segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Saga de Um Físico Tupiniquim



O texto abaixo é um depoimento do Dr. Bolivar Alves, brilhante pesquisador de Brasília, DF, que, por conta de recusar qualquer posição como docente, percebe a sua carreira científica seriamente ameaçada. Ou seja, no Brasil, competência não define futuro profissional. Novamente estamos desperdiçando talentos extraordinários. Até quando vamos tolerar esta situação? Ou novamente vamos aguardar a morte de mais um profissional da ciência para finalmente dizermos: "No final das contas, ele era um grande pensador."?

A convite do Prof. Adonai Sant’Anna, o texto que segue é uma espécie de depoimento da minha vida científico-acadêmica, a ser publicado em seu blog.

ENSINO MÉDIO

Durante o ensino médio, tive professores de física muito ruins, no sentido de não saberem realmente nada, além daquilo que eles decoravam ou copiavam no quadro do que estava escrito nos livros didáticos de física. Além disso, eram professores que resolviam os mesmos problemas já resolvidos em tais livros ou em listinhas de exercícios com o único propósito de seguir o ritual da pedagogia da mediocridade: ESTUDAR PARA FAZER PROVAS. O mais importante, isto é, os aspectos históricos, filosóficos, fenomenológicos e as aplicações tecnológicas da física, os quais estimulam na verdade a curiosidade dos estudantes, ou parte deles, eram deixados de lado como algo secundário ou, simplesmente, ignorados. 

Apesar dos péssimos professores, a física me encantava. Termos como teoria da relatividade, mecânica quântica, partículas elementares, princípio da complementaridade, princípio da incerteza, provocavam-me uma certa excitação intelectual que me fazia enveredar pelo mundo da física a fim de compreender o que, de fato, realizaram eminentes físicos, como Einstein, Heisenberg, Bohr e tantos outros. A leitura de artigos e reportagens sobre um físico brasileiro, Mário Schönberg, também me incitava a querer estudar física na universidade. Contudo, esse estado de deslumbramento contrastava com a física de sala de aula cujo foco principal, infelizmente, era (e continua sendo) o maior símbolo da bestialização do ensino médio: o vestibular. 

Foi nessa época que comecei a aprender a ter repugnância à docência. Considero essa a lição mais relevante que tirei da escola secundária. (Tal repugnância, eu a carrego até hoje!!). 

Curiosamente, mesmo em ambiente de extrema penúria cultural, como a escola, ainda podemos encontrar alguns raríssimos bons professores. Felizmente, isso aconteceu comigo. Conheci um professor que não era professor, pois, entre outras excentricidades, formava grupos de estudos extra-classes em filosofia, literatura e línguas (alemão, italiano, francês, esperanto, japonês,...). Não se estudava para fazer provas!! Hoje reconheço que sua influência (negativa e positiva) foi determinante para a consolidação de minha índole intelectual.

GRADUAÇÃO

APESAR da qualidade medíocre da escola secundária, decidi fazer Física na Universidade de Brasília (UnB). Uma vez, na universidade, notei que a rotina acadêmica não era muito diferente daquela do ensino médio: estudava-se para fazer provas. Alguns colegas chegavam a dizer que a graduação não passava de um ensino médio avançado. Dos professores da graduação, destaco apenas o falecido Prof. José de Lima Accioli. Era um professor que não dava aula. Isso mesmo! Seguia o livro do José Leite Lopes (A Teoria Quântica da Matéria), um livro muito diferente dos livros-texto convencionais, principalmente, os americanos de baixa qualidade, como, por exemplo, o da dupla country Resnick & Halliday. Do livro do Leite Lopes, "abríamos as contas" em lugar de estudarmos para fazer provas. Para isso, era imprescindível a leitura das referências bibliográficas. Ainda considero essa didática como uma das mais apropriadas para incitar o espírito de pesquisa em nível de graduação, embora tenha sido uma experiência muito particular, pois a regra é seguir Goldstein, Jackson, Resnick-Halliday para fazer as benditas provas. 

Vale ressaltar que a maioria dos nossos professores universitários comete um holocausto pedagógico ao submeter todos os estudantes a um único método de aprendizagem baseado na pedagogia do ESTUDAR PARA FAZER PROVAS. Ignoram, deliberadamente, que cada pessoa possui uma maneira sui generis de aprender. Desgraçadamente, todas as atividades curriculares na graduação (e também na metade do Mestrado e do Doutorado) ainda gravitam em torno dessa estéril pedagogia!! Ainda me pergunto sobre a utilidade da graduação: uma miríade de generalidades serve para quê? 

Em consequência, o principal aprendizado que ficou da graduação foi um certo fortalecimento da minha aversão à docência. Não foi por acaso que fiz bacharelado; licenciatura, nem pensar!!! Professor, para quê? Eis um momento de alívio existencial: logo após me formar, joguei fora quase todas as minhas listas de exercícios de mecânica clássica, eletromagnetismo, mecânica quântica, mecânica estatística... Simplesmente não queria confundir física com aquilo que fora ensinado pelos meus insignes professores da UnB! (Não joguei fora tudo o que tinha reunido porque algumas notas de aula e exercícios ainda iria usar no Mestrado.)

MESTRADO

Apenas no segundo ano do Mestrado fiquei livre das disciplinas e pude, por isso, dedicar-me a algo parecido com pesquisa: leitura de artigos e a definição do tema da dissertação. Inicialmente, tecnicamente falando, meu orientador sugeriu o limite não-relativístico da equação de Dirac no espaço de fase quântico, segundo o método de Foldy-Wouthuysen. Após inúmeras leituras e releituras de vários artigos, cheguei à conclusão de que não conseguiria um resultado digno de ser defensável diante de uma banca de professores. 

Felizmente, mudei o tema da dissertação para o limite clássico em lugar de limite não-relativístico. Comecei, em seguida, a ler e a entender alguns artigos de Schönberg sobre álgebra geométrica. Essa foi uma das melhores experiências que vivi!! Experiência muito mais enriquecedora do que estudar álgebra nos cursos de graduação. 

Após algumas acirradas contendas com o orientador, a dissertação foi defendida a duras penas. A lição que tirei foi que o Mestrado não passa de uma prescindível formalidade acadêmica. Serve apenas para consolidar algumas vaidades grupais de professores, principalmente, do orientador. Em outras palavras, o orientador quer mostrar para seus coleguinhas que sabe alguma coisinha de física.

Cientificamente, o ritual de defesa de dissertação acrescenta muito pouco ao nosso enriquecimento como físico. Além disso, pude constatar que orientador, na verdade, não passa de um desorientador. Comecei a alimentar uma certa repugnância, também, à atividade de orientação. Orientador, para quê? Para desorientar?

Aprendi muito durante o Mestrado: a minha capacidade de ser independente despontou.

DOUTORADO

Fiz o doutorado no CBPF, um instituto de pesquisa dotado de uma excelente infraestrutura para um físico teórico: ótima biblioteca; quase nenhuma obrigação acadêmico-burocrática, como a necessidade de cursar disciplinas. Lá estava eu em um verdadeiro paraíso científico: dedicava-me integralmente ao que me proporcionava prazer intelectual. Como consequência desse estado de enlevo científico, consegui publicar sozinho, em 1998, um artigo na Physical Review A, com base no qual defendi minha tese de doutorado em três anos. Na verdade, essa publicação apresenta uma inusitada história que eu e meu orientador protagonizamos.

No CBPF, minha intenção, em primeiro lugar, era investigar caos relativístico com base nas ideias do meu orientador, recentemente publicadas em um artigo na Physics Reports. Confesso que li e reli esse artigo e muitos outros para poder apresentar uma extensão relativística, mas não consegui nada. 

Isso me levou a um estado de desânimo e frustração. Afinal de contas, sem um resultado confiável, que tese poderia ser defendida? Encontrava-me no limbo!! Acho que todo doutorando passa por esse estado de apreensão mental. Pois bem, graças aos deuses, surgiu-me uma ideia que logo se materializou em um rascunho de artigo (um draft), o qual entreguei ao meu orientador que o leu, que o criticou severamente e que fez a seguinte recomendação: "Bolivar, acho que deveria jogar fora esse seu trabalho". 

Tentei contra-argumentar, mas sem efeito. Meu orientador não gostara do meu artigo e ponto final. Saí da sala dele meio transtornado. Passara quase um mês me dedicando dia e noite a escrever esse artigo. Meu orientador, ao contrário, numa canetada, resolvera o seu destino: LIXO.

Li e reli o meu artigo. Definitivamente, ele não merecia a lata de lixo. Em um ato de desobediência acadêmica, levei em conta algumas críticas do meu (des)orientador e o submeti à Physical Review A (PRA). Três meses depois, essa revista americana aceitou meu bendito artigo. Nem imaginem a felicidade que tomou conta de mim!! Mostrei a carta de aceitação da PRA ao meu orientador que simplesmente permaneceu intransigente: minha ideia era ruim e não merecia ser publicada, apesar de aceita pela PRA. Após esse episódio, as fissuras entre nós dois irreversivelmente aumentaram a ponto de ele dizer, certo dia, que eu estava livre para procurar outro orientador. Que alívio!!! 

Estava livre. Com um artigo publicado, já tinha a exigência mínima para defender minha tese. Levei um ano para escrevê-la. Além da independência, o Doutorado foi importantíssimo para o desenvolvimento da minha autonomia científica. No entanto, mais importante que independência e autonomia é a originalidade. Acreditava, piamente, que minha tese de doutorado ostentava algum germe de originalidade. De fato, dessa tese resultaram alguns artigos que foram publicados durante meu primeiro pós-doutorado.

Minha experiência no CBPF serviu, também, para fortalecer minha descrença com a ideia de universidade. O CBPF é uma verdadeira ilha no mar de medíocres universidades brasileiras. Infelizmente, desde a década de 1960, primeiro com os governos militares e depois com os governos civis, o ensino superior vem sofrendo um intenso processo de massificação em que o mais importante é a quantidade em detrimento da qualidade, embora nem isso tenha ocorrido efetivamente. Temos, em consequência, um sistema educacional quantitativamente apoucado e qualitativamente miserável.

Acredito que investir em institutos de pesquisa em lugar de universidades, a exemplo dos institutos Max Planck, na Alemanha, parece ser uma ideia qualitativa promitente para alavancar a nossa pobre cultura científica.

PRIMEIRO PÓS-DOUTORADO

Financiado pela FAPESP, meu primeiro pós-doutorado foi iniciado em 2000, na UNICAMP, mais precisamente no departamento de Matemática Aplicada do IMECC. Ao longo dos 3 anos de pós-doc novamente, sozinho, publiquei uns 4 ou 5 artigos graças, principalmente, à desobrigação de dar aulas.

SEGUNDO PÓS-DOUTORADO

Em 2002 recebi da CAPES uma bolsa de pós-doutorado para estudar em Stuttgart, na Alemanha. Interrompi a bolsa FAPESP por um ano. Nesse segundo pósdoc, escrevi (sozinho), em 2003, meu livro Quantum-Classical Correspondence: Dynamical Quantization and the Classical Limit, publicado pela Springer-Verlag, em 2004. De algumas ideias nesse livro resultou uma publicação na Physical Review Letters em 2005.

O ano de 2004 foi o pior momento da minha vida. Eu teria a bolsa de pós-doc da FAPESP apenas até a metade de 2004. Queria retornar à Alemanha. 

Tentei bolsa pela Fundação Alexander von Humboldt, pelo Instituto Max Planck, em Dresden, e pelo CNPq-DAAD. Nenhuma delas foi deferida. 

Tentei, também, uma pelo Instituto Santa Fé, nos EUA. Um outro não. 

Urgentemente tentei uma bolsa de pós-doutorado aqui no Brasil: o CNPq indeferiu meu pedido. O ano de 2004 findou sem que eu conseguisse uma única bolsa. Ademais, prestei dois concursos públicos: um no Instituto Gleb Wataghin, na UNICAMP, e outro no CBPF, no Rio de Janeiro. Em ambos os lugares, fui reprovado!! A mensagem para mim foi óbvia: eu não servia para ser professor, muito menos, para ser pesquisador.

TERCEIRO PÓS-DOUTORADO

O ano de 2005 começou fúnebre: decidi não ser professor, muito menos, professor universitário. Logo em março prestei um concurso na burocracia federal em Brasília. Passei!!! Mas não sabia quando seria nomeado. Em junho recebi mais uma bolsa de pós-doc, desta vez uma PRODOC-CAPES, lá no IMECC. Era para ser professor. A desgraça estava por começar... Deveria dar aula de Cálculo III. Confesso que, para quem nunca DEU, dar pela primeira vez é uma experiência muito dolorosa!!

Dentro da coerência bolivariana, como professor, durei apenas 20 dias. Fui afastado sumariamente do curso de Cálculo III. Pior ainda: seis meses depois, perdi a bolsa PRODOC.

Bem, sem fonte de renda, tive de tomar uma decisão. Que faria da minha querida vidinha aos 32 anos, sem emprego e após uma única e mal sucedida experiência docente? E, para piorar a situação, as ideias pululando na minha cabeça, querendo se materializar em artigos e outras publicações...

O ano de 2005 iria terminar tenebroso, não fosse a notícia de que seria nomeado em dezembro naquele concurso que fizera no começo do ano. Fui salvo pelo gongo. Pelo menos não morreria de fome!!! De fato, de fome não morri mas quase morri de uma doença auto-imune, provocada por uma vertiginosa crise de autoestima.

A DOENÇA

Ao longo da minha vida de estudos, notei que há dois destinos inexoráveis para quem estuda: ser professor ou ser burocrata. Desde o ensino médio decidi não ser professor; após a graduação ratifiquei minha repugnância à docência. Mestrado e Doutorado, por sua vez, me apontavam para a falta de sentido das formalidades burocrático-acadêmicas às quais somos submetidos nas universidades. Se tivesse entrado no CBPF, prometi a mim mesmo que começaria a me preparar psicologicamente para orientar mestrandos e doutorandos, além de simular um grau aceitável de sociabilidade com as pessoas. Arrefeceria, assim, um pouco minha radicalidade bolivariana. Infelizmente, certifiquei-me de que jamais entraria no CBPF, a menos que montasse uma estratégia de amiguismo acadêmico: teria de publicar com um chefe de algum grupo de pesquisa já bem estabelecido naquele instituto e torcer para que o tal chefe me indicasse como alguém benquisto e merecedor de uma vaga no grupo. Em outros termos, teria de deixar de lado minha independência e autonomia científicas para "fazer contas" para os outros. 

Para não violar os princípios bolivarianos e para não morrer de fome não me restou outra opção senão trabalhar na burocracia, ou melhor, na buRRocracia. Digo isso porque a lógica da burocracia é singular, sui generis. Há dois princípios que a fundamentam: a conveniência e o interesse. Nem sempre a razão impera no reino da burocracia. Daí, costumo dizer que, na verdade, a burocracia não passa de uma BURROCRACIA.

Se não fosse minha repugnância à docência, não estaria na burocracia!!! Não aconselho ninguém a entrar nela, a não ser por mera questão de subsistência. Meu caso!!

Entrei em exercício no serviço público federal em dezembro de 2005. Por motivos burocráticos só comecei a trabalhar efetivamente em fevereiro de 2006. Trabalhar no sentido de passar 8 horas em uma sala na companhia de alguns colegas. Desde então, a esse locus de trabalho chamo de SENZALA. Imaginem alguém que passara a vida toda livre para estudar, ficar agora confinado em uma sala na burocracia sem poder estudar física!! Esse era o cenário psicológico pelo qual eu passava naquele momento.

Lembro perfeitamente de como se manifestou o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Em janeiro de 2006 fiz uma prova de 4 horas para o cargo de Consultor Legislativo da Câmara Legislativa do DF. Após a prova, fui para casa mas, antes, comprei algumas latinhas de cerveja para relaxar os nervos. Bebi, bebi, bebi sozinho, ouvindo Pink Floyd e conjecturando como seria meu futuro: como continuar a ser físico enquanto burocrata? Será que seria fagocitado pelo ambiente de trabalho? Acabei dormindo. Ao acordar no domingo, senti todo o meu corpo enrijecido. Todas as minhas articulações estavam doloridas. Fui ao médico logo na segunda-feira. Inicialmente, o diagnóstico foi de Síndrome de Reiter. Tomei corticoide durante uma semana. As dores cessaram. Pude, assim, retornar à minha labuta na burocracia. Em março de 2007 uma sinusite começou a me incomodar. Tomava antialérgico, antibiótico e nada, nenhuma melhora. A sinusite se agravava. O otorrino me dissera que, em 90% dos casos, sinusite era um problema alérgico. Infelizmente, caí nos 10%!!! Meu problema, na verdade, era outro. O otorrino me aconselhou, então, a procurar um reumatologista. 

Retornei ao meu primeiro reumato, aquele que havia diagnosticado Síndrome de Reiter. Ele percebeu incontinenti que meu quadro clínico não era tão simples quanto supunha. Ele me deu um atestado médico de 5 dias. As dores não sumiram. Uma semana depois, retornei ao mesmo médico. Deu-me mais um atestado, desta vez de 30 dias, além de me prescrever uma injeção para aliviar as fortes dores que eu sentia em ambos os joelhos. Essas dores eram tão intensas que torcia para dormir logo e não acordar tão cedo. Ir ao banheiro era uma experiência terrivelmente dolorosa. Tudo doía. Levava cerca de meia hora para me deslocar até o banheiro. Segurava pelas paredes, pela maçaneta das portas. Era um sufoco. Outro drama era retornar à cama. 

O que mais incomodava era que as dores migravam: ora apareciam nos joelhos e tendões da perna direita, ora iam para o lado direito do corpo. Eram dores que pulsavam. A região ficava quente. Para quem quiser avaliar a intensidade das dores lúpicas, basta imaginar uma intensa dor de dente multiplicada por mil. Eis a intensidade da dor lúpica. Nesse estado mórbido, passei uns 7 a 8 meses. Paguei uma parte dos meus pecados. A outra parte seria paga posteriormente. 

Por fim, na última semana de dezembro de 2007, fui novamente ao médico. O diagnóstico foi dado: era lúpus!!! Mais corticoide foi receitado. Estava no auge da crise lúpica: quase não conseguia andar; comprometimento renal já era evidente; tinha febre lúpica; permanecia na cama como se estivesse prostrado. Fui levado urgentemente ao Hospital de Base de Brasília (aquele mesmo onde Tancredo Neves começou a morrer). Meu estado era muito, muito grave. Lá fiquei internado durante uma semana. O reumatologista-chefe sugeriu aos meus familiares que eu fosse transladado a um hospital particular, pois ali naquele hospital público meu destino já estava selado: a morte lenta e dolorosa. Levaram-me, então, para o Hospital Brasília, onde permaneci internado por quase um mês, quando cheguei a bater as portas do céu várias vezes. O comprometimento renal se agravou; houve também comprometimento cardíaco e psíquico (psicose lúpica). Mais dores; mais corticoide. Não conseguia mover nada, além do pescoço. Fui levado para a UTI devido a uma taquicardia. Finalmente, as dores cessaram! Ufa, que alívio! Mas isso só aconteceu após doses cavalares de morfina. 

Milagrosamente, melhorei. Mas, desde então, meus medicamentos de uso contínuo, os quais chamo de conservantes, me acompanham todo santo dia!!

Lá no hospital perdi uns 5kg. Em seis meses ganhei 30kg. Cheguei a pesar quase 100kg!!!! Passei quase dois anos em licença médica da senzala. 

Psicologicamente, ainda estava abalado, pois achava que era a maior injustiça do mundo me encontrar naquele estado lastimável de saúde. Minha auto-estima estava reduzida a zero. Eu só queria estudar física, escrever meus artigos, ler artigos e livros, enfim, pensar física. E para fazer isso, estava impossibilitado. Para piorar meu estado psíquico, sabia que deveria estudar Direito Constitucional, Direito Administrativo, Administração Pública e outras disciplinas, altamente excitantes, caso quisesse passar em um bom concurso público na capital dos concurseiros: Brasília.

QUARTO PÓS-DOUTORADO

No final de 2009 minha licença médica chegou ao fim. Infelizmente, recomecei a trabalhar na senzala 8 horas por dia. Decidi me prostituir: prestei um concurso público para ser professor em uma "universidade", distante 200 km de Curitiba. Essa instituição de ensino superior funcionava em um antigo convento, chamado de Convento da Dona Mariquinha. Passei nesse concurso!!! Primeira vez que havia passado em um concurso para ser professor universitário. Que honraria!! Contudo, não fiquei com a única vaga em disputa. Esta ficou com uma moça que era amiga da presidente da banca examinadora. Mais uma vez fiquei decepcionado. Minha vida acadêmica estava fortemente comprometida: por um lado, UNICAMP e CBPF não me quiseram; por outro lado, uma "universidade" perdida lá no final do mundo também não me aceitara. Para um físico com três pós-doutorados, livro publicado pela prestigiada editora alemã Springer-Verlag, uma PRL (Physical Review Letters) também publicada, espera-se um destino mais digno. No entanto, nada disso foi importante para angariar um emprego aqui na nossa terra tupiniquim. Que fazer, então? Retornar à senzala...

Dizem que, após a tempestade, segue a bonança. Pois bem, em 2010 recebi mais uma bolsa de pós-doutorado, desta vez, na federal de Minas Gerais. A FAPEMIG prometeu pagar em dia minha bolsa. No entanto, isso não aconteceu!! Atrasos e mais atrasos. O mês para a FAPEMIG possui 45 ou até 60 dias. Apesar disso, resisti e escrevi sozinho três artigos: dois na Annals of Physics e um outro na Physica A. Psicologicamente, essas publicações foram muito importantes para restabelecer minha auto-estima. Contudo, a desgraça recomeçou: fiquei sem receber os meses de novembro e dezembro de 2011. Acabei ficando, ao todo, 75 dias sem fonte de renda justamente no período de Natal e Ano Novo. Embora não cultue essas festas de fim de ano, passar dois meses e meio sem dinheiro arrebenta qualquer orçamento familiar!! Pude estancar a sangria das minhas dívidas, uma vez que a FAPEMIG finalmente pagou os meses atrasados na primeira quinzena de janeiro. Desgraçadamente, essa agência mineira de apoio à pesquisa não me pagou ainda (outubro) a última mensalidade da minha bolsa de pós-doc sênior, referente ao mês de março/2012. Fui à Belo Horizonte, convicto de que faria de tudo para não retornar à senzala, em Brasília. Se aparecesse a oportunidade, daria até aula. No entanto, após assistir a algumas aulas no ICEX, definitivamente ratifiquei minha conclusão de que o ambiente de graduação não me apetece. Ser professor, realmente, não faz parte da minha humilde existência.

Apesar da incompetência da FAPEMIG, eu queria permanecer na UFMG por mais um ano, ou melhor, não queria retornar à senzala. Para isso, solicitei à FAPEMIG uma bolsa de Pesquisador Visitante. Pedido indeferido. Justificativa: eu não ostentava um currículo à altura para ganhar tal modalidade de bolsa. Após essa negativa, solicitei mais uma bolsa, desta vez, uma DCR-CNPq para ir à federal do Piauí. Curiosamente recebi mais uma vez um NÃO. Bem, após esses dois "NÃOs" tive de retornar, novamente, à Brasília. A senzala esperava por mim de portas abertas!!!

O FUTURO

De fato, as portas da senzala estavam escancaradas, aguardando o retorno de seu filho pródigo!!! É verdade, tento sair de Brasília, mas existe um forte atrator que me traz de volta à burocracia. Esse atrator se chama SUBSISTÊNCIA. O ambiente da burocracia não é intelectualmente salutar. É tão fútil que um dia perguntei a uma coordenadora se seria possível ir à senzala somente quando aparecesse algo para realmente ser feito. Até hoje não sei por que ela estranhou minha pergunta. Para mim, parecia ser bastante razoável. O que faço lá na senzala poderia muito bem fazer em casa!! Mas como a burocracia não anda de mãos dadas com a racionalidade, a estranheza da coordenadora pode até ser compreensível. 

Atualmente, vivo um dilema: como conciliar as atividades burocráticas com minhas pesquisas em física? Esse dilema bolivariano desponta em um momento em que completo quatro décadas de existência e uns 23 anos de uma saga de físico tupiniquim. O futuro que se abre diante de mim exige uma pronta resposta à seguinte questão: enferrujar-se na burocracia será o triste fim de um físico tupiniquim? 

42 comentários:

  1. Desta vez serei o primeiro a comentar. Por que diabo ainda existem professores do Curso de Física da UFPR que insistem no uso do Halliday?

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    1. Olá Prof. Adonai

      Eu não sei, mas a minha turma estudou Física Básica pelo Tipler, um livro igualmente ruim.

      Pelo exposto acima, parece-me que, para aumentar as chances de ter uma profissão, garantir a própria subsistência e ser agradável aos olhos dos outros é preciso ser alguém mediano, que questione trivialidades, não seja um agente perturbador da ordem estabelecida e tenha opiniões compatíveis os detentores de alguma autoridade.

      Não sei se o prof. concorda, e fui até criticado por isso, mas não vejo nenhum problema termos nas universidades pesquisadores desobrigados de lecionar. Disseram para que estaria errado porque o exercício da docência seria a contrapartida, ou parte dela, do retorno social. Mas, e quanto à pesquisa e a produção de conhecimento técnico-científico, já não seria uma contribuição à sociedade? A criação de concursos públicos para o exercício exclusivo de pesquisa, seria uma opção interessante para o nosso físico tupiniquim, com remuneração atrelada à produção científica.


      Um abraço.

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    2. Olá professor Adonai. Boa pergunta. Quando fui aluno do Curso de Física da UFPR fiz insistentemente esta pergunta. Na maioria das vezes a resposta que obtive afirmava que os alunos já apresentavam dificuldades com este texto e que utilizar um "mais avançado" seria um desastre. Eu sempre argumentava que o livro do Halliday não era didático em absoluto, tampouco os outros livros sugeridos eram "mais avançados" - apenas demandavam mais pensamento crítico. Além disso, o "desastre" poderia ser causado justamente pela adoção de um texto ruim. Nunca obtive uma contra-argumentação que não fosse evasiva. Na época constava dentre as disciplinas obrigatórias para a conclusão do bacharelado, uma sobre ensino de física. Aproveitei a liberdade que me deram na escolha de um tema para uma apresentação para divulgar um artigo da Revista Brasileira para o Ensino de Física (Moreira, Krey: Dificuldades dos alunos na aprendizagem da lei de Gauss em nível de Física Geral à luz dos modelos mentais de Johnson-Laird, vol. 28, n.3, 2006), no qual os autores relatam uma pesquisa que fizeram com alunos submetidos a este livro texto e criticam a eficácia deste tipo de abordagem. Ao final da apresentação, meu professor (na época, chefe do departamento) mostrou-se bastante irritado, pois ficou claro que eu havia feito isso como uma forma de provocação. Afinal, o Departamento de Física tem suas razões para adotar os textos que adota e adota os que julga melhores para seus alunos. Eu tive vontade de perguntar se ele tinha prestado atenção à apresentação, mas fiquei com receio de reprovar na última disciplina que faltava para eu me formar. Eu tentei arrancar deles a resposta a esta pergunta durante anos, sem sucesso. Só posso especular que isto se deve ao fato de que este tipo de texto evita que se exija do professor o conhecimento da disciplina. É um sintoma da autoproteção, doença que dissemina a mediocridade e impede o desenvolvimento de pensadores, como parece ser o caso do Dr. Bolivar Alvez, que ousa pensar, em um país onde tal atividade nunca é bem vista.
      E Dr. Alvez, o senhor não está sozinho. Há muitas pessoas que se beneficiariam de um ensino que não seja tradicional, que não repita os erros que tanto nos irritam em sala. Deve haver uma boa maneira de transmitir conhecimento sem aprisionar mentes. Talvez seja nossa responsabilidade descobrir como. Talvez o senhor possa pensar em uma maneira de ensinar que não lhe cause tanto asco. Uma tal maneira poderia salvar outros talentos. Boa sorte.

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    3. Muito trsite ter que ler isso, e saber que tenho muitos professores "físicos" que talvez nem saibam o que é a PRL ganhando muito bem ! Me identifiquei muito com a história, do ponto de vista de que o que realmente me interessa é a física, mas tenho completa aversão à vida universitária, por isso obtei pela engenharia como modo de atingir a independência financeira !

      A melhor frase que resume este texto, na minha opinião, é uma da introdução:

      "No final das contas, ele era um grande pensador?"

      Abraços!

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    4. Olá Prof. Adonai

      Acho que os professores do departamento de física da UFPR encaram os alunos como adversários. O Halliday é uma boa arma para sabotar os futuros concorrentes.

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  2. Muito interessante e muito triste a história do Dr. Bolivar principalmente porque a minha vida tem algumas semelhanças com esta história. Não sou um grande pesquisador ao nível do Dr. Bolivar, mas tenho muitas ideias interessantes sobre Matemática e que venho divulgando através do blog. Completei também 4 décadas de existência e devido a preconceitos com relação a minha formação não consegui ainda ser aprovado em um concurso.

    Esta história retrata muito bem porque o Brasil é e continuará a ser um país atrasado em todos os setores. Como que um físico que escreve um livro na renomada editora Spring Verlag, escreve vários artigos, possui vários pós-doutorado não consegue um cargo público para realizar pesquisas físicas e engrandecer este país? Como disse Renato Russo, que país é este?

    Aliás, com relação aos concursos públicos para professores universitários, acredito que para ser aprovado, não precisa quase nada sobre a área o qual atuará, basta cumprir as exigências burocráticas e no momento da aula didática, buscar apresentar somente aquilo que a banca espera que o candidato faça. Por exemplo, em uma aula sobre as leis de Newton, coloque os exemplos e cite fervorosamente o livro da dupla country Halliday e Resnick, mesmo que isto seja contra os seus princípios.

    Para encerrar, tenho que dizer que o blog do Prof. Adonai está cada vez melhor. Parabéns por compartilhar conosco estas histórias surpreendentes.







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    1. Professor Paulo Sérgio

      A próxima postagem será a de número 100. Não será um texto comum, pois apelará para uma efetiva colaboração de interessados. Precisamos começar a fazer algo por este país. E conto com a colaboração de todos. Devo veicular a postagem 100 nos próximos dias.

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  3. Olá, professor Adonai!!!!

    Então, serei o segundo a comentar. Respondendo à sua pergunta... é porque no país do samba e pandeiro, Halliday é um termo chique para lembrar... CARNIVAL!!!! Rsrsrsrs!!!!

    Um abraço!!!!!

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    1. Francisco Valdir

      Vejo que não foi o segundo a comentar. Isso é ótimo! Mais gente está ficando indignada com essa situação em nosso país. Peço paciência, pois o próximo texto do blog será uma nova tentativa de alavancar ações.

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  4. Certa vez perguntamos ao prof. de Física Básica porque não adotado outro livro de Física, como o do Nussenzveig e a resposta foi que não acompanharíamos. Ora, como entendo que professor é também um mediador, caberia a ele a dar o suporte para pudéssemos acompanhar o livro. Particularmente, não vejo o livro de Física Básica como mais difícil, apenas possui uma abordagem diferenciada. Nem precisaria adotar o livro do Nussenzveig, mas qualquer outro que fosse melhor que o Hallyday&Resnick ou Tipler.

    Que livros o prof. sugeriria para as disciplinas de Física Básica?

    Um abraço.

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    1. Adam

      Quando estive em Stanford, lembro que ao mencionar que eu era brasileiro, a primeira reação dos físicos era citar Nussenzveig. Nussenzveig tem uma ótima reputação no mundo inteiro. Além disso, seus livros são excelentes. Certamente os considero como os mais adequados em língua portuguesa.

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    2. Olá Professor Adonai. Tinha curiosidade sobre sua opinião sobre os livros do Moysés Nussenzveig e vejo que compartilhamos a pensamento de que eles sejam os melhores livros de física básica em língua portuguesa. Lembro que os livros-texto utilizados no meu curso eram os do Halliday, mas só para os alunos de engenharia: os professores deixavam claro que, para os alunos de física, havia uma uma obrigação informal de se estudar pelo "Moysés". Penso que deve ser uma exigência dos cursos de engenharia a utilização do Halliday, mas pode muito bem ser apenas o simples pensamento de que os engenheiros não "precisam" saber física básica tão bem quanto os físicos.

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    3. Oi, Leonardo

      Não consigo perceber como a obra de Halliday poderia ser interessante para estudantes de engenharia. Mas, como nada sei sobre engenharia, não argumento.

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    4. Oi, professor Adonai. Vi seu comentário e percebi a ambiguidade no meu. Não quis dizer que seja opinião minha que os cursos de engenharia adotem o Halliday. A confusão surgiu a partir da forma ambígua como usei a palavra "penso". Quis dizer que um "chute" meu sobre a razão de isso acontecer aqui talvez seja que os cursos de engenharia exijam isso. Apesar disso, não acho que seja correto adotá-lo nos anos iniciais da engenharia. Pra falar a verdade, nem lembro direito como ele era, pois faz tempo que não o leio.

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    5. Oi, Leonardo

      Fica tranquilo. Entendi perfeitamente bem seu comentário. Mas você mesmo deve reconhecer que existe muito preconceito contra engenheiros no país, principalmente vindo daqueles que são profissionais ou estudantes de ciências exatas.

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    6. Olá Professor,
      leio seu blog há algum tempo e, confiando na sua opinião, pensei em procurar recomendações de livros de física aqui (estou buscando livros que me deem uma boa base) topei com esse seu comentário. Fiquei curioso quanto a esse preconceito contra engenheiros no país. Nunca ouvi nada sobre isso (sou tímido, pode ter relação com isso hehe). Em relação a que seria e de onde alguma ideia da razão?
      E com relação a outros livros, quais recomendaria para cálculo? (considerando os cursos de cálculos presentes, normalmente, nas engenharias)

      Obrigado :)

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    7. Anônimo

      Recomendo Um Curso de Cálculo, de Hamilton Guidorizzi.

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  5. Prof. Adonai,

    Não só na UFPR, o Halliday é adotado como livro-texto, mas também na federal do Piauí bem como no interior do sertão baiano. Funciona quase como uma bíblia.

    Penso que a "religiosa" é a única explicação plausível!!!

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  6. Aguardo ansiosamente pelo post 100.. e espero poder fazer algo, apesar de minha ingenuidade no assunto!

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  7. Dr. Adonai, você poderia escrever um bom livro sobre sua história. Acho que faria muito sucesso. Eu a li até o fim e não achei enfadonha em nenhum momento. Vejo que você tem muito talento para pesquisa, e pouco para ensinar ou orientar. Pelo que percebi, você tem tanta ganância em pesquisar que não suporta a ideia de ceder um pouco de tempo para ensinar outras pessoas.

    Eu gosto muito das leituras de Feynman e também do Moyses, mas eu não sei indicar um livro texto para se ensinar Física básica, porque eu também não tenho talento para ensinar.

    Só uma pergunta, Dr. Adonai. O livro que você escreveu tinha como foco auxiliar pesquisa ou você acha que ele faria um grande diferença se fosse adotado por um professor tupiniquim?

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    1. Anônimo

      Seu comentário é um tanto bizarro. Não vejo nada de fascinante em minha história, seja pessoal ou profissional. Com relação a meu suposto talento para pesquisa, certamente fiz muito menos do que eu poderia (levando em conta as influências que recebi). Sobre a questão de ensinar ou orientar, posso apenas responder com dados objetivos. Literalmente metade de meus alunos de iniciação científica publicou em periódicos especializados de circulação internacional. Isso favoreceu muito as carreiras deles. A outra metade não conseguiu desenvolver os projetos propostos. Se esta outra metade produziu menos, talvez seja por incompetência minha e/ou deles. Honestamente, não sei dizer.

      Nunca me imaginei como alguém com ganância por pesquisa. Em várias ocasiões grupos inteiros de alunos me pediram para realizar seminários de disciplinas usuais da graduação, justamente para compensar a formação ruim que eles estavam recebendo. Sempre atendi a esses pedidos. E tais seminários, puramente formativos (sem pretensão para realização de quaisquer pesquisas) foram bem sucedidos. Os alunos estudavam e eles mesmos apresentavam os temas. Eu apenas orientava, sempre colocando questões críticas. Além disso, já fui professor homenageado em formaturas, tanto de alunos de matemática quanto de física. É claro que este não é um argumento definitivo sobre a qualidade de minhas aulas. Mas é um indicativo sério de qualquer opinião radical sobre minha qualidade como docente é imatura.

      Você menciona sobre livro que escrevi. Tenho três livros publicados: dois textos paradidáticos que escrevi e um livro de entrevistas que apenas organizei. Imagino que não esteja se referindo ao terceiro. Os textos paradidáticos que publiquei tinham por meta simplesmente desfazer mitos absurdos que são propagados por professores do país todo, como os seguintes: axioma não admite demonstração, definição não admite demonstração, axioma é sempre verdadeiro e intuitivo etc. Se estes livros fizeram alguma diferença para professores ou alunos, depende apenas dos leitores. A minha parte fui cumprida.

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    2. Porém, se sua intenção era fazer comentários para o Dr. Bolivar, sugiro que demonstre um pouco mais de respeito no futuro.

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    3. Prof. Adonai, minhas sinceras desculpas pelo comentário que fiz anteriormente. Foi realmente bizarro. Agora eu fui ao topo da página e reconheci a idiotice que fiz.

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  8. Olá professor Adonai. Confesso que, para mim, cada post do seu blog se mostra impactante e revelador! Os "bastidores" do mundo acadêmico me parece realmente feio! E eu tinha uma impressão totalmente contrária a isso... achei que todos acadêmicos (pesquisadores, mestres, doutores) eram dignos de respeito. Com base eu várias coisas que já li aqui creio que pessoas como o Super Dr. Bolivar sofrem dificuldades devido ao fato de que existem pessoas que querem vê-los brilhar menos para não serem ofuscadas demais.

    Mas enfim, já que Halliday foi mencionado gostaria de perguntar pq o livro dele é tão ruim assim (isso me interessa, pois meu curso de física da graduação em matemática foi baseado nesta obra). Sei que uma análise profunda não pode ser feita num comentário, mas se possível diga-me qual é a principal diferença em relação à obra de Moysés Nussenzveig. Seria o modo de apresentar a matéria ou até mesmo erros existem no Halliday? Em qual sentido o Halliday é ruim?

    AAnooniimoo

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    1. AAnooniimoo

      Em função de vários comentários de leitores feitos em postagens passadas, prometi postagens futuras sobre certos temas. Até agora tenho cumprido pelo menos com a maioria das promessas. Minha intenção é cumprir com todas. Sua pergunta exige uma resposta extensa. Por isso acho melhor discutir sobre isso em algum texto a ser escrito e veiculado. Peço, portanto, um pouco de paciência.

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  9. Prezado Anônimo,

    Das suas duas postagens acima, inferi o seguinte:

    "Pelo que percebi, você [o Super Dr. Bolivar] tem tanta ganância em pesquisar que não suporta a ideia de ceder um pouco de tempo para ensinar outras pessoas."

    Gostaria de fazer um pequeno esclarecimento sobre a relação ENSINO X PESQUISA. Não é totalmente verdadeiro que priorizo a pesquisa. Durante meu primeiro pós-doc no IMECC-UNICAMP, reservei parte da minha bolsa-FAPESP para alugar uma sala em uma cidade-satélite, aqui em Brasília. Minha intenção era disseminar o conhecimento em física-matemática-filosofia para a molecada, em geral. Foi a primeira e a mais importante iniciativa social que implementei.

    Levei tanto a sério essa ideia que o meu livro, bem como meu artigo publicado na Physical Review Letters, carregam o nome do meu instituto.

    Caso tenha curiosidade, pode facilmente localizar essas referências na internet.

    Quando estiver espiritualmente animado, intenciono retomar tal ideia de instituto de pesquisa desacoplado do Ensino Médio e da Universidade.

    Bolivar (sem o SUPER!!!)

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  10. Anônimo

    "Mas enfim, já que Halliday foi mencionado gostaria de perguntar pq o livro dele é tão ruim assim (isso me interessa, pois meu curso de física da graduação em matemática foi baseado nesta obra). Sei que uma análise profunda não pode ser feita num comentário, mas se possível diga-me qual é a principal diferença em relação à obra de Moysés Nussenzveig. Seria o modo de apresentar a matéria ou até mesmo erros existem no Halliday? Em qual sentido o Halliday é ruim?"

    Ao meu ver, um dos grandes problemas das coleções de livros do Halliday é o que ocorre, por exemplo, com as coleções de livros do Peter W. Atkins na Química, nos quais os autores das obras (Halliday e Atkins em suas áreas) agem da seguinte maneira:

    "filhote, pega todo este conteúdo deste livro e enfie goela abaixo sem sequer questionar. Dane-se o que vc acha, pensa ou imagina a respeito dos assuntos aqui tratados. O importante é vc engolir tudo isso como um bom e pacífico cordeirinho e assim vc será um bom menino, capaz de tirar 10. Não queira saber o motivo e nem sequer as razões lógicas pelas quais a velocidade instantânea de um objeto pontual em um espaço unidimensional é descrito primordialmente como v = lim (delta x ---> 0) dx/dt e nem mesmo se existe alguma outra abordagem possível, pois isto simplesmente não interessa. Vcs alunos são uns m&rd*nh@s tão burros que sequer são dignos de questionar algo desta grandeza. Portanto, contente-se com o que eu falo, pois eu sou um fdp de um autor de livro de renome comparado com vcs, amebas, que não passam de depósito de informações, sem a menor capacidade de pensamento e senso crítico. Vcs jamais questionariam se esta ideia de velocidade instantânea é correta ou expressa daquele jeito, pois tudo o que eu digo, invariavelmente vcs aceitam como lei. Então, peguem e engulam. E ai de quem questionar minha autoridade".

    Compreende??????

    Ao menos, esta é uma das razões pelas quais eu, particularmente, detesto livros como Halliday e Tipler na Física, Atkins na Química e Swokowsky na Matemática!!!!!!!

    Além do mais, tais livros são paupérrimos em abordagem e explicação teórica, mas ricos em variedade de exercícios, contradizendo a própria proposta didática deles, que explicam de forma incompleta e por vezes incorreta, mas querem que os alunos tenham uma epifania divina e saiam resolvendo exercícios de forma magistral, ou seja, querem que um milagre aconteça.......

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  11. Em outras palavras, livros de autores como Tipler, Atkins, Halliday, Swokowsky, etc (geralmente escritos para as massas) tendem a subestimar a capacidade e o senso crítico de bons alunos e pessoas verdadeiramente interessadas em aprender!!!!!!!

    Existe um livro de Físico-Química de um autor de sobrenome Moore, datado de 1969, que é simplesmente fantástico!!!!!!

    A Primeira Lei da Termodinâmica aplicada à Termoquímica e expressa pela equação H = U + p.V (sendo "H" a entalpia do sistema, "U" a sua energia interna, "p" a pressão a que o sistema encontra-se submetido e "V" o volume externo ao sistema) é descrito em detalhes neste livro de 1969 por mais de 10 páginas seguidas e com apenas uma única ilustração.

    São mais de 10 páginas com descrição e argumentação detalhada apenas acerca da equação "H = U + p.V", no qual o autor discute em detalhes o porquê daquela equação ter aquele arranjo, o motivo da soma da energia interna com o termo subsequente "p.V", toda a ideia lógica por detrás daquela equação, bem como outros aspectos!!!!!!

    Por outro lado, se vc pegar o livro do Atkins de Físico-Química neste mesmo tópico, notará que ele apenas menciona que a equação da Primeira Lei da Termodinâmica aplicada à Termoquímica é dada por "H = U + p.V", dizendo depois o que significa o "H", o "U", o "p" e o "V" e na sequência "vomitando" uma série infindável de exercícios resolvidos e propostos para os alunos treinarem!!!!!!!

    Percebe a enorme diferença de abordagem entre os dois autores??????

    De nada adianta o cara (aluno, filhote, ou como vc queira chamar) resolver uma pilha gigantesca de exercícios com maestria e desenvoltura, sem sequer saber verdadeiramente o que de fato representa a equação H = U + p.V, que é o que mais importa para o bom desenvolvimento do aprendizado!!!!!!

    A capacidade de resolução de exercícios viria como consequência da boa aprendizagem e não como o único objetivo dos autores (como ocorre com os livros do Halliday e afins)!!!!!!

    Infelizmente não me lembro do nome completo desse autor do livro de 1969, mas apenas do último sobrenome "Moore". Foi um dos bons livros de Físico-Química de que tomei conhecimento. E foi por conta própria, sem indicação de ninguém (até porque pouquíssimas pessoas devem conhecer bons livros como esse, diferente de Halliday e afins, que todos conhecem ou já ouviram falar).

    Moral da História:

    Livros de autores como o Halliday apresentam um enfoque voltado para um mero treinamento de como resolver exercícios de um modo puramente mecânico e sem grandes reflexões e raciocínios. E ainda assim fracassam nesse objetivo, pois mostram apenas um único caminho para resolver os exercícios sem sequer mencionar outros métodos e falham ao descrever o único método que apontam para a resolução dos problemas, pois os alunos tem de buscar em outros materiais para resolver os exercícios do próprio Halliday com um grau razoável de sucesso.

    Já os bons livros são aqueles que procuram descrever um determinado tema com um considerável grau de riqueza de detalhes, além de apontar outros possíveis caminhos, discutir soluções alternativas e estimular os estudantes a verdadeiramente refletir sobre o assunto, coisa que Halliday e afins não o fazem!!!!!!

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    1. Leandro, seria Walter John Moore o nome do autor?

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  12. Acho que ficar frustrado se o professor usa tal livro é desgaste inútil. Vocês tem que aprender que para fazer um graduação ou qualquer coisa precisa ser autônomo adote o livro que achar melhor. O melhor livro não é o que tem mais cálculos e exercícios difíceis. O melhor é aquele que te corresponde eficientemente. Não adianta estudar Nussenzveig se você não entender. Minha estratégia de estudo é sempre estudar o livro mais difícil que a vezes não estou apto a entender acompanhado de um livro que é de fácil compreensão. Por que estudar um? Se você pode estudar vários e ter um domínio maior da teoria. E admiro nesse post a atitude do autor em ter tido a coragem de publicar sem se importar com o orientador e apoio é isso mesmo que tem que ser feito foi uma grande atitude, mas minha opinião pessoal é que o autor do post deveria ver que o mundo e o Brasil é muito grande sempre terá pessoas melhores que nós não importa se você tem pós na Alemanha ou publicou na review letters sempre existirá pessoas que aqui nesse país que também conseguiram e talvez fizeram melhor então nessa visão vejo que você tem que buscar mais e não se frustrar com relação a isso, pois isso não te trará sucesso ao contrario te cegará e te sucumbirá. A outra coisa que queria dizer é que no brasil todos que estão envolvidos em pesquisas e isso vale na maioria dos países também terá que ensinar logo quando você decidiu seguir essa carreira você aceitou isso não adianta se abater com isso. Se você se incomoda com isso como acredito que a maioria então procure alguns lugares em pesquisa que são poucos, mas que não envolva ensino. Acredito que reclamar não vai te trazer mudanças são atitudes como você fez ao publicar sua pesquisa sem ligar para seu orientador e nisso você está de parabéns.

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  13. Sobre os livros adotados de Física básica,vou falar aqui como trabalho. Sou professor de Física do curso de Licenciatura da UEPB num campus aqui do interior da Paraíba, e assim gostaria de compartilhar como é minha experiência com as disciplinas de Física Básica.

    Eu trabalho da seguinte maneira: crio um roteiro mental de como a disciplina deve ser lecionada, isto é, quais conteúdos devem ser trabalhados, quais os pontos mais importantes de cada conteúdo , e o nível que eu tenho que trabalhar com os alunos. Depois disso faço as notas de aula com minhas palavras e vou buscar nos livros textos os suportes necessários para os pontos abordados no roteiro que criei. Os livros textos são como se fossem um imenso lago, no qual vou pescando o que preciso para aprontar a refeição.
    Penso no futuro, a médio ou longo prazo, escrever um livro de Física Básica com minha abordagem particular.

    Sobre os livros em si, acho a tríade Haliday-Tipler-Sears & Zemanski muito fraca em rigor teórico, com excessão do livro do Tipler de Física Moderna, que eu acho bem completo para o público que está se iniciando nesta disciplina. Este último se mostra um bom livro para a introdução de Física Moderna, pois ele é bem abrangente na descrição dos experimentos que deram origem à Física Moderna, e acho que ele aborda satisfatoriamente a velha teoria quântica.

    Sobre a coleção do Moysés Nussenzveig, eu acho ótimos livros de Física Básica, mas não para um curso introdutório, pois a matemática que ele usa no texto vai além da que o aluno tem no momento em que está cursando as físicas básicas. Por exemplo, o volume 2, cujo conteúdo vemos no segundo semestre, ele já faz uso de alguns elementos de campos Vetoriais, os quais será visto no cálculo III, e também da notação complexa na resolução de equações diferenciais ordinárias. A minha opinião é que o livro do Moysés desempenha muito bem o seu papel para um aluno já iniciado nas físicas básicas.

    Para mim, o melhor custo benefício na física básica são os dois primeiros volumes dos livros do Alonso & Fynn. Na minha opinião ele é conceitualmente consistente e é objetivo na apresentação dos conteúdos (coisa que o Haliday e cia não é). Sobre o nível matemático apresentado no livro, este é rigoroso, porém menos do que o apresentado no Moysés, e assim penso eu que um aluno mediano consiga acompanhar o Alonso & Fynn.
    Outra coleção que uso como suporte é a dos irmãos maristas, com 3 volumes. Tal coleção era usada na década de 60 para trás,e destinados a alunos do equivalente hoje ao ensino médio. Apesar da obra ser voltada para estudantes secundaristas, o conteúdo é tão fantástico que faz você pensar que aquilo era outro Brasil, tamanho a qualidade do livro e o acabamento da arte. Para vocês terem uma ideia, o volume 3 que trata de Ótica e Eletromagnetismo, destina 14 capítulos para ótica e mais 20 para o Eletromagnetismo. Neste livro você estuda por exemplo, muitos detalhes sobre instrumentos óticos, sobre a ótica da visão e sobre fenômenos pouco abordados no Haliday como a polarização. Eu realmente recomendo, e você encontra em sebos a preços modestos.


    Sobre a coleção do Feymann das "Lições de Física", considero uma obra prima do ensino de Física. Eu recomendo fortemente para alunos como o "Bolivar" ou aquele do depoimento do superdotado, porém um aluno mediano pode estranhar inicialmente a abordagem da obra, pois ela foge à ortodoxia dos livros de Física básica. Esta coleção é realmente para os amantes da Física, que não só estudam ela, mas a degustam. Richard Feymann é realmente um mestre no sentido da palavra. Quando você lê as suas lições de Física, é como se ele tivesse ao nosso lado conversando sobre física de forma amena, mas com uma grande profundidade.

    Marcelo.

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    1. Marcelo

      Comentário impressionante o seu! Você demonstra algo que raramente vejo entre professores de nosso país: visão. Agradeço pela excelente colaboração.

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    2. Apenas um complemento...

      Você fala de um Brasil diferente no passado. Eu mesmo vivi um pouco deste saudoso Brasil, nos anos 1970. Naquela época havia os kits do MEC. Esses kits eram mini-laboratórios de física que qualquer um podia comprar por centavos em bancas de revistas. Era possível fazer experimentos de eletromagnetismo, termodinâmica, mecânica e ótica. Até mesmo brinquedos vendidos em lojas eram diferentes naqueles tempos. Eu mesmo comprei laboratórios de eletrônica e de química que eram portáteis e muito ricos em termos de opções de experiências realizáveis. Também existiam as feiras municipais de ciências, que reuniam milhares de alunos e professores de escolas públicas e privadas. A vida era diferente naquela época.

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    3. Caro Adonai, a partir do seu depoimento acerca do Brasil de antanho, gostaria de saber a sua opinião sobre o que segue: Onde foi que erramos? A partir de que momento a educação brasileira começou a tomar um caminho ruinoso e, quiçá, sem volta? O que fazer para começar a reverter esse quadro de horror?

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    4. Francisco

      Eu adoraria responder às suas questões de maneira objetiva, metódica e realista. Já pensei muito sobre o assunto, conversei com muita gente e li muitas matérias. Mas tudo o que tenho em mãos são conjecturas pouco convincentes. Vejo alunos praticamente mortos em sala de aula, sem motivação alguma além da mera sobrevivência. Vejo professores conformados. E os poucos alunos e professores diferentes da maioria não demonstram qualquer capacidade efetiva para mudanças. Não sei. Simplesmente não sei. E é horrível a sensação de não saber o que realmente importa.

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  14. Adonai, sou um grande apreciador de livros antigos, e assim minha casa é cheia de livros velhos e com páginas amareladas. Vivo indo em sebos, e já encontrei muita preciosidade nestas andanças. Dos livros usados na universidade, na maioria das vezes prefiro as edições mais antigas.

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  15. Sobre a questão do Francisco, vou entrar na discussão com minha humilde opinião sobre o assunto.

    O problema da educação brasileira é a nova cultura pedagógica(a qual eu chamo de verbarrogia pedagógica), que é dominante nos cursos de pedagogia e licenciaturas.

    Antes de entendermos como a "verbarrogia pedagógica" destruiu a educação brasileira, precisamos lembrar que a nossa educação antigamente era baseada em dois valores fundamentais,que sem eles não se chega em lugar algum. São eles: disciplina e respeito ao mestre. Com isto os alunos conseguiam ler e escrever ainda na alfabetização, ter o domínio das quatro operações no primário, e desde cedo aprendiam o respeito.

    Pensemos um pouco. A escola, como uma instituição que formava pessoas melhores, sempre foi um grande obstáculo aos detentores do poder. Para eles não interessava pessoas livres e conscientes, mas sim que estas pessoas fossem como "gado". Então era necessário mudar o sistema de educação, para assim "emburrecer" a população. Foi se assim desenvolvida uma nova pedagogia que rompia radicalmente com os valores da pedagogia tradicional. Surge então uma nova cultura pedagógica, encabeçada pelos trabalhos de pensadores como Piaget, Vigotsky, Emília Ferreiro e Paulo Freire, que promove mudanças profundas na escola, tais como: 1) O Combate à hierarquia professor-aluno em sala de aula, o que levou o aluno pouco a pouco a perder o respeito pelo professor e por qualquer figura de autoridade.
    2)Santificar o aluno, isentando-o assim de qualquer responsabilidade na sala de aula. O aluno é então objeto de constante bajulação, e com isso tal eleva seu ego à estratosfera, e assim perde a sensibilidade de quão árduo é o processo de aprendizado, largando mão da disciplina no aprendizado.
    3) Substituir aulas baseadas em ensinamento de conteúdo, por aulas baseadas numa suposta "conscientização" e com o vago objetivo de "formar cidadãos". Isto levou o coitadismo aos alunos. Este tipo de aula "ensina" que a forma tradicional de se educar os alunos é uma "opressão das elites" aos "alunos coitadinhos", e por isso os alunos devem lutar contra esta suposta opressão, se libertando destas aulas chatas que tentam ensinar alguma coisa.

    4) Implantar a aprovação automática. Neste caso a escola torna se uma mera distribuidora de um papel chamado diploma, que nem pra se limpar depois das necessidades serve.

    5) A aplicação do chamado "método sócio-construtivista" na alfabetização. Para entender como funciona este método, lembremos como aprendíamos a ler e escrever antigamente: o professor apresentava os símbolos junto com os sons associados e explicava as regras de junção destes símbolos, formando assim as palavras. E assim, DECORANDO as regras , fomos nos alfabetizando. Este processo ocorria entre os 5 e 6 anos de idade e assim, estávamos alfabetizados em média aos 5 anos. No método sócio construtivista é diferente. Por exemplo,ao aprender a palavra "gato",o professor coloca um texto onde tal palavra aparece várias vezes, mas sem falar nenhuma regra sobre a formação da palavra. O professor enfatiza então o contexto político-social do gato,a opressão que sofre da sociedade dominante,etc, e espera se assim que a criança aprenda por indução as regras gramaticais. Para isso o menino teria que ter a capacidade indutiva de um Aristóteles. Acontece então o que era esperado, a criança não aprende a ler nem escrever. Tal criança pode até ter conhecimento das palavras, mas não terá maleabilidade com as regras gramaticais e nem com a contextualização necessária para interpretar um texto, tornando se assim o que conhecemos hoje por analfabeto funcional. A aprovação automática faz com que estes alunos concluam o ensino médio, e cheguem na universidade ainda analfabetos funcionais, e o circulo vicioso se repete na universidade.

    Em resumo: a nova pedagogia acabou com a autoridade do professor em sala de aula, tornou os alunos burros e animalizados.

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    1. Marcelo

      Posso até aceitar a sua visão como uma das componentes de nosso ensino, em muitas instituições. Mas não me convence como a raiz do problema. A cultura brasileira, como um todo, tem um peso muito maior do que apenas aquela ditada por teóricos da educação que jamais produziram coisa séria alguma. E esta cultura brasileira não é definida apenas pela escola. É possível até que nossas escolas tenham um peso desprezível sobre a cultura de nosso país. É esta cultura que resultou naquilo que você aponta. O problema é que não consigo pontuar os elementos sociais e históricos que definiram esta cultura tupiniquim. Brasileiros são muito isolados de qualquer noção remotamente realista de mundo. Hoje mesmo vi uma cerimônia, no departamento onde trabalho, que me deixou extremamente deprimido. É incrível esta falta de contato com senso crítico em nosso povo.

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    2. É por isso que considero nostalgia um "sentimento" perigoso. A julgar pelo que Feynman escreveu sobre a educação brasileira nos anos 1950, a coisa já não estava boa no tempo de vocês... e só piorou desde então. Quanto a publicações antigas, realmente havia livros formidáveis, pelo menos até os anos 1990. Felizmente ainda é possível adquirir ótimos títulos na amazon americana.

      Sebastião

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  16. Só mais uma coisa, estes dois comentários anteriores foram meus. Quando os enviei esqueci de assiná-los.

    Marcelo.

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  17. Olá, professor Adonai.

    Eu pretendo trocar de curso ano que vem (provavelmente vou para Física - Bacharelado) e gostaria de criar desde já uma base sólida e rigorosa matematicamente falando. Porém, não sei qual seria o melhor livro-texto para iniciar os estudos. Fui averiguar o Física Básica 1 do Moysés e compará-lo com o volume 1 do Alonso & Finn. Percebi que o do Moysés é realmente mais avançado, com uma base matemática mais rigorosa, menos exercícios(embora difíceis) e mais direto. Porém, o Alonso & Finn foi uma das referências que o autor recomenda ao final do livro e, pelo o que folheei, também é um livro com um grau de rigor matemática acima dos livros "ruins" (Halliday, Tipler, etc), com mais exercícios. Entretanto, o "Curso de Física de Berkeley - vol. 1) me pareceu mais avançado que os dois que citei. Outra opção que me pareceu acima dos dois primeiros (e no nível do de Berkeley) é "Newtonian Mechanics" do autor A.P. French, o primeiro volume de uma série do Física do MIT.

    Particularmente, eu vejo o Moysés como não muito didático e não tão motivador, na minha perspectiva (como aluno), apesar de saber que é a melhor opção no idioma português (na verdade, não importa o idioma para mim, nessa pergunta).

    Em suma, gostaria de saber se o senhor tem alguma indicação que atenda aos requisitos (matemática e fisicamente rigoroso, didático e que siga uma linha coerente de disposição dos assuntos ao longo dos capítulos, ou, em outras palavras, quais assuntos seriam importantes para falar antes de outros e como conectá-los).

    Desde já agradeço pela resposta!

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    1. Heitor

      Você já levantou essas questões em outra postagem. O leitor Marcelo Marchiolli apresentou uma série de recomendações com as quais concordo plenamente. Veja no link abaixo:

      http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2013/03/apenas-alguns-livros-parte-i.html

      Além disso, eu gostaria de sugerir também o Mathematical Methods of Classical Mechanics, de Arnol'd. É uma obra que oferece uma perspectiva matemática belíssima e sólida para a mecânica clássica.

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