sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Professores universitários também colam


Um problema crônico em instituições de ensino brasileiras é desonestidade intelectual. E a repercussão social de práticas em escolas e universidades é inevitável, uma vez que tais instituições são referências da educação de um país. Portanto, escolas que toleram desonestidade (e até a estimulam) alimentam esta prática em vários segmentos sociais. Quando pessoas sugerem que "político" e "corrupto" são sinônimos, elas deveriam avaliar as raízes da corrupção. E uma dessas raízes (apesar de não ser a mais profunda) é a educação formal. 

O que se mostra nesta postagem é que a desonesta e repugnante prática do plágio (cola é uma forma de plágio) não se limita a indivíduos, sejam professores, pesquisadores ou alunos. A desonestidade já faz parte da cultura do povo brasileiro como um todo, alcançando instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e até mesmo aquela que é considerada a melhor universidade da América Latina: a USP. Até mesmo a CAPES e o Ministério Público Federal apoiam a desonestidade do plágio, conforme aponto neste texto. Portanto, seja bem-vindo à podre realidade do mundo das ideias brasileiras. Afinal, por que precisamos criar, se outros países já o fazem por nós?

Aqui vai.

Dois anos atrás publiquei neste blog uma postagem sobre o problema da cola em nossas universidades, a qual é aparentemente (por meio de discursos) condenada pela vasta maioria dos professores de nosso país. No entanto, se o próprio professor é, na prática, intelectualmente desonesto, qual é a sustentação moral que permite condenar o aluno que cola? E um equivalente à cola entre professores é a prática do plágio.

Uma ideia pode ser materializada de diferentes formas, como textos, músicas, fotografias, obras áudio-visuais, entre outros exemplos. Nesta postagem estou preocupado apenas com ideias materializadas por textos. Neste contexto, plágio é "a apropriação indevida da produção de outrem mascarada por um modo distinto de escrever ou pela versão para outro idioma, entre várias possibilidades". 

De acordo com documento da Vice-Reitoria da PUC-Rio, existem três formas de plágio de texto: 

1) Integral: cópia de um trabalho inteiro, sem citar a fonte.

2) Parcial: "colagem" resultante da seleção de parágrafos ou frases de um ou diversos autores, sem menção às obras.

3) Conceitual: utilização da essência da obra do autor expressa de forma distinta da original.

Nesta postagem faço uma breve discussão sobre três casos pontuais de teses de doutoramento aprovadas nas seguintes instituições: UFSC, UFRGS e USP. Os autores são todos hoje professores da UFSC. E suas respectivas teses contam com exemplos claríssimos de plágio parcial, conforme a classificação acima. A detecção de plágio conceitual é um processo muito mais complicado de ser realizado. No entanto, obviamente os desonestos não precisam se preocupar com isso no país da impunidade. Encerro os três exemplos pontuais com uma discussão mais ampla sobre plágio em universidades brasileiras, incluindo dicas sobre como o leitor pode ajudar na detecção de plágios parciais e integrais em monografias, dissertações, teses e artigos. A respeito de plágios conceituais pretendo discutir em postagem futura.
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Primeiro exemplo

Tese de doutorado: "Improvisação e Aprendizagem em Cervejarias Artesanais: um estudo no Brasil e na Alemanha" 

Autor: Leonardo Flach

Local: defendida no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação de Claudia S. Antonello. 

Data: 2010.

Para realizar este trabalho o autor contou com uma bolsa sanduíche que viabilizou uma visita à Universidade Livre de Berlim, na Alemanha. 

O tema da tese é de moderado interesse econômico para o Brasil. Apesar de nosso país contar com poucas dezenas de cervejarias artesanais que respondem por 0,1% da cerveja produzida ao ano, é uma área em crescimento. Isso decorre principalmente por conta das elevadas taxas de retorno e de tendências para a formação de um novo público-alvo de consumidores. A tese apresenta também informações úteis para os interessados em investir na produção de cerveja artesanal. No entanto, há diversos trechos na tese que despertam grande preocupação e geram justificada desconfiança. 

Por exemplo, no segundo parágrafo da página 28 há um comentário sobre relações entre regime de aprendizagem e local de trabalho. Este comentário é finalizado com uma citação a dois autores, a saber, Lave e Wenger. No entanto, o mesmo parágrafo é simplesmente uma paráfrase de um trecho de artigo de Alison Fuller, que também cita Lave e Wenger. Isso sugere que o autor da tese não recorreu à fonte, mas apenas a uma interpretação feita por Fuller. Esta prática se repete em outros trechos da tese de Flach. 

Mas há situações muito piores do que paráfrases sem o devido crédito. Na página 49, por exemplo, lê-se o seguinte (peço ao leitor que tenha um pouco de paciência com trecho tão extenso da tese): 

"O modelo de improvisação para desenvolvimento de novos produtos proposto por Kamoche e Cunha (2001) identifica um conjunto de elementos estruturais claramente especificados das dimensões técnica e social, as quais servem para facilitar a ação inovadora em vez de a constrangerem. A essa estrutura foi atribuída a designação de estrutura mínima. Na mesma linha, Barrett (1998) sugeriu a necessidade de estruturas mínimas inegociáveis, tacitamente aceitas e sem necessidade de articulação constante. Todas essas sugestões, no fundo, indicam uma tendência no sentido de um esforço de síntese entre elementos frequentemente tidos como opostos. A necessidade de aprendizagem exploratória e utilitária (MARCH, 1991) e a ‘dança’ entre adaptação sistemática e aproveitamento de oportunidades ou soluções fortuitas no desenvolvimento dos processos organizativos constituem exemplos adicionais dessa visão dialética, a qual sugere novas possibilidades de entendimento das realidades organizacionais, para lá das tradicionais dicotomias, como diferenciação versus integração, organicismo versus mecanicismo, inovação versus rotina."

Agora compare com este trecho de artigo de Miguel Pina e Cunha, publicado em 2002 na Revista de Administração de Empresas (volume 42, páginas 38-39): 

"[...] o modelo improvisacional de desenvolvimento de novos produtos proposto por Kamoche e Cunha (2001) identifica um conjunto de elementos estruturais claramente especificados das dimensões técnica e social, as quais servem para facilitar a ação inovadora em vez de a constrangerem. A essa estrutura, foi atribuída a designação de estrutura mínima. Na mesma linha, Barrett (1998) sugeriu a necessidade de estruturas mínimas inegociáveis, tacitamente aceitas e sem necessidade de articulação constante. Todas essas sugestões, no fundo, indiciam uma tendência no sentido de um esforço de síntese entre elementos freqüentemente tidos como opostos. A necessidade de aprendizagem exploratória e utilitária (March, 1991) e a “dança” entre modelização sistemática e aproveitamento de oportunidades ou soluções fortuitas no desenvolvimento dos processos organizativos constituem exemplos adicionais dessa visão dialética (Clegg et al., 2002), a qual sugere novas possibilidades de entendimento das realidades organizacionais, para lá das tradicionais dicotomias (e.g. diferenciação versus integração, organicismo versus mecanicismo, inovação versus rotina)."

Isso não se trata mais de paráfrase. É praticamente uma cópia, com poucas palavras alteradas. E há vários outros exemplos como este na tese de Flach. 

Alguém poderia argumentar que Flach apenas se descuidou na redação da tese, uma vez que o artigo de Cunha está na lista de referências. Mas, se fosse o caso, por que alterar apenas algumas palavras em um texto tão extenso e tão vago? Por que reproduzir um texto tão vago, sem um correspondente desenvolvimento? Se Cunha menciona "um conjunto de elementos estruturais claramente especificados", por que Flach não os menciona no mesmo parágrafo? 

Além disso, a frase "[...] o que fascina nestes estilos é o fato de a música, que ao não iniciado parece surgir da ausência de uma estrutura, seja na realidade um processo criativo moldado por elementos estruturais significativos." que aparece na página 66 da tese de Flach, também é plagiada a partir do artigo de Cunha. Ou seja, até o sentimento de fascínio é copiado, como se o autor da tese em questão fosse um mero mímico.

Por que uma tese de doutorado, com apoio financeiro da CAPES, da Deutscher Akademischer Austauschdienst (Alemanha) e do CNPq, apresenta tantos exemplos de plágio? Haveria alguma relação com a metodologia empregada pelo autor? Questiono isso por um motivo muito simples. Em um universo de mais de 1300 cervejarias espalhadas no Brasil e na Alemanha, o autor promove uma análise sobre apenas dez. Uma vez que sua análise é meramente qualitativa, não há qualquer método quantitativo de validação de seus resultados. Ou seja, parece-me que as situações de plágio ao longo do texto, bem como a metodologia na forma como foi empregada, têm a mesma raiz: preguiça. Portanto, há neste caso um exemplo de legítimo trabalho de pesquisa? É por conta disso que o autor insiste em tantas analogias com física teórica e música, ao longo do texto? Não havia mais o que escrever na tese e, então, o autor decidiu "encher linguiça"? 

Além disso, mesmo reconhecendo a importância da proposta de pesquisa, é ela digna de uma tese de doutorado? Não seria este projeto mais apropriado para, na melhor das hipóteses, uma dissertação de mestrado? Afinal, ainda se trata de um estudo de caso, com todas as limitações muito conhecidas que este tipo de metodologia apresenta. 

Na introdução da tese de Flach se lê: "Olá. Seja bem-vindo a esta jam session, uma tese sobre improvisação e aprendizagem [...]". De fato, a tese remete a perigosos momentos de improvisação. No entanto, foi aprovada.
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Segundo exemplo

Tese de doutorado: "Modelo para a Avaliação do Risco de Crédito de Municípios Brasileiros" 

Autor: Ernesto Fernando Rodrigues Vicente

Local: defendida na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Campus Ribeirão Preto), sob a orientação de Alberto Borges Matias.

Data: 2003.

O tema da tese é de grande interesse econômico para o país. Isso porque obviamente não se pode oferecer crédito indiscriminado nem mesmo a órgãos públicos, ainda que eles visem o genuíno benefício de populações. O estabelecimento e a adoção de critérios técnicos precisos e justos para a concessão de crédito a municípios é uma ferramenta fundamental para a constante busca pelo bom uso de recursos públicos. No entanto, desperta séria desconfiança um tema tão importante tratado de forma tão desonesta, com a marcante presença de plágio na tese.

Na página 33, por exemplo, lê-se o seguinte: 

"Um modelo de administração gerencial pressupõe uma instituição com seus corpos diretivo e funcional comprometidos com a missão institucional, orientados para a efetividade dos resultados da atuação da organização, em geral, e de suas ações, em particular, e para a valorização dos recursos públicos de que dispõem (financeiros ou não), sendo reconhecidos pelos resultados apresentados. A Administração Pública enfrenta hoje um grave problema: os servidores, sejam eles gerentes ou não, estão, na maior parte de seu tempo, envolvidos com tarefas e questões que são produtos do formalismo burocrático, o que acaba por levá-los a perder de vista os resultados que deveriam, cada indivíduo e cada instituição, apresentar em favor da sociedade. Assim, a gestão das instituições públicas - inacessível, centralizada e rígida - tornou-se um fim em si mesma, orientada basicamente para processos e tarefas, ao invés de resultados. O que decorre dessa situação, entre outras conseqüências, é: 

  • o desperdício de recursos públicos; 
  • o desperdício das capacidades e competências dos servidores, que sofrem, ainda, a inibição de seu potencial criativo e 
  • a distância entre a decisão e a ação, em prejuízo do atendimento aos clientes e usuários."


Agora compare com este trecho do Caderno 9 (Agências Executivas) do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE), publicado em Brasília, DF, em 1998 (página 12):

"Um modelo de administração gerencial pressupõe uma instituição com seus corpos diretivo e funcional comprometidos com a missão institucional, orientados para a efetividade dos resultados da atuação da organização, em geral, e de suas ações, em particular, e para a valorização dos recursos públicos de que dispõem (financeiros ou não), sendo reconhecidos pelos resultados apresentados. A Administração Pública enfrenta hoje um grave problema: os servidores, sejam eles gerentes ou não, estão, na maior parte de seu tempo, envolvidos com tarefas e questões que são produtos do formalismo burocrático, o que acaba por levá-los a perder de vista os resultados que deveriam, cada indivíduo e cada instituição, apresentar em favor da sociedade. Assim, a gestão das instituições públicas - inacessível, centralizada e rígida - tornou-se um fim em si mesma, orientada basicamente para processos e tarefas, ao invés de resultados. O que decorre dessa situação, entre outras conseqüências, é: (1) o desperdício de recursos públicos; (2) o desperdício das capacidades e competências dos servidores, que sofrem, ainda, a inibição de seu potencial criativo; e (3) a distância entre a decisão e a ação, em prejuízo do atendimento aos clientes e usuários."

A extensão copiada é muito maior na tese. Só não a reproduzo aqui para não desanimar o leitor com o óbvio. Importante também observar que o Caderno MARE 9 não consta na lista de referências da tese de Vicente. 

Há outros exemplos de plágio nesta tese, que são meras cópias não creditadas de outras fontes, além daquela que mencionei acima. 

Com relação à metodologia empregada por Vicente, ela é de caráter quantitativo. O autor supostamente emprega análise discriminante (uma técnica muito conhecida em análise multivariada de dados), para sugerir um modelo estatístico que separa municípios sucessos de municípios insucessos, com uma margem de acerto de 70,92%. 

Ao contrário do que alguns possam pensar, análise discriminante não se reduz a um algoritmo que pode ser tranquilamente aplicado a um volumoso conjunto de dados, desde que se use o software adequado. Esta técnica estatística demanda um feeling do pesquisador que somente uma vasta experiência com situações reais pode legitimar o seu emprego de forma sensata. Isso por si só já justifica o tema desta pesquisa como um legítimo projeto de doutoramento. No entanto, levando em conta a clara demonstração de preguiça e desonestidade nesta tese, não é imprudente questionar se Vicente domina de fato o emprego de análise discriminante ou se, na melhor das hipóteses, não poderia ter alcançado uma margem de acerto bem maior em seu projeto de pesquisa. Aliás, será que ninguém percebeu os graves erros de inglês no abstract da tese? É com este tipo de iniciativa que a Universidade de São Paulo forma futuras lideranças da economia brasileira? Afinal, esta tese também foi aprovada.
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Terceiro Exemplo

Tese de doutorado: "Indicadores de Sustentabilidade Corporativa Aplicados a Práticas de Gestão Ambiental" 

Autor: Luiz Felipe Ferreira

Local: defendida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina, sob a orientação de Fernando Soares Pinto Sant'anna.

Data: 2010.

O tema da tese é importante, pois trata das relações entre empresas e meio ambiente, do ponto de vista contábil. Lamentavelmente não tenho condições de avaliar a originalidade do projeto e, portanto, não posso opinar se é adequado para uma tese de doutorado. Mas, levando em conta que a questão de sustentabilidade é de importância estratégica para o Brasil, certamente o assunto abordado merece especial atenção. No entanto, esta tese novamente apresenta exemplos marcantes de plágio.

Na página 44, por exemplo, há um parágrafo onde se lê:

"Com isso, a informação ecológica passa a ser estratégica para evitar preocupações e surpresas na colocação da empresa no ambiente em que atua e para assegurar sua continuidade a longo prazo. As empresas se veem forçadas a considerar a informação ecológica na tomada de decisões, tamanhas as imposições governamentais, as pressões sociais e as penalidades pelo uso de tecnologias inadequadas. O empresário depara-se com a necessidade de promover discussões e pesquisas que reduzam o nível de poluição e que, ao mesmo tempo, sejam economicamente viáveis (RIBEIRO, 1992, p.ii)."

Agora compare com o parágrafo abaixo, retirado de artigo de Diana Vaz de Lima e Waldyr Viegas, publicado em 2002 na Revista Contabilidade & Finanças (volume 13, versão on-line):

"Com isso, a informação ecológica passa a ser estratégica para evitar preocupações e surpresas na colocação da empresa no ambiente em que atua e para assegurar sua continuidade a longo prazo. As empresas se vêem forçadas a considerar a informação ecológica na tomada de decisões, tamanhas as imposições governamentais, as pressões sociais e as penalidades pelo uso de tecnologias inadequadas. O empresário depara-se com a necessidade de promover discussões e pesquisas que reduzam o nível de poluição, que, ao mesmo tempo, sejam economicamente viáveis (Ribeiro, 1992, p.ii)."

A preocupação maior foi o ajuste às normas da ABNT.

Diversos outros exemplos de cópias e paráfrases podem ser encontrados ao longo de várias páginas da tese de Ferreira. Lima e Viegas não são os únicos autores desrespeitados. Ou seja, a tese sobre sustentabilidade não se sustenta. E este é mais um exemplo de como assuntos importantes são tratados de forma absolutamente irresponsável em nosso país. No entanto, esta tese também foi aprovada.
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Considerações Finais

No artigo "Levantamento dos casos de plágio em curso de ciências contábeis", de Ari Ferreira de Abreu, publicado em Ensino Superior: Inovação e Qualidade na Docência [C. Leite e M. Zabalza (coordenadores), Universidade do Porto, Portugal, 2012], o autor escreve que 22% dos Trabalhos de Conclusão do Curso de Contabilidade na UFSC, no primeiro semestre de 2010, continham plágio. Além disso, foi observado que os casos de plágio estavam concentrados em discípulos de alguns orientadores. E, ao avaliar as teses de doutorado de quinze professores do Departamento de Contabilidade daquela instituição, foram reportadas sete delas com casos de plágio. 

Este artigo gerou considerável polêmica na UFSC, resultando em um inquérito no Ministério Público Federal (MPF). Se o leitor clicar aqui, basta digitar no campo "Tipo de Expediente" a opção "Procedimento Extrajudicial", no campo "UF", a opção "Santa Catarina", e no campo "Número do Expediente", o código "133000003175201133", para ter acesso ao documento Promoção de Arquivamento, para conhecer a visão do MPF e da CAPES sobre plágios. O código acima foi conseguido neste link.

De acordo com o MPF, nenhuma das teses acima citadas se qualifica como plágio. Isso porque o MPF encaminhou o processo para análise na própria UFSC. Ou seja, o MPF lavou as mãos. No mesmo documento ainda consta um outro parecer, no qual se lê o seguinte: 

"A Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES) avaliou a forma e o conteúdo da tese mencionada [o texto se refere à tese de Ferreira] pelo Representante e concluiu que, apesar de terem sido constatados alguns trechos plagiados no trabalho acadêmico, foram cumpridas todas as formalidades exigidas pela UFSC para obtenção do título de Doutor em Engenharia Ambiental". 

Tanto a postura da CAPES quanto do MPF confirma que o que define a vida acadêmica brasileira é uma visão predominantemente burocrática, sem a mais remota atenção a mérito acadêmico e, consequentemente, às graves consequências sociais da prática da desonestidade intelectual. 

Bem. MPF e CAPES são vítimas óbvias dessa ramificação social. Afinal, de onde surgem as lideranças desses órgãos? A resposta é natural: de universidades brasileiras!

Encerro esta postagem com um texto escrito anonimamente para este blog. Trata-se de uma breve introdução a softwares e metodologia para a detecção de plágios parciais e integrais em língua portuguesa.

Espero que o leitor faça bom proveito do texto abaixo.
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Programas para detecção do plágio

A detecção de plágios dependeu por muito tempo da quantidade de textos lidos e da memória do analista. Hoje existem alguns programas que facilitam a identificação de tal problema. Dentre eles pode-se citar.

Farejador de plágio. Elaborado por Maximiliano Zambonatto Pezzin, possui o mérito do pioneirismo. Esse programa busca frases do artigo analisado em diversos sites de busca. O uso de vários sites evita que o Google bloqueie o endereço do computador por uso abusivo do sistema.  Embora funcionasse bem até 2012, esse programa passou a detectar erroneamente vários sites de publicidade, o que prejudica a análise do resultado. Seu relatório é relativamente confuso. O farejador grifa a frase suspeita e indica as possíveis fontes logo a frente. O excesso de informação torna a análise bastante demorada. A licença vitalícia desse programa custa R$ 19,90 e pode ser adquirida aqui

Plagius. Elaborado por Gustavo A. Hennig, funciona de forma semelhante ao Farejador, mas apresenta um relatório mais amigável. O relatório apresenta o texto analisado com indicação dos trechos suspeitos em tom de azul, sendo mais escuro quanto maior a quantidade de fontes encontradas. Ele permite que as fontes encontradas sejam colocadas em uma lista negra, que podem ser removidas da análise. Assim, podem ser desconsideradas coincidências que não configurem plágio. Além disso, o programa permite escolher as fontes com quantidade mínima de coincidências encontradas a serem exibidas. O uso conjunto desses dois recursos permite que cada fonte seja analisada individualmente. Obviamente o programa ficaria muito melhor se permitisse a elaboração de relatórios individuais para cada fonte encontrada. Esse programa pode ser adquirido por R$32,00 ao ano neste endereço.

Antiplagiarist. Esse programa permite a comparação entre dois textos. Era muito útil para detectar as coincidências com fontes identificadas pelo Plagius ou pelo Farejador de Plágio. As versões mais recentes não funcionam adequadamente.

Copy Spyder. Esse programa foi fruto de um TCC elaborado em uma faculdade privada por Clever Marcos Teixeira [veja aqui uma entrevista com ele], orientado pelos professores Marcelo Augusto Cicogna e Maurício Rodrigues de Morais. Seu funcionamento é totalmente diferente dos demais. Ele pesquisa na internet até 500 grupos de quatro palavras seguidas. As fontes que aparecem com maior frequência são baixadas e compradas na íntegra. Isso permite a detecção de plágios disfarçados pelo uso de sinônimos. Além disso, é elaborado um relatório individual para cada fonte. Nesses relatórios as coincidências encontradas aparecem na cor vermelha. O Copy Spyder possui uma versão gratuita, disponível aqui.

Dicas de uso:

1) Não basta ter o relatório de um detector de plágios. É preciso comparar manualmente as coincidências encontras. Elas podem ocorrer em textos legais, textos citados ou outros tipos de cópias lícitas. Algumas autoridades que recebem denúncias sobre plágio têm interesse em abafar o caso, especialmente em se tratando de trabalhos elaborados por docentes de instituições com alguma conexão com essas autoridades. Nesses casos é comum que o denunciante seja rotulado como caluniador e preguiçoso, por ter usado tais programas, mesmo que tenha sido feita a análise manual.

2) Analise documentos com, no máximo, 20 páginas. Isso evita travamentos e, no caso do Copy Spider, aumenta a eficiência.

3) Elimine figuras e equações. Além de não serem detectados pelos programas podem travar sua execução.

4) Detectados os plágios, ou verificado que se trata de uma cópia lícita, elimine esses trechos e repita a análise. Isso fará com que novas coincidências sejam detectadas.

5) Para a comparação de textos é conveniente o uso de sintetizadores de fala. O trabalho de ler meia dúzia de palavras no texto analisado e na possível fonte é exaustivo. Com o sintetizador de voz o computador pode ler o texto analisado enquanto o analista lê a possível fonte, ou vice-versa.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma pequena aldeia chamada Terra


Foi com um conto do húngaro Frigyes Karinthy, publicado em 1929, que surgiu o conceito de seis graus de separação. Dizia este célebre autor que "arte não pode existir sem ciência". Pois bem. Neste caso, foi o artista quem genuinamente influenciou a ciência. 

A teoria dos seis graus de separação estabelece que qualquer pessoa no mundo está a seis passos ou menos de quem quer que seja, por meio de conhecimento pessoal. Logo, a cadeia "um amigo de um amigo" conecta duas pessoas quaisquer de nosso planeta em, no máximo, seis passos. Em uma notícia de 2011, por exemplo, foi divulgado que usuários do Facebook estão distantes em média por 3,74 graus de separação (o que corresponde ao número de pessoas em uma cadeia de relacionamentos virtuais, excluindo a última). Neste contexto, a distância média entre dois usuários quaisquer do Facebook é (pelo menos em 2011) de 4,74. Estudos semelhantes já foram feitos para outras redes sociais da internet, como LinkedIn, Orkut e Twitter

Matemáticos, por sua vez, conceberam sua própria maneira para avaliar um conceito correlato, a saber, o de distância de colaboração. Dois matemáticos quaisquer estão diretamente conectados se eles colaboraram entre si para a publicação de pelo menos um artigo em periódico especializado. Por exemplo, se o matemático X colaborou com Y em um artigo, então a distância de colaboração entre ambos é 1. E se Z colaborou com Y, mas não com X, então a distância entre X e Z é 2. E assim por diante.

Resolvi então avaliar a minha distância de colaboração relativamente a alguns nomes conhecidos entre matemáticos, físicos, filósofos e linguistas. Meu principal objetivo é justificar, de maneira informal, qual é o real mecanismo que está em jogo na questão de graus de separação discutida acima (fortemente conectada à noção de distância, seja pessoal ou profissional).

De acordo com o Mathematics Genealogy Project, existem 185.533 pessoas no mundo cadastradas como matemáticos, pelo menos até o momento de fechamento desta postagem. E, de acordo com o MathSciNet, minha distância de colaboração com Carl Friedrich Gauss é 7. Esta cadeia de colaboração é definida pela seguinte sequência: Gauss - Minkowski - Einstein - Straus - Aczél - Luce - Suppes - Sant'Anna. O detalhe curioso é que Gauss, considerado o Príncipe dos Matemáticos, nasceu no outro lado do Oceano Atlântico e em 1777. 

Resolvi, então, avaliar minha distância de colaboração relativamente a outros nomes conhecidos da ciência. Minha distância de colaboração é 2 para Marcelo Gleiser e Constantino Tsallis. É 3 para Murray Guell-Mann e Alfred Tarski. É 4 para Paul Erdös, John Nash, Yakir Aharonov e Richard Feynman. É 5 para Albert Einstein, Stephen Hawking, Richard Courant, Noam Chomsky, Artur Avila, Alan Turing, John von Neumann, Michael Atiyah, Avshalom Elitzur e Celso Grebogi. É 6 para Erwin Schrödinger, Karl Popper, David Hilbert, Enrico Fermi, Alexander Grothendieck, Grigori Perelman e Paul Dirac. É 7 para Felix Klein e Gauss. E é 8 para Henri Lebesgue. Nomes igualmente conhecidos como Henri Poincaré e Niels Bohr não fazem parte de cadeia alguma de colaborações comigo. 

Em um universo de centenas de milhares de nomes (se incluirmos matemáticos, físicos, filósofos e linguistas) e tomando como base de referência somente artigos publicados na área de matemática (que é a área do conhecimento menos citada na literatura científica), por que essas distâncias são tão pequenas, mesmo que comparemos com cientistas que nasceram mais de dois séculos atrás?

Examinando as cadeias de colaboração que geram os números acima, fica claro que, no meu caso específico, isso se deve a parcerias profissionais que fiz com apenas oito colegas: Suppes, Doria, da Costa, de Souza, Hu, Maia, Krause e de Barros. Naturalmente fiz parcerias com outras pessoas. Mas os nomes acima são de indivíduos que mantiveram a formação de parcerias consistente e diversificada ao longo de anos e com alguma persistente relação com matemática. Por exemplo, apesar de minha distância de colaboração relativamente a Einstein ser 5, minha distância pessoal é 3. Isso porque conheci Edison Farah, que conheceu David Bohm, que conheceu Einstein, o qual morreu antes de eu nascer. E apesar de meu colega de pesquisa Otávio Bueno ter uma sólida carreira com mais de 140 artigos em periódicos especializados de circulação internacional, a interseção de sua produção com matemática é muito menor do que com filosofia. E os números acima não levam em conta produção filosófica, no sentido estrito do termo.

Ou seja, para aproximar um indivíduo do mundo, seja em âmbito profissional ou pessoal, basta que este indivíduo se aproxime de pessoas que se aproximam de pessoas. Esta afirmação pode soar como algo trivial, mas não é. Por exemplo, neste momento estou batalhando para me inserir no mundo da linguística. E apesar de ainda não ter conquistado isso (é necessária muita paciência), minha distância de colaboração relativamente ao linguista Noam Chomsky é de apenas 5. Isso se deve às minhas parcerias com Patrick Suppes, o qual investiu nesta área muito tempo atrás. À medida em que eu efetivamente produzir em linguística, esta distância deve diminuir. Ou seja, a aproximação entre pessoas não deve se limitar ao simples caso de compartilhamento de um único interesse em comum. Se você, leitor, não tem familiaridade com cinema, aproveite para aprender algo sobre cinema com algum amigo seu que conhece e gosta do tema. Isso o aproximará do mundo. Se não tem familiaridade com matemática, aproveite a cultura matemática de seus amigos que cultivam esta área do saber. Isso também o aproximará do mundo. Se não tem familiaridade com homossexualismo, aproveite para aprender algo com seus amigos homossexuais. Isso também diminuirá o tamanho do mundo e do seu mundo. E quanto menor for este mundo, menores serão as chances de preconceitos, de desentendimentos e de conflitos, e maiores serão as chances de você crescer enquanto profissional e enquanto ser humano. O crescimento de cada um de nós depende da diminuição de nossos mundos. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Por que não se estuda mecânica quântica em nossos cursos de engenharia?


A recente postagem sobre o intelectual preguiçoso foi responsável por inesperados recordes de visualizações diárias e mensais neste blog, sendo citada em diversos sites e grupos de discussões. Mas a melhor resposta que vi sobre esta postagem foi regida por Celso Melchiades Doria, conforme o texto que se segue a esta introdução.

Celso Doria é professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ph.D. em Matemática pela University of Warwick (Reino Unido), com pós-doutorado na University of Oxford (Reino Unido) e na Michigan State University (EUA), Doria é conhecido por suas contribuições em topologia de espaços de dimensão baixa. 

Como alguns leitores têm solicitado postagens sobre as relações entre universidades e empresas, este texto é extremamente oportuno. Outras postagens sobre parcerias entre vida acadêmica e indústria estão sendo encaminhadas. Mas no texto abaixo o leitor encontrará, por enquanto, uma excelente e dominante discussão sobre as relações entre universidades federais e a cultura brasileira como um todo. 

Desejo a todos uma leitura crítica.
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Universidade Brasileira
de Celso Melchiades Doria

Ao escrever sobre a universidade brasileira, é uma tarefa difícil sintetizar em poucos itens as bases de uma argumentação e tirar corolários sem tornar o texto arrogante. O assunto é extenso. É preciso aceitar a diversidade das demandas da sociedade, a diversidade das atividades acadêmicas e a evolução histórica das instituições. Isto visando uma análise construtiva de parâmetros para sugerir transformações. 

1 - Demandas sociais

Somos um país de serviços e revendas. Não há demanda tecnológica em grande escala, quase nada se for tecnologia de ponta. Carregamos no DNA traços do colonizado, onde cultura e história são irrelevantes, o fenótipo dos importados é o padrão de beleza a ser buscada. Vivemos a dinâmica histórica de ter sido o Estado que criou a sociedade institucional e não as instituições que criaram o Estado. Sendo assim, nossa academia carece de uma dinâmica capaz de gerar tecnologia avançada em larga escala, gerar ciência básica de ponta, gerar ciências humanas e sociais. Isto considerando o tamanho da população e as riquezas naturais do país. A economia passa por um gargalo estreito formado pelas classes dominantes e que resulta em baixa escala. Gargalo este na ponta do investimento e na ponta da produção. 

De acordo com os dados fornecidos pelo Ministério das Relações Exteriores neste link, o comércio exterior com a China (jan-nov 2014) tem as seguintes características:

"As exportações brasileiras para a China são compostas, em sua maior parte, por produtos básicos, que representaram 85,4% do total em janeiro- novembro de 2014, com destaque para soja e minério de ferro. Os semimanufaturados posicionaram-se em seguida com 11,0% e os manufaturados, com 3,6%. Dentre as importações, os produtos manufaturados somaram a quase totalidade da pauta em janeiro-novembro de 2014, com 98,0% das importações, representados por máquinas, produtos químicos orgânicos e automóveis. Os básicos posicionaram-se em seguida com 1,7% e os semimanufaturados com 0,2%.

Quando mais de 30% da economia americana tem alguma relação com a Mecânica Quântica, pergunto no Brasil "quantos cursos de engenharia têm MQ no seu currículo?". 

Desta forma, nossos cursos têm um caráter enciclopédico na formação quando deveriam visar o conhecimento recente e as suas aplicações. Quando entrei na universidade em 1978 aprendi Cálculo Diferencial e Integral no primeiro semestre. Naquela época não havia computador desktop, apenas mainframes cujas capacidades de memória eram vergonhosamente pequenas para o alto custo das máquinas (na casa dos milhões de dólares). Hoje, temos laptops muito mais poderosos do que os mainframes da década de 70 e 80. No entanto, existem currículos que retardaram a introdução de conteúdos. Ou seja, melhorou enormemente a tecnologia e piorou a formação, esta equação não "fecha"! 

Resultado, há baixíssima interação entre as ciências aplicadas e as ciências básicas. Os departamentos tornaram-se semelhantes a cartórios tanto no ensino quanto na pesquisa. Digo, departamentos das Universidades Federais, uma vez que entre as particulares são pouquíssimas que mereceriam ter o status de ensino superior; nem como ensino técnico se qualificam. Mas muitos destes itens questionáveis ou questionados não incomodam a sociedade ávida por um diploma superior, carente de parâmetros de conhecimento, sem tradição inovadora ou empreendedora. Como bem disse o ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário, após o 7x1 para a Alemanha, o "pior é a comparação do número de prêmios Nobel, Alemanha 102 x 0 Brasil". 

2 - Atividades acadêmicas

As atividades acadêmicas fins são Ensino, Pesquisa e Extensão. Embora não seja dito, existe uma hierarquia cronológica dentre estas atividades, pois a Pesquisa gera o Conhecimento que deve ser Ensinado e cujas aplicações e implicações devem ser Estendidas à sociedade. 

Esta hierarquia está na história das instituições acadêmicas, não é uma questão de supremacia ou domínio. A ênfase dada a cada uma dessas atividades depende da vocação de cada instituição, da sua história e da demanda regional existente. Um país com estratégias de longo prazo deve ter instituições de Pesquisa e de Ensino voltadas para a excelência nas diversas áreas do Conhecimento. A Extensão requer canais comunicantes competentes. Definir excelência é uma tarefa difícil, mas de maneira corriqueira digamos que tem excelência aquela que é uma excelente referência de conhecimento. Boas instituições de Pesquisa têm excelência no Ensino, a recíproca não é verdadeira. Isto porque ensinar o conhecimento clássico é muito mais fácil do que ensinar o conhecimento na fronteira do saber, o que abre novas áreas e resolve problemas que o clássico não é capaz. Para termos uma Pesquisa de ponta, alguns ingredientes se fazem necessários dentre muitos, com destaque para um corpo científico qualificado, dinâmico e com conhecimento abrangente e atualizadíssimo. Nossas universidades federais se caracterizam pelos trâmites burocráticos internos. Participar de comissões é infinitamente mais simples do que de grupos de pesquisa, embora consumam a energia e o tempo de forma análoga. As atividades de Ensino são, em sua maioria, cartoriais. Isto porque os currículos não têm a flexibilidade necessária, devido a motivos como, por exemplo, a falta de formação dos alunos, a desconfiança de que os professores não lecionem conteúdos, a carência de agilidade científica e os egos (muitos). Além disso, há ausência de hierarquia pelo mérito, este advindo do reconhecido da excelência, o qual não precisa ser em escala cosmológica tão pouco confundido com o conceito de “celebridade”. Em suma, o sistema acaba adorando atender editais e processos internos, tem espamos de prazer e medo maiores do que pisar na fronteira do desconhecido quando recebe diligências do Ministério Público e, por fim, referenda os parâmetros de pesquisa estabelecidos pelo CNPq.

Sem dúvida alguma a universidade federal brasileira tem evoluído, fundamentalmente na expansão de vagas, infra-estrutura e número de cursos. Certamente, nos quesitos que atendem os índices de visibilidade política. A sociedade brasileira é movida pela agenda política, jamais pela busca de solução para os problemas. Isto se reflete em todos os setores. Um dos péssimos legados dos tempos de ditadura é o pensamento de que tudo se resolve através de uma consulta a uma assembléia. Mas o pior mesmo é o legado dos tempos de colonizados, quando tudo era centralizado, como hoje, cabendo a poucos politicamente apaniguados as decisões mais diversas do dia a dia. A resultante destes processos é a burocracia e a desconfiança, jamais a auto-gestão e a responsabilidade de seus atos com seus ônus e seus bônus. Parece contraditório, mas ambos os sistemas coexistem por serem politicamente convenientes. Claro, uma parte do corpo docente torna-se burocrata, a outra torna-se pesquisadora e existe uma terceira ignorada pelos burocratas, exceto em períodos não eleitorais, que é desdenhada pelos pesquisadores. Esta terceira classe faz tudo, inclusive nada. Não há dúvida de que uma instituição requer trâmites burocráticos mas, como todo processo natural, deve haver um processo de otimização para minimizar a energia consumida. Mas este algoritmo tem forte componente cultural. No ensino, existem cargas horárias extensas que justificam o trabalho do professor pelo esforço físico e não pelo conteúdo. Atualizar um currículo é uma tarefa hercúlea do ponto de vista burocrático, às vezes quase impossível, porque existem legislações nacionais como no caso das licenciaturas. Também é uma queda de braço entre os sábios e suas áreas de pesquisa, tendo ou não excelência. Criar grupos de pesquisa dinâmicos é muito difícil. Administrar um departamento é dar pareceres, participar de diversas comissões, ser síndico de um prédio, jamais pensar na gestão dos recursos humanos e materiais disponíveis para que se ofereça boas condições de trabalho, uma boa formação e boa informação aos estudantes e à sociedade. Na atual conjuntura, os concursos públicos são abertos sem levar em conta um planejamento interno para curto e longo prazo. Mais importante do que atrair "cérebros" é abrir oportunidade para minorias através de cotas. No todo, o conhecimento não é medido pelos resultados científicos ou tecnológicos adquiridos e sim pelo número de publicações. 

Isto é criticável, mas não é ruim, pois estabelece parâmetros para o desenvolvimento profissional que certamente alavancaram a produção científica nacional. Mas é longe de ser condição suficiente para ser “excelência”. Um erro crasso, no meu ver, surge quando o ensino e a pesquisa são tratados como duas atividades distantes, e a extensão desconsiderada como produto e sim como fonte de recursos. O ensino é regido pelos redemoinhos burocráticos internos da universidade e a pesquisa com a dinâmica individualista estabelecida pelo CNPq. Mesmo assim há evolução; ela é lenta e aquém dos investimentos que são feitos. 

Sem a autonomia prevista na Constituição e a sua devida regulamentação, as universidades federais nunca atingirão a maturidade. 

Denunciar ou não denunciar, eis a condenação!


Recentemente tomei conhecimento (através de comentário de um leitor anônimo) da existência de um blog chamado Atalho Acadêmico. Li diversas postagens deste site e, então, convidei seu administrador para publicar um texto aqui que resumisse sua épica batalha contra a falta de transparência e meritocracia na Universidade Estadual Paulista e até mesmo no Ministério Público Federal. Denúncias contra ministérios públicos (estaduais e federal) não são novidades em nosso país, chegando até mesmo ao suposto envolvimento de autoridades brasileiras com a máfia do tráfico de órgãos de crianças. Blogueiros que não contam com a sorte de se exilarem no exterior (como José Galisi Filho e Paulo Pavesi) eventualmente podem sofrer penas maiores, como o que ocorreu com Marcos Leopoldo Guerra, que foi assassinado no mês passado.

Diante deste contexto, faço aqui minha primeira parceria com outro blog, mantido por Augusto César Francisco, hoje vivendo na Alemanha.

Aproveito a oportunidade para dizer que eu mesmo já vi de perto como funciona a Comissão de Ética da Universidade Federal do Paraná. E garanto que os membros desta comissão, que conheci durante processo aberto contra certas condutas minhas, não têm a mais remota ideia do que é ética. Mas este é um assunto que talvez eu venha a discutir em alguma postagem futura. 

Existe no Brasil uma resistência muito forte contra críticas. Hoje mesmo participei de uma pesquisa de opinião promovida pela Elsevier, uma das mais importantes editoras científicas do mundo. Ou seja, a própria Elsevier, que é uma gigante no mercado editorial acadêmico, deseja saber o que a comunidade científica internacional pensa a respeito dela e da atividade científica hoje promovida no mundo, com questões objetivas e subjetivas. Crítica e autocrítica fazem parte da vida acadêmica no mundo civilizado. Mas, no Brasil, isso não acontece. Professores não querem saber o que seus alunos pensam sobre eles. Instituições não querem saber o que a sociedade pensa a respeito delas. E, assim, cada um rema na direção de sua própria certeza pessoal e desinformada, fazendo com que segmentos sociais naveguem à deriva ou em círculos. 

Mas, neste momento, prefiro que o leitor acompanhe a discussão abaixo e conheça um pouco melhor os bastidores da vida acadêmica brasileira. 

Desejo a todos uma leitura crítica.
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Denunciar ou não denunciar (no Brasil): eis a condenação!
de Augusto César Francisco

Em 1986, com 06 anos de idade, escutei meu pai defender em voz alta, durante um jogo da Copa do Mundo, com muitos convidados em casa assistindo a um jogo do Brasil, “Viva o socialismo!”. Perguntei a ele o que aquilo significava. Sua resposta  apagou-se da minha memória, talvez porque insatisfatória. Realmente, seria difícil uma criança com seis anos de idade entender o que é “socialismo”, mas há modos simples de explicar, mesmo para um adepto do “socialismo” (entenderam a ironia?), como é seu funcionamento. Poucos anos mais tarde, já com nove anos, em uma missa na Igreja Matriz da minha cidade, descobri que Deus não existia. Era simples, pensando como criança! Deveria partir do princípio de que Deus é Amor e Verdade. Se aquela igreja era a Casa de Deus, se o padre era o representante de Deus, e se sua fala era o meio pelo qual Deus falava, tudo isso junto, falando que a família era perfeita, não era possível existir Deus porque Ele não permitiria que Seu representante, em Sua Casa, falando por Si, faltasse com a Verdade. Aliás, Ele mesmo não mentiria em Sua própria Casa. O que acontecia na minha família contradizia o que Ele falava a respeito de sua perfeição.

Duas coisas fundamentais! A escolha de uma matéria científica na universidade e a predileção pela “verdade” (uma palavra bastante complicada em tempos de relativismo confuso). No meu caso, escolhi a sociologia talvez como uma reverberação do “socialismo” e escolhi a “verdade” talvez como uma escolha consciente entre uma entidade divina e o que era mais verdadeiro para uma criança, a sua experiência cotidiana e imediata. Coisas de infância! Hoje em dia, acredito na Igreja, como instituição importante para a sociedade, e na liberdade religiosa. Em Deus, continuo não acreditando, também não no “comunismo” e no “socialismo”.

Conclui na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) a graduação em ciências sociais (tendo sido também bolsista de iniciação científica) com nota 10 na monografia, que foi um estudo sobre relações clientelistas em um bairro de Natal/RN. No mestrado, na UFRN, consegui na prova teórica uma colocação que me permitiu receber bolsa de mestrado. Durante o mestrado, recebi apoio financeiro do DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst) para o Programa Winterkurs, na Alemanha. Tendo concluído o mestrado em 2007 na UFRN, entrei no doutorado em 2009 na UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Araraquara, que possuía o Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Não possui mais porque o Programa mudou de nome após as minhas denúncias ao MPF (Ministério Público Federal); mudou para “Ciências Sociais”. Em resumo, segue o que foram as denúncias.

No começo de 2009, logo quando cheguei à UNESP de Araraquara, uma universidade e uma cidade estranhas para mim, tomei conhecimento por colegas de que havia irregularidades praticadas por atuais e por antigos bolsistas de doutorado do Programa. Coloquei o assunto em discussão nas reuniões discentes, já recebendo de colegas indignados provas da prática de irregularidades por aqueles bolsistas. Esses colegas denunciantes e eu tivemos a antipatia dos atuais e antigos bolsistas irregulares e mais (acreditem!): dos professores do Programa, principalmente do então coordenador! Os nomes dos acusados, bem como os acontecimentos, estão disponíveis no Blog Atalho Acadêmico.

Logo em seguida, em abril de 2009, este ex-coordenador esforçou-se para criar uma regulamentação de bolsas de doutorado que, na prática, disponibilizava bolsas para bolsistas que já haviam estado irregulares e renovava bolsas a outros bolsistas que ainda estavam irregulares. Então, em maio de 2009, assinei um Recurso Administrativo que denunciava essa situação irregular e, para meu espanto, o Recurso foi enviado pelo então coordenador a seu superior, o diretor da FCL-Ar (Faculdade de Ciência e Letras da UNESP de Araraquara), com o seguinte pedido: não investigar as denúncias e, ao invés disso, denunciar-nos por “desvio de conduta acadêmica”.

Devido ao total desprezo do então coordenador por um direito do cidadão, em especial um direito do estudante, a saber, o direito de requerer administrativamente providências a respeito de irregularidades com dinheiro público da Educação e, diante de uma ameaça de morte de um denunciado (em junho de 2009), fiz o Recurso Administrativo “subir” ao diretor da FCL-Ar (em junho de 2009) – interpus o Recurso ao Diretor. Como as ameaças se intensificavam, denunciamos todas essas irregularidades ao MPF em outubro de 2009. A partir desse momento, começaram as ameaças de expulsão da UNESP baseadas em um parecer da assessoria jurídica da FCL-Ar da UNESP de Araraquara.

As ameaças de expulsão, porque eu havia denunciado o então coordenador e colegas, tornaram-se mais abjetas a partir de dezembro de 2010, com a instauração pela UNESP de uma sindicância para expulsar-nos, em um momento em que eu estava fazendo uma etapa da minha pesquisa de doutorado na Alemanha. Quando cheguei ao Brasil, em março de 2012, o procedimento chegou ao fim com a pena de expulsão.

Chegando neste ponto, que é apenas o “primeiro capítulo” da história, desafio o leitor a provar, por meio da apreciação das provas das minhas denúncias disponíveis no meu blog, que não estou falando a verdade. É necessário esse procedimento para que eu possa discutir algumas questões que se tornam indispensáveis e, então, seguir aos outros acontecimentos.

Começo por um dos fundamentos da Universidade e da Ciência: o amor pela verdade (mesmo que “verdade” seja um conceito sujeito a infindáveis disputas em todos os campos do saber), que se exprime na vocação universitária e científica. A verdade é, antes de tudo, uma busca. É uma questão de princípio, demonstrando o meu respeito logo de início pelos fundadores da ciência, que a amavam em detrimento de outros valores – por exemplo, a própria segurança, como Galileu Galilei. O que quero dizer com a “verdade” neste texto é que quem não a respeita como um valor, não é digno de procurá-la como um e com o saber (seja científico ou legal). Apesar de significarem coisas diferentes, não vejo como possível a busca da “verdade” científica sem um mínimo de distinção valorativa entre o que é “verdade” e o que é errado. É com esse sentido, impreciso, admito!, da “verdade”, que quero colocar o problema da denúncia no Brasil.

Se um doutorando falta com a verdade já ao assinar os documentos de concessão de bolsa de doutorado, informando uma falsidade que, ao ser desmentida, impedi-lo-ia de receber o dinheiro público desta bolsa, o que se espera da sequência? Mais do que isso. Se um doutorando falta com a verdade já desde a concessão de bolsas de doutorado, a sua predileção pelo valor “dinheiro” é desonestamente superior ao valor que nutre pelo “saber”, pois, se chega a aceitar a bolsa (que é um “financiamento” do saber), recebê-la-ia já de qualquer jeito, podendo adequar-se, no fundo, a uma situação regular. Os que argumentam que a fraude é justificável porque o dinheiro da bolsa de doutorado é pouco, escamoteiam de saída que a sua intenção com o saber é o enriquecimento contra as normas e leis, por arrivismo. A minha experiência de vida permite-me defender que é possível viver com uma bolsa de mestrado numa capital do Brasil e, além disso, com uma bolsa de doutorado é possível inclusive aumentar significativamente a biblioteca, tudo com uma vida voltada ao saber. Tudo em um curso de vida derivado de uma escolha, o saber. Portanto, fraudar por algum suposto tipo de carência da bolsa de doutorado é uma vigarice, na melhor das hipóteses.

A vida de doutorando com bolsa é uma escolha. Na Alemanha, onde vivo meu exílio voluntário devido às perseguições sofridas no Brasil, os doutorandos bolsistas vivem uma vida simples, em república, andando de bicicleta e têm de economizar para o dinheiro render o mês inteiro. Conheci um doutorando de física, colocado em uma  pesquisa de tecnologia de ponta, que recebeu sua bolsa de doutorado durante três anos, abrindo mão de receber no setor privado cerca de cinco mil euros por mês. Ele esperou calmamente o término de sua Promotion (doutorado) para, então, passar a receber o valor apontado, de acordo com todas as leis e regras. Durante seu doutorado, ele devia comprar em supermercados populares, andar de bicicleta, dedicar-se aos estudos e, desse modo, ter uma vida honrada, muito diferente do vigarista, em voga no Brasil patrimonialista, que justifica a sua fraude pública e a sua corrupção moral em uma hipotética privação de recursos.

Veja que estou apenas no nível mais elementar da discussão, a saber, o do amor pela verdade e pelo saber científico. Agora coloque na equação um doutorando que frauda a bolsa de doutorado e mais um elemento importante: um coordenador de Programa de Pós-Graduação (PPG) que toma publicamente conhecimento desta fraude e não toma nenhuma providência. Os mesmos requisitos da escolha da atividade científica podem ser imputados a este coordenador, pois um dia ele foi um estudante e um doutorando. Mais importante: este coordenador ocupa a função de “professor” em uma universidade pública, e sua responsabilidade é ainda maior. Finalmente: este coordenador ocupa um cargo público de chefia e, portanto, a sua responsabilidade com a verdade e com o saber torna-se ainda mais elevada. Foi isso o que aconteceu no caso denunciado por mim, um coordenador que possuía publicamente conhecimento das fraudes praticadas por doutorandos e não tomava nenhuma providência.

Coloque mais um elemento neste cálculo do absurdo. Além de haver doutorandos que praticavam irregularidades com a conivência do então coordenador, o que por si só já é um atentado contra o princípio de dizer a verdade e contra o saber, este coordenador foi o principal responsável pela regulamentação de bolsas de doutorado aos ex-bolsistas que já haviam praticado irregularidades e aos bolsistas que ainda as praticavam (através da renovação de suas bolsas). A partir deste ponto, não apenas a verdade e o saber já foram jogados no lixo há muito tempo, como também se trata já de um caso de polícia, isto é, polícia federal (pois as bolsas eram da Capes).

Se você é mesmo corajoso, caro leitor, continue a operação. Após a regulamentação do que é por natureza fraudado, e como “resposta” ao nosso Recurso Administrativo que contestava as fraudes, este então coordenador “mandou” instaurar uma sindicância para calar os signatários deste Recurso Administrativo. Esse tipo acontece na terra do Quem tem poder, manda; quem tem juízo, obedece. Quer dizer: além de jogar o dizer a verdade no lixo, este senhor queria amordaçá-lo, o que definitivamente não condiz com o amor pela verdade e pelo saber científico.

Detalhe: todo esse imbróglio possui uma personagem muito importante: dinheiro público federal! E você leu corretamente, caro leitor, foi tudo denunciado, em outubro de 2009, ao MPF. Apesar disso, o MPF não fez absolutamente nada, deixando-nos, os signatários do Recurso Administrativo e da Denúncia Formal, expostos às represálias da UNESP. Você confiava até hoje nos Ministérios Públicos? Eu não me arrisco a dar um pingo de crédito a esse órgão. Para tirar suas dúvidas, procure no Google assim: “paulo pavesi + assassinato do filho de 10 anos + tráfico de órgãos + MPF”. Procure também a relação entre os bilhões de reais da corrupção e quanto deste dinheiro é recuperado pelas ações do MPF (ou MPs estaduais) – você levará um susto!

Já não é uma equação, um raciocínio, uma operação. Trata-se de um teatro do absurdo. O MPF, que cuida do dinheiro público federal, não tomou nenhuma providência contra as fraudes, e os denunciantes (eu, inclusive) foram expulsos do doutorado da UNESP em abril de 2012. O que era a verdade sendo jogada no lixo dentro de uma Universidade pública, a UNESP, transformou-se na verdade legal sendo torturada. Preciso falar em “prevaricação”?

Volto sim à história. O que significa uma expulsão de um doutorando da UNESP? Sua carreira no Brasil será arruinada, não poderá ter acesso, por força da lei, a qualquer coisa pública do Estado de São Paulo por cinco anos, ficará desempregado, resumindo, será uma espécie de deformidade acadêmica da sociedade.

Sob essas condições, apenas porque amo a verdade e o saber, optei pelo exílio voluntário na Alemanha, onde continuo a luta para provar que sou inocente, por meio da abertura do Blog Atalho Acadêmico e o envio de uma carta às autoridades brasileiras (MPF, MP-SP, TCU...), declarando que me considero um perseguido político porque denunciei irregularidades com dinheiro público federal e, diante da omissão dessas mesmas autoridades, fui ameaçado de morte e expulso de um doutorado de uma universidade pública, ficando impedido durante cinco anos de relacionar-me com a coisa pública no Estado de São Paulo.

Foi necessário que se chegasse a esse nível de absurdo elevado ao quadrado para que o MPF saísse da inércia interessada para dar – não vou dizer “o primeiro passo”! – o primeiro “arrasto” rumo à verdade da lei. Este órgão, que não me inspira confiança, entrou em setembro de 2014 com uma ação na Justiça Federal contra a prática de Improbidade Administrativa de um denunciado, e entrou com outros pedidos judiciais para que a Improbidade Administrativa de outros denunciados não prescrevesse.

Quer dizer: foi necessário que, além de estar simbolicamente assassinado (ameaçado eu já havia sido!) porque simplesmente denunciara irregularidade com dinheiro público, eu tivesse de exilar-me na Alemanha para que o MPF começasse a fazer o seu trabalho que pode significar algo positivo somente daqui a uns anos. De outubro de 2009 (quando o órgão já teve acesso à documentação significativa que provava irregularidades) a agosto de 2014, o MPF apenas olhou omissivamente a retaliação da UNESP contra os denunciantes. Quando tinha certeza de que o denunciante, embora assassinado simbolicamente, ainda estava vivo fisicamente, e lutando na Alemanha, começou a trabalhar.

Isso tudo nos leva ao paradoxo da denúncia no Brasil. Denunciar ou não denunciar: eis a condenação! Se o doutorando (ou o estudante) formou-se moralmente com os mesmos fundamentos de amor à verdade e ao saber originários de cientistas como Galileu Galilei, talvez seja impossível não denunciar os acontecimentos que estão sendo testemunhados na leitura deste texto. Porém, ao denunciar, o doutorando (ou o estudante) poderá ter a certeza de que, no Brasil, bem poucas pessoas devotam esse amor ao que é verdadeiro e honesto: o doutorando será massacrado, ainda mais porque quem deveria devotar amor à verdade legal (o MPF) devota amor à impunidade. Se não denunciar tamanha desonestidade (para não dizer crime!), o doutorando (ou o estudante) trairá os fundamentos que lhe permitem olhar no espelho e acreditar: a verdade é também um valor. Por si só, isso já é, no Brasil, uma condenação. Por isso eu torço para que você doutorando (ou estudante) nunca presencie algo que mereça ser denunciado, o que, no Brasil, parece ser impossível. É este paradoxo que está levando o Brasil para o caminho das trevas, pois a referência ao valor da verdade está sendo jogada ao último plano nos âmbitos políticos, sociais e culturais, concomitantemente ao abuso patrimonialista da coisa pública – isto é, corrupção!

Tenho a esperança de que, no Brasil, tudo vá melhorar, a verdade vá imperar, e a impunidade não logre êxito, apenas se você tiver a esperança de que tudo isso vá mesmo acontecer. Como você sabe o que é denunciar no Brasil, eu sei que... É, leitor, você e eu não conseguimos fugir da verdade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O mundo está ficando mais estúpido?


James R. Flynn foi pioneiro no estudo da evolução de certos aspectos da inteligência humana em diferentes partes do mundo. O impacto de seu trabalho tem sido tão profundo que há algum tempo se usa o termo "efeito Flynn" para designar o considerável aumento de inteligência da população de países desenvolvidos entre as décadas de 1930 e 1980. Tanto Japão quanto Dinamarca, por exemplo, experimentaram no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial um considerável melhoramento em resultados de testes de inteligência realizados em suas populações. 

No entanto, testes recentes de QI (quociente de inteligência) usados pelo governo dinamarquês para determinar quais homens estão aptos para serviços militares revelam uma queda de um ponto e meio desde 1998. E este fenômeno não ocorre apenas na Dinamarca, segundo a reportagem indicada no link acima, mas também nos Estados Unidos e na Austrália. 

Um artigo recente de Gerald Crabtree (Stanford University) sugere que a perda de inteligência da humanidade é um processo que está ocorrendo há milhares de anos, por conta do processo de socialização. A criação da agricultura e de cidades tornou, com o tempo, cada vez menos necessárias certas habilidades cognitivas para construir abrigos e caçar. É a dependência que a espécie humana tem dela própria que estaria sendo responsável pelo declínio de inteligência. O efeito Flynn, segundo ele, representou um aumento repentino de níveis de inteligência por conta de repentinas mudanças na oferta de melhores condições de saúde, alimentação e educação em inúmeras sociedades. Mas nos últimos dez anos a tendência natural de declínio intelectual está voltando a ser percebida. 

Por que escrevo sobre este tema aqui? Por dois motivos:

1) Por um lado, tenho percebido pessoalmente em sala de aula um declínio não apenas intelectual, mas também de motivação entre alunos. E este declínio tem sido muito marcante especialmente nos últimos dez anos. E, segundo alguns pesquisadores, a inteligência humana atingiu seu ápice cerca de dez anos atrás. É claro que há quem conteste isso. Mas, levando em conta que já existem até mesmo físicos renomados que contestam a necessidade de verificação experimental para validar teorias, fico pensando se os contestadores não estão apenas menos inteligentes. 

2) Dois dias atrás publiquei neste blog uma postagem que bateu vários recordes de visualizações neste blog. É uma postagem sobre a dominante preguiça intelectual que impera nas universidades brasileiras. Recebi algumas dezenas de comentários, mensagens e e-mails sobre esta postagem, que foi responsável por mais de sete mil visualizações em dois dias. Mas o melhor comentário que li até agora veio de um importante matemático que, neste momento, está escrevendo uma resposta ao meu texto para fins de publicação neste blog. Resumidamente, ele afirma que meu texto é superficial. E, de fato, é superficial. Tenho respondido a praticamente todos os comentários veiculados aqui, com o objetivo de qualificar detalhadamente a tese central de que existe muita preguiça e até desonestidade intelectual em nossas universidades. No entanto, há neste blog dezenas de postagens que abordam temas semelhantes e correlatos de forma muito mais aprofundada. Porém, tais postagens não tiveram tanta repercussão. Por quê? Será que é porque o brasileiro também está ficando mais estúpido? Estamos tão confiantes na estrutura social construída ao nosso redor a ponto de simplesmente não nos importarmos mais com o futuro? 

Dias atrás escrevi um texto que eu planejava veicular apenas no primeiro dia de 2015, como mensagem de Ano Novo. Mas agora decidi veicular este texto neste momento, pois o julgo oportuno diante dos últimos eventos ocorridos neste blog. É um texto inspirado em um recente monólogo de um artista muito conhecido da indústria fonográfica. E, enquanto aguardamos as novas postagens para 2015 (convidei muitas pessoas para contribuírem por aqui e que têm de fato algo importante para dizer), peço que o leitor reflita com cuidado sobre o que se segue. Pode parecer piegas, mas é de coração.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo. Até 2015.
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Por que você faz o que faz?

Por que você lê esta postagem? A resposta é óbvia, direta e dolorida. Porque você não tem nada melhor para fazer. 

Ler um clássico da literatura? Não. Agora não.

Compreender aquele teorema cuja demonstração ocupa apenas meia página, mas que apresenta uns detalhes realmente intrincados? Não. De que forma esses detalhes ajudarão a entender a vastidão da matemática? Aliás, o que há de melhor na matemática do que esta postagem que você lê? 

Dialogar com quem você ama, para ajudar esta pessoa a lidar com os seus problemas? Não. Você já tem os seus próprios problemas para se preocupar.

Ver um vídeo no YouTube que mostra cambaleantes elefantes bêbados por conta da ingestão de amarula fermentada? Talvez. Talvez seja melhor do que ler um texto que o intima a refletir sobre o que você tem de melhor para fazer. 

Você tem algo melhor para fazer do que navegar no Facebook? Você tem algo melhor para fazer do que ler postagens publicadas em blogs? Você tem algo melhor para fazer do que se sentir pior consigo mesmo ao ler este texto que questiona "você não tem nada melhor para fazer"? Se tivesse algo melhor para fazer, estaria aqui? Afinal, você está aqui porque não tem absolutamente nada melhor para fazer. E isso é você, na plenitude de sua vida, no auge de suas capacidades, no ápice de seus prazeres, no cume de sua curiosidade a respeito de si mesmo e do mundo que o abriga.

Por que Albert Einstein criou a teoria da relatividade? Simples. Porque ele não tinha nada melhor para fazer. E, para o bem da humanidade e até mesmo para o bem do sistema GPS que você usa em seu celular, ainda bem que ele não tinha nada melhor para fazer. Imagine se o melhor que Einstein tivesse para fazer fosse tocar violino. O mundo teria sido temporariamente apenas mais ruidoso.

Por que Beethoven compôs a sua Nona Sinfonia? Por que ele simplesmente não tinha nada melhor para fazer. E por que tantas pessoas ouvem a Nona de Beethoven? Porque graciosamente não têm nada melhor para fazer.

Por que um alcoólatra bebe? Porque ele não tem absolutamente nada melhor para fazer. É o que lhe faz realmente bem! E nada melhor do que bebida alcoólica para entorpecer a mente de quem não quer pensar sobre o que há de melhor para fazer. É por isso que tantas pessoas gostam de elefantes bêbados? É uma identificação pessoal?

Por que escrevi este texto? Simplesmente porque eu não tinha nada, absolutamente nada, melhor para fazer. E você, leitor, entende o que isso significa aqui, neste momento, neste blog? Consegue fazer melhor do que simplesmente ler? Consegue fazer melhor do que julgar a partir de seus próprios parâmetros? Consegue ler entrelinhas? Consegue parar de ler? 

Consegue se sentir melhor em relação a todos os momentos de sua vida, após a leitura deste texto? Consegue se sentir bem consigo mesmo por tudo o que já fez e o que não fez, simplesmente porque não havia nada melhor para fazer?

Por que você vai ignorar este texto após a sua leitura? Porque certamente tem algo muito melhor para fazer. E por que você vai compartilhar esta discussão, para que outros também pensem sobre o que estão fazendo de melhor? Porque você não tem nada melhor para fazer. 

Quer saber quem você realmente é? Então faça um relato diário de suas escolhas, de suas atividades e, após um tempo, leia este relato. 

O que você tem de melhor para fazer é somente aquilo que o beneficia? Ou você pode fazer melhor do que isso? Até onde vai a sua vida? Até o momento de sua morte? Ou ela vai um pouco mais longe? 

Einstein vive. Elvis vive. Beethoven vive. Mas perfis não vivem. Um perfil é apenas uma silhueta, algo que pode ser deletado. Perfis não constroem, não edificam, não inspiram. 

E agora? O que você fará agora? Seja o que for, revelará o que você tem de melhor para fazer. E este é você, independentemente do julgamento de quem quer que seja. Você é o que faz, seja consigo ou com outro, seja por si ou por outros. Você é o que faz de melhor. E fortemente recomendo que preste muita atenção em sua próxima escolha.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Artigo na revista Nature expõe grave crise na física teórica


Este mês foi publicado um brilhante artigo na revista britânica Nature que denuncia de forma alarmante o crescente distanciamento entre físicos experimentais e físicos teóricos nos últimos dez anos. Apesar de eu não concordar com uns poucos pontos discutidos pelos autores do artigo (pois vejo que certas noções ingênuas ainda persistem mesmo entre os mais céticos), a leitura é obrigatória para físicos, matemáticos e filósofos. Por isso mesmo decidi traduzir o texto original para o nosso idioma e veicular neste blog. Por conta de formatação usual do blog Matemática e Sociedade, decidi omitir as referências citadas. Quem quiser conferir a versão original, veiculada no último dia 16, ela está disponível aqui.

Importante também observar que o artigo abaixo está em perfeita sintonia com discussões recentemente promovidas neste blog sobre o método científico, sobre um membro da Academia Brasileira de Ciências que defende o Design Inteligente e sobre o físico brasileiro Gabriel Guerrer, que promove uma visão mística sobre física quântica.

Desejo a todos uma leitura crítica.
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Método Científico: Em Defesa da Integridade da Física
de George Ellis e Joe Silk

Tentativas para isentar teorias especulativas sobre o universo, de verificação experimental, prejudicam a ciência.

Durante este ano, debates entre físicos tiveram uma preocupante reviravolta. Diante de dificuldades para aplicar teorias fundamentais ao universo observado, alguns pesquisadores pediram por uma mudança na maneira como a física teórica seja desenvolvida. Eles começaram a argumentar - explicitamente - que se uma teoria é suficientemente elegante e explanatória, ela não precisa ser testada experimentalmente, algo que rompe com séculos de tradição filosófica no tratamento de conhecimento científico como empírico. Nós discordamos disso. Como argumentou o filósofo da ciência Karl Popper, uma teoria precisa ser falseável para ser científica. 

Entre os líderes que advogam a tese de que elegância basta, estão alguns pesquisadores de teoria das cordas. Como teoria das cordas é supostamente o "único jogo na cidade" capaz de unificar as quatro forças fundamentais, eles acreditam que ela deve conter um grão de verdade, apesar de se sustentar em dimensões espaciais extras que jamais podemos observar. Alguns cosmólogos também estão procurando abandonar a verificação experimental de grandes hipóteses que invocam domínios imperceptíveis, como aqueles que ocorrem no caleidoscópico multiverso (compreendendo uma miríade de universos), a interpretação dos muitos mundos para a realidade quântica (na qual atos de observação são associados a ramos paralelos da realidade) e conceitos pré-Big Bang.

Essas hipóteses não verificáveis são muito diferentes daquelas que se relacionam diretamente com o mundo real e que são testáveis através de observações - como as do modelo padrão em física de partículas e a existência de matéria escura e energia escura. Da maneira como estamos percebendo a situação, a física teórica corre o risco de se tornar uma "terra de ninguém", que perambula entre matemática, física e filosofia, mas que não atende aos critérios de nenhum desses ramos do conhecimento. 

A questão da testabilidade tem assombrado a física por uma década. A teoria das cordas e a teoria do multiverso têm sido criticadas em livros e artigos de divulgação científica, incluindo alguns escritos por um de nós (G.E.). Em março último, Paul Steinhardt publicou neste periódico que a teoria do universo inflacionário não é mais científica, uma vez que se tornou tão flexível a ponto de acomodar qualquer resultado observável. O físico teórico e filósofo Richard Dawid e o cosmólogo Sean Carroll têm combatido essas críticas com uma defesa filosófica para enfraquecer a exigência de testabilidade em fundamentos da física. 

Congratulamos Dawid, Carroll e outros físicos por terem trazido este problema à tona. Mas o passo drástico que eles propõem exige um debate cuidadoso. Essa batalha pelo coração e pela alma da física está ocorrendo em uma época na qual resultados científicos - em tópicos que variam de mudanças climáticas à teoria da evolução - estão sendo questionados por alguns políticos e fundamentalistas religiosos. O potencial dano na confiança pública em ciência e na natureza dos fundamentos da física precisa ser contido a partir de um diálogo mais profundo entre cientistas e filósofos.

Teoria da Cordas

Teoria das cordas é uma elaborada proposta para explicar como minúsculas cordas (objetos unidimensionais) e membranas (extensões de cordas para várias dimensões) existentes em espaços multi-dimensionais sustentam toda a física. Essas dimensões extras são entrelaçadas de maneira tão intensa que são pequenas demais para serem observadas a níveis de energia acessíveis por meio de colisões em qualquer acelerador de partículas concebível no futuro. 

Alguns aspectos da teoria das cordas podem ser testados experimentalmente, em princípio. Por exemplo, um princípio de simetria entre férmions e bósons, central nesta teoria - supersimetria - prevê que cada tipo de partícula admite uma parceira ainda não observada. Tais parceiras não foram detectadas ainda pelo Large Hadron Collider, no CERN, o laboratório europeu de física de partículas localizado próximo de Genebra, Suíça, o que limita o espectro de energias no qual a supersimetria possa existir. Se essas parceiras das partículas já conhecidas continuarem imperceptíveis, então poderemos jamais saber se existem ou não. Os defensores da teoria das cordas poderão sempre afirmar que as massas dessas partículas são maiores do que os níveis de energia sondados.

Dawid argumenta que a veracidade da teoria das cordas pode ser estabelecida através de argumentos filosóficos e probabilísticos sobre o processo de pesquisa. Citando análise Bayesiana, um método estatístico para inferir a probabilidade de que uma explicação seja adequada para um conjunto de fatos, Dawid afirma que confirmação é equivalente ao aumento de probabilidade de que uma teoria seja verdadeira ou viável. No entanto, este aumento de probabilidade pode ser puramente teórico. Como "ninguém propôs uma boa alternativa" e "teorias sem alternativas tinham a tendência de ser viáveis no passado", ele argumenta que a teoria das cordas deveria ser assumida como válida.

Na nossa opinião isso é como mover as traves do gol. No lugar de aumentar a crença em uma teoria com base em evidências observacionais, ele sugere que descobertas teóricas é que devem reforçar a crença. Mas conclusões oriundas da matemática não precisam se aplicar ao mundo real. Experimentos já demonstraram que muitas teorias belas e simples estavam erradas, desde a teoria do estado estacionário em cosmologia até a Grande Teoria Unificada SU(5) de física de partículas, que buscavam unificar as forças nucleares eletrofraca e forte. A ideia de que verdades pré-concebidas sobre o universo podem ser inferidas além de fatos estabelecidos (indutivismo) foi descartada por Popper e outros filósofos do século 20. 

Não podemos assumir a inexistência de teorias alternativas. Pode ser que não as tenhamos encontrado ainda. Pode não haver a necessidade de uma teoria geral de quatro forças fundamentais se a gravidade, um efeito da curvatura do espaço-tempo, difere das forças forte, fraca e eletromagnética que governam partículas. Em suas muitas variantes, a teoria das cordas não é sequer bem definida. Na nossa opinião, a possibilidade de uma teoria unificada é uma nota promissória.

Muitos multiversos

A hipótese do multiverso é motivada por um enigma: por que as constantes da natureza, como a constante de estrutura fina (que caracteriza a intensidade de interações eletromagnéticas entre partículas) e a constante cosmológica (associada com a aceleração da expansão do universo) têm valores que se encontram no pequeno intervalo que permite a existência de vida? A teoria do multiverso estabelece que existem bilhões de universos paralelos não observáveis lá fora, nos quais todos os possíveis valores para essas constantes podem ocorrer. Portanto, em algum lugar existe um universo condizente com vida, como o nosso, apesar disso ser altamente improvável. 

Alguns físicos consideram que a teoria do multiverso não encontra qualquer ideia alternativa para explicar muitas outras coincidências bizarras. O baixo valor da constante cosmológica - conhecido como 10 elevado a 120 vezes menor do que o valor previsto pela teoria quântica de campos - é difícil de explicar, por exemplo. 

Este ano, defendendo as hipóteses do multiverso e da interpretação de muitos mundos, Carroll dipensou o critério de falseabilidade de Popper, alegando que se trata de um "instrumento contundente". Ele apresentou duas outras exigências: uma teoria científica deveria ser "definitiva" e "empírica". Por definitiva, Carroll entende que a teoria diz "algo claro e sem ambiguidade sobre como a realidade funciona". Por empírica ele compreende algo que está de acordo com a definição usual de que uma teoria deve ser julgada como bem sucedida ou fracassada a partir de sua habilidade para explicar dados. 

Ele argumenta que domínios inacessíveis podem ter um "efeito dramático" em nosso quintal cósmico, explicando por que a constante cosmológica é tão pequena na parte que observamos. Mas na teoria do multiverso, essa explicação poderia ser dada independentemente do que astrônomos observam. Todas as possíveis combinações de parâmetros cosmológicos existiriam em algum lugar, e a teoria tem muitas variáveis que podem ser alteradas. Outras teorias, como a gravidade unimodular, uma versão modificada da teoria da relatividade geral de Einstein, também podem explicar por que a constante cosmológica não é enorme.

Algumas pessoas desenvolveram variantes da teoria do multiverso que são suscetíveis a testes. A versão do físico Leonard Susskind pode ser falseada se algum dia for descoberta uma curvatura espacial negativa no universo. Mas tal descoberta não provaria coisa alguma a respeito das outras versões. Fundamentalmente, a hipótese do multiverso se sustenta na teoria das cordas, que ainda é não verificada, e nos mecanismos especulativos para compreender diferentes físicas em universos paralelos. Isso, em nossa opinião, não é robusto e, muito menos, testável.

A interpretação dos muitos mundos para a realidade quântica, proposta pelo físico Hugh Everett, é o multiverso quântico final, onde probabilidades quânticas afetam a realidade macroscópica. De acordo com Everett, cada um dos famosos gatos de Schrödinger, o vivo e o morto, envenenado ou não em sua caixa fechada por ação de decaimentos radioativos aleatórios, é real em seu próprio universo. Cada vez que você faz uma escolha, mesmo que seja tão mundana quanto seguir para a direita ou para a esquerda, um universo alternativo pipoca a partir do vácuo quântico para acomodar a outra ação. 

Bilhões de universos - e de galáxias e de cópias de cada um de nós - se acumulam sem a possibilidade de comunicação entre eles ou de teste sobre suas existências. Mas se uma duplicata de alguém existe em cada multiverso e se há infinitos universos, qual é o verdadeiro "eu" que experimento neste momento? Alguma versão deste "eu" é preferida sobre alguma outra? Como "eu" poderia saber qual é a "verdadeira" natureza da realidade se um "eu" favorece o multiverso e o outro não? 

Em nosso ponto de vista, cosmólogos deveriam acatar a advertência do matemático David Hilbert: apesar de infinidades serem necessárias para completar a matemática, elas não ocorrem em lugar algum do universo físico. 

Passe pelo teste

Nós concordamos com a física teórica Sabine Hossenfelder: ciência pós-empírica é um oximoro. Teorias como mecânica quântica e relatividade se saíram bem porque fizeram previsões que resistiram a testes. Porém, inúmeros exemplos históricos indicam como, na ausência de dados adequados, ideias elegantes e sedutoras conduziram pesquisadores para o caminho errado, desde a teoria geocêntrica de Ptolomeu até a teoria do vórtex do átomo de Lord Kelvin e a visão do universo em estado estacionário perpétuo, devida a Fred Hoyle. 

As consequências da supervalorização do significado de certas teorias são profundas - o método científico está em jogo. Afirmar que uma teoria é tão boa que sua existência dispensa a necessidade de dados e de testes, em nossa opinião, coloca em risco a visão de estudantes e do público sobre como ciência deveria ser feita. E ainda pode abrir portas para pseudocientistas afirmarem que suas ideias atendem a exigências semelhantes. 

O que fazer então? Físicos, filósofos e outros cientistas deveriam insistir em uma nova narrativa para o método científico que possa lidar com o escopo da física moderna. Em nossa perspectiva, a questão se resume a esclarecer o seguinte: qual tipo de evidência observacional ou experimental que pode persuadi-lo a acreditar que a teoria está errada e que deve ser abandonada? Se não existir alguma, não é uma teoria científica.

Tal defesa deve ser feita em termos filosóficos formais. Uma conferência deve ser convocada no próximo ano para dar os primeiros passos. Pessoas de ambos os lados do debate sobre testabilidade devem participar.

Enquanto isso, editores e editoras poderiam destinar trabalho especulativo para outras categorias de pesquisa - como matemática, ao invés de cosmologia - de acordo com o potencial para testabilidade. E o domínio dessas atividades em alguns departamentos e institutos de física poderia ser reavaliado. 

O imprimatur da ciência deveria ser conferido apenas a uma teoria que seja testável. Somente assim poderemos defender a ciência de ataques.