segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O mundo está ficando mais estúpido?


James R. Flynn foi pioneiro no estudo da evolução de certos aspectos da inteligência humana em diferentes partes do mundo. O impacto de seu trabalho tem sido tão profundo que há algum tempo se usa o termo "efeito Flynn" para designar o considerável aumento de inteligência da população de países desenvolvidos entre as décadas de 1930 e 1980. Tanto Japão quanto Dinamarca, por exemplo, experimentaram no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial um considerável melhoramento em resultados de testes de inteligência realizados em suas populações. 

No entanto, testes recentes de QI (quociente de inteligência) usados pelo governo dinamarquês para determinar quais homens estão aptos para serviços militares revelam uma queda de um ponto e meio desde 1998. E este fenômeno não ocorre apenas na Dinamarca, segundo a reportagem indicada no link acima, mas também nos Estados Unidos e na Austrália. 

Um artigo recente de Gerald Crabtree (Stanford University) sugere que a perda de inteligência da humanidade é um processo que está ocorrendo há milhares de anos, por conta do processo de socialização. A criação da agricultura e de cidades tornou, com o tempo, cada vez menos necessárias certas habilidades cognitivas para construir abrigos e caçar. É a dependência que a espécie humana tem dela própria que estaria sendo responsável pelo declínio de inteligência. O efeito Flynn, segundo ele, representou um aumento repentino de níveis de inteligência por conta de repentinas mudanças na oferta de melhores condições de saúde, alimentação e educação em inúmeras sociedades. Mas nos últimos dez anos a tendência natural de declínio intelectual está voltando a ser percebida. 

Por que escrevo sobre este tema aqui? Por dois motivos:

1) Por um lado, tenho percebido pessoalmente em sala de aula um declínio não apenas intelectual, mas também de motivação entre alunos. E este declínio tem sido muito marcante especialmente nos últimos dez anos. E, segundo alguns pesquisadores, a inteligência humana atingiu seu ápice cerca de dez anos atrás. É claro que há quem conteste isso. Mas, levando em conta que já existem até mesmo físicos renomados que contestam a necessidade de verificação experimental para validar teorias, fico pensando se os contestadores não estão apenas menos inteligentes. 

2) Dois dias atrás publiquei neste blog uma postagem que bateu vários recordes de visualizações neste blog. É uma postagem sobre a dominante preguiça intelectual que impera nas universidades brasileiras. Recebi algumas dezenas de comentários, mensagens e e-mails sobre esta postagem, que foi responsável por mais de sete mil visualizações em dois dias. Mas o melhor comentário que li até agora veio de um importante matemático que, neste momento, está escrevendo uma resposta ao meu texto para fins de publicação neste blog. Resumidamente, ele afirma que meu texto é superficial. E, de fato, é superficial. Tenho respondido a praticamente todos os comentários veiculados aqui, com o objetivo de qualificar detalhadamente a tese central de que existe muita preguiça e até desonestidade intelectual em nossas universidades. No entanto, há neste blog dezenas de postagens que abordam temas semelhantes e correlatos de forma muito mais aprofundada. Porém, tais postagens não tiveram tanta repercussão. Por quê? Será que é porque o brasileiro também está ficando mais estúpido? Estamos tão confiantes na estrutura social construída ao nosso redor a ponto de simplesmente não nos importarmos mais com o futuro? 

Dias atrás escrevi um texto que eu planejava veicular apenas no primeiro dia de 2015, como mensagem de Ano Novo. Mas agora decidi veicular este texto neste momento, pois o julgo oportuno diante dos últimos eventos ocorridos neste blog. É um texto inspirado em um recente monólogo de um artista muito conhecido da indústria fonográfica. E, enquanto aguardamos as novas postagens para 2015 (convidei muitas pessoas para contribuírem por aqui e que têm de fato algo importante para dizer), peço que o leitor reflita com cuidado sobre o que se segue. Pode parecer piegas, mas é de coração.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo. Até 2015.
______________

Por que você faz o que faz?

Por que você lê esta postagem? A resposta é óbvia, direta e dolorida. Porque você não tem nada melhor para fazer. 

Ler um clássico da literatura? Não. Agora não.

Compreender aquele teorema cuja demonstração ocupa apenas meia página, mas que apresenta uns detalhes realmente intrincados? Não. De que forma esses detalhes ajudarão a entender a vastidão da matemática? Aliás, o que há de melhor na matemática do que esta postagem que você lê? 

Dialogar com quem você ama, para ajudar esta pessoa a lidar com os seus problemas? Não. Você já tem os seus próprios problemas para se preocupar.

Ver um vídeo no YouTube que mostra cambaleantes elefantes bêbados por conta da ingestão de amarula fermentada? Talvez. Talvez seja melhor do que ler um texto que o intima a refletir sobre o que você tem de melhor para fazer. 

Você tem algo melhor para fazer do que navegar no Facebook? Você tem algo melhor para fazer do que ler postagens publicadas em blogs? Você tem algo melhor para fazer do que se sentir pior consigo mesmo ao ler este texto que questiona "você não tem nada melhor para fazer"? Se tivesse algo melhor para fazer, estaria aqui? Afinal, você está aqui porque não tem absolutamente nada melhor para fazer. E isso é você, na plenitude de sua vida, no auge de suas capacidades, no ápice de seus prazeres, no cume de sua curiosidade a respeito de si mesmo e do mundo que o abriga.

Por que Albert Einstein criou a teoria da relatividade? Simples. Porque ele não tinha nada melhor para fazer. E, para o bem da humanidade e até mesmo para o bem do sistema GPS que você usa em seu celular, ainda bem que ele não tinha nada melhor para fazer. Imagine se o melhor que Einstein tivesse para fazer fosse tocar violino. O mundo teria sido temporariamente apenas mais ruidoso.

Por que Beethoven compôs a sua Nona Sinfonia? Por que ele simplesmente não tinha nada melhor para fazer. E por que tantas pessoas ouvem a Nona de Beethoven? Porque graciosamente não têm nada melhor para fazer.

Por que um alcoólatra bebe? Porque ele não tem absolutamente nada melhor para fazer. É o que lhe faz realmente bem! E nada melhor do que bebida alcoólica para entorpecer a mente de quem não quer pensar sobre o que há de melhor para fazer. É por isso que tantas pessoas gostam de elefantes bêbados? É uma identificação pessoal?

Por que escrevi este texto? Simplesmente porque eu não tinha nada, absolutamente nada, melhor para fazer. E você, leitor, entende o que isso significa aqui, neste momento, neste blog? Consegue fazer melhor do que simplesmente ler? Consegue fazer melhor do que julgar a partir de seus próprios parâmetros? Consegue ler entrelinhas? Consegue parar de ler? 

Consegue se sentir melhor em relação a todos os momentos de sua vida, após a leitura deste texto? Consegue se sentir bem consigo mesmo por tudo o que já fez e o que não fez, simplesmente porque não havia nada melhor para fazer?

Por que você vai ignorar este texto após a sua leitura? Porque certamente tem algo muito melhor para fazer. E por que você vai compartilhar esta discussão, para que outros também pensem sobre o que estão fazendo de melhor? Porque você não tem nada melhor para fazer. 

Quer saber quem você realmente é? Então faça um relato diário de suas escolhas, de suas atividades e, após um tempo, leia este relato. 

O que você tem de melhor para fazer é somente aquilo que o beneficia? Ou você pode fazer melhor do que isso? Até onde vai a sua vida? Até o momento de sua morte? Ou ela vai um pouco mais longe? 

Einstein vive. Elvis vive. Beethoven vive. Mas perfis não vivem. Um perfil é apenas uma silhueta, algo que pode ser deletado. Perfis não constroem, não edificam, não inspiram. 

E agora? O que você fará agora? Seja o que for, revelará o que você tem de melhor para fazer. E este é você, independentemente do julgamento de quem quer que seja. Você é o que faz, seja consigo ou com outro, seja por si ou por outros. Você é o que faz de melhor. E fortemente recomendo que preste muita atenção em sua próxima escolha.

18 comentários:

  1. Você está sendo muito negativo, Adonai. :)

    O mundo está ficando mais estúpido? Será mesmo? Será que toda a violência que presenciamos no passado foi menor do que o que vemos hoje em dia?

    O mundo está mudando a forma de se comunicar e certas formas realmente levam a uma superficialidade. Mas será que isto é realmente pior? Tenho minhas dúvidas.

    Abraços,
    Adolfo

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  2. Tenho uma opinião parecida com a do Adolfo Neto mas também gostaria de parafrasear o professor Adonai no seu comentário anterior: Bem, não custa ficar de olho. Penso até que muitas vezes publicações desse tipo sejam feitas mais para chamar para um debate do que para apenas gerar polêmica. Texto muito bom, li porque eu não tinha nada melhor para fazer! xD

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    1. João Paulo

      O que me inspirou para esta postagem foi um show de Jack White, realizado este ano em um festival. White remete a uma pessoa quase insuportável, tamanha a incisividade de seu discurso ao público: "I did this because I had nothing better to do." Enquanto eu acompanhava o show em um DVD de meu filho, não me contive. Isso porque comecei a sentir que deveria fazer algo melhor. Comecei a escrever o texto. Até meu filho interrompeu o DVD para gravar uma música. Isso porque gravar aquela música pareceu algo bem melhor para fazer naquele momento. Feito isso, voltamos ao show. Música pop também é terapia.

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  3. Eu acho que o problema é mais complicado. Não é que "não temos nada melhor para fazer". É uma questão de tempo. Eu tenho muitas coisas melhores para fazer do que ler esse post mas eu sei que para ler o post eu vou gastar cinco minutos e as coisas melhores que eu tenho para fazer vão demorar muitas horas, muitos dias. Então dá para fazer as duas coisas, ler o post e alternar as leituras de posts com as coisas importantes a fazer.

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    1. Mas não é divertido pensar sobre esse tipo de coisa?

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  4. Se a pessoa estiver cansada/estressada de nada adiantara fazer uma atividade intelectual, logo, o mais adequado seria relaxar dormindo... :D

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    1. Bem, no meu caso, praticamente todas as noites o melhor que tenho para fazer é dormir.

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  5. Duas frases de Leonardo da Vinci:

    "A felicidade está na atividade"
    Contraponto: o descanso merecido é reconfortante.

    "Fraco é o discípulo que não se excede ao mestre"

    Complemento:
    Correto quando o discípulo torna-se mestre (a arte deve progredir), mas antes disso o discípulo perturba as aulas do meste...

    Os argumentos apresentados pelo mestre Adonai são provas reais da lei do mínimo esforço.

    Mas a lei do mínimo esforço tem consequências indesejáveis:

    Há uma epidemia de obesidade por conta da automação.
    Algo parecido acontece no domínio intelectual.

    Para que pensar? O google responde tudo!

    O que vemos, ouvimos e aprendemos é realmente relevante?

    Por ora, vamos nos manter vigilantes...

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  6. Parece que algo muito relevante está ressurgindo: PENSAR.
    Legal.....

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  7. O que acontece com a Internet, aconteceu com a TV no passado. À maneira que o parque de receptores aumentava, piorava a qualidade de programação. Breve retorno ao zero...
    Hoje, com o aumento da base de usuários na rede, a imbecilidade se impõe nas páginas dos principais provedores de informações.

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  8. Eu li este post por gostar de você Adonai.

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    1. E eu escrevi por gostar de quem gosta de pensar. Grato pelo apoio, Daniel.

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    2. Adonai, será que a dinâmica da inteligencia humana passou por um máximo local ou global? Eu já passei pelo meu máximo global a pouco mais de uma década. Dizem que é preciso ter inteligência para reconhecê-la, deve ser por isto que não estou reconhecendo tanta inteligência quanto na minha juventude. Por outro lado a beleza deve funcionar ao contrário, pois a medida que fico mais feio (por conta da idade) vejo mais beleza a minha volta, e isto é para mim um enigma.
      Vida longa e próspera!

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    3. Daniel

      Apenas lamento que você se afastou da vida acadêmica. Você tem todas as condições para ser um grande filósofo.

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  9. "[...] Desejo a todos um Feliz Ano Novo."

    Não seria algo como "desejo a todos um Ano Novo crítico" ao invés de "Feliz Ano Novo"????

    rsrsrsrsrsrsrs

    Brincadeira.

    É bom ver que vc também é um ser humano Adonai, e não alguém desprovido de sentimentos, quase como um ciborgue........

    =D

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  10. Acho que em algumas poucas partes o mundo está ficando até mais inteligente, porque existem seleções com alta correlação com inteligência para cargos em empresas, vagas em universidades, etc... E é grande a chance de colegas de trabalho, ou de estudo, se relacionarem amorosamente. Não faz muito tempo (uns 70 anos?) não havia mulheres em universidades, então os professores universitários iam procurar esposas não sei onde, ou por quais critérios. Hoje em dia, acho difícil que um empresário de sucesso procure esposa numa área pobre. E, por exemplo, acredito que o QI médio em uma universidade brasileira seja bem maior do que o QI médio no Brasil, e é fato que os estudantes se relacionam entre si. Eu sei que muitos brasileiros não sabem que a inteligência é hereditária, assim como altura e outros atributos físicos, mas mesmo sem saber, ou mesmo se importarem com isso, estão fazendo parte de um processo de seleção genética. Mas sim, no todo, o QI genotípico está diminuindo, embora o QI fenotípico esteja aumentando (devido à nutrição, estímulos de computadores, vídeo games, etc...) Os gênios vão continuar existindo por um bom tempo ainda, com as atuais sete bilhões de pessoas no mundo, provavelmente o mundo tem mais gênios vivos atualmente do que já teve em qualquer outra época.

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    1. Anônimo

      Todas as questões que você levanta são de extrema importância e merecem estudos. Opiniões sempre devem ser ouvidas (sob certas condições de tolerância ao absurdo). Mas levantamentos de dados ajudam mais.

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