domingo, 8 de março de 2015
Podemos aprender algo com a parapsicologia?
Robert G. Jahn é um respeitado nome em ciências aeroespaciais, com uma brilhante carreira na Universidade Princeton, onde se aposentou como professor emérito. No entanto, é também um nome fortemente associado a pesquisas sobre o paranormal. Entre 1979 e 2007 ele liderou o Princeton Engineering Anomalies Research Lab (PEAR), um laboratório dedicado à investigação de supostos fenômenos de interação entre a mente humana e matéria (algo conhecido por alguns como telecinésia). O link de acesso às atividades do PEAR ainda está disponível no site da Universidade Princeton. Outras instituições de renome no mundo acadêmico, como as universidades Stanford, Harvard, Duke e Cornell, já contaram com programas de pesquisa sobre o paranormal, geralmente dependendo, em termos financeiros, de doações de empresas e pessoas, mas eventualmente despertando interesse de militares. No entanto, nesta postagem quero focar nas atividades de Jahn. Os motivos são expostos a seguir.
Em parceria principalmente com a psicóloga Brenda Dunne, Jahn estudou com maior ênfase supostas anomalias emergentes de interações entre humanos e máquinas. A ideia é simples. Máquinas que geram sequências aleatórias de saídas (outputs) são colocadas diante de pessoas, as quais, por sua vez, devem tentar alterar os valores médios dessas saídas a partir da simples vontade, sem a interferência de fatores físicos conhecidos.
Neste artigo publicado em 1986 no tradicional periódico Foundations of Physics, Jahn e Dunne apresentam alegadas evidências empíricas de que a consciência humana, por ação de simples vontade, é capaz de exercer influência sobre máquinas que geram sequências aleatórias de saídas. E, além disso, propõem um modelo quântico para explicar os resultados empíricos apresentados. A consciência é representada por uma função-de-onda que satisfaz a equação de Schrödinger. E o ambiente com o qual a consciência interage é representado por uma função de potencial acoplada à equação de Schrödinger.
No entanto, a maioria esmagadora das publicações que relatam os resultados obtidos no PEAR foi veiculada em relatórios internos e no periódico Journal of Scientific Exploration, uma publicação de repercussão incipiente da qual o próprio Jahn é um dos editores responsáveis.
O encerramento das atividades do PEAR em 2007 foi tema de matéria publicada em The New York Times, a qual destaca a polêmica e o embaraço que tal laboratório provocou entre administradores de Princeton e até entre ganhadores do Prêmio Nobel. No livro Nonsense on Stilts, publicado pela University of Chicago Press, o autor Massimo Pigliucci descreve o trabalho de dois grupos independentes de pesquisadores alemães que não conseguiram reproduzir os experimentos relatados por Jahn e Dunne. As críticas sobre os experimentos são muitas, incluindo a falta de informações cruciais de controle sobre o que efetivamente estava sendo medido. Mas as críticas mais relevantes de Pigliucci se resumem a duas: 1) a extrema dificuldade para construir máquinas que gerem sequências genuinamente aleatórias de saídas e 2) o fato de que significância estatística não é uma boa medida para avaliar a importância ou a autenticidade de um fenômeno, seja paranormal ou não.
Pigliucci motiva seu livro com fatos perturbadores: menos de 40% dos norte-americanos acredita na teoria da evolução de Darwin; um número crescente de pais daquele país se recusa a vacinar os filhos, temendo que vacinas provoquem autismo; e cerca de 40% da população dos EUA considera que a ameaça do aquecimento global por intervenção humana é colocada de forma exagerada. E a questão que persiste para Pigliucci e muitos cientistas é a seguinte: por que as pessoas insistem na crença em fantasias, apesar do senso comum de vivermos na era da informação?
Mesmo neste blog, que é uma iniciativa muito modesta em termos de divulgação científica, já pude perceber que atenção popular significativa se conquista em torno de discussões sem rumo, com pessoas que defendem ideias muito mal qualificadas.
É claro que discussões científicas ou filosóficas de alto nível demandam uma dedicação com a qual a maioria das pessoas não está acostumada. E a tal da "era da informação" não tem conseguido mudar hábitos populares carregados desde os tempos em que informação e conhecimento eram bens acessíveis para poucos. Ou seja, pelo menos por enquanto, não é a disponibilidade de informação que consegue estimular pessoas para conhecer o mundo em que vivem.
No entanto, há um aspecto nas ideias de Jahn e Dunne que desperta atenção. No citado artigo de 1986, os autores defendem uma tese que me parece muito interessante. Segundo eles, realidade é o produto de um diálogo entre consciência e o ambiente na qual ela se insere.
A alegada formulação quântica para qualificar esse discurso sobre um diálogo entre consciência e ambiente, para construir a realidade, não convence. No entanto, a visão intuitiva parece inspiradora, pelo menos do meu ponto de vista. Justifico.
Jahn e Dunne sugerem, no artigo em questão, que realidade e ambiente são conceitos distintos. Tanto do ponto de vista filosófico quanto social, essa ideia pode ajudar a compreender muita coisa. Mas, neste momento, estou mais interessado no aspecto social.
Jahn e Dune vivem no mesmo ambiente que abrigou e abriga grandes expoentes da física, da matemática, da engenharia e da filosofia, a saber, Princeton. No entanto, vivem em uma realidade diferente, paralela, na qual se isolam da realidade que efetivamente transforma o mundo, o ambiente em que todos vivemos.
Recentemente um aluno me disse que o Brasil faz parte do mundo. E então perguntei para ele: qual país sentiria falta do Brasil se nossa nação sumisse do mapa? Este aluno apenas sorriu, embaraçado.
Pessoas eventualmente conseguem compartilhar o mesmo ambiente onde vivem. Mas essas pessoas necessariamente compartilham a mesma realidade, do ponto de vista social? Jahn e Dunne ironicamente vivem uma realidade paralela à ciência e à filosofia, apesar de ser compartilhada por uma significativa massa de pessoas que alimentam a fantasia de que o ser humano pode modificar a realidade que o cerca a partir apenas da vontade. Daí o sucesso de filmes como O Segredo, Quem Somos Nós? e O Ponto de Mutação.
Bem, ao assumirmos uma realidade, no sentido de percepções sobre o ambiente em que vivemos, conseguimos mudá-la? Dificilmente. É muito difícil mudar qualquer realidade quando nos submetemos a ela, seja científica, filosófica ou até religiosa. Mas, se assumirmos uma realidade, no mesmo sentido de percepções sobre o ambiente em que vivemos, podemos mudar o ambiente?
A ciência que usualmente se pratica em Princeton, Stanford, Cornell e outros grandes centros de pesquisa, tem modificado drasticamente o ambiente em que muita gente vive. Não é necessário ser um cientista ou sequer um pesquisador para ser beneficiado pelas tecnologias e inovações resultantes da pesquisa promovida e desenvolvida pelos grandes centros científicos e tecnológicos.
Épocas e regiões diferentes contam com agentes sociais diferentes para modificar ambientes. Houve o tempo em que o cristianismo foi uma força poderosa de transformação social, modificando o ambiente em que europeus viveram, principalmente na Idade Média. Hoje o cristianismo não conta com a mesma força de transformação. Isso porque a ciência e a filosofia evidenciaram realidades diferentes daquelas definidas pelo cristianismo e outras ideologias, mudando ambientes de formas jamais sonhadas, seja para o bem ou para o mal.
O fato de Princeton ter aberto espaço para pesquisas sobre fenômenos usualmente entendidos como paranormais é louvável. Esta é a postura de uma instituição que não está presa a uma única realidade. Se Jahn e Dunne fracassaram ao longo de décadas de investigação, isso pode ser consequência de incompetência de ambos ou simplesmente do fato de que a vontade humana (sem ações físicas) não seja capaz de modificar o ambiente no qual a consciência humana se insere.
Li dezenas de páginas escritas por Jahn e Dunne. Encontrei uma única afirmação que inspirou reflexão. Mas é uma afirmação que está intimamente conectada não apenas com a proposta pseudocientífica de Jahn e Dunnes, porém com aspectos sociais da mais alta importância.
A atividade científica tem modificado ambientes sim. Mas não está sendo bem sucedida na modificação de realidades. Ainda persistem os discursos fanáticos, que não permitem espaço para reflexão séria. Ainda vemos exemplos abundantes de pessoas que defendem posturas irracionais e preconceituosas, usando como ferramentas inúmeras inovações resultantes da ciência e da tecnologia. Isso se percebe em pessoas que defendem a astrologia, a homeopatia, o design inteligente, o criacionismo, o partidarismo e outras ideias malucas, usando computadores e a internet, benefícios esses resultantes de muito trabalho e muito senso crítico.
Ciência e filosofia são atividades sociais, como venho insistindo há muito tempo. E, enquanto atividades sociais, dependem do apoio de muita gente que não está comprometida nem com ciência e nem com filosofia. Este apoio ocorre na forma de impostos pagos por todo e qualquer cidadão. Se a ciência e a filosofia não se empenharem na mudança de realidades, limitando-se apenas a mudanças de ambientes, existe o risco muito grande de perderem o status social de agentes de transformação significativa.
Pessoas não vivem apenas em ambientes, mas principalmente em realidades. Já foi possível perceber que Jahn e Dunne são irredutíveis em suas crenças. Eles acreditam veementemente que o desempenho de máquinas pode depender da simples vontade de uma pessoa. E são pesquisadores que contam com a reputação social de Princeton para suportar suas ideias. Ou seja, temos aqui um bizarro choque entre realidades. É algo como o cenário da série de televisão Arquivo X, no qual existem constantes conflitos entre as duas personagens principais, justamente porque elas vivem em realidades radicalmente opostas. Para fins dramáticos, tal cenário é perfeito. Na prática, é apenas um doloroso drama.
É neste momento que deve entrar a educação. Cabe ao processo educacional a abertura para múltiplas realidades. Princeton não é apenas uma instituição de pesquisa, mas também de ensino. Logo, a abertura de Princeton para permitir a existência de um laboratório dedicado ao paranormal é uma atitude condizente com educação de alto nível, justamente por conta da reputação científica daquela instituição. Mas é fundamental que os criadores de um laboratório como o PEAR - bem como iniciativas similares que vão em desencontro à realidade acadêmica mundial - percebam a gigantesca responsabilidade que estão assumindo. Jahn e Dunne criticam trabalhos incompetentes e fraudulentos sobre o paranormal. Mas eles mesmos não foram felizes na abordagem adotada. Jahn, principalmente, aproveitou a inércia de uma carreira acadêmica brilhante e convencional para apenas impor ideias que até hoje não convencem. Não é uma posição importante em uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do mundo, acompanhada de uma ou duas publicações em periódicos importantes, que mudará a realidade do que hoje se entende por ciência. Assim como a ciência não transformou o mundo da noite para o dia, as ideias realmente novas exigem muito mais do que discursos subversivos. Sem resultados que reflitam em mudanças significativas no ambiente em que vivemos, não há a mais remota chance de mudança da realidade que admitimos existir.
segunda-feira, 2 de março de 2015
Comparando diploma com competência
Em postagem de quase um ano atrás, André Sionek (brasileiro que estudou na University of Pennsylvania, EUA) declarou que "nos Estados Unidos alunos procuram as melhores universidades com o propósito de aprender [...] No Brasil, jovens procuram universidades com o objetivo de obter diplomas." É claro que esta é uma impressão pessoal que frequentemente é compartilhada por muitas pessoas, incluindo jovens estudantes e experientes profissionais. Mas o fato é que precisamos de parâmetros objetivos para determinar o que é mais importante na prática do mercado de trabalho: competência profissional ou diploma, mérito ou prestígio?
Na última vez em que visitei os Estados Unidos, o filósofo brasileiro Otávio Bueno (que segue carreira naquele país) me disse o seguinte: "Para conseguir uma posição de docente ou pesquisador em uma renomada universidade norte-americana é necessário que o título de Ph.D. seja obtido em uma delas ou que o candidato realize pelo menos uma contribuição científica de grande impacto. Caso contrário, praticamente não há chances de contratação."
Pois bem. Em um estudo publicado no mês passado foram reportados dados e conclusões contundentes sobre a realidade do processo de contratação de docentes em instituições de ensino superior dos Estados Unidos, o país que conta com a maior produção científica no mundo e uma das mais impactantes. Foram analisadas as carreiras de cerca de 19.000 profissionais nas áreas de ciência da computação, administração e história. Ou seja, a amostra considerada leva em conta áreas do conhecimento muito distintas entre si. O estudo conclui que políticas de contratação seguem uma rígida estrutura hierárquica que resulta em considerável desigualdade social. Apenas 25% das instituições que concedem o título de Ph.D. naquele país são responsáveis por 71% a 86% (dependendo da área do conhecimento) das contratações de docentes com direito a pedir estabilidade de emprego. Além disso, apenas 10% dos docentes de ensino superior daquele país trabalham em instituições de maior prestígio do que aquelas nas quais obtiveram seus títulos de doutorado. Os autores da pesquisa também aplicaram o coeficiente de Gini para avaliar desigualdades sociais (em termos de renda anual) entre docentes das três áreas estudadas e chegaram a valores entre 0,62 e 0,76, sendo que 0 corresponde a igualdade estrita e 1 representa desigualdade máxima. Logo, o coeficiente de Gini revelou forte desigualdade social entre as disciplinas contempladas. As maiores desigualdades ocorrem entre docentes de história e as menores acontecem entre profissionais de administração e negócios.
O estudo acima citado coloca em discussão, portanto, as relações entre mérito e prestígio. É claro que as instituições de grande prestígio são responsáveis pelo que há de melhor em termos de produção de conhecimento, o que confere a seus docentes e pesquisadores um evidente mérito. No entanto, se considerarmos a existência de jovens talentosos que não têm acesso a universidades renomadas, a realidade social dos Estados Unidos evidencia que a luta deles para conquistar uma posição de destaque no cenário acadêmico internacional deve ser muito maior do que aquela travada pelas pessoas que contam com maiores facilidades sociais.
Desconheço a existência de estudo semelhante no Brasil. Mas certamente esta é uma pesquisa necessária. Afinal, no que depender de impressões pessoais de muita gente experiente, a realidade de nossa nação não é tão diferente da norte-americana, neste ponto. No entanto, há um agravante no Brasil: a falta de prestígio internacional de nossas instituições de ensino superior.
Exceções como a Universidade de São Paulo (USP) ou o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) não convencem. Isso porque a USP tem perdido prestígio nos últimos anos e o IMPA luta contra a realidade nacional de um dos piores desempenhos do ensino de matemática básica no mundo. Além disso, a atividade científica tem abrangência internacional. Portanto, a luta de um brasileiro para alcançar uma posição de destaque no cenário acadêmico mundial deve ser muito maior do que aquela contemplada por indivíduos que nasceram sob condições socialmente mais vantajosas.
Este é mais um motivo para seguirmos os exemplos daqueles brasileiros que conquistaram considerável destaque no cenário científico mundial. E, honestamente, espero que alguém neste país promova um relatório de oportunidades de emprego na vida acadêmica brasileira como aquele que foi citado nesta postagem. O Brasil precisa conhecer a si mesmo. É o passo mais elementar para tomarmos as decisões certas sobre como aproveitar nossos jovens talentosos e sonhadores.
E então? Por que você mesmo, leitor, não faz pesquisa semelhante para o nosso país? Isso poderia (e deveria) ser relatado em português e em um periódico especializado de circulação nacional. É um raro exemplo de pesquisa dessa natureza. E seria uma contribuição da mais elevada importância para o Brasil.
domingo, 1 de março de 2015
A diferença entre física e filosofia da física
Em função de discussões recentes neste blog, sobre física e filosofia da física, creio que esta seja uma ótima oportunidade para esclarecer, da melhor maneira possível, o que são essas áreas do conhecimento.
Justamente por não existir uma definição rigorosa que caracterize o que é o ramo do conhecimento usualmente chamado de física, a distinção entre física e filosofia da física fica bastante comprometida. No entanto, alguns pontos importantes podem ser salientados para evitar confusões bastante frequentes, principalmente entre aqueles que não têm familiaridade com essas atividades de investigação.
De acordo com a usual visão dicionarizada, a física é o ramo do conhecimento que se ocupa do estudo da matéria, de energia e das interações entre matéria e energia. Essa noção por si só já abre espaço para muita discussão, uma vez que não existe um conceito claro para energia. Cada teoria física, em cada formulação, adota noções específicas sobre o que, afinal, é energia. Até mesmo o conceito de matéria é vago, uma vez que hoje em dia já se fala sobre a suposta existência de uma matéria escura (que pode estar permeando nossa própria galáxia) a qual interage com campos gravitacionais. No entanto, como campos gravitacionais exercem influência sobre matéria (no sentido tradicional da expressão), logo este conceito ainda hipotético atrai a atenção de físicos do mundo todo.
Por que os físicos (indivíduos que desenvolvem a física) adotam uma noção tão vaga quanto a de energia? O motivo é ardiloso e parece remeter a uma necessidade humana de identificação de padrões matemáticos na natureza. Todas as teorias físicas são fundamentadas em princípios de invariância. Se um físico deseja estudar, por exemplo, colisões entre partículas, ele pode assumir que a energia total de um dado sistema de partículas é invariante (não se altera com o passar do tempo), apesar de outras grandezas físicas poderem mudar, como posição, velocidade ou momento linear. Ou seja, um princípio de invariância de energia pode ser adotado quando outros princípios de invariância não podem ser assumidos no contexto de uma dada teoria ou de um modelo que vise explicar um fenômeno físico em particular. Para uma inspirada visão intuitiva sobre o conceito de energia em física teórica, recomendo este link.
O leitor poderia questionar o que é um fenômeno físico. É justamente neste ponto que a física vive hoje em uma armadilha aparentemente criada pelos próprios físicos. De acordo com Karl Popper, famoso filósofo da ciência do século passado, toda teoria científica deve ser falseável. Em outras palavras, teorias científicas devem fazer previsões de risco. Neste contexto, se assumirmos que toda teoria física é uma teoria científica, então toda teoria física deve fazer previsões que possam ser contrastadas com observações ou experimentos realizáveis em laboratório. Se uma teoria física como a gravitação newtoniana prevê que uma pluma e uma bola de chumbo devem chegar ao solo no mesmo instante, quando largados de uma mesma altura, então o físico experimental deve ser capaz de fazer testes em laboratório para corroborar esta previsão. É claro que, para testar tal previsão, o físico experimental precisa realizar essa experiência em condições próximas de ideais (antecipadas pelo físico teórico), nas quais pluma e bola de chumbo não sofrem resistência do ar ou demais interferências. E, é claro, o físico experimental deve estar ciente de que todas as suas medições estão sujeitas a erros. Daí a necessidade do estudo de teoria dos erros, a qual é (em princípio) inerente a toda e qualquer teoria física.
No entanto, a física atingiu nos dias de hoje certos níveis de abstração que desafiam a testabilidade de várias teorias, como a do Big Bang e as de cordas. A teoria do Big Bang se sustenta na tese de que o Universo foi criado bilhões de anos atrás, a partir de uma grande explosão que teria dado origem à matéria e até mesmo ao espaço-tempo. Mas como testar em laboratório a origem do Universo, uma vez que vivemos nele? O Big Bang foi um fenômeno físico? Já as teorias de cordas preveem a existência de dimensões extras (além das quatro dimensões do espaço-tempo antecipadas por outras teorias, como a relatividade geral) que são impossíveis (pelo menos nos dias de hoje) de serem verificadas como existentes ou inexistentes. Até mesmo a detecção do famoso bóson de Higgs (que rendeu o Prêmio Nobel para o seu idealizador) é confirmada apenas por evidências indiretas, sustentadas por muita análise estatística. Ninguém até hoje viu uma partícula (da mesma forma como é possível ver uma maçã) que pudesse ser imediatamente identificada como o bóson de Higgs. Isso ainda não é possível ser feito, sequer em princípio.
Portanto, de duas uma: ou o critério de falseabilidade de Popper, para identificar teorias científicas, precisa de uma severa revisão ou várias teorias físicas (em um sentido social) amplamente estudadas hoje em dia simplesmente não são teorias físicas (em um sentido filosófico). Se existe uma distinção supostamente oficial entre física e filosofia da física (ou, como insistem alguns, entre os objetos de estudos da física e da filosofia da física), tal diferença serve muito mais aos propósitos burocráticos de políticas de financiamento de pesquisas do que aos propósitos de uma legítima e clara diferenciação entre ramos do conhecimento.
Logo, o principal problema para caracterizar o que é uma teoria física reside na decisão de uma postura a ser adotada: devemos entender teorias físicas em um contexto social ou filosófico?
O contexto social é bem mais claro do que o filosófico: teorias físicas são aquelas que rendem publicações em periódicos especializados de alto nível (de acordo com critérios editoriais bem conhecidos) tradicionalmente identificados como publicações de física. Ou seja, é a prática social de pessoas formalmente contratadas como físicos em universidades e institutos de pesquisa que supostamente define o que são teorias físicas.
Já o contexto filosófico é ainda um desafio muito grande. Existem aqueles que defendem que a postura popperiana depende apenas de muito trabalho ao longo de muito tempo para que ideias abstratas de hoje sejam corroboradas no futuro. Existem aqueles que creem que basta uma teoria física ser suficientemente elegante (do ponto de vista teórico) para que seja reconhecida como verdadeira. E existem aqueles que creem que teorias físicas devem apenas salvar as aparências, no sentido de que toda teoria física é quase-verdadeira. Esta última visão contrasta claramente com a postura popperiana.
A postura social para qualificar teorias físicas é, hoje em dia, mais objetiva do que a filosófica. Isso porque a postura social depende da prática de editores e referees, em primeira instância, e de citações e aplicações tecnológicas, em segunda instância. No entanto, ela é altamente questionável. Isso porque podemos facilmente identificar ideias polêmicas publicadas em excelentes periódicos de física. Já a postura filosófica para qualificar o que é uma teoria física tem encontrado uma considerável dificuldade para acompanhar os avanços mais recentes e impactantes publicados nos periódicos de mais alto nível. Ou seja, Popper está ficando para trás, apesar de ser a mais conhecida referência filosófica sobre o que deve ser identificado como uma teoria científica.
Como o estudo de física é uma atividade social (são pessoas e grupos de pessoas que investigam teorias físicas), é natural que a postura social para qualificar teorias físicas seja dominante sobre a filosófica. Ou seja, são os filósofos da física que devem se adaptar às práticas sociais dos físicos e não o contrário. Quem não concordar com esta visão, não tem escolha a não ser se empenhar em uma visão filosófica que seja socialmente aceita pelos físicos. Mas, para que isso ocorra, é ironicamente necessário que o filósofo se renda a uma postura social. Caso contrário, ele jamais será ouvido por físicos. Enquanto a filosofia da física for objeto de estudos apenas de filósofos (e não de físicos) ela jamais merecerá seu nome. Como promover filosofia da física sem contato com a física? Filosofia da física que não seja socialmente recebida por físicos é filosofia do faz-de-conta.
O que é filosofia da física? Tradicionalmente é o estudo do caráter metodológico, epistemológico e ontológico de teorias físicas. Mas nas últimas décadas o papel do filósofo da física tem se modificado para algo novo, além da visão tradicional. Roger Penrose, por exemplo, especulou anos atrás que os únicos fenômenos físicos não computáveis ocorriam apenas em escalas quânticas. Esta especulação, de caráter claramente filosófico, foi baseada na experiência profissional de Penrose, intuitivamente compartilhada por muitos outros físicos. No entanto, da Costa e Doria provaram que a conjectura de Penrose precisava ser melhor qualificada, apresentando exemplos de não-computabilidade em teorias físicas clássicas. Este é um exemplo que sustenta a tese de Max Jammer de que certas especulações filosóficas em física teórica somente podem ser respondidas com o emprego do método axiomático, ou seja, com muita conta. Em contextos como este os papeis do físico e do filósofo da física comumente se confundem. Um físico, no sentido estrito do termo, pode legitimamente desempenhar um papel filosófico em seu trabalho, assim como um filósofo pode efetivamente contribuir para o avanço tanto da física teórica quanto experimental. Um exemplo muito elegante dessa nebulosa fronteira entre física e filosofia da física é a medição sem interação. Um artigo essencialmente especulativo publicado em Foundations of Physics deu origem a técnicas de fotografia nas quais luz jamais incide sobre o objeto fotografado.
Para que uma pessoa promova filosofia da física, é fundamental que ela esteja familiarizada com a contraparte matemática das teorias físicas, mesmo que sua filosofia seja meramente especulativa.
Considere como exemplo a Terceira Lei de Newton. Em linguagem natural costuma-se dizer que a toda força de ação de um corpo A sobre um corpo B corresponde uma força de reação de B em A de mesma direção e intensidade, mas com sentido contrário ao da ação. No entanto, em formulações axiomáticas usuais da mecânica newtoniana não existe qualquer distinção entre uma força de ação e uma de reação. Isso porque ambas as forças atuam em um mesmo instante, não sendo possível estabelecer uma relação de causalidade que diferencie ação de reação, como a linguagem natural sugere. Como o filósofo pode perceber isso se ele especular filosoficamente a partir do que lê apenas em linguagem natural, sem conhecimentos detalhados sobre a matemática empregada em diferentes formulações da mecânica newtoniana?
Todas as teorias físicas desenvolvidas nos últimos dois séculos são fortemente sustentadas por matemática, apesar de serem também alicerçadas por intuições que escapam do domínio matemático. E mesmo físicos experimentais são obrigados a se render à matemática da teoria de probabilidades e técnicas estatísticas. Ou seja, sem matemática não se concebe física, seja teórica ou experimental. Mas insisto: não basta matemática para se desenvolver teorias físicas.
Quando um filósofo especula em linguagem natural a respeito de alguma teoria física, ele naturalmente corre grandes riscos. Isso porque físicos adotam várias práticas contraditórias entre si, apesar de usualmente dependerem de teorias matemáticas clássicas (que supostamente evitam contradições). Há diversos exemplos na literatura especializada:
1) Neste link há uma discussão sobre um trabalho no qual os autores especulam a existência de partículas virtuais no estado de vácuo quântico. No entanto, todas as contas são feitas no escopo de uma teoria de campos e não de partículas.
2) O célebre átomo de Bohr é um modelo físico para a estrutura do átomo que assume pressupostos contraditórios entre si (consegue identificar as contradições?).
3) Em mecânica quântica se emprega teoria de probabilidades para tratar do colapso de estados puros para auto-estados sem que seja explicitada a álgebra de eventos. Ou seja, físicos quânticos adotam probabilidades ou não?
Portanto, a especulação filosófica sobre qualquer teoria física é altamente questionável justamente porque a prática do físico teórico também é. E o perigo da especulação filosófica sobre uma teoria física se torna muito maior quando ela é sustentada por outra especulação filosófica. Esta, aliás, é uma prática indesejavelmente frequente.
É bem conhecido que Ernst Mach especulou filosoficamente sobre a obra de Isaac Newton. Podemos, portanto, especular filosoficamente sobre as especulações de Mach? Esta é uma questão extremamente delicada. Por um lado, Isaac Newton abriu mão de muitas ferramentas matemáticas que ele mesmo criou, ao escrever sua obra máxima Principia, a qual retrata em primeira mão suas ideias que deram origem à mecânica newtoniana. Em segundo lugar, a vaguidade das ideias de Newton deu origem a múltiplas visões sobre o que é, afinal, mecânica newtoniana. Exemplos bem conhecidos são as formulações de McKinsey-Sugar-Suppes, Noll e Arnol'd que, por sinal, não são equivalentes entre si. Em terceiro lugar, as críticas de Mach sobre o conceito de inércia na obra de Newton também deram origem a múltiplas visões teóricas. Exemplos são as formulações de Assis e Sant'Anna-Maia, as quais são contraditórias entre si. Portanto, como especular sobre um especulador? Só existe uma maneira para fazer isso: com muito cuidado.
Se alguém deseja criticar (em linguagem natural) parte da obra de Newton, usando como referência Mach, deve deixar claro sobre o que está especulando. Isso porque esse tipo de atividade filosófica não recai apenas sobre uma teoria física, mas sobre uma visão histórica e parcial de uma teoria física que não atende aos conceitos atuais de rigor científico. Para que se especule filosoficamente sobre uma visão machiana da obra de Newton, é necessário que se leia com extremo cuidado tanto a obra original de Mach quanto a de Newton. E como fazer isso sem conhecimentos profundos de alemão e latim? Se se pretende resgatar uma visão histórica, o conhecimento desses idiomas é imprescindível.
Se, porém, o objetivo é filosofar sobre uma interpretação específica e usual da visão machiana sobre inércia, não há necessidade da leitura do texto original de Mach (apesar de ser evidentemente desejável). Mas há a necessidade da leitura do texto original que aponta para aquela interpretação específica, com a devida citação, seja em artigo técnico (formal) ou de divulgação (informal).
Cito um exemplo. Clovis Maia e eu publicamos um artigo no qual mostramos que uma conjectura de Andre Assis sobre inércia precisava ser melhor qualificada. Segundo Assis, a gravitação newtoniana (no sentido atual) é incompatível com a explicação da inércia dos corpos a partir de uma casca esférica com distribuição isotrópica de massa. O que Maia e eu fizemos foi mostrar que uma fórmula de gravitação com a mesma forma da newtoniana é compatível com um princípio de inércia baseado em uma casca esférica com distribuição isotrópica de massa, à qual Assis se refere como Princípio de Mach. Ou seja, fizemos um trabalho a partir de certas ideias de Assis e não de Mach. O que Assis afirma categoricamente sobre Mach é questionável. E o que Assis afirma categoricamente sobre sua própria visão a respeito de inércia também é altamente questionável.
Trabalho semelhante fiz sobre uma conjectura altamente especulativa do filósofo Nick Huggett.
A filosofia da ciência que consigo praticar, por conta de limitações pessoais, é aquela que envolve contas. Admito que tenho extrema dificuldade para lidar com filosofia especulativa. Mas essa dificuldade decorre do fato de que a filosofia especulativa demanda uma profundidade de conhecimentos que é muito mais rara do que usualmente se pensa. Não creio que exista no Brasil algum filósofo da física (ou qualquer outra pessoa) que consiga especular com responsabilidade sobre a obra de Isaac Newton, sem fazer confusões de contextos social, histórico, epistemológico, metodológico e ontológico. Para que uma especulação séria fosse feita, seria necessário um profundo conhecimento dos textos originais de Newton, do contexto histórico em que Newton produziu suas ideias, dos textos originais de seus mais conhecidos críticos e dos textos originais que traduziram matematicamente as ideias deste grande físico britânico ao longo dos séculos. Isso porque a obra original de Newton ramificou-se de uma maneira excepcional. Ignorar essas ramificações em um trabalho exegético sobre a obra de Newton se qualifica, na melhor das hipóteses, como uma análise histórica e não filosófica. Grandes mentes perceberam a obra de Newton de múltiplas formas. E é isso que faz de Newton uma das mais brilhantes mentes que já existiram. Sua obra transcendeu a qualquer expectativa que o próprio Newton poderia ter.
Uma das mais perigosas práticas dos filósofos da física de hoje é a persistente publicação de artigos escritos a duas mãos. Para que a filosofia da física atinja os níveis de excelência que teve no passado, é necessária a colaboração, a parceria. Teorias físicas antigas e consagradas ramificaram-se de múltiplas formas. Teorias físicas novas demandam conhecimentos matemáticos de extraordinária sofisticação. Quem consegue dominar múltiplos idiomas, história, sociologia, matemática, física teórica, física experimental e filosofia, para que possa especular filosoficamente sobre teorias físicas ou, pior, sobre teorias físicas antigas? Sem diálogo real entre especialistas de diferentes áreas, o filósofo da física está praticamente condenado a um mundo no qual se confunde especulação filosófica, científica e histórica com fantasia e devaneios. Aliás, um exemplo bem conhecido disso aconteceu surpreendentemente com o próprio Popper.
Em uma palestra realizada na Itália, Popper defendeu ser possível a comunicação instantânea entre dois indivíduos, supostamente usando um princípio de não-localidade da mecânica quântica. Gian Carlo Ghirardi mostrou a Popper, na lousa, que essa ideia simplesmente não funciona. Popper teria respondido: "Não entendo as suas contas, mas eu sinto que isso funciona." Essa história está reportada neste livro.
Se uma mente brilhante como a de Popper conseguiu cometer erro tão primário, quem é capaz de se julgar como um especulador infalível?
Escrevi esta postagem em virtude de manifestações recentes e eventualmente convulsivas de Olavo de Carvalho e de alguns bizarros seguidores a respeito de uma postagem minha neste blog. Pois bem, segundo Carvalho, ser filósofo é "acreditar piamente na capacidade humana de compreender a realidade e apostar a vida nessa crença." Já Bertrand Russell afirmou algo completamente diferente: "Eu jamais morreria pelas minhas crenças, pois eu poderia estar enganado." Por que esta posição de Russell? Porque este sim foi um filósofo.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Refinando discussões sobre meritocracia - Parte I
Um assunto recorrente neste blog é a questão da meritocracia em universidades públicas, com especial ênfase nas instituições federais de ensino superior (IFES). É claro que discussões sobre este tema jamais podem ser realizadas sem a definição de políticas pedagógicas e científicas claras, algo que não existe (e nem pode existir, por enquanto) nas IFES. Por isso fortemente recomendo ao leitor a comparação entre a discussão que segue abaixo e o texto escrito com exclusividade para este blog pelo matemático Steven Krantz. Esta é a primeira parte de uma sequência de postagens que visam tratar de aspectos específicos do problema da meritocracia no ensino superior em nosso país.
O texto abaixo é de autoria de Fabiano R. de Melo, Professor Associado do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás e Vice-Presidente Regional para o Brasil e Guianas do Primate Specialist Group, Species Survival Comission, IUCN.
O que Melo coloca em seu excelente texto é um ponto de vista que certamente não pode ser ignorado em discussões responsáveis sobre políticas meritocráticas em universidades públicas, apesar de eu discordar de sua visão sobre órgãos de fomento à pesquisa em nossa nação.
Desejo a todos uma leitura crítica.
______________
O que é meritocracia nas universidades federais no Brasil?
de Fabiano R. de Melo
Os mecanismos para avaliar o mérito de um professor concursado em uma instituição de ensino superior no Brasil, ainda que em praticamente todas as áreas do conhecimento sejam hoje fortemente dependentes de um sistema baseado em quantidade de artigos produzidos, com uma forte associação ao fator de impacto desses artigos (IF), devem gerar uma mensuração robusta desse mérito. De fato, o uso da produção bibliográfica como critério preponderante constitui um importante indicador de mérito, e ainda que eu concorde plenamente que ele seja a força motriz de qualquer universidade, não posso descartar a inclusão de critérios mais abrangentes na análise final do que cada professor, dentro do seu contexto e realidade de trabalho, consegue obter, para daí sim, considerar o mérito e poder avaliar o resultado obtido entre os pares.
Portanto, reafirmo e concordo em dizer que produzir bons artigos a partir de ideias e hipóteses, especialmente aqueles de maior impacto (1), é a espinha dorsal dessa mensuração de mérito. Porém, minha intenção aqui é considerar ou reforçar a necessidade de se incluir outras atividades na vida acadêmica de um professor de uma IFES que podem e devem ser incorporados ao processo de avaliação. Entendo que, como bom medidor que é, possuir artigos com alto fator de impacto e delimitar isso como ponto de corte, é justo e bastante confiável, pois mantém sempre a "competição" saudável entre os pares (realidade que vivenciamos hoje pela CAPES, CNPq e FAPs para concessão de bolsas produtividade, obtenção de recursos para projetos etc.). Neste quesito, tenho tentado sobreviver ao processo de enquadramento vigente no país, com publicações de artigos completos em periódicos indexados, livros e capítulos de livros, ainda que de forma regular para a minha grande área e sem vínculo direto com o fator de impacto alcançado. Porém, para entender o discurso que me proponho, é fundamental fazer uma resenha dos meus últimos seis anos e meio como professor universitário.
Pensando apenas em números, desde 2006, consegui publicar 15 artigos completos, 16 capítulos de livros, editei 3 coletâneas (entre livros e anais de congressos), publiquei 97 resumos, entre simples, expandidos e/ou completos, trabalhei em 15 diferentes projetos técnicos envolvendo assessoria/consultoria, revisei pelo menos uma centena de artigos científicos, orientei ou co-orientei 09 estudantes de mestrado e 02 de doutorado, 01 de pós-doutorado, 37 alunos de monografia/iniciação científica (PIBIC ou voluntária), participei de 71 eventos (entre locais, regionais, nacionais e internacionais), organizei diretamente pelo menos 07 grandes eventos ou cursos de capacitação (regionais ou nacionais), participei de pelo menos 42 bancas de defesas (entre graduação e pós-graduação) e pelo menos 05 bancas de concursos públicos. Tive até pouco tempo atrás (nos casos de projetos encerrados) e tenho participação direta em cerca de 30 projetos de pesquisa, entre alguns de extensão, nesse período de 6 anos, incluindo pelo menos 2/3 deles com financiamento de diversas agências regionais, nacionais e internacionais. Isso significa escrever dezenas de propostas (incluindo orçamentárias) para conseguir recursos e depois, escrever mais dezenas de relatórios (técnicos e financeiros) e muitos dias de campo por ano, fora das salas de aula ou de seu ambiente de universidade para se treinar seus alunos e coletar seus dados.
Agora, pensando em outros pontos a serem mensurados e, claro, concursado que sou desde 2006, em pleno período de expansão das universidades e de formatação do que ficou conhecido como REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), tenho lecionado até 14 horas aula/semana/semestre, incluindo graduação e pós-graduação. Isso se deve, basicamente, por falta de quadro técnico adequado (das vagas prometidas do REUNI, muitas não foram concedidas e o acordado seria que cada professor deveria assumir uma carga mínima de entre 8 e 12 horas semanais, ao se preconizar uma média de 18 alunos por professor), ou por desejo próprio (por que não?). Porém, acaba que esse processo nos massifica como professores ao nos tomar um grande tempo em sala de aula. E quando digo "desejo próprio", é porque podemos e devemos gostar de questões políticas que nos cercam, ao participarmos de comissões e diversos cargos administrativos disponíveis. Cargos que, inclusive, já assumi como vice-coordenador de curso de graduação (01 ano) e de pós-graduação (02 anos), além de ter assumido a assessoria de pesquisa e pós-graduação do campus que estou vinculado (04 anos), sendo que, diga-se de passagem, em nenhum caso tive remuneração ou função gratificada.
Como se não bastasse, participo ativamente de nossas entidades representativas, como sociedades (no meu caso dentro da grande área de Biodiversidade). Assumi a presidência da Sociedade Brasileira de Primatologia no biênio 2005-2007, desde então colaboro revezando entre diretoria e conselho. Sou sócio ativo da Sociedade Brasileira de Mastozoologia e participei por 02 anos do Fórum de Sociedades afins à Zoologia. Desde 2001, colaboro com pelo menos 03 Organizações Não-Governamentais, onde exerço papel ininterrupto na diretoria de uma delas e divido a coordenação, em nível nacional, de um grupo de especialistas em primatologia desde 2010. Tenho participado sistematicamente de reuniões técnicas promovidas pelos distintos órgãos governamentais no âmbito do Ministério do Meio Ambiente – MMA (IBAMA e ICMBio), seja para discutirmos sobre listas de espécies da fauna ameaçadas de extinção, ou para propor a criação de novas Unidades de Conservação (UCs), ou ainda, planejar ações sistematizadas de manejo de espécies ameaçadas. Isso representa dezenas de dias fora de meu ambiente de trabalho e algumas milhares de horas em reuniões longas e, felizmente, muito produtivas. Como mencionado acima, já auxiliei na organização de eventos paralelos (extra-IFES), seja coordenando o evento em si ou abrigando simpósios, palestras ou mesas-redondas, nestes casos, dentro dos congressos nacionais ou regionais ou ainda, coordenando cursos de capacitação de alunos para uma determinada área do conhecimento. Já contribui de forma expressiva na organização de atividades com as secretarias municipais ou estaduais de meio ambiente, auxiliando programas de fiscalização, até mesmo em âmbito federal (IBAMA), estadual (secretárias de meio ambiente dos estados que tenho colaborado, como Goiás e Minas Gerais) ou local (polícia ambiental de cidades onde trabalhei), emitindo dezenas de laudos técnicos, participando de ações de combate e fiscalização in loco por dezenas de vezes.
Enfim, isso só para lembrar do que eu, como professor de uma IFES, consigo fazer. Entendo que meu contrato de trabalho não prevê tudo isso, mas como cidadão responsável, sinto-me bastante orgulhoso de conseguir realizar esse leque de atividades. Provocado recentemente (2), de forma extremamente lúcida e objetiva, senti-me impelido a fazer este meu apontamento, indagando: o que é meritocracia nas universidades federais no Brasil?
1- Seria publicar na Nature ou na Science (revistas de topo para qualquer cientista, principalmente, dentro das áreas de Exatas e Biológicas) e ganhar uma cátedra vitalícia ou um prêmio Nobel?
2- Ou, tentar fazer isso de forma mais criteriosa? Neste caso, claro, respeitando o ponto de corte de publicações, mas mesclando ao ranquear, de forma direta, com uma produção bibliográfica e técnica mais difusa, porém, diretamente alinhada com outras questões mais prementes da sociedade que nos cerca.
Entendo que a posição 2, por se tratar de uma posição mais complexa, fatalmente será discutida, debatida e melhorada. Mas como ator e multiplicador que sou, ao atuar em diversas frentes de batalha (representando a minha IFES), especialmente quando considero que auxilio de forma substancial e direta na formação de alunos como cidadãos conscientes, ao aproximar a universidade do grande público que a sustenta (pagando onerosos impostos), que é a nossa sociedade, não tenho dúvida que devemos repensar nossos caminhos.
Até porque entendo que, fazendo isso, estou próximo dos problemas da vida real, do cotidiano e, mesmo que isso não me leve a um artigo de excelência, pelo menos garante um dos pilares da nossa universidade, que é a pluralidade de funções, pensamentos e discussões.
Não quero levar aqui a uma discussão simplista (apesar do tema ser bastante relevante), de que estaria promovendo a Slow Science (3,4), até porque considero minha vida acadêmica extremamente agitada e em nada aproximo-me dessa filosofia. Entendo e considero importante mantermos um ritmo acelerado de publicações (5), em todas as áreas do conhecimento, para aprofundarmos nosso conhecimento, gerar ciência de qualidade e elevar o status quo do Brasil com uma alta competitividade de produção. Até porque, infelizmente, o Brasil tem produzido uma quantidade maior de artigos, mas cada vez com menor fator de impacto (1). O que não é um privilégio nosso, quando percebemos que essa esfera de discussão está tomando dimensões globalizadas (3,4).
Enfim, fica minha análise um pouco mais aprofundada, do que entendo por meritocracia institucional, de forma que possamos ser, pelo menos, mais cuidadosos e criteriosos para avançar em uma discussão tão importante. Discussão essa que pode não só envolver, por exemplo, política institucional, como estabilidade do cargo do servidor público nas IFES, quanto questões bem mais amplas, complexas e sérias, como o avanço da ciência. Até porque temos uma imensa responsabilidade em auxiliar a nossa sociedade em se deslocar pensando num futuro melhor, ao compreender e conhecer melhor o mundo em que vivemos, sabendo e utilizando de forma sempre mais coerente esse conhecimento e, em última instância, ampliando a qualidade de vida de todos nós.
Lembrando que o mérito mensurado não é só meu, mas incluiu, nesse tempo, pelo menos 90 colaboradores diretos e indiretos, entre parceiros e colegas de trabalho institucionais, estudantes, pesquisadores etc. Afinal de contas, estamos falando de UNIVERSIDADE, ou será que eu fiz o concurso errado?
(1) Wainer, J. 2012. A crescente irrelevância da ciência brasileira? JC, e-mail 4577, de 05 de Setembro de 2012. Jornal da Ciência – SBPC.
(2) Sant’Anna, A. 2013. Ciência e Educação (de qualidade) são a Base da Esperança. Scientific American do Brasil 129.
(3) Fischer, J., Ritchie, E. R. & Hanspach, J. 2012. Academia’s obsession with quantity. Trends in Ecology and Evolution 27 (9): 473-472.
(4) Lutz, J. F. 2012. Slow Science. Nature Chemistry 4: 588-589.
(5) Loyola, R. D., Diniz-Filho, J. A. F. & Bini, L. M. 2012. Obsession with quantity: a view from the south. Trends in Ecology and Evolution 27 (11): 585.
Filosofia para crianças... no Brasil
Semanas atrás publiquei neste blog uma postagem sobre estudos recentes do ato de filosofar entre crianças. Há, claro, quem considera que crianças são incapazes de filosofar, confundindo de maneira dogmática a filosofia promovida por experientes profissionais com os primeiros passos para o ingresso no mundo da especulação filosófica. Se crianças não são intelectualmente maduras o bastante para compreender os axiomas de Peano para a aritmética, isso não deve impedi-las de aprender noções intuitivas sobre como contar e somar números naturais. Analogamente, se crianças não são maduras o bastante para discutir sobre modalidades no estoicismo, isso não deve impedi-las de especular sobre aquilo que elas julgam ser possível ou não no mundo em que vivem.
Motivado pela postagem acima citada, Gilson Maicá escreveu o excelente texto que segue abaixo, no qual aborda experiências pessoais e profissionais sobre filosofia no ensino básico, bem como uma visão histórica e pedagógica sobre o desenvolvimento e o ensino de filosofia.
Maicá é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina e professor de escola pública no Paraná.
Desejo a todos uma leitura crítica.
_____________
Filosofia e ensino de filosofia: uma perspectiva terapêutica
contra dogmatismos ingênuos
de Gilson Maicá
“A nossa educação é uma barbaridade. No Brasil, o aluno que consegue chegar ao fim do curso médio ou superior deve ser considerado um herói, visto que tudo concorre contra ele. Falta infraestrutura, os professores são despreparados e o modelo pedagógico, com raríssimas exceções, privilegia a decoreba em detrimento da reflexão”
Newton da Costa
É comum que alunos perguntem ao professor de Filosofia, quando do primeiro contato com a disciplina, sobre o que é a Filosofia ou do que trata e, pior ainda, sobre sua utilidade. Isso é usual mesmo na graduação! Naturalmente, este tipo de questão pressupõe que eles sabem, por exemplo, o que é a Matemática, a Ciência ou a Arte e qual sua utilidade. A resposta mais honesta, e que tenho dado ao longo dos anos, é que não é possível dar uma resposta sensata a estas e muitas outras questões relacionadas à Filosofia. De fato, costumo dizer que não sei o que é Filosofia. O máximo que um professor de Filosofia, razoavelmente preparado, pode fazer é uma caracterização da Filosofia que, ao final, parecerá muito mais uma caricatura do que propriamente um retrato. Costumo, em especial na graduação, distinguir duas posturas que acredito que representem de alguma maneira dois modos de encarar a Filosofia e sua função no quadro geral do saber:
(1) A primeira, uma postura que chamo de perspectiva socrática. De acordo com este ponto de vista, que tem implicações significativas sobre a didática desta disciplina, a Filosofia não tem por finalidade produzir qualquer tipo de conhecimento, não cabe ao filósofo teorizar nem sobre os fenômenos naturais, nem sobre os fenômenos humanos. O papel da Filosofia consiste numa espécie de atividade terapêutica contra o engessamento da consciência em dogmatismos, ou a pretensão de um saber definitivo. A Filosofia, neste sentido, se confunde mesmo com a análise crítica de conceitos, das crenças e pressupostos teóricos.
(2) A segunda postura, que chamo de perspectiva platônico-aristotélica, admite que cabe à Filosofia teorizar e produzir conhecimentos. Mas sobre o que? Não sobre a natureza ou a cultura e a sociedade, já que isso é papel das Ciências especiais. É quase certo que, de início, a Filosofia envolvia em certa acepção toda uma gama de saberes; mas foi se esvaziando de seu conteúdo com o nascimento da Ciência moderna. Para alguns pensadores do início do século XX, a Filosofia podia parecer uma floresta muito fértil que se transformou no mais árido dos desertos. Mas ainda resta alguma coisa à Filosofia, em especial no que diz respeito à teoria do conhecimento, em particular a Teoria da Ciência (Epistemologia), a Metafísica e a Ética. De qualquer forma, vale notar que nestas áreas em que a Filosofia ainda teoriza, não o faz de modo significativo sem as contribuições da Ciência. Não me parece produtivo em nossos dias fazer, por exemplo, Metafísica sem levar em conta os desenvolvimentos da Física moderna, ou fazer Filosofia da Lógica sem ter conhecimentos muito refinados em certas áreas da Matemática. A teoria do conhecimento não está imune às descobertas das neurociências. O problema é que muitos filósofos, em especial no Brasil, não estão preocupados com as contribuições da Ciência, ou simplesmente as desconhecem, e acabam se limitando à História da Filosofia e à exegese de autores do passado, o que tem profundas implicações sobre o ensino de Filosofia. No último congresso da ANPOF, que tive a oportunidade de participar, pelo menos 80% das comunicações eram de caráter exegético.
Seria então possível, de modo sensato e significativo, abordar questões filosóficas, ou mesmo teorias filosóficas, com crianças do ensino básico? Nossa resposta à questão é afirmativa, a despeito das gigantescas dificuldades que envolve tal empreitada, não apenas para o Estado, mas sobretudo para o professor de Filosofia.
Uma boa introdução à Filosofia, pelo menos de nosso ponto de vista, não começa explicando o que é a Filosofia, do que trata, sua finalidade, ou ainda, apresentando um conjunto de teorias filosóficas, por vezes ultrapassadas, sobre qualquer tema filosófico, como ocorre usualmente em enfadonhos manuais desta disciplina. Particularmente no ensino básico, é muito mais produtivo partir de algumas questões fundamentais, por exemplo, aquelas ligadas à Epistemologia, à Metafísica, ou à Ética, não apresentando respostas, mas incitando os alunos a buscarem suas próprias respostas, que só num segundo momento podem ser confrontadas com a tradição filosófica e científica. Por exemplo, como podemos saber algo? Seria lícito mentir? Existem princípios universalmente válidos de como devemos agir? O que há (ou existe)? Números existem? O que as palavras representam? É comum que crianças e adolescentes já cheguem nas escolas imbuídos de uma série de crenças e preconceitos. E cabe à Filosofia, como referencial do pensamento crítico, “jogar a serpente no paraíso” destes estudantes. Sustentamos que uma filosofia que não cause desassossego, não é efetivamente filosofia! Não se trata, contudo, de apenas levantar questões, mas de promover uma busca dialética de soluções e fomentar o embate de ideias. Talvez este seja o grande desafio da Filosofia no ensino fundamental.
Gostaria de concluir estas notas apresentando três casos em que questões filosóficas foram propostas para adolescentes (e crianças). Nenhum fictício!
Caso 01: Este primeiro caso foi-me relatado pelo Professor Newton da Costa, provavelmente um dos mais renomados filósofos brasileiros da atualidade, muito citado neste blog. Segundo da Costa, quando jovem, seu tio e professor de filosofia Milton Carneiro, o chamou e disse que iria lhe ensinar a filosofar (a rigor não se pode ensinar Filosofia). Então, indagou ao jovem Newton se ele podia provar sua própria existência. Newton acreditava que sua própria existência era um fato irretorquível, porém, depois da conversa com seu tio percebeu, segundo ele, que a prova disso não era uma tarefa tão fácil. De acordo com o próprio Newton, as conversas “filosóficas” com seu tio o marcaram profundamente. Newton da Costa tinha por volta de 15 anos quando recebeu de seu tio um exemplar, em francês, do Discurso do Método, livro que, segundo ele, guarda até hoje. Esta é uma daquelas questões que não costumo deixar de lado em minhas aulas de Filosofia. Uma espécie de desafio cartesiano!
Caso 02: Há alguns anos dei início a um curso de Filosofia para os alunos do 6º ano com as seguintes questões: (1) o mundo realmente existe quando não o estamos observando? Será que quando ninguém está olhando, uma árvore no meio da Floresta Amazônica, realmente existe? (2) Quando é que podemos dizer que sabemos alguma coisa, e para que serve o saber? Essas duas questões renderam três meses de aulas. Ao final do período pedi que os alunos produzissem algum texto sobre o tema. A produção de alguns alunos foi realmente recompensadora. Naturalmente estes são problemas da filosofia ligados ao realismo e antirrealismo, à epistemologia e à Filosofia da Ciência, que podem ser discutidos, dentro de certos limites, até mesmo por alunos que estão no início da vida escolar. Uma aluna em particular me surpreendeu com um texto, em que argumentava por que Deus não poderia existir, embora, não tenha tratado diretamente nas aulas da questão da existência ou não de Deus.
Caso 03: Recentemente eu estava sozinho em casa, quando meu sobrinho entrou na porta e perguntou: tem alguém aí? Respondi imediatamente: não, não tem ninguém aqui! Então ele gritou lá da sala: mas como estou ouvindo sua voz? Então eu disse que era apenas uma gravação programada para responder a qualquer pergunta. Na dúvida ele veio até a cozinha para confirmar (crianças não têm as certezas de um adulto!), e me disse: mas eu agora estou vendo você! Então respondi que não, que ele não estava vendo o tio dele, mas um clone que fazia o almoço enquanto o verdadeiro tio Gilson trabalhava, idêntico em tudo ao tio Gilson. Como ele poderia saber que eu não era de fato um clone, perguntei? Então me respondeu que não poderia saber, pois eu era igualzinho ao tio. Em seguida, com um sorriso me disse que eu era o tio dele, pois não tinha nada de diferente entre o clone do tio e o próprio tio Gilson. Foi, enfim, uma conversa de alguns minutos sobre as noções de identidade e indiscernibilidade com um garoto de quatro anos e meio. Ele saiu correndo e, depois de alguns minutos, voltou me dizendo que ele não era o Henrique, mas o clone de meu sobrinho. Então me perguntou como eu poderia saber se ele era ou não meu sobrinho. Provavelmente ele esperava de minha parte uma resposta sobre o problema anteriormente discutido. Então, lhe disse que não poderia saber se ele era ou não o Henrique, que não tinha uma resposta definitiva sobre o assunto, mas que ele poderia pensar no caso. O problema da identidade é um dos temas recorrentes da Filosofia que procuro abordar em minhas aulas no fundamental.
Estes e outros casos semelhantes deveriam fazer parte do cotidiano escolar, ou seja, não só o professor de filosofia deve promover a dúvida e a reflexão, fazendo com que os alunos pensem por si mesmos.
Para concluir, certa vez comentei em sala, logo após uma aula de matemática, que poderia provar aos alunos que nem sempre 1+1=2, isto é, que poderíamos ter uma matemática, embora estranha e muito diferente, perfeitamente consequente em si mesma. A aula foi acalorada, pois estava pondo em xeque uma “certeza indubitável”. No intervalo, meu colega e amigo, o professor de matemática, me disse que eu queria confundir os alunos e destruir o que ele e outros colegas estavam pretendendo ensinar. Respondi simplesmente que sim!
Ah! Não posso deixar de confessar que, por vezes, costumo subornar meus alunos com um pirulito!
Ciência, Tecnologia e Inovação na UFPR
Mecânica quântica é uma teoria física que antecipa fenômenos bizarros, pelo menos do ponto de vista de intuições comuns à maioria das pessoas e sustentadas por experiências pessoais do cotidiano. Entre esses fenômenos há fótons que aparentemente seguem dois caminhos ao mesmo tempo, gatos teóricos que estão simultaneamente vivos e mortos e partículas que parecem interagir entre si, desrespeitando noções usuais de causalidade. No entanto, sem mecânica quântica não haveria o transistor e, consequentemente, não existiria o computador pessoal. Também não existiria o laser e, consequentemente, não haveria a tecnologia Blu-Ray. Para detalhes sobre os inúmeros avanços tecnológicos e inovações consequentes de aplicações da mecânica quântica, recomendo o excelente livro de divulgação científica The Amazing Story of Quantum Mechanics, de James Kakalios.
Outras teorias científicas básicas deram origem a significativos avanços tecnológicos que beneficiam sociedades inteiras. E o estudo deste ramo da sociologia é de grande interesse no mundo de hoje.
Sem ciência, não há tecnologia. E sem tecnologia, não há inovação. Porém, nos dias de hoje as relações entre ciência, tecnologia e inovação são extremamente complexas. Há inúmeros exemplos de avanços científicos consequentes do uso de inovações tecnológicas. Apenas para citar um exemplo, lembro aqui do recente caso do emprego de vídeos do YouTube para avaliação de desempenho de um software que aprende a reconhecer imagens sem intervenção humana. Essa investigação tem viabilizado novas visões sobre pesquisas básicas em inteligência artificial. Portanto, as relações entre ciência, tecnologia e inovação formam hoje uma rede social de grande impacto para a humanidade.
E de que forma uma instituição brasileira e pública como a Universidade Federal do Paraná (UFPR) se integra neste ambiente mundial de ciência, tecnologia e inovação?
De acordo com o Jornal Comunicação, a UFPR obteve sua primeira patente científica apenas em 2013. Isso aconteceu apesar de a Lei de Inovação Tecnológica ter sido instituída em 2004 pelo Governo Federal, com o propósito de estimular o patenteamento universitário em nosso país. Um dos grandes entraves no processo de patenteamento, que pode envolver universidades, institutos tecnológicos e empresas, é a burocracia. O tempo de espera para a decisão final pode demorar até dez anos. Outro problema, mais grave ainda, é a falta de sintonia de nossos professores universitários com realidades externas ao microcosmo acadêmico brasileiro.
Neste meio tempo o Brasil fica obviamente para trás dos países com tradição científica e tecnológica.
Uso aqui o exemplo da UFPR para ilustrar o problema da interface entre ciência, tecnologia e inovação por dois motivos: em primeiro lugar, sou professor de matemática na UFPR e, em segundo, a UFPR está entre as universidades brasileiras que se destacam em termos de número de depósitos de patentes. Ou seja, nosso país definitivamente não faz parte da rede social mundial que impulsiona inovações.
Em função do quadro exposto acima, convidei o professor Alexandre Moraes para conceder uma entrevista ao blog Matemática e Sociedade. Moraes é Coordenador de Propriedade Intelectual da Agência de Inovação da UFPR. A entrevista foi feita por intermédio de Franciele Klosowski, Secretária Executiva da Agência. Lamentavelmente as respostas de Moraes foram sucintas demais. Mesmo assim elas revelam a dura realidade de que professores da UFPR praticamente desconhecem o mundo no qual aquela instituição está imersa. E, além disso, empresários também carecem de visão inovadora. O Brasil é um arquipélago social, no qual professores universitários têm pouco contato com realidades extremamente importantes que existem além dos muros das instituições onde trabalham e empresários ignoram o considerável impacto sócio-econômico do empreendedorismo inovador.
Segue abaixo a lista de perguntas do blog Matemática e Sociedade (MeS) e as respectivas respostas de Alexandre Moraes (AM):
MeS: Qual é o perfil daqueles que procuram a Agência de Inovação da UFPR? E qual é o perfil daqueles que têm real potencial para serem beneficiados por esta agência?
AM: Professores, alunos, equipes de laboratório, grupos de pesquisa que realizam pesquisa aplicada e vinculados da UFPR com perfil empreendedor com interesse em incubação de empresas.
MeS: Quando foi criada a Agência de Inovação da UFPR e como tem sido a sua evolução até o presente momento?
AM: Criada em 2008, apresenta um processo de evolução nos anos seguintes, principalmente após o ano de 2011.
MeS: Quais foram as principais vitórias e os principais fracassos da Agência de Inovação da UFPR?
AM: As principais vitórias foram o aumento do número de pedidos de patente, contratos de transferência de tecnologia e empresas incubadas. Destacamos também a melhoria dos processos internos e a participação da UFPR no sistema de inovação do Paraná, por meio de diversas ações em conjunto com outras instituições.
A principal derrota foi não conseguir, até o presente momento, a melhoria das condições de trabalho planejadas e a insuficiência de elementos na equipe para o desenvolvimento pleno da Agência de Inovação UFPR.
MeS: Existe algum acompanhamento do progresso das empresas incubadas? Como se faz este acompanhamento?
AM: As empresas incubadas são acompanhadas por meio de reuniões periódicas entre o Coordenador de Empreendedorismo e Incubação de Empresas nas quais discutem-se os avanços e dificuldades para o desenvolvimento das empresas. Além disso, há também, o acompanhamento por relatórios semestrais que os gestores das incubadas encaminham à Coordenação.
MeS: Quais são os principais obstáculos na criação de parcerias entre a UFPR e empresas da iniciativa privada?
AM: Acredito que o principal obstáculo seja a falta de conhecimento por parte dos envolvidos. A burocracia existe e é essencial para a legitimação do processo, principalmente quando uma das partes é uma instituição pública. A falta de conhecimento sobre o processo administrativo por parte dos pesquisadores e empresas ocasiona atrasos por erros cometidos durante as tramitações nas unidades competentes. Esses erros e atrasos fragilizam a relação. São exemplos da falta de conhecimento: falta de documentos, informações não objetivas e esclarecimentos não prestados, falta de entendimento jurídico das regras da administração pública por parte do corpo jurídico das empresas, falta de conhecimento do processo administrativo por parte do pesquisador responsável pela montagem do processo.
Deus e a lógica do CNPq
Está agendado para o período de 1.o a 5 de abril deste ano o Primeiro Congresso Mundial Sobre Lógica e Religião, organizado por Jean-Yves Béziau, Itala D'Ottaviano e pela colaboradora do blog Matemática e Sociedade Maria Espindola, entre outros. A proposta é reunir cerca de duzentas pessoas de diferentes partes do mundo para discutir sobre as relações entre lógica e religião. Entre os conferencistas há especialistas em cristianismo, islamismo, hinduísmo, judaísmo, budismo e zoroastrismo, além de lógicos, matemáticos e filósofos. O comitê científico conta com nomes importantes do Brasil, Noruega, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Canadá, França, Vaticano, Rússia e Holanda, incluindo o ganhador da Medalha Fields Laurent Lafforgue.
Como este evento deverá ser realizado em nosso país (terra que o lógico francês Béziau adotou para seguir sua brilhante carreira), foi solicitado apoio financeiro do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). No entanto, o CNPq negou de forma arbitrária e sem transparência o pedido de apoio.
Logo, escrevo esta postagem para solicitar a todos os interessados ampla divulgação desta postagem e desde link.
Órgãos de suporte acadêmico como o CNPq têm demonstrado em várias ocasiões ranços políticos extremamente prejudiciais para o desenvolvimento de ciência e filosofia em nosso país. Não podemos mais permitir que o desenvolvimento científico e filosófico brasileiro seja dominado por burocratas sem sintonia com a realidade acadêmica mundial. Chega de isolamento!
Assinar:
Postagens (Atom)






