) que argumentem a favor e contra o fundacionalismo de Descartes, por exemplo, e que mostrem alternativas."


Resumindo, não recomendo aos jovens brasileiros que estudem filosofia em nosso país. Esta não é uma área forte por aqui. E há convincentes evidências de que fenômeno semelhante ocorre em outras áreas acadêmicas, como letras e educação. 
__________________________
*Emprego a expressão "pelo menos" para destacar que há pesquisadores homônimos, o que dificulta a filtragem de informações.

** Estarei viajando nos próximos dias. Por isso posso demorar para moderar e responder comentários.

25 comentários:

  1. Respostas
    1. iiihhh, elogios de Olvavo, e agradecimentos ao próprio... Parece que o interesse aqui tb é político....

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    2. Anônimo, esse Olavo aí não é o original (este http://www.olavodecarvalho.org/english/)... Clica no nome dele e depois no blog.

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    3. ôpa, parece que vc tem razão Adolfo.

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  2. Parabéns!!! Excelente levantamento. Eu não tinha pensado nisso. Mantenha o bom trabalho!

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  3. caro Adonai,

    Talvez a situação dos filósofos brasileiros e do CNPq melhore um pouco se consultarmos outra base de dados, por exemplo, o Google Scholar. Pesquisei o nome dos pesquisadores mencionados e os que possuem perfil de autor indicam a seguinte quantidade de publicações, citações e índice-h:

    Marilena Chauí - 123 publicações, 13502 citações, indice-h 37
    Renato Janine Ribeiro - 92 publicações, 5487 citações, indice-h 27
    Luiz Henrique Lopes dos Santos - 10 publicações, 64 citações, índice-h 3

    Outros nomes como o Guido Almeida, Ivan Domingues, Oswaldo Chateaubriand, Nelson Gonçalves Gomes, Paulo Eduardo Arantes, Raul Landim, Ricardo Terra e Roberto Machado não possuem perfil mas a busca mostra que possuem publicações e citações em número razoável.

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    1. Renato,

      Mas você percebeu que ela (Marilena) é muito citada apenas por trabalhos escritos em português? Devem ser, em sua maioria, TCCs e artiguinhos sem relevância.

      Adolfo

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    2. Renato

      Cheguei a pensar em usar o Google Scholar para fins de avaliação de produção acadêmica. No entanto, este banco de dados não é exatamente metódico. Misturam-se publicações de alto nível com pré-prints que jamais resultaram em artigo algum. Também ignoram-se milhares de publicações altamente relevantes (por terem acesso restrito na internet). WoK não conta com essas limitações.

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    3. A necessidade é os "filósofos" melhorarem e não se maquiar números através de malabarismos...

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    4. @Adolfo,

      Verdade. Notei também que a maior parte das citações dela são do livro didático para ensino médio que foi amplamente difundido no Brasil por causa, acredito eu, da falta de outras opções e por ser amplamente adotado nas escolas públicas. Apesar das deficiências da abordagem desse livro, pois pressupõe ensino meramente da história da filosofia, ela foi por muito tempo a primeira referência que as pessoas tinham da área da Filosofia. Talvez por isso seja amplamente citado, qualquer artigo acadêmico de outra área que queria mencionar Filosofia acabaria citando a Chauí.

      Acredito que isso acaba evidenciado que esses bolsistas de produtividade acaba beneficiando algo que podemos nomear de tradição, no sentido de que aqueles que estão a mais tempo na área. Isso não quer dizer, claro, que são portadores da produção filosófica de mais qualidade e intercionalmente relevante.

      O que tenho percebido é que a renovação que vem acontecendo na área da Filosofia no Brasil precisa ser acompanhada no âmbito institucional também.

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    5. Renato e Adolfo

      A contraparte institucional será tema da próxima postagem. Será feita uma discussão sobre o QUALIS.

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    6. Imagino o panfleto esquerdista que seja esse "livro":

      http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/arquivos/File/classicos_da_filosofia/convite.pdf

      E quanto dinheiro do MEC essa "filósofa" não angariou...

      "Ela nos odeia. Ela nos abomina. Ela quer o nosso fim! Ou: Por que Marilena não nos conta quanto ganha com os livros didáticos adotados pelo MEC?"

      http://tinyurl.com/c6aozbe

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  4. Caro Adonai,

    Sou simpático à denúncia do caráter local da maior parte da produção filosófica brasileira. E, como bem apontas, a maioria dos pesquisadores considerados a elite nacional em filosofia também tem esse caráter.

    Por outro lado, é também verdade que há produção filosófica nacional internacionalmente reconhecida. Um critério talvez ainda mais refinado que as citações no WoK poderia ser citações na Enciclopédia Stanford de Filosofia, uma das mais respeitadas mundialmente na área. Há pelo menos 10 professores de universidades brasileiras citados nessa enciclopédia e também trabalhos publicados na revista Manuscrito (mencionada em seu post anterior). Além disso, acho que é crescente o número de trabalhos de filosofia escritos por brasileiros sendo publicados em inglês, tanto em revistas locais como fora do Brasil.

    Assim, embora realmente pareça que a maioria dos pesquisadores esteja nacionalmente reclusa, também é verdade que há um grupo de pesquisadores tentando reverter esse quadro. Desse modo, o maior problema não parece com a filosofia produzida no Brasil como um todo, mas o fato de que um órgão de financiamento como o Cnpq não se deixe guiar por (e consequentemente deixe de estimular) práticas filosoficamente mais louváveis.

    Marcelo F.

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    1. Marcelo

      Marcelo. Concordo com a maioria de sua colocações. No entanto, apesar da Enciclopédia Stanford de Filosofia ser uma excelente referência, ela constitui um banco de dados (para fins de avaliação de produção filosófica mundial) muito inferior ao WoK (em termos de publicações em periódicos).

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  5. Ola sou um pesquisador da Area de Biologicas e acho muito relevante seu post. No entanto, gostaria de enfatizar que, segundos os criterios de analise de dados da minha area, podem atacar o item 3) das suas conclusoes, pq ela nao pode ser derivada da analise dos CVs. Parece ser uma opiniao pessoal que precisaria de mais embasamento em exemplos ou outras analises!..

    Acho que trata-se de uma realidade geral educacional brasileira o total aniquilamento do livre arbitro para pensar e principalmente questionar. Os "melhores" alunos da escola e faculdade eram os que decoravam impecavelmente tudo como estava escrito no livro-texto sendo usado. Depois os "melhores" cientistas se tornam aqueles que conseguem produzir o maior numero de artigos possivel que se parece e confima melhor com os artigos dos paises de primeiro mundo. Questionar, discordar, perguntar demais, comportamentos que geram inimizades no Brasil, e inclusive PADs institucionais!..

    Realmente sempre entendi que a Filosofia trata do questionamento de tudo... se isso se resume a ler e decorar textos, no que se transforma?..

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  6. Adoraria conhecer a justificativa do CNPq quanto a falta de acesso público a relação de pesquisadores. No mínimo estranho não termos acesso ao nome de supostos pesquisadores que recebem bolsas pagas com verba pública. Isso também é revoltante.

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  7. O senhor Adonai Santana e seu iguais em crítica à filosofia no Brasil frente ao CNPq no cenário mundial, no que pese a relevância da última crítica em pauta, parece esquecer ou sequer vislumbrar que, justamente, conscientes ou não disso, em geral, a intelectualidade brasileira procura aprender, predominantemente, com as experiências de seus próprios erros e acertos; sem com isso, estar eu querendo dizer que, de nada valem as experiências forâneas. Longe disso e que estas últimas, sejam benvindas, objetivando contribuirem com a nossa elevação também e em particular, neste campo investigativo da reflexão filosófica!!!

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    1. Conde joao da cunha vinagre

      Afirmar que "em geral, a intelectualidade brasileira procura aprender, predominantemente, com as experiências de seus próprios erros e acertos" é especulativo e inconsistente com várias evidências já apontadas neste blog.

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  8. Adonai,

    Gostei muito de conhecer seu blog e seus textos. Depois observe esta história (Real, infelizmente):

    http://joseguidantas.blogspot.com.br/2014/07/quando-o-pos-doutoramento-vira.html

    Um abraço e parabéns.

    Guibson

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    1. Caro José

      Que história incrível reportada em seu blog! Apenas lamento da falta de citação de nomes. Mesmo assim eu a divulgarei. Grato pelo link.

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  9. Prof. Adonai, o senhor conhece a obra do filósofo Mario Bunge? Qual a sua avaliação sobre as ideias de Bunge? P.S: O pessoal do "Universo Racionalista"(sítio que o senhor já deve conhecer) gosta muito de citar o pensador argentino (segue o link com uma entrevista com este filósofo, a qual deveria ser lida por muitos ditos "filósofos" por estas bandas): http://www.universoracionalista.org/mario-bunge-as-frases-de-heidegger-sao-proprias-de-um-esquizofrenico/

    Luiz

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    1. Oi, Luiz

      Aquilo que conheço de Bunge me confunde bastante. Há trabalhos muito bons dele (especialmente no início da carreira) e há também trabalhos que considero exageradamente especulativos. Por conta disso e de outros casos semelhantes, estou mais interessado em ideias do que em autores.

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  10. Estou de inteiro acordo com sua crítica ao isolamento da filosofia brasileira; porém quero apontar uma especificidade claríssima da filosofia quando comparada a outras áreas: tradução. Lembrei por causa de Guido Almeida, responsável por pôr em circulação no Brasil traduções de alto nível. Não é de se presumir que alunos ingressem em cursos lendo Kant em alemão, e providenciar boas traduções é um feito muito importante no Brasil para a formação em filosofia.

    Em se tratando de avaliação, isso impacta muito. Pense que uma tradução cuidadosa do grego antigo vale menos que um livro, ou que muito artigo.

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    1. Anônimo

      Bem observado. Peço desculpas pela moderação de seu comentário. O problema é que ele caiu na caixa de spam.

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