sábado, 28 de fevereiro de 2015
Deus e a lógica do CNPq
Está agendado para o período de 1.o a 5 de abril deste ano o Primeiro Congresso Mundial Sobre Lógica e Religião, organizado por Jean-Yves Béziau, Itala D'Ottaviano e pela colaboradora do blog Matemática e Sociedade Maria Espindola, entre outros. A proposta é reunir cerca de duzentas pessoas de diferentes partes do mundo para discutir sobre as relações entre lógica e religião. Entre os conferencistas há especialistas em cristianismo, islamismo, hinduísmo, judaísmo, budismo e zoroastrismo, além de lógicos, matemáticos e filósofos. O comitê científico conta com nomes importantes do Brasil, Noruega, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Canadá, França, Vaticano, Rússia e Holanda, incluindo o ganhador da Medalha Fields Laurent Lafforgue.
Como este evento deverá ser realizado em nosso país (terra que o lógico francês Béziau adotou para seguir sua brilhante carreira), foi solicitado apoio financeiro do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). No entanto, o CNPq negou de forma arbitrária e sem transparência o pedido de apoio.
Logo, escrevo esta postagem para solicitar a todos os interessados ampla divulgação desta postagem e desde link.
Órgãos de suporte acadêmico como o CNPq têm demonstrado em várias ocasiões ranços políticos extremamente prejudiciais para o desenvolvimento de ciência e filosofia em nosso país. Não podemos mais permitir que o desenvolvimento científico e filosófico brasileiro seja dominado por burocratas sem sintonia com a realidade acadêmica mundial. Chega de isolamento!
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Como seguir uma carreira de pesquisador
Este texto é destinado principalmente aos jovens que querem iniciar carreira científica.
Se minha memória não falha, certa vez alguém perguntou a Bertrand Russell o seguinte: "O que é necessário para uma pessoa se tornar um Bertrand Russell?". Este grande pensador do século 20 teria respondido que bastava nascer rico e lorde.
De fato Russell veio de uma família aristocrática inglesa. Foi também um conde. Mas, mais importante, publicou obras perenes sobre política, filosofia, educação, matemática, religião e até lógica. Principia Mathematica, escrito em parceria com Alfred Whitehead, é provavelmente a mais impactante obra de popularização da lógica-matemática, com monumental impacto sobre a filosofia da matemática.
Russell nasceu em uma família influente, tradicional, rica e nobre. E soube aproveitar muito bem essas oportunidades para produzir trabalhos de extraordinária originalidade e polêmicos até os dias de hoje.
Mas e aqueles que nascem sem esses privilégios? Pessoas de origem humilde e até mesmo bastarda podem produzir conhecimentos científicos ou filosóficos de alto nível? É possível um Jon Snow ou um John Doe da vida se tornar um grande cientista?
Michael Faraday nasceu em uma família muito pobre e pode contar apenas com uma educação básica. Teve pouquíssimo acesso a educação formal, sendo obrigado a estudar como um autodidata. Mas acabou se tornando um dos mais influentes cientistas da história. Como? Em parte por conta de seu contato, desde muito cedo, com grandes expoentes da ciência e da filosofia da época, como Humphry Davy e John Tatum. Ele fez isso aos vinte anos de idade.
Ou seja, isoladamente não há como alguém produzir conhecimentos científicos ou filosóficos relevantes. Mas dificuldades como escassez de recursos financeiros, educação ruim ou família sem tradição cultural alguma, não chegam a ser obstáculos intransponíveis. São apenas dificuldades, nada mais.
Portanto, independente de onde você venha, existem caminhos que são praticamente mandatórios para iniciar uma prolífica carreira de produção científica. É importante ressaltar que o que define uma carreira de produção científica inevitavelmente se traduz em termos de produção de trabalhos originais e relevantes publicados em veículos especializados de alto nível notoriamente reconhecidos como tais. Mas, como conquistar isso? Segue abaixo uma lista de passos fundamentais.
1) Faça justiça à sua curiosidade. Leia, observe, dialogue e pense. Sem curiosidade natural e incessante, não há chances de se realizar produção científica ou filosófica relevante. Mas saiba o que ler. É preciso ler as fontes originais das grandes ideias. Quer conhecer a teoria da relatividade? Leia os textos de Einstein e de todos aqueles que contribuíram para o desenvolvimento posterior desta teoria. Observe os modos de pensar e agir daqueles que produzem conhecimentos. Dialogue com aqueles que produzem conhecimento. Pense criticamente sobre o que lê, observa, ouve e fala. Isso mesmo! Até aquilo que você fala ou escreve deve passar por uma análise promovida pelo seu pensamento crítico.
2) Não permita a interferência de emoções. Uma das principais barreiras contra o desenvolvimento intelectual é o descontrole emocional. Se alguém criticar as suas ideias, pense racionalmente sobre as críticas e decida se há necessidade de resposta e como ela deve ser dada. Mas jamais leve para o lado pessoal, mesmo que a crítica atinja a sua pessoa. No meio acadêmico existe muita frustração. E frequentemente essa frustração se traduz com ataques pessoais. No entanto, não existe método infalível para distinguir críticas que se originam de frustrações daquelas que se originam de uma postura honesta e imparcial. Se o seu objeto de estudo é, por exemplo, filosofia das imagens, não há motivo algum para disputar com alguém se você tem capacidade ou não para filosofar sobre imagens. Concentre-se sempre no tema de seu objeto de estudos. Neste livro publicado pela Springer, por exemplo, Clifford Truesdell se refere a Patrick Suppes e colaboradores como idiotas e estúpidos (não estou exagerando). Isso impediu Suppes de fazer contribuições históricas em filosofia e teoria da cognição? Certamente não. Trabalhei com Suppes e sei que ele se esforçava para pensar meticulosamente sobre as críticas que recebia.
3) Adapte-se ao sistema de ensino formal. Nossas escolas e universidades são templos da perdição, em termos de senso crítico e cultivo do conhecimento. A estupidez, a arrogância, a política rasteira e a mediocridade são elementos dominantes. Mas nossas escolas e universidades são também excelentes pontes de acesso aos grandes centros de pesquisa espalhados pelo mundo. Portanto, tenha paciência. Este item é uma extensão natural do item 2. Se o professor espera que você escreva bobagens nas provas, escreva bobagens nas provas. Você precisa do apoio institucional para seguir uma carreira séria e frutífera. E esta é uma questão muito delicada, pois pode facilmente conduzir a uma prostituição intelectual, como geralmente acontece. Por isso, tome cuidado! Jamais perca contato com as fontes do conhecimento que efetivamente transformam o mundo. E não tente mudar os medíocres. Jamais podemos mudar o diabo, mas o diabo pode nos transformar. Os medíocres detém poder para atrasar e até prejudicar a sua vida acadêmica. Por isso mesmo você precisa de uma vida paralela, na qual mantenha contato consistente com pesquisadores que efetivamente produzem conhecimento original e relevante.
4) Não perca tempo. A juventude é a melhor época para aprender. Quanto mais cedo você iniciar seus estudos, maior proveito terá da sua criatividade. Muitas contribuições de alto impacto em ciência foram feitas por jovens. Mas não perca de vista o item 2. Caso você não consiga produzir algo relevante antes dos trinta anos de idade, mantenha a persistência na busca pelo conhecimento. Mas também considere a possibilidade de mudar suas estratégias de investigação. É sabido que em física teórica a maioria das contribuições que resultaram no Prêmio Nobel foram feitas antes dos trinta anos. Já em áreas de pesquisa como medicina e história o fator idade tem um peso consideravelmente menor. Mesmo assim tem sido constatado, ao longo de décadas, um gradual aumento na idade limite para contribuições científicas máximas em áreas mais abstratas como física e matemática.
5) Seja estratégico. No Brasil a escolha de área de conhecimento tem um peso grande. Física e matemática são áreas que conquistaram certo respeito no cenário internacional. Filosofia, história e educação, porém, são exemplos de áreas do conhecimento muito imaturas ainda em nosso país, com incipiente repercussão internacional. Se você decidir por uma área forte no Brasil, há várias boas opções de instituições (como o IMPA, o CBPF, o IME-USP, entre outras) que naturalmente o colocarão em contato com os grandes centros mundiais, dependendo da qualidade de seu trabalho. Mas se você optar por áreas de pouca repercussão internacional, empenhe-se para avançar seus estudos a ponto de colocá-lo em contato com boas instituições estrangeiras. Isso pode ser feito até mesmo durante um eventual pós-doutorado. Mas se puder fazer isso via bolsas sanduíche ou o Programa Ciência Sem Fronteiras, melhor ainda. Quanto mais cedo ocorrer o contato com os grandes centros, melhores serão os resultados de seu trabalho.
6) Procure bons professores orientadores. Procure a orientação de pesquisadores com produção consistente em bons veículos de circulação internacional. E faça isso com o objetivo explícito de publicar em bons periódicos especializados. Se não for possível, peça a orientação do professor mais experiente e de mente aberta que você puder encontrar. E use a instituição na qual estuda como trampolim para mergulhá-lo em uma realidade melhor, mais produtiva e competitiva. Essa orientação pode ser até mesmo uma iniciação científica informal ou um trabalho de conclusão de curso.
7) Aprenda a viver. Em uma conversa pessoal, o grande matemático pernambucano Leopoldo Nachbin disse o seguinte: "Para fazer matemática é preciso estar no lugar certo, com as pessoas certas, no momento certo e ainda ter sorte." Creio que esta visão pode ser estendida para qualquer área do conhecimento. Ou seja, sempre existem incertezas em qualquer investimento audacioso. Quando finalmente se aprende a publicar em periódicos de alto nível, descobre-se que esta não é uma tarefa tão complicada assim. Complicado é publicar algo realmente relevante, que faça a diferença no conhecimento científico mundial. E este é um desafio encarado por praticamente todos os pesquisadores do mundo. O próprio Nachbin, que abriu um ramo da matemática hoje conhecido como espaços de Hewitt-Nachbin, disse na mesma conversa: "Eu gostaria de ter feito mais." O bom pesquisador é uma pessoa permanentemente insatisfeita. Mas é uma insatisfação que não a consome, não a tormenta. É apenas uma insatisfação que a faz desejar fazer mais, muito mais. Assim como escolas ruins devem ser usadas como trampolim para mergulhar em instituições de alto nível, essas últimas devem ser usadas como trampolim para mergulhar na ciência, na tecnologia, na filosofia, na história e nas artes.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Blog Matemática e Sociedade no CBPF
Caros leitores do blog Matemática e Sociedade. É com grande satisfação que anuncio aqui o mais recente resultado das atividades promovidas neste fórum. Em função de discussões aqui promovidas, fui convidado pelo professor Renato Doria para ministrar palestra e participar de debate no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no contexto do I Verão Professor Global - 2015. Este evento, aberto ao público, ocorrerá no próximo dia 24, no Auditório Ministro Lins de Barros, do CBPF. Segue a abaixo a programação que acaba de ser confirmada:
Manhã: 10:00 - 12:00h
- Semeadura Dialética do Conhecimento - Doris Faria (UnB)
- Dialética do Conhecimento e a Política - Renato Doria (AprendaNet)
- Dialética do Conhecimento e os Oprimidos - José Helayël (CBPF)
Tarde: 13:00 - 17:30h
- Dialética do Conhecimento e a Universidade Brasileira - Adonai Sant'Anna (UFPR)
- Dialética do Conhecimento e a Educação - Ronaldo Mota (Estácio de Sá)
- Dialética do Conhecimento e a Física - Luiz Pinguelli (COPPE)
- Dialética do Conhecimento na Política Pública - Rex Nazaré (FAPERJ)
"Se não houver a Dialética do Conhecimento, o Brasil será uma sociedade de serviços e revendas com uma ciência sem viver a dúvida."
Comprometo-me a publicar postagem neste blog que apresente um relatório sobre os resultados e promessas deste evento. Um dos objetivos principais é a articulação de discussões sérias e ações construtivas em favor de um Brasil melhor.
Peço que sejam convidados para este evento todos os possíveis interessados. Sem articulação, não há esperanças de mudança.
Peço que sejam convidados para este evento todos os possíveis interessados. Sem articulação, não há esperanças de mudança.
Preciso de um psicólogo
Preciso honestamente da ajuda de um experiente e bem qualificado psicólogo ou psiquiatra. Li muitos artigos e livros sobre psicologia. Mas isso certamente não me qualifica para tratar do meu problema. Apresento nesta postagem sintomas de uma pessoa específica, mas muito comuns entre outras. E espero que esses sintomas sejam suficientes para um diagnóstico. A partir deste diagnóstico, preciso saber se o mal apontado tem cura ou, pelo menos, tratamento.
Ontem publiquei neste blog uma postagem que denuncia algo muito grave: o fato de um notório jornalista brasileiro opinar com incisividade sobre temas que evidentemente não conhece. Quando fiz isso, lembrei de uma postagem mais antiga, na qual mostrei uma lista de pesquisadores do CNPq cujas obras são ignoradas pela comunidade acadêmica internacional. Entre esses pesquisadores está Marilena Chauí, considerada por muitos como um dos mais importantes filósofos de nosso país.
O livro mais conhecido de Chauí é Convite à Filosofia, com milhares de citações. Anos atrás tive contato com esta obra e confesso que fiquei assustado. Mas diante dos últimos eventos neste blog, creio que seja oportuno discutir sobre alguns tópicos tratados no livro.
A responsabilidade de um autor é algo que deveria ser muito grande. E se uma obra faz sucesso, como o livro acima citado, esta responsabilidade pode atingir níveis estratosféricos. No entanto, não percebo responsabilidade nem em Chauí e nem em outros autores muito conhecidos de nosso país (como Olavo de Carvalho). Pelo contrário, Chauí se comporta como se sofresse de alguma compulsão, algo como mitomania (em minha visão de leigo em psicologia). E mais estranho ainda é o fato de que essas mentiras injustificadas parecem ser absorvidas com enaltecimento por muitos dos ditos "intelectuais" de nosso país. É claro que o problema pode estar comigo e não com Chauí. Mas os argumentos que aponto abaixo contestam essa possibilidade.
Esclareço.
Nas páginas 72 e 73 de seu livro, Chauí afirma o seguinte: "O princípio da identidade é a condição do pensamento e sem ele não podemos pensar. [...] é a condição para que definamos as coisas e possamos conhecê-las a partir de suas definições.". Em primeiro lugar, ela enuncia este suposto princípio da identidade de uma única forma e de maneira extremamente vaga. Existem muitas publicações importantes que tratam do problema da identidade em matemática, física e filosofia, o qual pode assumir múltiplas formas. Além disso, a questão da identidade de partículas elementares em mecânica quântica é tema de importantes pesquisas até os dias de hoje. Ora, é usual que seja admitido que partículas elementares em regime de baixas energias careçam de identidade. No entanto, físicos conseguem pensar sobre elas! Portanto, de duas uma: ou Chauí jamais pensou com seriedade sobre o problema da identidade em filosofia ou os físicos apenas pensam que pensam. Para detalhes, recomendo este livro.
Na página 75 a autora afirma que a teoria da relatividade "mostrou que as leis da Natureza dependem da posição ocupada pelo observador" e que aquilo que é espaço e tempo para nós pode não ser para outros seres da galáxia. Essas estão entre as afirmações mais estapafúrdias que já li em toda a minha vida. Não existe uma única versão de qualquer uma das teorias da relatividade que sustente qualquer uma dessas afirmações! As equações de Einstein estabelecem uma lei física que independe da posição de um eventual observador. Além disso, não existe qualquer consideração sobre modos de percepção extraterrestres em qualquer uma das teorias da relatividade.
Na página 81 Chauí afirma que dedução consiste em partir de uma verdade já conhecida e que "funciona como um princípio geral ao qual se subordinam todos os casos que serão demonstrados a partir dela." A sala de Chauí, na Universidade de São Paulo, ficava ao lado da sala de Newton da Costa, um dos mais importantes lógicos da atualidade. Bastava ela perguntar para ele o que é uma dedução! Certamente da Costa responderia sem hesitar. Mas ela preferiu inventar uma visão fantasiosa sobre este importante conceito. As noções atuais sobre dedução em lógica independem de qualquer conceito sobre verdade. Além disso, o que seriam os tais princípios gerais que ela menciona? Ela simplesmente não esclarece. Além disso, Chauí afirma que deduções partem de verdades; mas não diz aonde essas verdades chegam. É uma partida sem chegada. Para uma visão elementar sobre deduções, indico esta postagem.
Na mesma página 81 ela sugere que é possível definir um triângulo como uma "figura geométrica cujos lados somados são iguais à soma de dois ângulos retos." O que é uma figura geométrica? Como é possível somar lados de um triângulo? Como é possível somar ângulos? Ela está confundindo lado e ângulo com medida de lado e medida de ângulo? Se ela não sabe matemática elementar de ensino fundamental, por que não estuda sobre o assunto? E se não quer estudar, por que falar sobre isso?
Ainda nesta mesma página rica em descalabros Chauí fala sobre a dedução de figuras geométricas. Deduções são operações lógicas aplicáveis sobre fórmulas (afirmações, em um sentido intuitivo). Triângulos não são fórmulas (ou afirmações) nas formulações usuais de geometria!
Na página 239 Chauí fala sobre um tal de silogismo científico, afirmando que este não admite premissas contraditórias. Além disso, ela também afirma que as premissas do tal silogismo científico são universais e que sua conclusão não admite discussão ou refutação. Não tenho ideia do que seria este silogismo científico, pois o texto de Chauí mais parece um cansativo e confuso sermão da montanha, uma vez que ela se recusa a qualificar o que afirma e sequer apresenta referências no meio do texto. Mas silogismos são regras de inferência que envolvem três ou mais ocorrências de fórmulas (ou afirmações). No contexto do que hoje se entende por lógica, não há problema algum em assumir premissas contraditórias. E afirmar que alguma forma de inferência em ciência ou matemática não admite discussão ou refutação, é o mesmo que estabelecer um dogma. Ciência não se faz a partir de dogmas. Para piorar a situação, a autora afirma que premissas devem ser indemonstráveis. Pura loucura! Para um estudo muito bem feito sobre inferências dedutivas, recomendo este clássico da literatura. Para uma comparação muito didática sobre as diferenças entre deduções e induções, recomendo este livro.
Na página 240 a autora assume explicitamente que a única forma de definições em ciência é a por gênero e diferença. Neste texto há uma discussão bastante resumida sobre alguns dos múltiplos tipos de definição que se usa em ciências reais e formais. Ou seja, Chauí ignora definições ostensivas, operacionais, contextuais, explícitas, entre muitas outras.
Na página 326 a autora se refere a uma tal de geometria topológica, explicando, entre parênteses, que se trata do estudo do espaço tridimensional. Além do termo "geometria topológica" ser não usual, os poucos livros existentes com títulos que remetam a geometria topológica tratam de assuntos extraordinariamente mais complexos do que meros espaços tridimensionais, como álgebras de Clifford e variedades suaves, entre outros.
A partir da página 331, então, Chauí concentra todas as suas forças para mentir descaradamente sobre matemática, com uma incessante e perversa rajada de loucuras. Uma das piores afirmações é aquela na qual ela explica o que é um axioma. Chauí diz que "um axioma é um princípio cuja verdade é indubitável, necessária e evidente por si mesma, não precisando de demonstração e servindo de fundamento às demonstrações." Novamente preciso insistir no livro de Mendelson. Não há necessidade alguma de que um axioma seja verdadeiro ou evidente. E, além disso, todo axioma é demonstrável, resultado este muito conhecido em lógica-matemática. Para colocar a cereja vencida sobre o bolo mofado, Chauí ainda julga que axioma e postulado não são sinônimos em matemática.
Há muito mais trechos no livro que contam com erros grotescos, como os já apontados. Mas acho que já consegui apresentar o meu ponto. Minha pergunta é a seguinte: será que essa compulsão para escrever incessantes mentiras, a partir de opiniões irresponsáveis sobre assuntos não dominados, não se caracteriza como um quadro clínico de alguma forma de distúrbio? É uma pergunta honesta! Eu realmente quero saber! Vejo esse tipo de atitude com expressiva frequência, principalmente entre profissionais das ciências humanas que se julgam capazes de escrever sobre ciências exatas. Além de Chauí, já discuti por aqui sobre o caso muito semelhante de Olavo de Carvalho. E sei que há muitos outros ainda. Por que essa necessidade? O que falta nas vidas desse tipo de gente para agirem desta forma?
Se alguém puder me esclarecer, ficarei profundamente grato.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Olavo de Carvalho
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Recebi hoje e-mail de um leitor deste blog perguntando por que citei Olavo de Carvalho em uma postagem recentemente veiculada. Essa pergunta foi motivada por questionamentos a respeito de certas afirmações deste jornalista comumente conhecido por alguns como um filósofo.
Uma vez que Olavo de Carvalho consegue combinar discursos brilhantes com outros escandalosamente absurdos, creio que a indagação feita por este leitor merece ser respondida aqui.
Citei uma entrevista com Olavo de Carvalho simplesmente porque ela continha uma discussão extremamente pertinente. E jamais deixarei de aproveitar boas ideias baseado em quem as defende. A correlação entre pessoas e ideias é assunto altamente não trivial.
No entanto, preciso também esclarecer alguns pontos sobre os quais devemos ser extremamente cuidadosos quando Olavo de Carvalho decide falar ou escrever. E ele fala e escreve muito!
Começarei com alguns exemplos. O primeiro se refere à mecânica newtoniana.
Neste texto publicado no Jornal do Brasil em 2006, Olavo de Carvalho contesta a Primeira Lei de Newton, afirmando que:
"se o movimento é eterno, não faz sentido falar em 'estado presente' a não ser por referência a um observador vivo dotado do sentido da temporalidade. No movimento eterno, tudo é fluxo e impermanência. Não há 'estados' - seja de repouso ou de movimento. 'Estado' é apenas uma impressão subjetiva que o observador, ele próprio envolvido no movimento geral, obtém ao medir os movimentos físicos pelo seu tempo interior. A tentativa de montar um universo puramente matemático independente da percepção humana acabava fazendo tudo depender da própria percepção humana. A física materialista fundava-se numa metafísica idealista."
Antes de discutir sobre o parágrafo acima, preciso esclarecer o seguinte. Promovo esta discussão principalmente por conta da grande influência que Olavo de Carvalho exerce sobre muitos jovens. Se fosse um autor qualquer, certamente eu não daria atenção a este pobre texto.
Pois bem. O que Carvalho faz acima é uma pretensa exegese sobre um tratado (Principia), o qual estimulou a concepção de inúmeras formulações não equivalentes entre si para a mecânica clássica (como as de Arnol'd, McKinsey-Sugar-Suppes, Noll, entre muitas outras). E o grande problema de exegeses (perturbadoramente comuns entre "filósofos" brasileiros) é que elas comumente refletem meras percepções pessoais daqueles que as escrevem, revelando apenas suas próprias limitações intelectuais. Existem sim muitas críticas extremamente pertinentes à obra de Newton. E Carvalho demonstra clara ignorância ao citar Goethe como um dos três principais críticos da mecânica newtoniana, enquanto sequer menciona Mach.
Em sua pobre e distorcida exegese, Carvalho afirma categoricamente que não há estados. Ou seja, ele impõe uma percepção própria, desqualificada e única sobre o que entende por estado em mecânica. A obra Principia, de Isaac Newton, é um marco que deu origem a inúmeras formulações para o que hoje se entende por mecânica newtoniana. Em cada uma delas há uma visão própria sobre o que se entende por estado de um sistema físico. Essa multiplicidade de visões sobre as ideias originais de Newton decorre justamente por conta do pioneirismo deste grande físico britânico. Obras pioneiras são frequentemente escritas de forma a admitir múltiplas interpretações, mesmo na área de ciências exatas. Georg Cantor que o diga! Criou uma teoria de conjuntos (hoje chamada de ingênua) que deu origem a inúmeras formulações extraordinariamente qualificadas, porém não equivalentes entre si (como ZF, NBG, T e T*, entre muitas outras). Além disso, até hoje não está suficientemente claro se o texto original de Newton faz uso ou não do cálculo diferencial e integral criado por ele mesmo. Portanto, qualquer avaliação responsável sobre o livro Principia demanda uma análise muito mais profunda do que aquela promovida em um texto de uma página, desprovido de referências e que se limita a uma visão única e vaga. Carvalho afirma, por exemplo, que no movimento eterno tudo é fluxo e impermanência. Além de não qualificar seu texto (usando a expressão "tudo" que, sob exegese minha, pode contemplar até mesmo unicórnios e lobisomens), ainda impõe uma alegada impermanência que jamais é justificada. Afinal, existe pelo menos um fator em comum entre todas as formulações hoje existentes para a mecânica newtoniana, a saber, os princípios de invariância. Tais princípios de invariância, matematicamente descritos via teoria de grupos, espelham justamente as leis físicas, as quais são invariantes (ou seja, permanecem as mesmas) sob transformações de coordenadas de um observador para outro, dadas certas condições especificadas em cada formulação.
Carvalho ainda acusa Isaac Newton de montar um universo puramente matemático independente da percepção humana. Bem, do ponto de vista da prática usual do físico, foi exatamente o oposto que ocorreu. Isso porque, como bom físico que era, Newton estava fortemente comprometido com a testabilidade de suas ideias. E tais testes parecem refletir modos de percepção humana. Já do ponto filosófico, Newton mesmo percebia que suas ideias apenas salvavam as aparências daquilo que experimentos pareciam demonstrar. Isso porque a ideia de uma ação-a-distância (na gravitação newtoniana, por exemplo) conta com um caráter metafísico bem conhecido na literatura. Críticos como Helmholtz e Hertz chegavam a se referir a este caráter metafísico como antropomórfico, remetendo a uma exagerada preocupação de Newton com os modos de percepção humanos. Já de um ponto de vista filosófico bem mais profundo, as relações entre modelos matemáticos e experimentos realizados em laboratório são até hoje um mistério. Ninguém sabe ao certo por que a matemática consegue salvar as aparências percebidas em processos de medição realizadas por físicos experimentais. Ou seja, falta a Carvalho a percepção da dúvida e da pluralidade de ideias, quando o assunto é mecânica newtoniana.
Há muitos outros trechos no artigo em questão que são igualmente assustadores. Mas prefiro agora caminhar para o segundo exemplo: teoria da relatividade de Einstein.
Nesta palestra, Olavo de Carvalho afirma que a teoria da relatividade de Einstein foi criada para salvar as aparências do heliocentrismo. Ele chega a dizer que Einstein julgou que "era preferível modificar a física inteira só para não admitir que não havia provas do heliocentrismo". Para sustentar seu argumento, ele usa como referência a famosa experiência feita por Michelson e Morley, que indica que a velocidade da luz no vácuo é independente do observador. Para uma visão intuitiva e extremamente didática deste experimento, recomendo ao leitor este link.
Carvalho sugere ainda que a constância da velocidade da luz detectada por Michelson e Morley evidencia que a Terra é um referencial privilegiado, o que daria suporte ao modelo geocêntrico.
Em primeiro lugar, a teoria da relatividade restrita de Einstein não se justifica a partir de um único experimento. Qualquer experiência (e são muitas!) realizada em aceleradores de partículas precisa levar em conta efeitos relativísticos de dilatação do tempo. Além disso, Einstein não modificou a física inteira (conforme afirma Carvalho) e jamais teve essa pretensão. Pelo contrário, há motivações filosóficas em seu trabalho que claramente sustentam o seu compromisso com o conhecimento então vigente de física teórica. O fato é que as leis da mecânica newtoniana são invariantes sob transformações de Galileu. Já as leis da eletrodinâmica clássica não são! As leis da eletrodinâmica clássica de Maxwell são invariantes sob transformações de Poincaré (inconsistentes com Galileu). O que Einstein fez foi um processo de unificação entre mecânica e eletrodinâmica, criando a teoria da relatividade restrita, cujas leis são invariantes sob transformações de Poincaré e que, sob regime de baixas velocidades, apresenta uma equivalência (em escalas experimentais, sob margens de erro toleráveis) a certos aspectos da mecânica newtoniana. Ou seja, Einstein manteve a eletrodinâmica clássica intocável. Olavo de Carvalho deveria saber que a física não se resume à mecânica.
Na mesma palestra Carvalho admite não entender a noção de curvatura do espaço-tempo (presente na teoria da relatividade geral). No entanto, não hesita em criticar essa ideia também. O fato de ele não compreender uma ideia, parece ser justificativa suficiente para rejeitá-la. Isso por si só revela uma perigosíssima presunção.
Apesar de Carvalho não mencionar explicitamente sobre a teoria da relatividade geral, discursa sobre curvatura do espaço-tempo, negando-a. Isso também revela uma grave desordem mental.
Não sei se Olavo de Carvalho usa o sistema GPS, para chegar de um ponto A a um ponto B. Mas se o fizer, estará caindo em uma armadilha criada por ele mesmo. Isso porque o sistema GPS aplica tanto a teoria da relatividade restrita quanto a geral para fazer correções de sincronia entre relógios na Terra e relógios em satélites artificiais que orbitam nosso planeta. Ou seja, maldizendo ou não Einstein, ele depende da obra deste físico alemão para saber onde está e para onde deseja ir.
Há muitas outras questões controversas sobre Carvalho, incluindo sua proposta de incluir a astrologia como um ramo da ciência. Mas discutir sobre astrologia como ciência já chega a um absurdo que temo desrespeitar o leitor. Por isso prefiro não discutir sobre este tema aqui.
Mesmo físicos extremamente experientes conseguem fazer afirmações absurdas sobre física. E Olavo de Carvalho demonstra claramente não ter a mais remota familiaridade com física a não ser, talvez, a partir de textos de divulgação científica destinados a leigos. No entanto, ainda assim insiste em opinar sobre temas da física moderna. Isso me faz questionar se há algum sentido em suas afirmações sobre outros temas, como história da religião e política.
Portanto, o leitor deve ter muito cuidado com o que Carvalho afirma. Suas declarações nesta entrevista são incisivas, mas pertinentes. No entanto, são pertinentes sob o meu ponto de vista. Não sei dizer se eu compartilharia com as justificativas que ele teria para apresentar às suas declarações sobre a educação brasileira.
É óbvio que o leitor deve aprender a filtrar qualquer informação que receba, seja de onde for. Isso não se aplica somente a Olavo de Carvalho, mas a qualquer pessoa. No entanto, Carvalho demonstra o persistente hábito de opinar sobre o que não demonstra conhecer. Ele faz isso quando discute sobre o aquecimento global, o darwinismo e a história da ciência.
Como filtrar ideias? Bem, não há procedimento efetivo para isso. Mas pensar e discutir com uma variedade grande de pessoas compromissadas com o conhecimento já ajuda.
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Nota: Em virtude de grande volume de comentários nesta postagem, decidi complementar este texto. Para detalhes, clique aqui.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Crianças filósofas
Crianças são capazes de filosofar?
Há algum tempo tenho dedicado parte do espaço deste blog para tratar de aspectos cognitivos em crianças. Um exemplo foi a postagem sobre como ensinar teoria da relatividade para um público infantil. Outro foi uma discussão sobre o efeito de elogios. E, finalmente, há também um exemplo de experiência pessoal que tive quando discuti sobre realismo com uma turma de quarta série.
Desta vez, no entanto, a meta é a discussão sobre o papel da filosofia na vida de crianças de quatro a doze anos de idade.
A teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget sugere que crianças com menos de onze anos são incapazes de pensar filosoficamente. Isso porque, segundo o conhecido epistemólogo suíço, crianças não conseguem pensar sobre o pensar. Porém, o mundo mudou bastante desde o pioneirismo de Piaget, apesar de nosso país evidentemente não ter percebido isso. Neste conhecido site, por exemplo, afirma-se que a teoria de Piaget comprova "que os seres humanos passam por uma série de mudanças previsíveis e ordenadas". Porém, filósofos como Matthew Lipman e Gareth Matthews, entre muitos outros, apresentam evidências contundentes de que Piaget ignorou importantes manifestações das próprias crianças que ele mesmo estudou.
Piaget falhar em seu senso crítico é algo evidentemente muito ruim. Mas a persistência na realização de repetitivas experiências (como se faz em nossas terras) com o único objetivo de validar as ideias deste importante pensador já é um erro grotesco, do ponto de vista filosófico. Está mais do que na hora de pedagogos e educadores brasileiros se atualizarem em termos do que crianças podem ou não podem fazer. Assim como a física não parou com Galileu, a psicologia cognitiva já avançou para muito além de Piaget.
Neste livro, por exemplo, Gareth Matthews motiva suas teses com exemplos reais de crianças com idades entre quatro e seis anos que espontaneamente levantaram as seguintes questões:
1) "Como podemos ter certeza de que tudo na vida não passa de um sonho?"
2) "Se eu vou para a cama às oito horas e levanto às sete da manhã, como posso ter certeza de que o ponteiro das horas do relógio girou só uma vez? Eu tenho que ficar acordado a noite inteira para saber? Mesmo que eu desvie o olhar por um breve instante, talvez o ponteiro das horas gire duas vezes."
3) Em diversas ocasiões um garoto de quatro anos viu aviões decolarem e sumirem à distância em aeroportos. Um dia ele finalmente pega o seu primeiro voo. Após a decolagem e logo depois de receberem o aviso de que os cintos de segurança podem ser soltos, o garoto afirma aliviado para o seu pai: "As coisas realmente não ficam menores aqui em cima."
Apesar destes exemplos ilustrarem claramente questionamentos de caráter filosófico, eles ainda não permitem defender a tese de que crianças sejam capazes de sustentar discussões de caráter filosófico. Mas Matthews motiva suas discussões com outros exemplos muito mais sofisticados, como este:
4) Ian (de seis anos de idade) foi impedido de acompanhar seu programa de TV preferido porque três crianças - filhos de amigos de seus pais - monopolizaram o aparelho de televisão, ao chegarem. E então Ian perguntou à sua mãe: "Por que é melhor três crianças serem egoístas no lugar de apenas uma?" Essa indagação desencadeou uma extensa discussão entre todos os envolvidos, incluindo a falta de consideração das crianças visitantes, o desejo de encontrar uma solução satisfatória para todas as quatro crianças, a importância do respeito aos direitos dos outros e até mesmo como uma outra pessoa se sentiria se estivesse no lugar de Ian.
Crianças são capazes de filosofar? Há inúmeras evidências de que a resposta seja positiva. E, claro, esta perspectiva inevitavelmente conduz a um novo questionamento: devemos estimular o estudo de filosofia no ensino básico?
Existem pelo menos dois problemas na proposta de implementação da disciplina de filosofia em escolas, tendo como público-alvo crianças entre quatro e doze anos:
I) A grade curricular de nossas escolas de ensino básico já está bastante comprometida com outras matérias.
II) O estudo de filosofia no ensino básico pode ser um fator de distração, que pode transformar os alunos em meros céticos, resistentes ao aprendizado de outros assuntos, como matemática, ciências, história e línguas.
A resposta de Lipman a esses problemas é estimulante. Sua proposta é usar uma disciplina de filosofia com o propósito de promover uma discussão que explorasse as relações existentes entre diferentes áreas do saber. Um exemplo que já foi discutido neste blog, no presente contexto, reside nas relações entre matemática e o simples contar de histórias. Outro exemplo, está na visão social de histórias infantis da literatura clássica. Desta maneira o ensino de diferentes matérias teria um caráter muito menos fragmentado, uma vez que sempre se buscaria por uma visão interdisciplinar de mundo e até mesmo uma percepção do processo educacional como um todo.
Toda esta proposta de filosofia nas escolas teria como principal meta o estímulo ao senso crítico, algo que tem feito muita falta no Brasil. O que é senso crítico? Segundo Robert Ennis, senso crítico é o "pensamento reflexivo racional focado na decisão sobre o que acreditar ou fazer". Neste contexto, a prática do senso crítico demanda incisividade, informações qualificadas, confiabilidade de raciocínio, mente aberta, flexibilidade, avaliação justa, honestidade para encarar tendências pessoais, capacidade de reconsideração, clareza, capacidade de ordenação de assuntos complexos, diligência na busca de informações relevantes, foco e persistência.
Já existem muitos estudos que apontam para correlações negativas entre inteligência e religiosidade, inteligência e conservadorismo político e inteligência e radicalismo político. Onde existe resistência irracional a ideias novas, inevitavelmente há um tendencioso caminho que afasta as pessoas de decisões inteligentes. E o estímulo à arte de filosofar desde cedo é um caminho de flexibilidade e contemplação. A capacidade de filosofar é inerente sim às crianças! Se em algum momento esta capacidade se perde, isso se deve a pressões sociais que ocorrem principalmente nas escolas e na unidade familiar. Castrar a capacidade de filosofar de uma criança é um ato de covarde violência, um estupro mental.
Quando se fala em filosofia no Brasil, quase que invariavelmente professores e demais educadores confundem este tema com o estudo de história da filosofia. Filosofar não é concordar com Platão, Descartes ou Russell. Filosofar é a capacidade de apontar onde os grandes pensadores erraram. Afinal, eles foram apenas pensadores e não deuses cuja ira devemos temer.
Enquanto os expoentes da filosofia brasileira persistirem em sua mediocridade intelectual, jamais haverá exemplos sólidos a serem seguidos por profissionais do ensino de filosofia. Portanto, mudanças precisam ser feitas em todas as direções, do básico ao avançado, da criança ao pesquisador, da escola à família. No momento, nosso país está intelectualmente podre. E todos somos culpados por essa podridão. Sejamos flexíveis o bastante para reconhecer nossa responsabilidade. E sejamos incisivos o bastante para agirmos o mais rapidamente possível.
Para uma rica e abrangente discussão sobre filosofia para crianças, recomendo este excelente link na Enciclopédia de Filosofia de Stanford.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
O futuro profissional e pessoal de superdotados
Segundo o jornalista Olavo de Carvalho, no Brasil se confunde conhecimento com pedantismo e busca de poder. Aliás, fortemente recomendo ao leitor que clique neste link, para acompanhar uma belíssima entrevista de quinze minutos que sumariza de maneira muito clara (e escandalosa) a situação da educação em nosso país.
Como compartilho com praticamente todas as ideias apresentadas na entrevista acima citada, retomo uma velha questão: por que investir em educação em um país tão passivamente resistente ao conhecimento de alto nível?
Essa resistência é marcante até mesmo na vida acadêmica brasileira, com a elevada tolerância ao plágio, a persistente expectativa de que todos sejam iguais entre si, ou as usuais manobras para mostrar uma produção intelectual que não é real, entre muitos outros exemplos já discutidos neste blog.
Em meio à ignorância brasileira que repousa sobre berço esplêndido, existe uma crescente avalanche de discursos contra preconceitos. Fala-se de maneira comumente dogmática e não qualificada sobre preconceito racial, religioso, sexual, cultural, social, entre outros. Mas jamais se fala do preconceito contra o conhecimento e contra aqueles que dominam conhecimentos e habilidades de alto nível (ver, por exemplo, este depoimento de um superdotado). Isso porque a própria noção de preconceito, enquanto tema de estudos sistemáticos em psicologia e sociologia, nasceu oficialmente em 1954, nos Estados Unidos, um país com tradição na produção e cultivo de múltiplas formas de conhecimento (e de preconceitos, claro!). [Para uma excelente revisão histórica dos primeiros estudos sobre preconceitos, recomendo este artigo.] Portanto, o Brasil é um país que, além de culturalmente desprezar o conhecimento, é completamente cego diante de manifestações de preconceito intelectual. Somos uma nação desconhecedora de nossos próprios preconceitos. E mesmo quando tratamos de preconceitos usualmente discutidos, atropelamos o mais elementar senso crítico.
Mas a melhor maneira para lutar contra o preconceito ao conhecimento é - trágica e ironicamente - através do próprio conhecimento.
Em dezembro do ano passado foi publicado um artigo que reporta quarenta anos de análises sobre uma população de 1650 pessoas que, no início dos anos 1970, foram diagnosticadas como superdotadas. Eram crianças de treze anos que hoje são homens e mulheres com cerca de 53 anos de idade. E eram crianças com excepcional raciocínio matemático, listadas entre os 1% dos estudantes mais talentosos daquela faixa etária. Hoje são adultos profissionalmente muito bem sucedidos e com elevados níveis de satisfação pessoal. Este artigo foi veiculado no periódico Psychological Science.
Segundo os autores, talento matemático precoce permite antecipar contribuições criativas na vida adulta, bem como liderança profissional. Neste universo de 1037 homens e 613 mulheres, os níveis de satisfação pessoal são invariavelmente elevados. No entanto, as prioridades pessoais e profissionais dependem de gênero sexual. Os homens têm a tendência de se tornarem CEOs ou trabalharem com tecnologia da informação ou áreas ligadas à ciência, engenharia e/ou matemática. Já as mulheres apresentam uma maior tendência a assumirem negócios em geral, ou trabalharem com educação básica e saúde. Homens procuram priorizar carreiras de alto impacto, enquanto mulheres preferem atividades mais voltadas à família e à comunidade. Há também diferenças salariais. Homens, neste universo de estudos, têm uma renda consideravelmente superior à das mulheres. No entanto, ambos os gêneros consideram que família é o mais importante fator para definir sucesso profissional no futuro.
Esse grupo de 1650 pessoas publicou 85 livros e registrou 681 patentes. E, além disso, publicou 7572 artigos em periódicos especializados de alto nível. Isso nos dá uma média de 0,46 artigos por pessoa por ano (considerando os últimos quarenta anos). Importante observar, para efeitos de contas, que apenas 25% dos homens e mulheres deste grupo são responsáveis por esta produção de artigos.
Ou seja, a mensagem desta pesquisa é clara. Cabe à família o estímulo de talentos naturais. Cabe à sociedade o aproveitamento desses talentos naturais. Cabe a cada um de nós o fim da mentalidade compartimentalizada em um invólucro que insiste em impor artificialmente que somos todos iguais. O talento matemático de um jovem é um fenômeno raro. Mas é um fenômeno que, se devidamente estimulado, apresenta consequências relevantes e construtivas para vastos segmentos sociais. Precisamos estimular os nossos 1% de supertalentos. Sem eles, os 99% restantes permanecerão à deriva, como hoje já se encontram.
Sem dúvida, o conhecimento é para poucos. O próprio Google, tão enaltecido por muitos como se fosse a nova e imbatível enciclopédia, consegue indexar apenas 0,004% de todo o conteúdo da internet. E quem realmente sabe o que existe na internet? Ninguém, absolutamente ninguém! E quem disse que este oceano de informações disponível na internet cobre alguma fração significativa do conhecimento relevante disponível no mundo todo? Garantidamente este não é o caso.
Preconceitos geralmente são impostos sobre minorias. E o domínio do conhecimento é algo acessível somente a uma minoria, muito pequena. No entanto, aqueles que não fazem parte desta minoria precisam abrir espaço para os novos talentos. Esta não é uma questão de tolerância ou magnânima compreensão. Esta é uma questão de sobrevivência de nossa própria sociedade.
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