segunda-feira, 7 de maio de 2012

Critérios


Já fui chamado de muita coisa, desde que iniciei este blog. Alguns fazem elogios, outros apelam para agressivos adjetivos e descrições menos estimulantes. O que mais leio e ouço não aparece na seção de comentários, mas em e-mails, mensagens de facebook e umas poucas conversas pessoais. Por sorte há aqueles que se limitam a criticar as ideias aqui postadas, seja para apoiá-las ou rejeitá-las. A estes só tenho a agradecer. Isso porque demonstram compreender o objetivo básico deste fórum de discussões.


Apesar da opinião contrária de alguns dos leitores deste blog, considero insípido o resultado da enquete sobre soluções para nossa educação. Afinal, apesar de ser um blog de matemática (o que implica em restrições sobre o público-alvo), percebo que as críticas e sugestões pertinentes ao nosso sistema de ensino estão muito diluídas e não encontram a devida articulação. 

Não sou admirador de Lenin, mas este dizia que a revolução não se faz pelo povo, porém com o povo. E com isso eu lamentavelmente concordo.

Em função disso, apresento abaixo uma visão retrospectiva sobre temas já abordados por aqui, com especial ênfase às críticas. Em seguida mostro claramente que tais críticas podem ser avaliadas sob uma perspectiva objetiva, independentemente de mim. 

Identifico como problemas graves em nosso sistema educacional os seguintes:

1. Falta de qualificação de docentes. A maioria dos profissionais do ensino de matemática é medíocre. Ensinam conteúdos matemáticos perpetuamente errados, não dominam qualquer didática e não conhecem ou pelo menos não aplicam noções básicas de psicologia da educação. 

2. Visão dogmática, preconceituosa e estagnada sobre o que é matemática, por parte de professores e autores de livros e apostilas. A matemática é mostrada como assunto esgotado, inquestionável, que não evolui e de pouco interesse prático. Enquanto materiais didáticos de biologia, física, história, geografia e português são constantemente atualizados, a matemática tem se mantido estagnada, sem acompanhar avanços na área. Eventualmente há até mesmo o corte de conteúdos, como o estudo de limites e derivadas do ensino médio ou de teoria de conjuntos do ensino fundamental. Além disso, a matemática tem sido lecionada de forma dogmática, sem justificativas de procedimentos usuais e sendo, portanto, sustentada em preconceitos ditados por professores e autores.

3. Falta de vontade política para uma reforma educacional séria por parte de inúmeros segmentos da sociedade. Do lado dos governos, injetar dinheiro no sistema educacional sem um planejamento responsável tem efeito similar ao da corrupção: desperdício de verba pública. E empresários ainda não perceberam o quanto estão perdendo pela falta de investimento em mão de obra qualificada para efeitos não apenas imediatos, mas a médio e longo prazo também. Mesmo pais de estudantes, sem investir em itens básicos de educação como livros, constituem um péssimo exemplo aos seus filhos. Esta última observação se enquadra no contexto de uma ampla reforma educacional no sentido de que há a bizarra e medíocre crença de que educação se faz apenas na escola. 

4. Falta de reconhecimento e valorização da educação, bem como da produção de conhecimento matemático e científico, por parte da sociedade como um todo. Brasileiros em geral conseguem dizer os nomes de atletas e artistas de nosso país. Mas poucos conhecem algo sobre matemáticos ou mesmo cientistas e suas respectivas obras. Há diversos cientistas e matemáticos brasileiros que conquistaram considerável destaque mundial por suas contribuições. Esse descaso social com ciência é motivo para considerável preocupação. Pode ser indício de que um blog como este é uma perda de tempo.

5. O fato de que a carreira de magistério não é atraente para a maioria dos jovens em idade universitária. Sem estímulo positivo, os jovens talentosos inevitavelmente evitarão uma carreira docente. Não é exagero dizer que muitos estudantes com excepcional talento matemático preferem fazer graduações em áreas como engenharias. São raros os professores que se sentem profissionalmente satisfeitos com suas carreiras.

6. Falta de visão de que a matemática está fortemente conectada a aspectos práticos da sociedade. Matemática não deve se limitar à produção de artigos publicados em revistas especializadas de circulação internacional, apesar da evidente importância desse tipo de iniciativa. Há uma demanda por qualidade de vida em qualquer nação. E a matemática pode ser responsável por grandes saltos na qualidade de vida de um povo. Matemáticos profissionais deveriam ser estimulados pelo Governo Federal e pelos estaduais a dedicarem parte de suas tarefas profissionais em projetos e obras de impacto social mais imediato.

7. Falta de visão de que a matemática é uma atividade bela e atraente. O apelo estético da matemática é tão vasto quanto o das artes. Mas para que este apelo estético seja perceptível, precisamos de profissionais do ensino verdadeiramente qualificados e que consigam destacar tal visão para seus pupilos. Assim como não é possível apreciar uma pintura de Cézanne ou Da Vinci sem conhecer detalhadamente o uso de perspectivas, cores, sombras e manipulação de temas, entre outros itens, também não é viável a apreciação do apelo estético da matemática com a pobre cultura equivocada e fragmentada que tem se infiltrado e dominado em nossas escolas.

8. Centralização de órgãos representativos da matemática brasileira, bem como de políticas educacionais. Existe uma única instituição estadual de matemática no Brasil, a saber, a Sociedade Paranaense de Matemática. Órgãos como a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) não conseguem atender todo o território nacional com suas ações, mesmo ativando seus representantes regionais. Deveria ser incentivada as criação e manutenção de instituições culturais locais voltadas à matemática em todos os estados brasileiros e municípios, com o devido estímulo e apoio da SBM e de órgãos governamentais. Além disso, a excessiva centralização de políticas educacionais isenta outros segmentos sociais de suas responsabilidades com o futuro de nossos jovens.

9. Falta de comunicação eficiente entre matemáticos, docentes, psicólogos e pedagogos. Matemáticos e professores encontram dificuldade para entender termos misteriosos como “construtivismo”, “cognição”, “metacognição”, “interdisciplinaridade”, “transdisciplinaridade”, entre outros. Psicólogos e pedagogos não entendem a matemática, com seus herméticos termos como “vetores”, “escalares”, “números complexos”, “hamiltoniano” etc. E não tem havido iniciativas sérias no sentido de se vencer tais barreiras de comunicação. A dissociação entre essas atividades gera fenômenos que intelectualmente castram estudantes. Na prática, matemáticos só prestam atenção nos estudantes que demonstram talento matemático independentemente de demais fatores, limitando o acesso a esta carreira. E pedagogos cometem absurdas imposturas científicas que dificultam o trabalho de quem deseja melhorar a educação matemática. 

10. Sistema de educação em língua estrangeira moderna que simplesmente não funciona. Nossos jovens estudam inglês durante anos nas escolas, sem jamais serem capazes de sequer ler um texto básico neste idioma. Isso dificulta o acesso a textos relevantes de matemática em inglês. Algo parecido ocorre com textos em espanhol, alemão, russo e outros idiomas. A melhor literatura matemática não está em português. A leitura básica de inglês é uma condição indispensável para a cultura matemática de qualquer indivíduo.

11. Falta de aproveitamento de potenciais talentos. O Brasil discrimina negros, índios, pessoas de baixo nível sócio-econômico, deficientes físicos e mentais e jovens superdotados. Há preconceitos sociais atirando em todas as direções. Não estamos usufruindo de nosso maior bem: o material humano. Há muito mais espaço para aproveitamento de pessoas do que normalmente se considera. Nossa realidade de aproveitamento de material humano é socialmente pervertida e estrategicamente estúpida. E a discriminação social se transformou em instituição, graças aos programas de cotas nas universidades públicas.

12. Falta de visão de que o ensino de matemática é uma via de dois sentidos. A prática do senso crítico não está presente em nossas salas de aula. Professores impõem conteúdos sem questioná-los e sem provocar seus pupilos para que tais conhecimentos sejam questionados. Desse modo, professores também perdem a oportunidade de aprenderem com seus estudantes.

13. Omissão da comunidade científica brasileira em processos ligados à educação básica. São raros os matemáticos que se destacam em atividades de pesquisa e que contribuem para a construção de uma educação de melhor qualidade nos ensinos fundamental e médio. Estímulos na forma de bolsas devem ser dados aos pesquisadores de ponta que efetivamente contribuírem com educação e divulgação científica.

14. Inconsistência entre a cientificidade supostamente inerente aos conteúdos escolares e as arbitrariedades praticadas por docentes em sala de aula. Professores ensinam conteúdos supostamente racionais, mas têm atitudes irracionais em seus procedimentos de avaliação, entre outros. Isso ocorre em praticamente todos os níveis escolares, desde as séries iniciais até a pós-graduação, inclusive em cursos de doutoramento.

Preocupa-me o fato de que as postagens mais visualizadas desde 2009 são aquelas referentes a denúncias pontuais, especialmente na UFPR (onde trabalho). Eu gostaria que as postagens mais visualizadas fossem aquelas que apresentam sugestões para melhorar a qualidade de nosso ensino. Mas, enquanto isso não acontece, encerro este texto com dados que mostram o resultado final da mentalidade brasileira dominante sobre educação e ciência.

De acordo com o QS World University Ranking, apenas três universidades brasileiras estão entre as 400 melhores do mundo: Universidade de São Paulo (USP, 169.o lugar), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, 235.o lugar) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 381.o lugar). Se o leitor julgar esta informação tendenciosa, vale observar que no The Times Higher Education, apenas duas universidades brasileiras estão entre as 400 melhores: USP (posição 178) e Unicamp (posição 276). Se levarmos em conta os critérios mais rigorosos do Shangai Ranking, nenhuma universidade brasileira é digna de atenção. Ou seja, neste blog há mais do que apenas opiniões pessoais.

Aos leitores que fizeram pedidos específicos sobre temas a serem abordados, peço paciência. Atenderei a todos. Mas devo postar novos textos com menos frequência. Decidi que esta estratégia é mais produtiva, apesar de resultar em um número bem menor de visualizações.

3 comentários:

  1. Olá, professor Adonai!!!!

    É isso aí, professor Adonai!!!! Ou ata ou desata!!! Gostei da sua atitude e do seu desabafo!!!! Um abraço!!!!!

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  2. Quanto ao item 5; Pode parecer um tanto estranho, mas o meu objetivo é lecionar em universidades, aqui ou fora do país; sei que no meu ritmo isso pode levar muito tempo, mas o que eu mais almejo é ser um ótimo professor. A arte de lecionar é algo que admiro e respeito muito, um exemplo é o fato de eu estar sempre nas primeiras fileiras de qualquer aula, sejam elas interessantes ou não, seja o professor bom ou não, levando bombardeios dos professores ou não pelos meus comentários, mas algo que penso com seriedade é uma frase que o Sr mesmo me disse esses dias, "Daqui a vinte anos você vai se arrepender por não ter perguntado nada em sala". Estou ciente que minha "mentalidade" é um tanto estranha, mas espero aprender muito com as pessoas o qual tenho encontrado pelo caminho, e claro, me tornar um grande professor no futuro, embora não seja nem um pouco talentoso na matemática. 5 wins...

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    1. Luiz Carlos

      Se deseja lecionar em ensino superior, precisa se comprometer com pesquisa. Minha recomendação é que procure professores pesquisadores para orientá-lo em algum projeto de iniciação científica. Procure alguém que faça você publicar artigo em periódico internacional importante, ainda durante a graduação. Isso abre portas para quem está iniciando uma carreira com esta que pretende seguir.

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