sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Visões Noturnas do Centro Politécnico da UFPR



Conheço o Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) há mais de 30 anos. Estudei lá de 1983 a 1989 (graduação e mestrado) e trabalho no mesmo campus de 1990 até hoje. 

O Centro Politécnico em si já é um lugar deprimente. Prédios mal planejados, mal construídos e sem manutenção eficaz, professores coletivamente escondidos em suas pequenas salas escuras e com aquela permanente expressão de desânimo em seus rostos, vastos gramados sem árvores, salas de aula com janelas cobertas por tinta negra (para impedir a entrada de raios solares), iluminação artificial precária, banheiros horrorosos, bebedouros que não funcionam, relógios que pararam no tempo (simbolizando nossa realidade em mórbida poesia), centros acadêmicos sem vida acadêmica e, a cada quatro anos, cartazes de campanhas eleitorais para a reitoria, que poluem paredes em todos os cantos. 

No entanto, é no período noturno que a morte se evidencia de forma mais notável. Nos turnos matutino e vespertino ainda é possível aos alunos alguma vivência universitária, ainda que incipiente. Não há restrições severas sobre horário de funcionamento das ridículas bibliotecas e constantemente é possível assistir a palestras que possam despertar algum interesse. Mas à noite as atividades acadêmicas se limitam praticamente a aulas, reduzindo a UFPR noturna a um medíocre ambiente de desanimadora rotina. 

Nos cursos de licenciatura em matemática e física, os quais conheço melhor, há também um inusitado pacto silencioso sobre horários que a Pró-Reitoria de Graduação prefere simplesmente ignorar. Afinal, por que este órgão deveria se preocupar com o bom andamento dos cursos de graduação? É um pacto que demonstra uma união emblemática entre docentes e discentes: a farsa da carga horária. 

De acordo com documentos oficiais das próprias coordenações de cursos, o horário de aulas à noite, nos cursos mencionados, é das 19:30h às 23:30h. A prática, porém, é obviamente outra. Desde meus tempos de graduação nos anos 1980 (creio que esta prática é bem mais antiga) até hoje, as aulas começam às 19:00h e terminam às 22:30h. Vale observar que este último horário, a rigor, é cumprido por poucos. Normalmente as aulas encerram antes. 

Isso corresponde a uma perda de, pelo menos, meia hora de aula por dia. Durante uma semana de cinco dias, essa perda acumula para duas horas e meia. Durante um semestre de quinze semanas, já temos trinta e sete horas e meia de aulas registradas mas não entregues. Em um curso de quatro anos de duração, essa soma otimista se transforma em uma perda de trezentas horas. Trezentas horas são equivalentes a cinco disciplinas semestrais de quatro horas semanais. Isso corresponde a aproximadamente um semestre inteiro de uma graduação, se a carga horária fosse cumprida. 

Ou seja, além dos alunos dos cursos noturnos de física e matemática terem acesso limitado a bibliotecas, quase nunca terem a oportunidade de assistir a quaisquer palestras e praticamente não encontrarem chances para serem orientados em atividades de iniciação científica, ainda lutam por um diploma que atesta a mentira de um curso realizado em quatro anos (ou quatro anos e meio, no caso da licenciatura em física) que é equivalente a uma péssima graduação de três anos e meio. Péssima justamente por depender quase que única e exclusivamente de aulas e provas.

Nos períodos matutino e vespertino o descumprimento de horário também acontece, com docentes que terminam suas aulas mais cedo. Mas não se compara com a prática noturna. Além disso, ainda há a possibilidade dos alunos do período diurno terem acesso facilitado a bibliotecas e professores, os quais frequentemente podem ser encontrados em suas salas ou em laboratórios. No entanto, durante a noite, a população docente dificilmente pode ser encontrada em seu ambiente de trabalho. Os alunos ficam praticamente limitados a contatos com aqueles que apenas lecionam à noite. 

Mas, naturalmente, estou reclamando por nada. Afinal, ninguém percebe qualquer irregularidade. Tanto alunos quanto professores, coordenadores, pró-reitores e reitor julgam que tudo transcorre normalmente nas noites do Centro Politécnico da UFPR. 

Temos um serviço de segurança terceirizado naquele campus que ainda não consegue evitar o roubo de computadores, mas que consegue impedir que duas pessoas conversem dentro de um carro estacionado, principalmente se isso ocorrer no misterioso e assombrado período da noite. É realmente um horário ímpar do dia.

Porém, parece que o inconsciente coletivo do Centro Politécnico ainda reconhece que o período noturno deve mesmo ser dedicado a atividades mais medíocres do que a média da vida pseudocientífica da UFPR. Isso se evidencia na distinção que se faz entre bacharelado e licenciatura nos cursos de física e matemática. Não existe bacharelado em física à noite. Mas existe licenciatura. Se o jovem deseja se tornar um profissional do ensino médio de física, jamais poderá estudar durante o dia. E nem precisa! Afinal, por que um licenciado em física deveria ter vivência acadêmica durante a sua graduação? Os futuros professores de física de ensino médio não precisam de acesso a bibliotecas e nem de palestras ou atividades de iniciação científica. Sequer precisam de cumprimento de horários de aulas. Afinal, serão professores. Como todos sabemos que professores dos ensinos fundamental e médio formam uma casta inferior de profissionais no Brasil, certamente não há motivos para se levar a sério esta carreira. 

Em situação análoga, não existe bacharelado em matemática durante a noite. Não na UFPR! Isso porque tanto o bacharelado em matemática quanto o bacharelado em física demandam um melhor preparo científico do que os infelizes que sonham lecionar. Como licenciaturas pouco têm a ver com ciência - pelo menos no Brasil, a terra sem tradição alguma na produção de ideias - fica claro que esta estratégia de prioridade sobre os turnos matutino e vespertino se mostra adequada para a realidade de nossa nação. Bacharelados em matemática e física devem ser cursados durante o dia justamente porque é neste horário que existem algumas poucas evidências de vida acadêmica na UFPR. Professores, porém, são criaturas que se alimentam de morte dia após dia e fomentam essa mesma morte entre crianças e adolescentes durante todas as suas carreiras. Portanto, devem se acostumar com a lenta e indolor morte da alma desde cedo. 

Minha recomendação para os alunos da UFPR matriculados no período da noite é a seguinte: espalhem cartazes pelo campus com frases do seguinte tipo: "ProGrad apoia a morte nos cursos noturnos". É claro que durante a noite ninguém poderá ler tais cartazes. Afinal, ou a iluminação é proibitiva à leitura ou todos estarão ocupados em suas respectivas salas de aula. Mas, pelo menos, a população universitária do período diurno estará sendo avisada: não se atrevam a visitar a UFPR durante a noite! Suas almas poderão ser tragadas pela escuridão. 

Aproveito a oportunidade para divulgar um texto recentemente recomendado pelo leitor Kynismós: Otto Maria Carpeaux escreve sobre a universidade. E pensar que eu me julgava um pessimista.

10 comentários:

  1. ótimo ponto de vista professor adonai,é uma pena que um conjunto muito pequeno de professos tem essa visão e queiram "mudar"...sou aluno do curso de matemática,e percebo que o ambiente da ufpr,causa um certo desânimo que combinado com greves e etc...nos deixam em desespero.

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    1. Neste caso, Anônimo, que tal espalhar os cartazes sugeridos na postagem? Isso poderia ser feito na forma de mutirão entre alunos. Desta forma o custo é mínimo. Tais cartazes devem ser literalmente colados, para dificultar sua retirada.

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  2. Parabéns pelo texto! Essa é a realidade das castas nas universidades, onde cursos e alunos de licenciatura (e do período noturno) são tratados como inferiores.

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  3. Prezado prof. Adonai, esse texto do Otto Maria Carpeaux que postei nos comentários do texto do Thiago como forma de mostrar que algo do que ele escreveu já foi visto há tempos, é lido por mim pelo menos uma vez por ano, como forma de não me esquecer que tais problemas, que observo desde que frequentava o IFAL, não fazem parte de meus delírios e são notados com muito mais propriedade por indivíduos de gabarito, como agora o Sr. vem expondo através do blog e do facebook (grandes ferramentas!).
    Conheci tal texto através do controverso Olavo de Carvalho (http://www.olavodecarvalho.org/index.html), com quem tenho discordâncias, mas não deixo de concordar em vários pontos, um deles é o homeschooling. Não coloquei o link do texto do Carpeaux que remete ao site do Olavo para causar polêmica inútil, dado que o Olavo é odiado por muitos. Talvez ele se interessasse por sua empreitada, dado que ele visualiza muitos dos mesmos problemas que o Sr. aponta, porém friso que se trata de uma figura controversa.
    Tal texto do Carpeaux está publicado em seus “Ensaios Reunidos” e o mesmo é autor do monumental “História da literatura Ocidental” (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/busca/busca.asp?palavra=CARPEAUX,+OTTO+MARIA&modo_busca=A) publicado recentemente em 4 volumes.
    O Sr. deve conhecer o Daniel Tausk do IME-USP, porém não sei se conheces essa empreitada dele http://www.ime.usp.br/~tausk/ImposturasEdu.html. Como deves saber, o pai do Tausk era Físico e teve vários problemas em sua carreira (http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/Tausk-12-port.pdf), dado que o meio acadêmico, paradoxalmente, parece não está muito aberto a honestidade intelectual...
    Não acho que o Sr. está dando uma de Dom Quixote, porém sou partidário que o caminho é formar pequenos nichos com as pessoas certas, pessoas que tem um interesse genuíno por ciência e educação, pessoas que fazem ciência e educação sem interesses de obter autopromoção, poder e dinheiro de forma imprópria...
    A opinião pública brasileira pouco está se importando com ciência e educação, mas sim com futebol, carnavais, novelas, fofocas, etc.
    Recentemente deixei de ser professor de Física no ensino médio de uma escola pública numa periferia de Recife, disso concluí que é impraticável ser professor de no mínimo 12 turmas (com média de 40 alunos) e se obter algum resultado efetivo... simplesmente uma carreira e dinheiro público jogados fora... daí optei por ser um burocrata na PETROBRAS, pois não tenho vocação para ser animador de auditório em cursinhos e o curso de licenciatura em Física não abre lá muitas portas...
    O que ficou de bom da experiência como professor foram os poucos alunos (conta-se nos dedos de uma mão...) que iam por livre e espontânea vontade assistir e discutir nas minhas aulas (de Matemática...) aos sábados ou domingos...
    Um amigo diz que uma forma de melhorar o ensino básico seria a sua militarização, dada a qualidade do ensino oferecido pelos colégios militares, porém sabemos que isso não vai ocorrer... entretanto tenho que concordar com ele, dado que a indisciplina é mais um dos nossos problemas como sociedade...
    Os nichos existem, só precisam se conectar, esse seria o começo para a formação de uma elite (essa palavra causa urticária em muitos numa sociedade metida a politicamente correta...) intelectual brasileira que tenha em mente resgatar mentes brilhantes que estão a se perder em todos os níveis de ensino de nossas escolas...
    Cada texto do seu blog lembra-me algo de meu tempo na academia, não por mera coincidência...
    Há muito, muito mesmo, ainda a ser dito e honestamente discutido...
    “O estudo da matemática contribui para uma boa formação do espírito, exercita singularmente a atenção, desenvolve a vontade ao mesmo tempo que a capacidade de raciocinar corretamente e dá hábitos de paciência, de precisão e de ordem, que são qualidades indispensáveis ao bom desempenho de toda atividade.” Edgard de Alencar Filho (Ten. Cel. do Exército e autor de vários bons livros de matemática de nível “básico”)

    Krishnamurti.

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    1. Krishnamurti

      A militarização do ensino básico é uma proposta impraticável. Isso porque os militares têm interesses muito específicos que dificilmente se mostrem adequados para uma formação estratégica ao país como um todo. No entanto, certamente podemos aprender muito com as experiências bem sucedidas de escolas militares.

      Ainda insisto na tecla do fim da estabilidade, simplesmente porque educação demanda desafios. E onde há estabilidade não existe exemplo algum de desafios vencidos.

      Vou investigar as referências que você indica. Agradeço pela fundamental colaboração.

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  4. Algumas vezes fui levar minha filha a noite e é realmente deprimente. Tudo escuro e abandonado. Saio com o coração apertado torcendo pra que não aconteça algo de pior com os alunos e alunas...

    Perfeito seu comentário, professor Adonai. Espero que repercuta entre os responsáveis. Se há dinheiro para construir um novo prédio, deve haver para manter os já existentes e para dar um pouco de vida...


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    1. Anônimo

      Já houve muita violência grave no Centro Politécnico. Por alguma razão as pessoas evitam falar sobre isso. Uma postagem de consumo imediato em um blog de matemática dificilmente terá alguma repercussão expressiva. Por isso faço os apelos aos jovens, como o pedido de distribuir cartazes (mencionados no texto) por todo o campus. Espero poder contar com a sua colaboração, neste sentido.

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  5. Ilustre Professor Adonai, pensei estar o senhor a descrever o prédio da Reitoria da UFPR, cuja única exceção são os vidros pintados de preto. O resto é tudo igual, sem tirar nem por.

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  6. Que tal a PUCPR durante a noite (ou durante o dia)? Já vi corpos podres boiando no rio Belém dentro de um campus infestado de miasmas de todos os tipos, mas que com os novos bistrôs espalhados por todos os blocos e o ambiente festivo de shopping center desvia a atenção de qualquer um. Talvez uma sessão no cinema 40(?)D do campus afaste os maus pensamentos... Mas isso não é para os alunos, é para o marketing com as escolas de ensino médio...As salas de aulas vão virar lojinhas...

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  7. Adonai a UFPR mudou muito desde que seu texto foi escrito, hoje é uma das melhores universidades do Brasil.

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