domingo, 8 de fevereiro de 2026

A Conspiração Judaica


Cerca de 32% da população mundial é de cristãos, de acordo com o Status of Global Christianity da Gordon-Conwell Theological Seminary. Cerca de 65% dos Prêmios Nobel concedidos desde 1901 foram para pessoas que se identicavam como cristãos, fossem católicos, protestantes ou ortodoxos. 


Cerca de 0,2% da população mundial é de judeus. Assumimos como judeu aquele ou aquela que abraça a cultura judaica e/ou a religião judaica, seja por hereditariedade, ancestralidade ou conversão. Cerca de 22% dos Prêmios Nobel concedidos desde 1901 foram para judeus ou indivíduos em que pelo menos um dos pais era judeu.


Ou seja, enquanto cristãos ocupam o dobro de ganhadores do Nobel relativamente à sua proporção mundial, judeus ocupam 110 vezes essa proporção.


Apesar de representarem um quarto da população mundial, pouco mais de uma dúzia de muçulmanos foram agraciados com o Nobel: 8 da Paz, 4 em ciências e 2 em literatura.


Cristãos renomados como Madre Teresa de Calcutá, Juan Manuel Santos e John Hume, se destacaram com o Nobel da Paz. Judeus, por outro lado, se destacaram em áreas científicas, como física, química e economia.


Quase 30% dos ganhadores da Medalha Fields são judeus ou têm ascendência judaica. Judeus também correspondem a 30% dos ganhadores do Prêmio Abel, 40% dos ganhadores do Prêmio Wolf, 50% dos ganhadores do Nevanlinna, hoje chamado de Medalha IMU Abacus.


Ou seja, é indiscutivelmente marcante a presença de judeus em atividades científicas de grande destaque, sejam física, matemática, medicina, ciências da informação ou química. Logo, essas informações levantam uma questão inevitável: por quê? O que há de tão especial entre judeus?


A religião em si é um fator determinante? Afinal, estima-se que 15% da população mundial é de ateus, agnósticos ou simplesmente indivíduos não filiados a qualquer religião organizada. No entanto, apenas 10% dos ganhadores do Nobel identificaram-se como uma dessas categorias. Logo, cristãos e judeus estão melhor representados entre os premiados, se compararmos com pessoas sem qualquer religiosidade. Mas judeus... esses sim parecem "o povo escolhido" para o conhecimento.


Há uma expressiva literatura sobre o tema, principalmente entre historiadores e sociólogos. Os principais motivos apontados para o enorme destaque de judeus em áreas científicas são os seguintes:


I) Tradição milenar de valorização do intelecto. Todos os homens judeus sempre foram obrigados a ler e estudar textos sagrados como a Torá e o Talmude. No passado as mulheres eram mais focadas em obrigações domésticas. Mas os homens sempre foram direcionados a um expressivo engajamento em atividades intelectuais.


II)  Tradição milenar de debate e análise crítica. O estudo do Talmude é baseado em questionamentos, nunca aceitando respostas prontas.


III) Perseguição religiosa. Judeus sempre enfrentaram perseguições que frequentemente os impediam de possuir terras e bens materiais. Isso forçou muitos deles a preferirem atividades ligadas ao conhecimento, como medicina, direito, finanças e ciências. Tais atividades podem, em princípio, ser exercidas em qualquer parte do mundo. Ou seja, judeus investiram em patrimônio intelectual.


IV) Resiliência. Judeus nunca se isolaram, apesar das perseguições. Sempre buscaram grandes centros urbanos, os quais facilitam o acesso a universidades e bibliotecas. Na vida acadêmica europeia e dos Estados Unidos eles encontraram formas de ascenção  independente de classe social ou religião.


Um sacerdote católico é chamado de Padre, termo cunhado do latim pater que significa, literalmente, pai. Um sacerdote protestante é chamado de Pastor, o que significa, bem, pastor. Um sacerdote muçulmano é chamado de Imã que, em árabe, significa "condutor" ou "guia". Um sacerdote judeu é um rabino. O que é um rabino? Um professor, nada além disso. Um rabino não guia, não adota filhos ou ovelhas. Um rabino ensina. Mais importante, um rabino ensina a questionar. Um rabino provoca. A provocação é, entre outras coisas, o questionamento de caminhos, de ideias, de autoridades.


A cultura do pensamento crítico, absolutamente indispensável na atividade científica de impacto, é o cotidiano cultural de um judeu.


Como já foi destacado inúmeras vezes neste blog, o sistema educacional formal de nosso país enfatiza a submissão de alunos a repertórios corrompidos por professores e autores. Nossas escolas e universidades praticamente nunca abrem espaço para o estudo de matemática, citando apenas um exemplo de área do saber. Há tão somente um esforço institucional de enfiar matrizes e logaritmos goela abaixo de alunos intelectualmente indefesos graças ao medíocre ambiente familiar e social no qual estão diariamente imersos. Matemática não é apenas o estudo de repertórios cujas origens são sistematicamente ignoradas em sala de aula. Obviamente uma cultura básica em matemática é indispensável. Mas matemática exige profunda análise crítica e, principalmente, criatividade.


Quem sabe, um pouco do espírito judeu ajudaria o nosso sistema educacional. Obviamente não estou falando do estudo do Talmude em nossas escolas. Estou falando de certas práticas claramente bem sucedidas da cultura judaica: resiliência, conhecimento, questionamento, análise crítica. Obviamente não estou sugerindo que nossas escolas devam abraçar a missão de formar futuros ganhadores do Nobel. Mas que pelo menos abram espaço para aqueles que têm este potencial! Abrir espaço para a excelência implica, entre outras coisas, em uma cultura de oportunidades. Uma escola que não confronta o cotidiano intelectualmente medíocre das massas é uma escola que apenas perpetua essa mediocridade. Não merece o nome "escola".


Um Nobel, um Abel, uma medalha Fields não são apenas prêmios. São sinalizadores daquilo que molda o mundo onde vivemos. Uma contribuição científica revolucionária vai muito além de uma medalha no peito. Ciência e cultura definem o mundo e o futuro. Uma pessoa que contribui no seio familiar para a valorização de ciência, de cultura, das artes, da história, da literatura, é um alguém que exerce uma influência profundamente construtiva ao longo de gerações. Judeus claramente fazem isso há milênios. Mas não há necessidade alguma de conversão religiosa para seguir exemplo similar. Basta fazer, independentemente de crenças pessoais, religiosas ou não.


Nossa educação formal é medíocre, apavorante, estúpida, doutrinária, desprovida de vida, morta. Nossa educação formal está moldada pela cultura popular. Este é um erro crasso. É função da educação formal moldar a cultura popular para algo novo, algo edificante. É função da educação formal introduzir rabinos, professores, mestres, orientadores. Se existe algum interesse em mudar o país para melhor, recomendo o básico: aprender com aqueles que causam estranheza. Judeus são uma boa dica, por que nâo?


A suposta conspiração judaica não se trata de uma trama internacional de nova ordem mundial com o objetivo de dominação global, como gostam de sugerir certos alarmistas. A conspiração judaica é um nome dado por ignorantes para algo difícil de entender na travada cabeça da maioria: uma cultura sistematicamente voltada ao conhecimento e ao pensamento crítico. Conhecimento e pensamento crítico causam estranheza às massas. Tudo que é estranho, é motivo de desconfiança. O pensamento crítico questiona sim as normas. Neste sentido, há sim uma cosnpiração judaica. Isso porque todo questionador é uma ameaça à normatização de sociedades.


Mas não estou com paciência para explorar detalhes. Se o leitor encontrar neste breve texto um motivo para reflexão, ótimo. Se não encontrar, paciência. A humanidade continuará sendo guiada por uma minúscula fração dela.


Até breve.