quarta-feira, 3 de junho de 2015

A busca pela felicidade pode ser uma ideia infeliz


Em um estudo publicado em 1997, foi relatado que, em média, 60% do tempo despendido em conversas informais entre pessoas era dedicado a um único assunto: elas mesmas. Temas de caráter geral como esportes, política e religião, cultura e artes, e estudo e trabalho, ocupavam, respectivamente, 9%, 3%, 4% e 13% do tempo de diálogos. Hoje, na tão aclamada era da informação, os assuntos discutidos em redes sociais como Facebook e Twitter mostram um quadro evolutivo curioso: 80% das mensagens trocadas por pessoas são sobre um único assunto: elas mesmas

Fascinante, não? Se alguém fala mais sobre si mesmo do que sobre qualquer outro assunto, isso obviamente o torna pouco interessante. Então por que pessoas ainda fazem isso? Neurocientistas têm uma explicação parcial para tão monótono fenômeno: as pessoas preferem falar sobre elas mesmas simplesmente porque isso faz bem para elas. 

Em artigo publicado em 2012 em Proceedings of the National Academy of Sciences, Diana Tamir e Jason Mitchell, do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard, relatam a sondagem de cérebros de 195 indivíduos, utilizando ressonância magnética funcional. Quando compararam as análises entre momentos em que esses indivíduos estavam focados neles mesmos e momentos nos quais estavam concentrados em outros assuntos, o resultado foi bastante informativo: falar sobre nós mesmos ativa regiões do cérebro associadas com recompensas. São as mesmas regiões cerebrais ativadas durante o sexo, a ingestão de boa comida, ou o consumo de cocaína. Ou seja, além de prazeroso, falar sobre nós mesmos é viciante. 

Por que discuto sobre isso em um blog dedicado à educação? A razão é simples. Porque há algum tempo pesquisadores têm percebido que estamos vivendo uma era de narcisismo. E narcisismo é um fenômeno que afasta pessoas do mundo em que vivem, prejudicando, portanto, a educação. Até mesmo câmeras fotográficas embutidas em telefones celulares comumente fazem correção de simetria de selfies, como forma de estímulo à apreciação de nossos próprios rostos. É a velha ironia do ego: "egoísta, por definição, é quem não pensa em mim."

Recentemente perguntei em sala de aula quem fazia curso superior com o objetivo de conquistar inserção social. Somente uma aluna se manifestou de forma imediata. Mas, logo em seguida, todos os demais disseram que fazem curso superior apenas para conseguir um contra-cheque mais gordo no final do mês. Ficou claro, no contexto da "conversa", que nenhum deles percebeu que conquistar um contra-cheque mais gordo é uma forma de inserção social. Por que isso? Porque o mundo em que vivem é um mundo sem reflexão alguma sobre onde vivem. Tudo o que querem é dinheiro. E por que querem dinheiro? Porque assim poderão comprar coisas, poderão viver melhor. Mas essa visão reducionista de mundo, na qual praticamente toda a realidade se resume à busca pelo bem estar individual e imediato, traz algum tipo de conforto sobre o futuro? Não tenho dados concretos sobre meus alunos ou o Brasil, para responder a tal questão. Mas tenho dados concretos de uma realidade não muito distante da nossa.

Em uma reportagem publicada dois dias atrás, chama-se a atenção para o fato de que mais de 70% do povo norte-americano acredita que a próxima geração sofrerá mais do que a atual. Essa insegurança é reflexo das radicais e imprevisíveis mudanças provocadas por novas tecnologias. Pessoas têm sido mais céticas sobre o efetivo papel social de instituições de ensino. Cursos superiores não têm mais acompanhado as demandas do mercado de trabalho. Tanto é verdade que hoje já se percebe que qualificação profissional não se conquista em quatro ou cinco anos de estudos em uma graduação. Hoje sabe-se que qualificação profissional é um processo ininterrupto, que acompanha toda a vida produtiva de um indivíduo. Um exemplo marcante dessa tendência do século 21 é o Starbucks College Achievement Plan, uma parceria entre a rede de lanchonetes Starbucks e a Universidade Estadual do Arizona, para estimular os funcionários Starbucks a realizarem cursos superiores online. Starbucks sabe que seus funcionários não poderão servir café para sempre. Quando eu ia ao supermercado em Columbia, na Carolina do Sul, mais de dez anos atrás, eu mesmo fazia a leitura dos códigos de barras dos produtos que eu queria levar. Não havia funcionário humano para me atender. Havia apenas uma máquina. 

O que o mercado de trabalho espera das novas gerações? A resposta é uma só: soluções de problemas. O século 21 não exigirá curso superior como único caminho possível para o sucesso profissional. Mas certamente exigirá (e já exige) a solução de problemas, mesmo em um país socialmente amorfo como o Brasil. 

Recentemente troquei diversas mensagens com um leitor deste blog sobre um projeto de mestrado profissional dele. Seu objetivo é trabalhar com licitações públicas em uma instituição federal de ensino superior. Já fui chefe de departamento e bem sei como processos de licitação pública são extremamente engessados. Mas mesmo diante deste engessamento é possível sim desenvolver ideias. Como? Por meio do uso de uma exigência legal já existente na legislação brasileira: compras públicas da administração federal devem atender a critérios de sustentabilidade. Como essa prática não existe ainda no Brasil, aí está uma ótima oportunidade de inovação, mesmo em um ambiente burocrático imbecilizado, como ocorre em instituições federais. Ou seja, a própria burocracia definida por aspectos legais pode ser usada para remodelar a burocracia de compras públicas. Realizar isso é um exercício de criatividade e, portanto, uma oportunidade que interessa não apenas a instituições federais, mas também à iniciativa privada. 

Problemas ligados a sustentabilidade estão entre as prioridades do presente e do futuro. E, neste sentido, as novas gerações devem se concentrar menos em selfies e mais no mundo em que vivem, se quiserem atender às suas próprias necessidades pessoais de satisfação. Quer conquistar um contra-cheque mais gordo? Então comece a prestar atenção no que ocorre ao seu redor. Pare de falar tanto de si mesmo! 

Do ponto de vista filosófico, existem duas visões dominantes sobre felicidade:

1) Felicidade é um estado mental.

2) Felicidade é uma vida que transcorre bem, por ações de uma pessoa que a conduz.

No presente momento as novas gerações apenas usam as novas tecnologias, sem de fato as compreenderem. Essas novas tecnologias não estão aqui para alimentar o ego de seus usuários. Elas surgiram para resolver problemas. Portanto, não crie mais problemas. Crie soluções. Uma sociedade de abobados que adoram falar de si mesmos não é uma sociedade sustentável.

Se o curso que você realiza em alguma instituição de ensino não o habilita a resolver problemas em sua área, é melhor começar a investir por conta própria, para preencher esta grave lacuna de formação. Vejo alunos de matemática que não têm a mais remota ideia de como modelar matematicamente fenômenos do mundo real. Vejo alunos de direito que sonham com uma estagnada posição de juiz federal. Vejo alunos de estatística que não conhecem as graves limitações do valor-p como critério de confiabilidade de inferências estatísticas em ciências humanas. 

Se sua busca por felicidade é a busca por um estado mental, então falar a respeito de si mesmo no Facebook pode ser uma ótima ideia, pelo menos enquanto sua vida for sustentável pela generosidade de seus pais ou de eventuais programas sociais de governos. Mas se sua busca por felicidade tiver um alcance maior, pensando na condução de sua vida como um todo, é melhor começar a prestar atenção na vida dos outros. Existem muitos problemas que devem ser resolvidos ainda. 

As novas tecnologias estão aí não apenas para mudar a realidade do mercado de trabalho, mas também para mudar os modos de aprendizado de cada um de nós. 

E então? Sobre o que você vai falar hoje no Facebook ou no Twitter?

15 comentários:

  1. Adonai, sinceramente, não gosto da minha geração, não encontro referências nela.

    Sebastião.

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  2. Podres de Mimados - As Consequências do Sentimentalismo Tóxico

    http://www.erealizacoes.com.br/ecom/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=1945


    Áudio da palestra do Luiz Felipe Pondé no lançamento do livro acima:

    youtu.be/08DD5Xca9_g

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    1. Outra palestra do Pondé na mesma linha:

      A Tirania da Felicidade: youtu.be/xFc5DeZq3pg

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    2. Vídeo da palestra do Luiz Felipe Pondé no lançamento do livro acima:

      youtu.be/SXPdcjpqVZs

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  3. Será que ao falarmos de sustentabilidade haverá consenso de seu significado? Será que, mesmo os estudiosos do assunto sustentabilidade conseguem entender da mesma forma? Para pensar em sustentabilidade qual referencial deveríamos usar? Indivíduo, sociedade, planeta ou universo? Eta mundo complexo!!!!!

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    1. João Luiz

      Sua questão é pertinente. No entanto, uma ideia é clara: a maior parte das atuais discussões sobre sustentabilidade se aplica a ambientes que estão ao alcance de transformações promovidas pela nossa espécie. Como ainda não exercemos qualquer influência perceptível sobre o universo, creio que podemos descartar essa preocupação.

      No mais, todos os demais compromissos com sustentabilidade têm alcance e efeitos locais. Logo, sustentabilidade melhor se identifica com um horizonte do que com algo que possa ser efetivamente alcançado.

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    2. Fiquei um pouco confuso sobre identificar sustentabilidade com horizonte, assim como algo que possa ser efetivamente alcançado. Se não podemos alcança-la para que ela serve?
      Ainda assim acredito que, se botássemos algumas pessoas em uma sala e começássemos a discutir sustentabilidade, creio que haveria muito assunto em discussão e com diversas vertentes.

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  4. Como temos uma postagem sobre erros de português, esta postagem merece atenção: .... 60% tempo dispendido (DESPENDIDO) em conversas .....

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    1. De fato, erro grave. Acabo de corrigir. Grato.

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  5. Pode explicar a imagem não entendo nenhuma mas acho bonito.

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    1. Anônimo

      O corpo é o de uma jovem que parece voar livremente. Fisicamente ela parece se sentir muito bem. Mas a fonte de luz que a ilumina revela um rosto com olhar quase demente. A luz amarela e energética é seu espírito. E o espírito é algo perdido, insano. Essa foi a intenção da imagem. Só não posso garantir que fui bem sucedido.

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  6. Excelente, Professor! Obrigada! Um abraço carinhoso.

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  7. Oi Adonai,

    Parabéns pelo post. Um comentário específico:

    "Vejo alunos de estatística que não conhecem as graves limitações do valor-p como critério de confiabilidade de inferências estatísticas em ciências humanas. "

    As questões sobre estatística são bem mais complexas do que é usualmente comentado em textos técnicos, sejam livros ou artigos científicos. Há questões conceituais que são fundamentais envolvendo a tradução de hipóteses científicas em hipóteses estatísticas, modelos estatísticos clássicos, definição formal do p-valor usando teoria da medida, etc. O p-valor não é uma probabilidade condicional como usualmente se prega por alguns. Infelizmente os que tem voz sobre esse assunto não compreendem os elementos cruciais envolvidos no processo, ainda utilizam uma linguagem não apropriada gerando ambiguidades.

    Não há "graves" limitações do p-valor. Claro que há limitações, o problema é o usuário não entender as suposições envolvidas na construção da teoria e extrapolar usando outras suposições. Enfim, vivemos num mundo estranho, onde muita gente não quer entender as suposições e as complexidades envolvidas. Querem aquele conhecimento enciclopédico e algorítmico, querem apertar um botão o obter uma solução, querem um mundo simples com fórmulas prontas e fáceis de digerir e interpretar. Porém o mundo é mais complexo do que essas regras triviais e o povo (aqui me refiro a maioria dos pesquisadores mesmo) tem medo de assimilar isso.

    Abs,
    AnonimoP

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    1. AnonimoP

      Há uma certa sensação de alívio quando vejo comentários como o seu. Grato pela excelente contribuição.

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