domingo, 8 de junho de 2014

Marxismo é Hard Science?


Dois anos atrás publiquei uma postagem sobre ciência e pseudociência neste blog. O foco daquele texto foi sobre certos estudos de eletrodinâmica e gravitação desenvolvidos pelo físico brasileiro André Assis.

Nesta postagem discuto sobre tema muito mais controverso (pelo menos entre os boçais), pois nele se insere uma insistente comparação entre métodos e resultados das ciências humanas e das ciências exatas e biomédicas. 

A motivação para esta postagem foi um e-mail que recebi de um leitor deste blog, o qual pede para não ser identificado. Nas palavras dele: "de onde venho esse tipo de opinião pode me custar muito caro, tanto academicamente, quanto profissionalmente."

Pois bem. O e-mail que recebi se refere ao Edital Procad 071/2013 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Mais especificamente, o e-mail se refere ao projeto "Crise do Capital e Fundo Público: Implicações para o Trabalho, os Direitos e as Políticas Sociais", submetido ao edital acima mencionado por dezenove professores, nove doutorandos, quinze mestrandos e vinte e sete graduados da Universidade de Brasília, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 

O projeto recebeu parecer negativo e a verba solicitada (acima de quatrocentos mil reais, segundo minha fonte) foi negada. De acordo com o site O Globo, o parecerista da CAPES justificou da seguinte forma sua decisão: "A formação proposta estaria no âmbito do método marxista histórico-dialético, cuja contribuição à ciência brasileira parece duvidosa".

Caso o leitor não saiba, muitos projetos submetidos a editais governamentais são negados, enquanto outros são aceitos. Isso acontece por diferentes motivos, normalmente associados a mérito acadêmico e prioridades de investimento. 

Naturalmente não podemos descartar fatores políticos e ideológicos, quando um parecerista avalia o mérito acadêmico de um projeto. E é diante desta possibilidade muito real que encontramos terreno fértil para amargas (e, eventualmente, insanas) discussões.

A polêmica em torno do projeto "Crise do Capital e Fundo Público" começou com a reação de seus integrantes, diante do parecer desfavorável da CAPES. A equipe, indignada, organizou uma campanha no site avaaz para arrecadar assinaturas, com o objetivo de exigir um encontro com o Presidente da CAPES, Jorge Guimarães. 

Lamentavelmente os argumentos da petição disponibilizada no avaaz são primários. Cito apenas um exemplo: "Cerca de 90% dos projetos aprovados no Edital Procad 071/2013 são das ciências exatas e biomédicas, o que parece uma clara e injustificável discriminação institucional contra as áreas de conhecimento no campo das ciências humanas."

Em primeiro lugar, como um fato pode parecer uma clara discriminação? Se parece, então não está claro!  Além disso, se 90% dos projetos aprovados são das ciências exatas e biomédicas, não seria interessante que os profissionais de ciências humanas finalmente avaliassem onde estão errando? 

Vejamos, por exemplo, quem coordena o projeto "Crise do Capital e Fundo Público": é a mesma pessoa que criou a petição no avaaz, a professora Ivanete Boschetti, da Universidade de Brasília.

De acordo com a Plataforma Lattes, Boschetti tem um único artigo publicado em veículo indexado no Journal Citation Reports (JCR). E tal artigo foi publicado em um periódico venezuelano com o baixíssimo fator de impacto 0,01 (JCR 2012). Todos os demais artigos e livros são de circulação local.

Caso os profissionais de ciências humanas de nosso país não saibam, o marxismo não se originou no Brasil e certamente não se isola no Brasil ou na Venezuela.

Além disso, em um excelente artigo de Daniel Little (renomado professor de filosofia e sociologia da University of Michigan), há uma detalhada revisão sobre a extrema fragilidade da metodologia marxista. 

Um projeto grande o bastante para envolver três universidades públicas e dezenas de integrantes certamente demanda cuidadosa qualificação. 

Já foi discutido aqui sobre a questionável qualidade da produção filosófica em nosso país. E o colaborador Ítalo Oliveira promoveu detalhada análise sobre o ensino de direito no Brasil. Ainda pretendo discutir sobre a produção acadêmica brasileira em outras áreas das ciências humanas, especialmente em educação. Mas sociologia não deve ser estudada de forma tão superficial, como se pretende no Brasil.

Hard science é um termo usual para se referir a pesquisas científicas com reconhecida legitimidade e rigor metodológico. Neste sentido, marxismo não é (ainda) hard science

De forma alguma isso significa que o marxismo ou a suposta metodologia marxista devam ser abandonados como temas de pesquisas sérias. Mas certamente significa que qualquer mérito acadêmico deve ser conquistado através de pesquisas com circulação internacional e que demonstrem resultados concretos para a sociedade, devidamente validados por metodologia sólida. Não se conquista mérito acadêmico através de opinião pública, como está sendo infantilmente promovido pela equipe do projeto "Crise do Capital e Fundo Público".

Aqueles que fazem acusações de discriminação ideológica, como está acontecendo entre todos os integrantes do projeto acima mencionado, certamente devem avaliar se eles sequer sabem diferenciar ideologia de metodologia. E já posso adiantar que esta distinção não se faz apenas com dialética, mas principalmente com a prática.

10 comentários:

  1. E os outros 10% dos projetos aprovados?

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    1. Julio

      Creio fortemente que devemos questionar todos os projetos aprovados em todas as áreas do conhecimento. É uma pena que certos profissionais de ciências humanas sejam dominados por sentimento de perseguição.

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  2. Caro Adonai,
    não lhe parece incrível que as ciências humanas no Brasil ainda estejam impregnadas por este tipo de projeto. O que me surpreende o projeto ter sido reprovado! Pior ainda são os projetos de nossas lideranças políticas, como aquele do Vicentinho que te enviei.
    Um abraço,

    Gilson Maicá

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    1. Gilson

      Estou arquitetando uma campanha a ser veiculada no avaaz. Por enquanto, a ideia é pedir bolsa de pesquisa para um cachorro. Se o pedido for negado, fica clara a demonstração de preconceito especial (preconceito contra espécies).

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    2. Adonai,
      você deve conhecer o texto do físico Alan Sokal, imposturas intelectuais. Neste já famoso texto ele tece críticas bastante pertinentes a certas posturas na filosofia e ciências sociais. É excelente!

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    3. Gilson

      Não apenas conheço, como já foi tema de postagem aqui, escrita por José Padilha. Ver http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2012/09/imposturas-intelectuais.html

      De fato o trabalho de Sokal é brilhante. Foi onde começou a atual discussão sobre imposturas intelectuais.

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  3. Adonai,
    saberia dizer quais os percentuais do total de projetos submetidos, por grande-área? Essa informação é necessária para comparar os percentuais de projetos aprovados.
    Não faço a mínima ideia de como são procedidas as avaliações de projetos, mas considero que o processo histórico de criação das agências de fomento levou a esta situação. Me parece irônico o projeto tratar de financiamento público, e não obtê-lo. Talvez os autores tivessem mais sorte se reduzissem o escopo do projeto para algo como: "Crise do Capital e Fundo Público: Implicações para o financiamento da pesquisa sobre o financiamento da pesquisa".

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    1. Daniel

      Por lei, qualquer um deveria ter acesso a esse tipo de informação. A prática, porém, é sempre complicada.

      De qualquer modo, sua sugestão de projeto é ótima. Eu mesmo estou pensando na possibilidade de criar uma campanha no avaaz para conseguir bolsa de pesquisa para o Bonnie. Caso não saiba, Bonnie é o nome de um cão que, por algum motivo, gosta de mim.

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  4. Prof,

    Fugindo ao assunto, há planos para a continuação do post de recomendações de livros?

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    1. Ítalo

      Sim, ainda planejo dar continuidade àquela postagem. Peço desculpas pela demora.

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