Não é conflito. Nada é econômico.
Duas pequenas caixas colocadas diante do curioso e atento Ulik, meu cão. Uma e apenas uma delas recebe o biscoito que o cachorro tanto cobiça. Em seguida as caixas são agilmente embaralhadas diante dele. Ao término, Ulik olha desconfiado para uma delas. Aproxima-se hesitante e percebe estar vazia. A reação é imediata. A besta se afoba para a outra caixa e come rapidamente o biscoito. Testemunho o comportamento e concluo que a besta raciocinou: não está aqui, logo está lá. Por que concluo isso? Porque creio que a besta é apenas uma versão mais desbaratinada de mim mesmo. Antropomorfizo o comportamento da criatura. Olho para Ulik e vejo o que creio a respeito de mim mesmo. Afinal, creio no não. Afinal, creio na capacidade de conclusão.
Tentemos outra abordagem. Mesma história. Mas, desta vez, sem não. Desta vez, com nada no lugar do não.
Duas caixas, um biscoito, um cão. Ulik olha desconfiado para uma das caixas embaralhadas e o que vê? Apenas a caixa. A besta crê no biscoito pois o biscoito foi visto. Ulik sentiu e ainda sente o saboroso aroma do biscoito que o faz salivar. A besta crê na caixa que esconde o biscoito. Caixa coincide com crença. Por isso olhou desconfiado para a caixa! A besta ainda crê no biscoito. O aroma está no ar. Mas a colisão entre crença e realidade após o hesitante exame ocular sobre a primeira caixa é... nada. Cadê o biscoito? Instantaneamente Ulik se atira sobre a segunda caixa, pois a crença no biscoito é poderosa, sustentada pelo aroma que inunda o ar. Tem que estar lá! Ulik se afoba na direção da segunda caixa e finalmente come o biscoito. O que ocorreu? Uma crença foi revisada, acionada pela necessidade do alerta de bingo. Afinal, são apenas duas caixas. A primeira caixa foi a primeira crença. Colisão entre crença e realidade foi nada. A segunda caixa foi reflexo da crença revisada. Bingo! Comeu o biscoito. Se houvesse um compartimento secreto na segunda caixa que escondesse o biscoito, Ulik ficaria confuso, irritado, agitado. É mandatório sinalizar algo na interação entre crenças e realidade. Se todas as crenças tivessem o nada em suas colisões com a realidade, a besta simplesmente morreria, pereceria. E, pior, morreria frustrada, confusa. A luta pela sobrevivência depende que algo esteja de fato presente nas colisões entre crenças e realidade. Um sinal de "bingo" deve brilhar nos confrontos entre crença e realidade.
Há uma diferença crucial entre as duas interpretações para a brincadeira caixas/cão/biscoito. Uma assume alguma noção de negação: há biscoito ou não há biscoito. A outra assume uma revisão de crença: cão acreditou que o biscoito estava aqui, mas agora crê que está ali. Ambas as interpretações assumem a realidade como agente fundamental, como palco para ações. Mas a navegação de bestas nos mares da realidade é intermediada por crenças no caso da segunda interpretação. A besta tem dúvidas sobre onde está o biscoito. Por isso a hesitação inicial! A besta crê no biscoito e faz os confrontos necessários com a realidade, revisando outras crenças, como a fé na primeira caixa. Não há um objetivo filosófico de compreender o que é realidade, o que é crença e como se relacionam crenças e realidade. Há apenas uma contínua luta da crença contra a realidade. Toda besta luta. Toda besta luta permanentemente.
Se a crença no confronto entre crenças e realidade tiver algo em sua interação com a realidade, a grande pergunta é: por que não?
Tentemos novamente. Mas, desta vez, preste atenção! Quando digo no parágrafo anterior "por que não?", estou dizendo "por que usamos a noção de negação?". Por que confiamos na primeira interpretação, a qual envolve negação? Ou seja, por que o "não" em nossas vidas? Há necessidade de negarmos o que quer que seja? Somos naturalmente compelidos a uma luta diária entre crenças e realidade em nossas vidas. Cremos que deixamos a chave do carro no lugar de sempre e descobrimos posteriormente que colocamos dentro da geladeira. A crença de que a chave do carro está no lugar de sempre deve ser revisada se quisermos usar essa chave. Mas, na prática, o uso da negação (a chave não está no lugar de sempre) serve a um propósito de conflito adicional de crença contra crença: a crença de que é seguro crer na chave guardada no lugar de sempre versus a crença diária de que a chave está no lugar de sempre. Afinal, crenças reproduzem entre si, gerando novas crenças. Por isso...
Tentemos novamente. No primeiro parágrafo deste texto foi dito "Não é conflito". Uma reação natural de quem lê é perguntar "o quê não é conflito?". Mas o que está escrito no parágrafo em questão é a crença de que a negação serve a um propósito de criar conflitos, dramas, atritos... entre crenças. Ou seja, "o emprego da negação serve para produzir conflitos que transcendem os embates inevitáveis entre crenças e realidade". Desta vez estamos falando de conflitos entre crenças. Além dos conflitos naturais entre crenças e realidade, temos agora uma guerra entre crenças, graças à negação.
Frank Ramsey já dizia que a noção de verdade é redundante. As afirmações "é verdade que a neve é branca" e "a neve é branca" têm exatamente o mesmo valor semântico. Ambas significam a mesma coisa. Logo, a palavra "verdade" nada acrescenta em termos de informação. No lugar de dizermos que é verdade que a neve é branca, basta dizermos que a neve é branca. Mas o que acontece se encontrarmos um exemplo de neve verde? Neste caso, basta uma revisão de crença que nos leve a concluir o seguinte: geralmente a neve é branca mas há pelo menos um caso de neve verde.
No entanto, a noção de falsidade (a suposta negação de verdade) muda de fato valores semânticos. As afirmações "a neve é branca" e "é falso que a neve é branca" não compartilham o mesmo valor semântico. Logo, se verdade é a negação de falsidade e, além disso, falsidade é a negação de verdade e, além disso, verdade é semanticamente nula, por que falsidade é semanticamente relevante? O que a negação da noção de verdade está produzindo? Isso ocorre porque a negação gera conflitos entre crenças. Ainda que a noção de verdade seja percebida como redundante, a crença na negação da verdade (produzindo falsidade) cria um conflito com a crença na redundância da verdade. O poder da negação é tão espetacular que chega ao ponto de criar novos significados até mesmo para aquilo que jamais teve significado algum.
Tentemos novamente. No primeiro parágrafo deste texto foi dito "Nada é econômico". O que entender disso? A partir de crenças socialmente programadas durante gerações, o instinto diz que tal afirmação é equivalente a "tudo é não econômico" ou "tudo é caro". Isso porque a crença na negação (caro é uma possível negação de econômico) é poderosa ao longo de séculos de civilização aceitando a negação como natural, apesar de Ulik ser incompreendido em sua atitude com relação ao biscoito na caixa.
Mamãe e papai dizem aos filhos pequenos: não faça isso, mas faça aquilo! Logo, há coisas que devem ser feitas e há aquelas que não podem ser feitas. Mas, estendendo a segunda interpretação para a brincadeira caixas/cão/biscoito, "Nada é econômico" nos diz que assumir a possibilidade de nada ocorrer durante o conflito entre crença e realidade é tão somente um primeiro passo para revisar a crença. O segundo passo é efetivamente revisar a crença, ao invés de simplesmente negar. Negar uma crença é um ato preguiçoso e, portanto, caro. É caro pelo fato de não exigir necessariamente qualquer revisão de crença. Se Ulik seguisse o caminho da negação, sua atitude poderia ser a simples desistência: ah, droga, o biscoito não está na primeira caixa; passarei fome. Mas Ulik seguiu o instinto natural de revisar uma crença. Consequentemente, comeu o biscoito.
No caso da brincadeira caixas/cão/biscoito, há apenas duas alternativas assumidas: o biscoito está na caixa 1 ou na caixa 2. No entanto, o cotidiano oferece situações mais complexas. Negar que toda neve é branca é uma afirmação pouco informativa. Percebemos mais do que apenas duas cores no mundo. Mas afirmar que geralmente a neve é branca, podendo existir neve verde, passa a ser uma informação relevante.
O confronto entre crenças e realidade ocorre porque todos os seres vivos que observam a realidade dependem de modos de percepção inerentes a eles mesmos. Para piorar a situação, a realidade responsável por esses modos de percepção é ignorada pelos mesmos seres vivos que observam apenas fragmentos da realidade. Esses modos de percepção são os primeiros pilares de crenças. Mas, apesar disso, a postura mais econômica de sobrevivência é o foco sobre as relações entre realidade e crenças. Negar uma crença é uma postura cara de sobrevivência, podendo custar a própria vida. Mas revisar uma crença é o caminho econômico para a sobrevivência. Isso porque o confronto entre crença e realidade tem mão dupla. Se a crença não for revisada em tempo, a realidade pode esmagar o crente. O preço máximo pago pela simples negação, sem revisão alguma, é o irreversível extermínio.
Se o confronto entre crença e realidade resultar em algo, a crença pode ser temporariamente mantida. Se o confronto entre crença e realidade resultar em nada, a crença deve ser imediatamente revisada. Porém, neste contexto, nada sinaliza entre o algo e a negação do nada. Nada sinaliza entre o nada e a negação do algo. Mas algo sinaliza na dualidade algo/nada. Usando terminologia mais familiar ao leitor: assim como o 1 não é a negação do 0, o nada não é a negação do algo. Algo e nada são apenas dois possíveis resultados do confronto entre crença e realidade.
A noção de negação deu origem a múltiplas doenças sociais: pessoas deliberadamente mentindo, pessoas acusando umas às outras de mentirosas, pessoas falsamente acusando umas às outras, pessoas pregando a diferença entre o certo e o errado, pessoas negando o conhecimento científico, pessoas negando a realidade, entre outras. O negacionismo não é exclusividade de restritos segmentos sociais. O negacionismo ocorre entre todos aqueles que usam a palavra "não" em qualquer situação cotidiana. Negacionismo é a postura consequente daqueles que são incapazes de discernir o algo do nada. Quando nada veem, creem ver algo. Quando veem algo, creem ver nada. Isso porque a negação ofuscou, ao longo de milênios de civilização, a distinção entre crença e realidade. Trata-se de um looping de crenças que jamais confrontam realidade alguma. A negação propaga crenças de forma exponencial, produzindo um looping de confrontos de crenças contra crenças. Logo, é uma doença. Logo, somos todos doentes. Até mesmo este texto faz inúmeros usos da palavra "não". Afinal, sou um Homo sapiens de décima milésima geração. Difícil abrir mão do não.
Ao longo de gerações negando umas às outras, tais doenças sociais tiveram impacto sobre a própria realidade social do humano civilizado, transformando-a a partir da origem de instituições agregadoras de negacionistas: religiões, tribunais, escolas, ideologias, polícias, exércitos, governos.
Citemos apenas o caso de religiões. Entre os dez mandamentos do cristianismo, oito são negações. Todos os cinco preceitos do budismo são ordens de abstenção e, portanto, negações. No islamismo também há proibições que servem para definir um código de conduta. Segundo O Livro dos Mortos, no antigo Egito, durante o julgamento da alma no tribunal de Osiris, o morto precisava fazer a confissão negativa: não cometi crimes, não roubei, não matei homens. E devemos lembrar que O Livro dos Mortos era um manual de sobrevivência sobrenatural; portanto, sem contato com a realidade. Porém, o mandamento "não matarás" naturalmente obriga o ouvinte a pensar, antes de mais nada, em "matar". Somente depois o ato de matar terá oportunidade de ser percebido como algo que não pode ser feito. Mas a primeira coisa que se pensa ao ouvir o mandamento é justamente em matar. Trata-se de fenômeno semelhante ao se dizer a alguém "não pense em um elefante". A reação instantânea e inevitável é pensar em um elefante antes de tentar apagá-lo da mente. A palavra "elefante" permite ao cérebro a criação de uma imagem mental. A palavra "não" não corresponde a imagem mental alguma. Por quê? Porque elefantes pertencem à realidade. Negações, não. Elefantes são reais. Negações são crenças sem contato com a realidade. Matar é algo real, visualizável. Não matar gera o problema da imagem mental do "não". O "não" não tem imagem.
Estudos de neuroimagem demonstram que a palavra "não" ativa a amígdala, região cerebral responsável por respostas de defesa, luta ou fuga. Por que isso ocorre? Porque a palavra "não" gera conflitos entre crenças. A palavra "não" é mais estressante do que uma simples revisão de crença em interações com a realidade. A palavra "não" cria uma fantasia perturbadora, estressante. Isso porque o "não" confunde justamente por não existir na realidade.
O estudo de matemática em escolas é repleto de nãos: não dividirás por zero, não igualarás matrizes quadradas de ordens diferentes, não representarás o pi como razão entre inteiros, não somarás antes de multiplicares, não questionarás etc. Seria esta uma das causas da ansiedade matemática entre alunos?
Kusunda é um fóssil linguístico ainda vivo. Falada por cerca de 250 nativos no Nepal, Kusunda é uma língua isolada, sem parentesco conhecido com qualquer outro idioma do planeta. Pesquisas genéticas e linguísticas sugerem que o povo Kusunda pode ser descendente direto da população mais antiga do sub-Himalaia. Há até mesmo evidências de que a língua dessa tribo pode ser remanescente da primeira onda de migração de nossa espécie para fora da África, berço de toda a humanidade. Diferente do que ocorre em todos os demais idiomas falados no mundo, vivos ou mortos, Kusunda não tem palavra alguma para designar "não". Não há sequer um advérbio que se ligue a outras palavras com conotação de negação.
Como o povo Kusunda lida com situações de discordância? Há diferentes estratégias linguísticas para lidar com isso. Uma delas é via alteração da estrutura fonética de uma frase para um modo chamado pelos linguistas de irrealis. Ao invés de dizer "eu não vou para a montanha", a estrutura da frase "eu vou para a montanha" é foneticamente modificada para sugerir "eu duvido que eu vá para a montanha". Logo, Kusunda depende fortemente de aspectos fonéticos. A maneira como se pronuncia uma frase pode ter diferentes significados. Não há uma única evidência de codificação escrita da língua Kusunda que tenha sido realizada por este povo originalmente nômade. Outra estratégia é transformar verbos de ação em substantivos e acrescentar um termo relativo à existência. Exemplo: "é duvidoso que exista o meu ir para a montanha". Essas evidências indicam um compromisso direto com crenças confrontadas com realidade para sugerir aquilo que chamamos de negação: eu duvido que seja o caso; eu duvido que exista isso ou aquilo. Duvidar significa, no presente contexto, o seguinte: não revisar crença. Mas o que é "não revisar crença"? É simplesmente "o confronto entre minha crença e sua sugestão sinaliza nada".
A primeira língua escrita da história foi o Sumério. A codificação escrita foi idealizada para controlar contabilidade de safras, comércio e trabalho. Neste caso o emprego da negação era indispensável aos negócios e tributos. Usava-se um prefixo padrão que antecedia a raiz do verbo, como ocorre, por exemplo, em Mandarim. Uma vez que documentos escritos não contam com fonética suficientemente clara, a padronização da negação passou a ser um hábito bastante útil. Hábito este que persiste até os dias de hoje.
Ou seja, é possível que a negação tenha surgido junto com a civilização, graças ao advento da agricultura. Mesmo que seja o caso, de forma alguma a negação foi uma boa ideia, uma vez que ela deu origem a inúmeros efeitos colaterais já mencionados acima.
Em matemática o emprego de negação é praticamente onipresente. Mas, há algo que pode ser considerado uma quase-exceção: a formalização de teoria de conjuntos proposta por Alfred Tarski e Steven Givant nos anos 1980. Todas as fórmulas nesta teoria são equações entre termos relacionais. No lugar de negar uma relação, opta-se por afirmar o complemento de tal relação. Neste sentido é desnecessário um conectivo lógico de negação.
Diante de tudo o que aqui está exposto, segue um desafio ao leitor: você consegue passar um dia inteiro conversando com pessoas, sem jamais dizer "não" e sem mentir? Quais são os possíveis efeitos sociais e psicológicos de um experimento pessoal como este?

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