quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Não que diz Sim


Enquanto decido sobre o futuro deste blog, continuo recebendo mensagens e informações de pessoas que demonstram claramente o apoio ativo à educação brasileira. E a forma de apoio que mais me interessa, neste momento, é aquela que efetivamente coloca em xeque o sistema vigente. 

Mais um aluno da UFPR confeccionou cartazes e os distribuiu, conforme solicitação feita na postagem Sonhos e Frutos. Seguem abaixo duas fotografias (das três que recebi) tiradas pelo mesmo jovem:



Em seguida ele enviou dois e-mails para mim. No primeiro afirma o seguinte: "[...] estou enviando em anexo a foto de três cartazes que fixei no centro politécnico. Os cartazes das fotos foram fixados ao lado do elevador no hall do prédio de administração, os outros dois no bloco PA. Fixei cartazes também na entrada do corredor dos professores no departamento de física, no laboratório do departamento de física, no bloco de química, nas portas e em cima dos quadros em algumas salas do bloco PC, no bloco CT, no dpto de matemática ao lado dos elevadores e ao lado da porta da secretaria. Amanhã continuarei colocando os cartazes com as frases." 

Em seu segundo e-mail, enviado 23 horas depois, constata algo curioso: "Acho que vale a pena também mencionar que poucas horas depois vi um professor do departamento de física retirando os cartazes. Hoje passei no departamento de matemática e percebi que os cartazes de lá também foram retirados, mas amanhã colocarei mais cartazes nos mesmo lugares, não vou desistir."

Que tal essa? Professor universitário retirando cartazes que simplesmente afirmam

Professor de universidade pública tem seu emprego garantido, independentemente da qualidade de suas aulas.

Por que esse professor fez isso? Não gostou da estética do cartaz? Viu naquela frase alguma mentira? Ou simplesmente não suporta se olhar no espelho? 

Hoje lecionei minha primeira aula do novo semestre pós-greve. No início da aula havia um desses cartazes colocados na porta da sala. Ao término, o cartaz sumiu. Sempre há cartazes, editais e anúncios espalhados pelos campi da UFPR, sobre os mais variados temas. Mas nunca vi cartazes de vida útil tão curta quanto esses que  simplesmente retratam um fato. Dizer que professor de universidade pública tem seu emprego garantido, independentemente da qualidade de suas aulas, é tão somente um fato! Não se trata de uma ideologia. Ideologias são sempre questionáveis. Mas fatos estão inevitavelmente acima de quaisquer suspeitas. E é justamente por isso que esta frase incomoda tanto.

Insisto com os jovens: continuem a espalhar cartazes, mas desta vez eles devem ser fixados com cola e não fita adesiva. Não se deixem intimidar pelos porcos mentais que se julgam docentes. Não há mal algum em informar fatos. É fato que a estabilidade dos professores de universidades públicas não garante qualidade de aulas. Se existem professores ofendidos por fatos, eles certamente deveriam considerar outras carreiras profissionais. 

Negar acesso a fatos, para indivíduos de uma instituição de ensino, é uma afronta escandalosa à educação. Quem arranca esses cartazes está dizendo não. Mas é um não que afirma "Sim, somos profissionais incompetentes que contam com a proteção da estabilidade." 

Em um país marcado pela indiferença, o arrancar desses cartazes é uma clara demonstração de que estamos no caminho certo. Mas, por favor, não os fixem mais com fita adesiva. Usem cola! Esta é a oportunidade perfeita para usar cola na escola.

Nos próximos dias terei novidades a respeito de estratégias que eu mesmo tenho empregado no combate à indiferença.

Até breve

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

This is who we are


Conforme anunciamos na página de eventos, ontem à noite aconteceu o Ciclo Conversa com o Autor Newton da Costa, no contexto do XV Encontro da Anpof, ocorrido no Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná. O evento em si contou com organização precária. O próprio Professor Newton (bem como convidados e demais participantes) teve que aguardar sua entrada do lado de fora do prédio, o qual abriu somente poucos instantes antes do início das atividades. No entanto, as duas horas seguintes foram memoráveis.

Estavam presentes velhos amigos vindos de diferentes cantos do país e jovens neófitos que tentam timidamente penetrar no mundo da ciência e da filosofia de alto nível. A primeira hora foi reservada a perguntas dirigidas ao Professor Newton e feitas por dois interlocutores convidados pela comissão organizadora. Já a segunda hora contou com uma interação extremamente estimulante entre o Professor Newton e a plateia que acompanhava com grande interesse os temas abordados, os quais oscilavam entre a carreira deste grande cientista brasileiro e suas visões pessoais sobre física, matemática, lógica e filosofia. 

Eventos como este são de fundamental importância, pois viabilizam contatos profissionais que comumente frutificam na forma de projetos de pesquisa e/ou extensão. Obviamente as falas do Professor Newton exalam profundo conhecimento e impactante exemplo de paixão por ciência e filosofia. Mas é nas conversas informais antes e depois dos horários programados de atividades que se formam as redes sociais acadêmicas genuinamente sérias. Neste sentido, muita gente foi beneficiada. Apesar da grave falha organizacional apontada, parabenizo a Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, pela bela iniciativa. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Querem ver uma foto?


 
Intimei estudantes de instituições federais de ensino superior. Novos textos não seriam veiculados neste blog se eu não recebesse fotos de cartazes que denunciam a retrógrada estabilidade dos professores da rede pública federal. Um único jovem enviou duas imagens. Disponibilizo abaixo uma delas.
Mural na UFPR

Anos atrás o Departamento de Matemática da Universidade Federal do Paraná (DMAT/UFPR) decidiu que a Sociedade Paranaense de Matemática (SPM) deveria ser reativada. Afinal, além de ser a única sociedade estadual de matemática do país, ela é mais antiga do que a própria Sociedade Brasileira de Matemática. Fui eleito o presidente da comissão responsável pela reativação desta importante organização cultural e científica. Porém, no momento em que os demais membros da comissão perceberam que deveriam efetivamente trabalhar neste processo, simplesmente cruzaram os braços. No verbo todos apoiam o óbvio. Na prática, nada acontece.

Meses depois recebi telefonema de um professor da Universidade Estadual de Maringá. Ele e demais colegas estavam cientes da situação da SPM e queriam colaborar. Após negociações feitas com cautela (informando inclusive o DMAT/UFPR), a SPM teve sede e foro transferidos para Maringá. Uma notável equipe de docentes da UEM assumiu as rédeas da SPM. 

Um professor do DMAT/UFPR me fez ameaças, logo após a tal da transferência. Isso porque a UFPR estava perdendo a permuta com cerca de cem periódicos internacionais de matemática que o Boletim da SPM sustentava. Tais periódicos passaram a ser recebidos em Maringá. Capital perde, interior ganha. Matemática ganha, braços cruzados perdem.

A foto acima, tirada pelo próprio aluno que colocou este e mais quatro outros cartazes nas dependências da UFPR, é um retrato de compromisso sério com educação. Analogamente, a iniciativa do Departamento de Matemática da UEM na virada do milênio foi um claro retrato de compromisso sério com ciência e educação. 

No entanto, o maior retrato de que dispomos neste país é o do vácuo. A vasta maioria aceita a miséria que tem. Uns poucos reclamam. Menos ainda fazem. E os poucos que fazem simplesmente não conseguem articular movimento político forte o suficiente para mudar a realidade de um dos piores sistemas educacionais do planeta. 

O texto que segue abaixo é uma contribuição da mais alta importância. É um retrato parcial de experiências pessoais de uma professora que trabalhou grande parte de sua vida em instituições privadas de ensino, incluindo a PUC-PR. 

Arlene Lopes Sant'Anna é a autora do texto. Ela é minha irmã. Eu a convidei para contribuir com uma postagem no momento certo. De início, confesso que eu estava receoso de pedir qualquer material para ela. Isso porque Arlene é muito mais agressiva do que eu. Mesmo assim percebi que o que mais precisamos neste país é de agressividade. Somente com agressividade teremos chances de despertar os zumbis que se autodenominam de brasileiros. O sistema atual está tão corrompido pela inércia, que faz-se necessário um tratamento de choque para despertá-lo, para somente então tentarmos buscar um ponto de equilíbrio. 

Ainda assim, é possível perceber claramente que Arlene foi cuidadosa em suas palavras. Ela evitou a citação de nomes e instituições. Isso porque o problema da medíocre inércia não reside em apenas alguns brasileiros ou algumas instituições. O problema é da sociedade brasileira como um todo.

Tanto Arlene quanto eu temos acesso a informações detalhadas e documentadas sobre atos ilícitos e covardes cometidos por indivíduos e instituições. Mas tais denúncias específicas poderiam ser facilmente interpretadas como perseguições pessoais. E, deste modo, o foco se perderia. Eu, por exemplo, tenho testemunhos de fontes altamente confiáveis sobre o grave descontentamento de militares em relação ao Governo Federal. E quando digo que o descontentamento é grave, garanto que não estou exagerando de forma alguma. Não é mera coincidência o fato de que ITA e IME não aderiram ao programa de cotas raciais e sociais. Não é mera coincidência que ITA e IME não se submetam ao bestial ENEM. 

Mas, se os estudantes que leem este blog não conseguem se identificar com o pouco que é aqui discutido, a ponto de tomar atitudes reais, praticamente nada nos resta a fazer. 

Desejo a todos os brasileiros boa sorte. Certamente precisarão disso.
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AFINAL A EDUCAÇÃO AGONIZA HISTERICAMENTE…
Arlene Lopes Sant'Anna

Obviamente, vou traçar de maneira superficial minhas impressões gerais sobre o que tenho observado a respeito da educação. Tenho tantas impressões que poderia escrever muito mais do que pode ser lido aqui. 

Na  quinta ginasial esperávamos o professor entrar em sala de aula em pé e só sentávamos quando o mesmo permitia. Respeito ao professor era algo natural e incontestável. Entre todas as disciplinas, tínhamos o inglês e o francês. Um ano de francês, foi só isto que tive, mas foi este ensino que me deu a aprovação na prova de proficiência na USP em 1999. Ler Alexandre Dumas, Shakespeare, Victor Hugo e outros, era recorrente na escola pública. Esta era a educação no ano de 1969. 

Tenho mais de 25 anos de ensino, passei por todos os níveis: fundamental, médio e, por fim, o ensino superior. Em curso superior passei por mais de sete instituições, entre públicas e particulares. Vi surgirem os “modelitos” da “moderna” e “incrível” pedagogia que estabeleceram o CERTO no ensino. O NÃO, os LIMITES e a CANETA VERMELHA na correção são perversões e abominações na educação. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) aprova uma liberação de costumes e valores que se invertem perigosamente. Os pais podem erguer o dedo em riste para o professor que se atrever a “magoar” seus pimpolhos e, diga-se de passagem, que isto acontece até no ensino superior, onde pais vão “conversar” com os professores sobre seus rebentos que nunca fazem nada de mal, são bons filhos, bons meninos e os professores só podem estar perseguindo-os. Se for em instituições particulares, aí o caso é hilário, pois os pais, quando não “compreendidos” na intenção de que a nota é injusta, vão em busca do coordenador, diretor, decano, ou seja lá qual autoridade, para fazer valer seus direitos de pais e pagadores de mensalidades na injustiça de o professor  ter atribuído nota baixa à encantadora criaturinha.

No caso de greves, aí é festa, dias de praias, lazer e diversão, exceto quando estes seres se dão conta de que o semestre pode se estender para reposição de aulas. Na mobilização por ensino de qualidade (não querendo ser muito amarga) certamente sabe-se que, em uma instituição com milhares de alunos, algumas pouquíssimas centenas comparecerão. Mas se fizer uma enquete e perguntar por que estão ali, pode-se contar o mínimo de pessoas que realmente sabem por que estão se mobilizando. Uns dirão que é por causa da greve; outros, por causa dos amigos; outros, para fazer “volume”; outros; por que não tinham nada para fazer e, por que não fazer uma “agitaçãozinha”?; outros, para apoiar algum “querido” professor que se posicionou a respeito. Todavia, uns pouquíssimos têm consciência de que algo precisa ser feito em prol da educação. 

Pessimismo? Não! Certeza! Isto lembra o caso da USP, quando uns alunos foram reprimidos por usarem maconha no campus. Aí sim foi lindo de ver a Reitoria invadida, móveis destruídos e palavras de ordem para a violência prevaleciam. Houve quem apoiasse o “agito”. Afinal, o que tem de mais usar uma maconha em uma instituição que se restringe à educação? 

Se houver algum evento acadêmico (com palestras, oficinas etc) que valha a máxima “a razão tupiniquim gosta de espelhinho”, ou seja, valerá nota? Conta como horas complementares? Tem certificado? Pois o papel pode provar o conhecimento e “engordar currículo mesmo que durante as palestras a criatura esteja focada no facebook, ou até, fica sentadinho por um momento para marcar presença e, depois, sorrateiramente, vai para casa ou para o barzinho, afinal ensino superior sem cerveja ou até uma maconhinha não é válido.

Estar em sala de aula de corpo presente é normal se o professor fizer chamada. Mas se não fizer, nem corpo presente! Afinal, se houver algum conteúdo que caia na prova, ele pode pegar com algum coleguinha “nerd” que não perde uma aula. E, por falar em sala de aula, como são na sala? Celulares ligados e prontos para serem atendidos. O laptop só tem valia se for wireless, afinal é imprescindível acompanhar as redes sociais, as atualizações de mídias, as eleições “da hora”, os capítulos da telenovela, os “inteligentes” conselhos de auto-ajuda, as postagens românticas, as crises existenciais que precisam ser colocadas a público, o cachorrinho da vizinha que desaparece e precisa ser encontrado. Para isso, precisam compartilhar mesmo nem conhecendo a vizinha e seu cãozinho. O que importa é se fazer presente e ativo, caso contrário não pertencem ao fluxo das pessoas normais. Ah, sem esquecer que o Google está “na mão” para quem sabe acessar o assunto que o professor está abordando e fazer alguma pergunta “inteligente para fazer bonito” e mostrar interesse no assunto. 

Entrar e sair de sala de aula enquanto o professor ministra sua aula expositiva é normal, afinal é uma “aula tão chata”, pois o professor fica falando sobre autores que nunca se leu nada ou se ouviu falar, provavelmente este professor cita “estes caras” para mostrar o quanto sabe ou ser visto como “superior”. E, ai do professor que provocar o aluno com alguma pergunta e não responder de imediato! Com certeza este professor nem sabe do que está falando, afinal professor deve ter respostas, postulados, assertivas próprias e não provocar reflexão. Referenciar bibliografia é para bonito, pois ler livros “grossos”, “com letrinhas e sem figuras, fotografia”? Nem pensar! Leitura, no máximo dois ou três livros por semestre (para os “nerds”) e, se for possível, encontrar o resumo ou filmes sobre os mesmos? Melhor ainda! Mas coitadinhos dos alunos, não? 

Vamos mudar o rumo e bater um pouquinho nos professores. Certa feita, fui ministrar curso de reciclagem em Faxinal para professores da rede pública de ensino fundamental e médio. Ao entrar no recinto, com aproximadamente 40 professores, perguntei se haviam lido autor A, autor B, autor C, autor Y pertinentes à área de Língua Portuguesa. Não haviam lido, eram autores contemporâneos. Tentei autores mais antigos. Responderam que haviam lido na universidade e lembravam alguma “coisinha”. Aí pedi que produzissem um texto de, no mínimo, 40 linhas. Dei um tema atual e queria o texto em 45 minutos. Senti sobre mim, um olhar de pavor. Pediram-me que aceitasse o texto para o dia seguinte. Obviamente rejeitei a ideia. Não conseguiram fazer. 

Questionei como poderiam exigir de seus alunos exatamente o que os mesmos não conseguiam ou não tinham competência para? Como podem dizer que os alunos não leem se eles mesmos não o fazem? E o ensino de gramática? Como se faz para encontrar o objeto direto da frase? Pergunta ao verbo! Escrevi uma frase no quadro e perguntei ao verbo, ao que prontamente responderam. Imediatamente disse-lhes que eu estava perguntando ao verbo, não a eles. Deveríamos esperar o verbo responder ao que eles perceberam a imbecilização a que submetiam os alunos nesta prática inócua de ensino gramatical que se solidificou por décadas e décadas e ainda se mantém. Aprender as regras gramaticais os ensinou a escrever? Para que servem? Não fazem a menor ideia, só especulam. E, atrevo-me em outros campos, o ensino de matriz ou logaritmos no ensino médio, servem para quê? Os alunos sabem onde vão aplicar ou trata-se de um infindável “decoreba” de fórmulas adequadíssimas para passar no vestibular e, quem sabe, com sorte do curso/área escolhido nunca mais verão. UFA! 

E as cotas? PROUNIS? Modelo copiado dos EUA só veio dar outro golpe na educação brasileira que agoniza. Interessante mencionar sobre uma experiência científica. Os estudantes cortavam o casulo de uma borboleta para lhe facilitar a saída. Nasceu uma borboleta frágil que, em pouquíssimo tempo, definhou e morreu. Conquista sem luta não tem sabor de vitória. Se somos o país mais miscigenado do mundo, com um pé na senzala e outro na oca, por que somente uma parte tem direito? Porque nasceu na tribo ou a cor está na cara? A educação agoniza histericamente desde os níveis iniciais, fortemente, nas escolas públicas, onde a violência brada alto regozijando-se no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), onde os professores são agredidos física e verbalmente, onde escrever é uma tortura e o idioma pátrio é “assassinado” com os “mecher”, os “voçês”, os “opniões”, os “aki”, os “kero” e outras pérolas inventivas, onde alunos raramente são reprovados mesmo sendo analfabetos funcionais, escolas-oficinas de jovens sem senso crítico, sem valores, que acreditam que o diploma abrirá portas no mercado -  veja bem, o diploma, não o conhecimento! Mas não se pode esquecer que as escolas particulares não estão longe disso, afinal, aluno reprovado é aluno transferido para o concorrente e subtração de receita.

Estive na Europa no ano passado e, conversando com alguns jovens de ensino médio, soube que, além do idioma nativo (holandês) falavam fluentemente o inglês, o alemão e o francês. Perguntei-lhes se haviam feito algum curso fora da escola. Responderam que eles têm a prerrogativa de cursar na escola se assim o quiserem. Estudam estes idiomas por quatro anos somente no ensino médio e falam e escrevem fluentemente, assim como discutem Proust, Marx sem “sofrimento”. Aqui no Brasil, a criança começa a ter contato com a língua inglesa a partir dos níveis iniciais até o ensino médio e, com tantos anos de ensino, sabem mal e muito mal o verbo To Be e, se por ventura, optarem por fazer Letras Português-Inglês, saem da faculdade sem saber falar ou escrever um parágrafo, se for preciso, em inglês, o que dirá seu próprio idioma. Marx? Somente em alguns cursos pontuais, mas sem muito sucesso em ter senso crítico ou uma discussão mais analógica. 

Abordar educação brasileira é assunto inesgotável, entretanto não é somente a escola ou o curso superior que deve assumir este fracasso. A estrutura familiar tem peso nesta conjuntura, os valores vigentes, as ideologias, a cultura, entre outros mais fatores.

Sou pessimista? Não, nem um pouco! A Europa está em crise, os jovens europeus estão chegando, eles vêm com conhecimento, diploma e formação superior aos jovens brasileiros. E os brasileiros só tem diploma. Como vai ser? Parece-me que a história vai se repetir: em 1500 os europeus chegaram...
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Para acessar outra contribuição de Arlene Sant'Anna (desta vez sobre a história de João e Maria sob a perspectiva do Código Penal Brasileiro) clique aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

Última Postagem: Sonhos e Frutos



Este blog nasceu em outubro de 2009. Mas somente a partir de novembro de 2011 que ele se tornou mais ativo. As postagens podem ser divididas em três grandes categorias: textos técnicos, depoimentos e críticas. O foco principal é a matemática. No entanto, como esta ciência está intimamente presente em inúmeras manifestações culturais, torna-se inevitável a presença de textos de caráter social. 

Quando este blog começou, eu alimentava a esperança de promover construtivo uso da rede internacional de computadores (internet), a qual permite, em princípio, ampla e acessível conexão com o país e o mundo. No entanto, com o passar do tempo, percebi que ainda existe a forte tendência para a formação de nichos sociais praticamente isolados entre si, mesmo em um mundo no qual a comunicação em tempo real é extremamente facilitada. O sintoma mais claro deste fenômeno de isolamento é o fato de que as postagens mais visualizadas deste blog são aquelas que tratam de eventos acontecidos aqui, em Curitiba, Paraná, mais especificamente na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Alguém poderia criticar esta conclusão, assumindo que a visão retratada nas postagens deste blog se limita à miopia pessoal do próprio administrador. Afinal, o administrador deste site deve conhecer de forma mais detalhada sua realidade local do que aquela que permeia outros cantos deste imenso Brasil, o que é obviamente verdade. No entanto, há sistemáticas críticas aqui veiculadas sobre erros graves de matemática cometidos por autores de livros e apostilas e professores. E tais erros ocorrem em toda a literatura especializada do país e não apenas em Curitiba. Portanto, por que essas postagens não alcançaram popularidade comparável àquelas que tratam de problemas locais da UFPR? A resposta que encontro é o limitado interesse sobre aspectos técnicos ligados à matemática. E essa limitação parece ocorrer até mesmo entre estudantes e professores de matemática. 

Sou do tempo da falecida bitnet, uma rede brasileira de computadores que pretendia ser uma resposta à internet, a qual nasceu décadas antes de sua popularização mundial no início dos anos 1990. Já naquela época era possível perceber essa tendência ao isolamento, mesmo diante de uma rede supostamente mundial de computadores. O próprio facebook, hoje a maior rede social eletrônica do mundo, colabora na formação desses nichos isolados. A proposta original do facebook era a de um clube eletrônico exclusivo entre indivíduos das grandes universidades norte-americanas. E apesar do facebook contar hoje com centenas de milhões de membros, ainda se percebe o aglutinamento de meros nichos sociais isolados, seja por limites geográficos, ideológicos ou de meros interesses pessoais. Dificilmente um usuário de facebook de índole mais voltada a atividades culturais terá contato frequente com aquele cujos interesses pessoais estão mais voltados a encontros íntimos com pessoas do sexo oposto. Ou seja, a formação desses nichos é simplesmente natural. Portanto, o suposto alcance global da internet ainda é algo que transcende nosso egoismo. Afinal, egoísta, por definição, é aquele que não pensa em mim. Esta é a trágica contradição sobre o conceito de egoismo! 

Já observei tanto em alunos como em professores, e mesmo pesquisadores, uma desenvoltura maior para opinar sobre assuntos não técnicos. A maioria das pessoas parece ter uma opinião bem definida sobre o trabalho da Presidente Dilma Rousseff ou sobre as acusações de pedofilia contra o falecido cantor Michael Jackson. A maioria das pessoas consegue discutir detalhadamente sobre a influência de Deus em nossas vidas ou sobre políticas educacionais locais e nacionais. No entanto, essa mesma maioria jamais acompanhou de perto o trabalho de um Presidente da República ou a vida pessoal do autodenominado Rei do Pop. Essa mesma maioria tem a pretensão de opinar sobre Deus sem que seja capaz de distinguir revelação de alucinação. E essa mesma maioria se considera capaz de julgar a respeito de políticas educacionais, sem conhecer de fato o que são atividades genuinamente científicas e culturais. Quando o assunto é técnico, poucos tentam acompanhar. Menos ainda opinam. Mas o fato é que é impossível discutir sobre políticas educacionais sem que se conheça realmente bem os temas da educação. Como criticar educação matemática sem saber matemática profundamente? Como opinar sobre políticas científicas sem conhecer ciência intimamente? 

O que motiva a existência deste blog é um interesse meramente pessoal e, portanto, egoísta. Do ponto de vista racional, não consigo encontrar justificativas para esta iniciativa. É claro que uns poucos frutos foram colhidos por aqui. Contatos importantes e até amizades foram feitas. Pessoas com interesses em comum se conheceram e trocaram ideias. Leitores aprenderam algumas coisas por aqui e eu aprendi muito com diversos desses leitores. Recentemente fiz um apelo para que simpatizantes divulgassem na mídia jornalística a respeito do desperdício de intelectos no Brasil e muitos atenderam a este pedido. Alguns foram até além, sugerindo que eu participasse de programas televisivos. E ainda estamos aguardando os frutos dessas iniciativas, as quais evidentemente não podem parar jamais.

No entanto, um primeiro resultado concreto aconteceu recentemente, após três anos de atividades deste blog. Fui transformado em associado da APUFPR contra a minha vontade. 

Lembram da postagem sobre a Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR)? Pois é. Na época aquele texto deixou algumas pessoas bastante irritadas. Basta ver os comentários postados. E, recentemente, por mágica coincidência, abri meu contracheque e lá encontrei um desconto inédito em meu pagamento (após quase 23 anos como professor da UFPR): mensalidade da APUFPR. Aparentemente alguém desta associação ficou suficientemente irritado a ponto de me tornar associado. Ou seja, a própria APUFPR reconhece como um castigo ser membro desta organização sindical. Ainda assim, devo confessar que este tipo de atitude produz um certo cansaço. 

Por um lado, percebe-se que muita gente reclama com propriedade sobre nosso sistema educacional como um todo. Por outro lado, pouca gente percebe que é nos detalhes que reside o verdadeiro mal. Daí a necessidade do envolvimento íntimo com educação e ciência. Ainda encontramos professores que insistem verborragicamente que axiomas não podem ser demonstrados. Ainda encontramos autores que definem seno a partir de uma razão entre medidas de lados de um triângulo retângulo. Ainda encontramos alunos que não demonstram interesse real pelos cursos que realizam. E ainda encontramos órgãos sindicais que agem da mesma maneira maliciosa e ilícita que eles acusam como condutas típicas do Governo Federal. 

Os colaboradores que escreveram textos aqui veiculados são pessoas que já passaram por situações realmente estressantes em seus ambientes de estudo e trabalho. Os leitores que comentam aqui são, em geral, indivíduos com o mesmo perfil: profissionais, estudantes e familiares e amigos de estudantes que lutam quase sozinhos por uma educação melhor, apesar das fortes adversidades. Já vi gente comentando em outros círculos que os depoimentos do superdotado e do Doutor Bolivar Alves são meros exageros, casos muito particulares que não merecem alarde. Essas mesmas pessoas são incapazes de perceber que o ato de pensar com originalidade, por si só, é um evento muito raro, muito particular. E sensibilizar a maioria a partir de um blog como este é, talvez, uma atividade tola. Por isso mesmo postei o Pequeno Tratado da Tolice. Isso porque eu esperava que fosse percebido que todos somos tolos. Afinal, apesar da união tecnológica promovida pelas telecomunicações no mundo todo, ainda somos um mero amontoado de pequenas tribos. Ainda somos socialmente isolados, sozinhos e, portanto, tolos. A própria UFPR, minúscula célula invisível perante o resto do mundo, é um amontoado de tribos. E assim todos navegamos juntos, cada um remando para uma direção diferente.

A única esperança que ainda deposito, nesta fase de minha vida profissional, é sobre os jovens. Não consigo ter fé na maioria dos jovens. Mas consigo ter fé em uma minoria que ainda espero fazer a diferença real em algum futuro distante. Isso porque nosso sistema de hoje é simplesmente podre. Mas ainda é uma podridão que permite, eventualmente, desabrochar pessoas como Newton da Costa, Cesar Lattes, Carlos Chagas, Milton Santos e tantos outros exemplos que temos para seguir. Espero que esses jovens se espelhem nestes exemplos. Se o país não os receber bem, que saiam daqui. Se não quiserem ou não puderem deixar a terra natal, que formem seus próprios nichos, aglutinando aqueles que compartilham dos mesmos sonhos. Isso porque a realidade do isolamento não mudará tão cedo. Mas jamais deixem de investir naquilo em que acreditam. 

Se o jovem buscar por motivos racionais para perseguir seus sonhos, provavelmente desistirá muito cedo. O melhor a fazer é admitir que apenas a paixão pelo conhecimento justifica a sua busca. Em geral, a recompensa é meramente pessoal. Ainda assim, mais vale a pena viver lutando do que se entregar à mera satisfação com tão pouco. Carro na garagem e casa na praia não são sonhos que valem a pena. O único sonho que vale a pena é aquele que podemos olhar para trás, em nosso último suspiro nesta terra, e ainda sentir que valeu a pena. Geralmente este tipo de sonho não é alcançado. Porém, mais vale a pena seguir a estrada do que parar na primeira zona de conforto que encontramos. 

O papel das universidades federais no desenvolvimento da nação é fundamental. Aquilo que as universidades federais realizam ou deixam de realizar se reflete nos ensinos fundamental e médio e até mesmo nas universidades privadas. Por isso, faço mais um apelo estratégico aos jovens que estudam em instituições federais de ensino superior: colem na parede, logo acima da lousa de sua sala de aula, um cartaz com a seguinte frase: "Este professor tem seu emprego garantido, independentemente da qualidade de suas aulas." Este cartaz deve ser literalmente colado e legível para todos que estiverem na sala. Se alguém conseguir retirar, cole novamente. É de gota em gota que se derruba a barragem. Ainda que seu professor seja substituto, não há problema. A maioria dos docentes das instituições federais é concursada. E esses docentes morrem de medo de perder a tal da estabilidade.

Não postarei mais textos neste blog enquanto eu não receber fotos desses cartazes. Meu e-mail pode ser encontrado no topo da página.
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Poucos minutos após a publicação desta postagem, Aline Pêgas Pereira concebeu a imagem abaixo. Incentivo a todos que esta imagem seja divulgada em todas as redes sociais. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Visões Noturnas do Centro Politécnico da UFPR



Conheço o Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) há mais de 30 anos. Estudei lá de 1983 a 1989 (graduação e mestrado) e trabalho no mesmo campus de 1990 até hoje. 

O Centro Politécnico em si já é um lugar deprimente. Prédios mal planejados, mal construídos e sem manutenção eficaz, professores coletivamente escondidos em suas pequenas salas escuras e com aquela permanente expressão de desânimo em seus rostos, vastos gramados sem árvores, salas de aula com janelas cobertas por tinta negra (para impedir a entrada de raios solares), iluminação artificial precária, banheiros horrorosos, bebedouros que não funcionam, relógios que pararam no tempo (simbolizando nossa realidade em mórbida poesia), centros acadêmicos sem vida acadêmica e, a cada quatro anos, cartazes de campanhas eleitorais para a reitoria, que poluem paredes em todos os cantos. 

No entanto, é no período noturno que a morte se evidencia de forma mais notável. Nos turnos matutino e vespertino ainda é possível aos alunos alguma vivência universitária, ainda que incipiente. Não há restrições severas sobre horário de funcionamento das ridículas bibliotecas e constantemente é possível assistir a palestras que possam despertar algum interesse. Mas à noite as atividades acadêmicas se limitam praticamente a aulas, reduzindo a UFPR noturna a um medíocre ambiente de desanimadora rotina. 

Nos cursos de licenciatura em matemática e física, os quais conheço melhor, há também um inusitado pacto silencioso sobre horários que a Pró-Reitoria de Graduação prefere simplesmente ignorar. Afinal, por que este órgão deveria se preocupar com o bom andamento dos cursos de graduação? É um pacto que demonstra uma união emblemática entre docentes e discentes: a farsa da carga horária. 

De acordo com documentos oficiais das próprias coordenações de cursos, o horário de aulas à noite, nos cursos mencionados, é das 19:30h às 23:30h. A prática, porém, é obviamente outra. Desde meus tempos de graduação nos anos 1980 (creio que esta prática é bem mais antiga) até hoje, as aulas começam às 19:00h e terminam às 22:30h. Vale observar que este último horário, a rigor, é cumprido por poucos. Normalmente as aulas encerram antes. 

Isso corresponde a uma perda de, pelo menos, meia hora de aula por dia. Durante uma semana de cinco dias, essa perda acumula para duas horas e meia. Durante um semestre de quinze semanas, já temos trinta e sete horas e meia de aulas registradas mas não entregues. Em um curso de quatro anos de duração, essa soma otimista se transforma em uma perda de trezentas horas. Trezentas horas são equivalentes a cinco disciplinas semestrais de quatro horas semanais. Isso corresponde a aproximadamente um semestre inteiro de uma graduação, se a carga horária fosse cumprida. 

Ou seja, além dos alunos dos cursos noturnos de física e matemática terem acesso limitado a bibliotecas, quase nunca terem a oportunidade de assistir a quaisquer palestras e praticamente não encontrarem chances para serem orientados em atividades de iniciação científica, ainda lutam por um diploma que atesta a mentira de um curso realizado em quatro anos (ou quatro anos e meio, no caso da licenciatura em física) que é equivalente a uma péssima graduação de três anos e meio. Péssima justamente por depender quase que única e exclusivamente de aulas e provas.

Nos períodos matutino e vespertino o descumprimento de horário também acontece, com docentes que terminam suas aulas mais cedo. Mas não se compara com a prática noturna. Além disso, ainda há a possibilidade dos alunos do período diurno terem acesso facilitado a bibliotecas e professores, os quais frequentemente podem ser encontrados em suas salas ou em laboratórios. No entanto, durante a noite, a população docente dificilmente pode ser encontrada em seu ambiente de trabalho. Os alunos ficam praticamente limitados a contatos com aqueles que apenas lecionam à noite. 

Mas, naturalmente, estou reclamando por nada. Afinal, ninguém percebe qualquer irregularidade. Tanto alunos quanto professores, coordenadores, pró-reitores e reitor julgam que tudo transcorre normalmente nas noites do Centro Politécnico da UFPR. 

Temos um serviço de segurança terceirizado naquele campus que ainda não consegue evitar o roubo de computadores, mas que consegue impedir que duas pessoas conversem dentro de um carro estacionado, principalmente se isso ocorrer no misterioso e assombrado período da noite. É realmente um horário ímpar do dia.

Porém, parece que o inconsciente coletivo do Centro Politécnico ainda reconhece que o período noturno deve mesmo ser dedicado a atividades mais medíocres do que a média da vida pseudocientífica da UFPR. Isso se evidencia na distinção que se faz entre bacharelado e licenciatura nos cursos de física e matemática. Não existe bacharelado em física à noite. Mas existe licenciatura. Se o jovem deseja se tornar um profissional do ensino médio de física, jamais poderá estudar durante o dia. E nem precisa! Afinal, por que um licenciado em física deveria ter vivência acadêmica durante a sua graduação? Os futuros professores de física de ensino médio não precisam de acesso a bibliotecas e nem de palestras ou atividades de iniciação científica. Sequer precisam de cumprimento de horários de aulas. Afinal, serão professores. Como todos sabemos que professores dos ensinos fundamental e médio formam uma casta inferior de profissionais no Brasil, certamente não há motivos para se levar a sério esta carreira. 

Em situação análoga, não existe bacharelado em matemática durante a noite. Não na UFPR! Isso porque tanto o bacharelado em matemática quanto o bacharelado em física demandam um melhor preparo científico do que os infelizes que sonham lecionar. Como licenciaturas pouco têm a ver com ciência - pelo menos no Brasil, a terra sem tradição alguma na produção de ideias - fica claro que esta estratégia de prioridade sobre os turnos matutino e vespertino se mostra adequada para a realidade de nossa nação. Bacharelados em matemática e física devem ser cursados durante o dia justamente porque é neste horário que existem algumas poucas evidências de vida acadêmica na UFPR. Professores, porém, são criaturas que se alimentam de morte dia após dia e fomentam essa mesma morte entre crianças e adolescentes durante todas as suas carreiras. Portanto, devem se acostumar com a lenta e indolor morte da alma desde cedo. 

Minha recomendação para os alunos da UFPR matriculados no período da noite é a seguinte: espalhem cartazes pelo campus com frases do seguinte tipo: "ProGrad apoia a morte nos cursos noturnos". É claro que durante a noite ninguém poderá ler tais cartazes. Afinal, ou a iluminação é proibitiva à leitura ou todos estarão ocupados em suas respectivas salas de aula. Mas, pelo menos, a população universitária do período diurno estará sendo avisada: não se atrevam a visitar a UFPR durante a noite! Suas almas poderão ser tragadas pela escuridão. 

Aproveito a oportunidade para divulgar um texto recentemente recomendado pelo leitor Kynismós: Otto Maria Carpeaux escreve sobre a universidade. E pensar que eu me julgava um pessimista.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Problema da Cola nas Universidades



Existem alunos que colam porque não estudam. Existem aqueles que colam porque sabem pensar criticamente. E existem até mesmo professores que trapaceiam em avaliações, para favorecer seus alunos.

Como já afirmei anteriormente, decidi que não reprovarei mais aluno algum por nota. Tomei essa decisão a partir do momento em que a UFPR assinou o satânico contrato REUNI com o Governo Federal, o qual impõe aprovação mínima de 90% dos alunos. Mesmo assim, muitos dos jovens que supostamente acompanham minhas aulas ainda agem como se estivessem submetidos às regras usuais de avaliação.

É claro que ainda aplico provas. Mas independentemente de qualquer nota conquistada, cada um deles tem a aprovação garantida com média final mínima de 50. Tudo o que precisam fazer é simplesmente comparecer nos dias de avaliação e assinar suas respectivas provas. Ainda assim houve um evento bizarro recentemente, que ilustra a inercial submissão de muitos à tradição da avaliação com poder punitivo.

Durante uma prova que apliquei dias atrás, um aluno pediu para ir ao banheiro. Naturalmente permiti. O curioso foi o gesto seguinte dele. Este aluno pegou um rolo de papel higiênico que carregava em sua mochila e o estendeu para mim, sacudindo aquele utensílio diante de meu olhos. Inicialmente fiquei confuso, vendo aquele rolo de papel balançando em minha frente. O que exatamente aquele jovem queria? Esperava que eu usasse seu papel higiênico? Nele? Foi então que compreendi. Ele queria provar que não havia cola alguma no rolo de papel. 

Quando ingressei na UFPR como professor, em 1990, eu ainda tinha uma certa preocupação sobre trapaças de alunos - herança de minha experiência anterior, trabalhando em escolas de ensino fundamental e médio, como Barddal, SESC, Colégio Estadual do Paraná e Positivo Junior. 

No ano seguinte fui liberado pelo Departamento de Matemática (onde estou lotado) para realizar meu doutoramento. A partir de 1994, quando retornei às minhas atividades docentes, mudei de postura em relação a cola (trapaças em avaliações). Como não existe código de ética entre professores, decidi não procurar por fraudadores durante minhas avaliações. Apenas tomei cuidado para que não houvesse evidentes flagrantes de desonestidade. Por sorte, jamais tive este problema em qualquer uma de minhas turmas. Se algum aluno meu colou, foi sensato o bastante para fazer isso de forma discreta.

No livro How to Teach Mathematics (citado várias vezes neste blog), Steven Krantz discute sobre o tema da cola. Na opinião dele a cola é um problema insolúvel que gera frustrações em professores e em alunos que não trapaceiam. Afinal, o estudante honesto pode se sentir prejudicado ao perceber que seu esforço poderia ser substituído por mero embuste. 

Por um lado, o professor não pode ser leniente com alunos desonestos em suas avaliações. No entanto, Krantz recomenda que ações contra estudantes trapaceiros não devem ser tomadas pelo professor sem o apoio institucional da escola. Isso porque há muitas situações nas quais a identificação da cola se baseia apenas em evidências circunstanciais e não necessariamente em flagrantes. Além disso, o tratamento a estudantes que colam deve ser igualitário, atendendo à política da instituição de ensino. Isso porque há casos até mesmo de expulsão de alunos, que pode ser legalmente sustentada sob a acusação de falsidade ideológica. O Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e o Instituto Militar de Engenharia (IME) são raros exemplos de instituições brasileiras de ensino superior que adotam políticas enérgicas contra o logro em avaliações. 

Nas grandes universidades norte-americanas (aquelas pertencentes à Ivy League) existe um código de honra que deve ser rigorosamente seguido por estudantes e mestres. Os alunos prestam um juramento e o assinam. Esse código de honra inclui alguns procedimentos práticos. O professor, por exemplo, distribui as provas e escreve na lousa a frase “Eu juro pela minha honra que não entreguei ou recebi informações durante esta avaliação”. Essa frase deve ser copiada pelos estudantes ao final da avaliação e assinada. Em seguida o professor se retira da sala, deixando a responsabilidade do honesto andamento da avaliação integralmente nas mãos dos alunos. Eventualmente o professor pode retornar à sala para responder a questões individuais, mas sem se preocupar com a honestidade de seus alunos. Afinal, o termo de compromisso escrito e assinado por aqueles que estão realizando a avaliação constitui instrumento legal. 

Segundo Krantz, o aspecto crítico do código de honra é o fato de que estudantes são responsáveis também pela denúncia de colegas que foram vistos colando. Na prática, porém, a experiência tem mostrado que os estudantes preferem deixar o papel da denúncia nas mãos de autoridades escolares. A figura do “dedo-duro” é fortemente rejeitada entre alunos.

Como no Brasil não há instituições civis de ensino superior que sejam comparáveis a alguma universidade norte-americana da Ivy League, tal método sustentado em código de honra talvez não funcione. Somos um povo que desconhece o conceito de honra. No Brasil as instituições militares de ensino superior, como o ITA, adotam posturas comparáveis. Mas isso é reflexo da disciplina militar e não necessariamente de uma postura de compromisso com o exercício de cidadania, o qual deve ser entendido também como um constituinte na formação de caráter. 

Porém, se quisermos pensar seriamente sobre a imposição de códigos de honra nas universidades brasileiras, precisamos ponderar sobre as diferenças sociais consideráveis entre estudantes universitários brasileiros e norte-americanos. Já tive a oportunidade de testemunhar a chegada de calouros ao primeiro dia de aula na Universidade Stanford. Os rapazes, em sua maioria, chegam vestindo terno com gravata. E as moças usam delicados vestidos. A chegada de todos é calma, em meio a um ambiente de civilidade. Muito diferente dos selvagens trotes que até hoje se praticam por aqui. No Brasil ainda existem casos de rituais de trote contra calouros que resultam em violência, humilhação e hospitalização. 

As famosas fraternidades das universidades norte-americanas, que operam como grêmios estudantis, estão sujeitas a rígidas regras de civilidade que, em caso de violação, preveem severas punições. Isso ocorre pelo menos nas universidades da Ivy League. 

Ainda assim, no caso de avaliações objetivas, algumas instituições de ensino superior dos Estados Unidos chegam a empregar métodos estatísticos para a detecção de correlações anômalas entre avaliações de diferentes alunos. Diante desse tipo de identificação, frequentemente o estudante sob investigação fica sem argumentos para se defender durante uma simples entrevista. Mesmo assim, o código de honra das universidades da Ivy League garante a existência e a prática de instrumentos para a defesa de estudantes que são suspeitos de fraude. 

Mas há alguns aspectos que Krantz não leva em conta em seu excelente livro e que julgo importantes, principalmente sob o foco da realidade brasileira. Ele afirma que o professor não deve ser leniente em relação a fraudadores. No entanto, esquece que professores que leem um livro como o dele são profissionais que desejam refletir seriamente sobre maneiras para melhorar a qualidade de suas aulas e avaliações. E quanto aos demais? 

Existem professores que exigem absurdos de seus alunos, como a memorização de complicadas fórmulas matemáticas, tabelas, nomes, datas. Lembro de uma prova que fiz na quinta série do ensino fundamental, na qual eu deveria saber os nomes e as localizações de vinte rios brasileiros. Por sorte, minha mãe ajudou no processo de memorização e conquistei nota máxima naquela absurda avaliação. Dias depois, porém, esqueci os dados decorados sobre a maioria dos rios. O que se prova com isso? Se o professor exige o domínio de informações que não refletem conhecimento real, não seria justificável o emprego de cola? Não pode a cola ser encarada também como um gesto de autodefesa contra a prejudicial falta de bom senso de certos docentes?

Meras informações não estimulam estudantes. Conhecimento, por outro lado, pode ter um papel bastante estimulante para o intelecto. No entanto, nem todos os docentes estão cientes disso. Quantos são aqueles que sabem a diferença entre um fato e uma verdade? A distinção entre fato e verdade não é algo que interessa apenas aos estudiosos da teoria do conhecimento. Essa diferença de conceitos tem reflexos até mesmo na prática de ensino.

Conheço muitos casos de profissionais de alto nível que, em seus tempos de estudos em instituições de ensino, colaram em várias ocasiões. Eu mesmo colei na escola, quando percebi que o professor era um paspalho. Conheço o caso de um famoso cientista brasileiro (de excelente reputação internacional) que ocasionalmente enviava o irmão em seu lugar para fazer certas provas nos tempos de faculdade. E esse cientista é indiscutivelmente um amante do conhecimento como poucos que conheci. No entanto, diante de uma instituição de ensino que age como uma farsa, por que não se justifica a defesa contra essa farsa? 

Quando fiz o vestibular em 1982, sentei na carteira que eu usaria pelas próximas horas, com bastante antecedência. Comecei então a deduzir várias fórmulas matemáticas que julguei serem necessárias para a avaliação. Eu não lembrava das fórmulas, mas sabia como demonstrá-las. Fiz isso sobre a carteira de madeira, antes de receber as folhas com as questões. Se o fiscal tivesse visto aquilo, penso quais poderiam ser as consequências. Minha carteira continha evidências inquestionáveis de cola. Por sorte o fiscal estava mais interessado em conversar com seu colega durante a realização do vestibular.

Não estou justificando erros através de outros erros. Não é essa a questão. Estou colocando a ideia de que certos casos de cola podem ser justificados como mecanismos de autodefesa contra a estupidez de certos docentes ou até mesmo de todo o sistema de educação. Não se justifica um assassinato por conta de outro. Mas matar alguém como forma de autodefesa é plenamente justificável pelos parâmetros de nossa própria sociedade.

No Reino Unido algo mais bizarro ainda foi identificado. Os próprios professores estão trapaceando para que seus alunos tenham resultados melhores em avaliações. Isso decorre da pressão que docentes recebem diariamente de instâncias superiores.

Portanto, a política de tolerância zero contra a cola é certamente absurda. Os contextos social e individual sempre devem ser avaliados. O aluno que não estudou, pratica a cola como ato de desespero. Ele quer marcar cartas em um jogo de azar. Portanto, está fomentando o fracasso profissional de seu próprio futuro. E o aluno que estudou, pode colar como mecanismo de defesa contra professores medíocres ou até mesmo como instrumento psicológico de segurança. Pressões sociais não podem ser negligenciadas. 

No caso das universidades federais e estaduais brasileiras, desconheço a existência de qualquer uma que adote alguma política séria para lidar com fraudes. Isso acontece talvez porque nosso sistema de ensino seja reconhecidamente uma fraude, muito pior do que qualquer ato de cola. Quem, portanto, devemos condenar?

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Concurso de Cinema e Educação: Resultado



Recentemente fizemos uma chamada para o Concurso Cinema e Educação. Apesar deste blog estar com uma média de acessos superior a dez mil visualizações mensais, apenas uma pessoa submeteu algum ensaio: o leitor Thiago Melara Adames, de Curitiba, Paraná. Não sei se foi por mera sorte de todos nós ou por obra da Divina Providência, mas Thiago conseguiu escrever um texto que vale por dez mil ensaios infestando a internet e outras mídias. 

Um jovem de 19 anos conseguiu realmente me deixar perplexo. Além de escrever de forma muito elegante, com evidente propriedade, também conseguiu estabelecer um profundo paralelo entre cinema, educação e sociedade que eu mesmo, pensando sobre essas questões há décadas, não havia antecipado com tanta clareza. É o primeiro adolescente que vejo conhecer Ortega y Gasset e, pior, compreender muito bem este sábio autor (hoje ignorado pela vasta maioria). É um raro representante de uma classe da juventude brasileira que, além de conhecer e admirar a obra cinematográfica do inesquecível e duramente injustiçado Orson Welles, ainda encontra coragem para conhecer o filme Transformers, de Michael Bay (algo que até hoje não consegui fazer). Se Thiago fosse um intelectual radical, imagino que citaria Theodor Adorno. Mas nem isso ele fez! Preferiu Ortega y Gasset, um crítico social muito mais equilibrado. Isso porque paixão não é sinônimo de radicalismo, algo que Thiago demonstra claramente em seu texto. Se Thiago fosse um tolo intelectualóide, citaria o amalucado Jean-Luc Godard ou o inconstante Werner Herzog como respeitável diretor de cinema. Mas também não foi este o caminho traçado. Optou pelo criador de Cidadão Kane, talvez a mais importante obra cinematográfica da história. Escolheu como referência artística o visionário que dirigiu a mais enaltecida montagem de Shakespeare da história do teatro dos Estados Unidos, um país com respeitável tradição nesta área. 

No entanto, há uma contradição evidente neste ensaio: Thiago demonstra uma visão pessimista em relação à sociedade, apesar de ele mesmo ser um indivíduo que se denuncia como sinal de otimismo para todos nós. Isso porque Thiago é um representante da nova geração. Mas é um representante que não se entrega à decadência social brasileira. O declínio do cinema que Thiago discute brevemente aqui não é novidade. Já houve crises semelhantes em outras épocas. Nos anos 1970, por exemplo, o cinema mundial foi revitalizado graças a diretores como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg. Mas não faz sentido compará-los com artistas como Roman Polanski, Stanley Kubrick ou Orson Welles. Isso prova que a crise da sétima arte está mais grave do que nunca. Além disso, o tema do texto que segue abaixo não é o mero declínio do cinema, mas sua íntima relação com o declínio cultural que o mundo experimenta. 

Outras manifestações artísticas também demonstram vertiginosa queda, incluindo até mesmo a música popular. Cantores são idolatrados pelas massas, como a famosa Adele, que sequer sabe respirar enquanto canta. Músicos como George Harrison e Donovan são praticamente ignorados, apesar de terem inovado significativamente com a incorporação de elementos da música indiana no mundo ocidental. E quando Pablo Picasso introduziu sua arte minimalista (em radical oposição ao pretenso realismo), esta gradualmente se vulgarizou. Andy Warhol fez arte a partir da cultura popular do consumismo. E mais recentemente vi uma exposição em um museu na qual as peças artísticas eram pelos pubianos e pedaços de unhas. O incrível é que essas pequenas coleções de raspas humanas foram vendidas a colecionadores por considerável preço. Até a literatura sofre dos mesmos sintomas, com a popularização de obras de autores medíocres que escrevem sobre crianças bruxas, adolescentes vampiros e mulheres que se entregam a doses homeopáticas de rituais de sadomasoquismo. O que há de realmente novo? No passado autores genuinamente relevantes como Edgar Allan Poe, Hermann Hesse e Robert Louis Stevenson foram extremamente populares durante suas vidas. E hoje? Hoje, ser popular é sinônimo de mediocridade.

É claro que o cinema atual ainda conta com belíssimas pérolas, como o francês Irreversível, de Gaspar Noé, e o norte-americano Inverno da Alma, de Debra Granik. Mas estes são filmes comumente ignorados entre os fãs do sucesso do momento. E é claro que a sociedade ainda conta com jovens de extremo valor humano, como Thiago Melara Adames, entre inúmeros anônimos. Mas estes são indivíduos que usualmente devem fazer seu silencioso trabalho longe das grandes massas. 

Espero que você, leitor, aproveite bem o texto abaixo. Afinal, sabedoria não tem idade. O estereótipo do pensador como um velho barbudo recluso é definitivamente destruído aqui. 



A Voz Rouca de Deus

Vive-se num mundo em que são exibidas versões dubladas de filmes para maiores de idade. Não é de surpreender, pois, que cada vez mais salas de cinema se restrinjam a shopping centers: a sétima arte se tornou nada mais que mero entretenimento, algo para se curtir depois da compra de um sapato e antes de BigMac. Por que o cinema perdeu tanto prestígio? Por que quanto mais pessoas assistem a filmes mais parece que declina a arte? É preciso lembrar que esta não existe sem espectador, uma obra não vista não é obra artística. E, creio, é sobre o público que recai a maior parte da “culpa” desse declínio.  Digo isso porque não vejo como pode o cinema, com pouco mais de século de existência, cair de nível definitivamente. Talvez haja apenas uma queda efêmera da qualidade – e estariam os cinéfilos agindo como aqueles pais que gritam “Tuberculose!” à primeira tosse do filho – talvez nem isso. Entretanto é impossível negar certa imbecilização dos filmes no circuito. A grande massa demanda produtos de cada vez mais fácil assimilação; produtores fazem cada vez mais remakes, continuações, adaptações de best-sellers.

Esse é o grande feito da modernidade: a universalização da cultura! Agora todos têm acesso a ela, e, por outro lado, tudo se tornou cultura. Hoje a massa se rebela contra o crítico, se pergunta por que existe tal profissão, se questiona por que não se pode desligar o cérebro por algumas horas e apenas se divertir, quer saber o porquê de se preocupar se isso trará menos prazer.  São indagações relevantes, sem um gosto crítico tudo parece bom: Michael Bay se iguala a Orson Welles. Objeto que simplesmente apreciar algo não é ter um entendimento artístico desse algo, mas a objeção se torna nula, pois é justamente esse entendimento o que a massa nega. Não percebe que para apreciar Bay perderá grande parte de Welles. Vejo aí a grande característica da massa: a falsa ideia da igualdade entre os homens.

Então, para responder às perguntas do primeiro parágrafo, é preciso analisar essa falsa ideia. Poder-se-ia dizer que vem da humildade, de que se acredita nisso justamente por se achar que todos os homens devessem ser iguais. Para mim é o exato oposto: a origem dessa falsa ideia é a suprema arrogância. A massa acha que compreende tudo! Não passa por sua cabeça que não o possa fazer e quando encontra um impedimento se recusa a admiti-lo. Uma justificativa para assistir a um filme dublado é que assim se poderá entender melhor a história. Não percebe a massa que já aí perdeu parte da “história”. Mas não há por que se restringir ao cinema: a massa reclama de ter que ler Machado de Assis para o vestibular: “Deveríamos ler livros atuais, algo da nossa época!”, afinal, mais fácil que tentar entender outras épocas é negá-las, isso ainda dá a confortável sensação de que se vive na época suprema, de que as anteriores não foram senão preparação para esta. A massa se sente mais esperta à medida que ignora suas incapacidades. E, quando não vê mais diferença entre a obra-prima e a bomba cinematográfica, quando não vê como pode desconhecer algo, supõe que todas as obras têm o mesmo valor, que todas as pessoas têm a mesma capacidade. Todos são iguais! Mas a realidade não muda de acordo com a opinião das pessoas: alguns filmes são mais que outros, algumas pessoas têm capacidades superiores. Ao se deparar com esses fatos, antes de ignorá-los a massa os reprova: vaia o filme que não compreende, acusa o próximo de pedante. Não se pode não ser da massa, não se pode não ser igual! 

Constituiria grande erro se supor agora que a massa tem algo a ver com classes sociais. Como disse Ortega y Gasset n’A Rebelião das Massas, faz parte da massa grande porção dos mais abastados. Os médicos e os engenheiros são absolutamente respeitados, são absolutamente necessários, mas são, muitas vezes, apenas técnicos, apenderam apenas para aplicar, sem ter ideia da ciência, sem uma cosmovisão. Talvez se torne um grande engenheiro a criança que pede no primeiro dia de aula: “Para que tenho que estudar Matemática?”, mas será indubitavelmente massa, se o único fim que encontrou depois dos estudos foi a aplicação prática. Até Ciências “menos necessárias” (por isso, mais nobres) sofrem com tal problema da massa: Filosofia, Sociologia não são estudadas pela ânsia de se entender o mundo e a vida social, mas sim para se transformar o mundo, para que se criar um mundo melhor, o que quer que isso signifique.

Não é difícil encontrar a massa nas escolas, o aluno que se rebela contra a autoridade do professor, pois não quer que lhe sejam apresentados fatos que não compreende, mas, ao mesmo tempo, não admite uma nota baixa, afinal ele compreende tudo. Os pais  reclamam com o professor, se o filho for capaz de arrumar um emprego está de bom tamanho. Estuda-se pela técnica, pelo que o estudo poderá proporcionar em termos materiais. Na universidade, muitos a veem apenas como um passo para se conseguir um bom emprego. Daí se tiram conclusões absurdas, como a de que a educação deve ser incentivada, porque favorece o desenvolvimento econômico do país (e não como um fim e, mais ainda, como o maior bem individual). Não é de se admirar que, dessa forma, professores façam uma greve gigantesca, afinal, se educação é um bem coletivo, nada mais justo do que politizá-lo.

E, se educação é política, o resto também vira política. Artes, esportes, famílias, etc.. Nada escapa da massa, que homogeneíza tudo, a começar por si mesma. Quando nenhum princípio superior resta, quando tudo é igual, quando tudo é política, não há como se escolher “racionalmente” coisa alguma, tudo passa a ser questão de opinião, de voto. Michael Bay versus Orson Welles é apenas uma eleição. Ao que parece, venceu Transformers. Dublado.