segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Resposta a um pedido


Com a devida autorização, reproduzo abaixo e-mail que recebi no dia 14 de novembro deste ano, de Guilherme Oliveira Santos. 

Normalmente não reproduzo e-mails neste blog, mas faço aqui uma exceção. Isso porque o texto foi escrito por um jovem estudante que demonstra uma rara combinação de preocupação com sensatez e esperança, a qual não percebo sequer na maioria dos professores universitários de nosso país. Além disso, existe outra motivação para a divulgação desta mensagem. O autor faz um pedido para que eu tome uma iniciativa que não posso realizar. Ao final da mensagem de Santos, apresento minha resposta.

______________
UFPR
de Guilherme Oliveira Santos

Boa tarde

Sou aluno do primeiro período do curso de Física da UFPR, acompanho o blog Matemática e Sociedade desde que decidi ser físico (final de 2012). Minhas impressões de por onde a educação deve permear, dentro de minhas limitações, alinha-se ao que o senhor vem discutindo em seus textos, como um ajuste meritocrático e mais autonomia universitária para contratação e demissão de professores. Com esta carta tenho a intenção de descrever brevemente o que penso sobre um equívoco específico dos alunos de graduação da UFPR e sobre um contra-ataque às ideologias dominantes nas universidades públicas.

Desde que iniciei os estudos no curso de Física, pude notar ao longo desse período alguns padrões de pensamento a respeito das visões políticas e econômicas que meus pares apresentam, e notei que há muita confusão sobre fenômenos de ação-reação, isto é, sobre a interferência política no funcionamento do mercado. Apesar de não ser trivial, devido ao fato de que a reação está distante da ação e por ter milhões de variáveis envolvidas, nota-se que os graduandos estão muito pouco familiarizados com esse conhecimento, quando não é de todo desconhecido; por exemplo: alguns alunos criticam veementemente a presidente Dilma Rousseff, mas durante as campanhas eleitorais afirmaram que prefeririam a candidata Luciana Genro porque, por algum motivo, acham as ideias dela melhores, talvez pelas falácias de que ajudaria os pobres taxando mais os ricos. Vejo aí um grande equívoco, pois para ajudar realmente os pobres é necessário menos boas-intenções e mais liberdade para empreender. Outros falam mal do comunismo, mas defendem intervenção estatal para regular o mercado e aspectos morais. São muitas inconsistências nos argumentos que utilizam para justificar seus posicionamentos. Aquilo me pareceu um pouco Keynesiano, sempre apoiados na ideia de um Estado gestor e interventor.

Onde quero chegar, professor, é em lhe fazer uma sugestão, e se talvez o senhor ministrar um minicurso ou algo semelhante, talvez colóquios, de forma que supra essa carência cognitiva, eu penso como um ponto de partida (para os universitários), visto que muitos dos estudantes têm tendência mais liberal, mas falta-lhes a compreensão das dimensões que isso toma em nossas vidas, por isso pensei que poderia servir como uma introdução a um conhecimento pouco esclarecido em nosso país. Um curso que poderia abranger sistemas complexos, lógica (para melhor compreensão dos argumentos), teoria dos jogos, estatística, empreendedorismo. 

Apesar da complexidade dos assuntos gosto de imaginar que é possível condensá-los de forma a nos tirarmos ao menos da lama intelectual em que estamos. Tenho uma ligeira preocupação, principalmente porque a maioria é sempre bem-intencionada, mas falham por falta de conhecimento consistente que lhes coloque em uma posição mais coerente com o que defendem, falta-lhes a ideia de que os meios são importantes serem definidos antes de tomadas de decisões parvas. Não quero com isso dizer que todos devem se importar, mas como estamos em tempos perigosos penso que seja interessante que nós (alunos) visualizemos o mundo por outras perspectivas.

Eu tenho otimismo (ou ingenuidade) quanto a isso, pois ao menos um dos meus colegas já está lendo von Mises. Tenho a impressão de que, aumentando a divulgação de ideias que aproximam a matemática e a física das ciências humanas, pode vir a ser benéfico para a comunidade acadêmica. A ideia é desmistificar os 'engenheiros sociais', sociólogos, filósofos, pedagogos, que de forma geral se manifestam com ojeriza aos mais bem sucedidos e insistem que o melhor é sermos iguais, sem levarem em consideração a liberdade de escolha de cada um.

Devido à irrisória divulgação de pensamentos liberais, ainda mais fundamentados matematicamente, vejo isso como a abertura de uma janela de oportunidades por meio de uma transmissão de conhecimento que provoque os alunos a questionarem através da matemática e da lógica o que acontece em nosso país. Imagino que seria uma boa incitação a saírem da morbidez. 

Estou agradecido pela atenção.
_______

Segue abaixo minha resposta ao e-mail de Santos.

Eu já tentei realizar isso anos atrás, no contexto dos Seminários Analice Gebauer Volkov. Esses seminários eram divididos em duas categorias: técnicos e de divulgação. Nos seminários técnicos eram realizadas atividades para o desenvolvimento de projetos de pesquisa interdisciplinares. Já os seminários de divulgação eram marcados por palestras de caráter geral ministradas por profissionais de diferentes áreas do saber. Tivemos palestras sobre jornalismo, genética, filosofia, psicanálise, matemática, física e até zoologia, entre outros temas. Eram trazidas pessoas de diferentes partes do país e do mundo para apresentarem essas palestras. 

No entanto, aos poucos, os seminários de divulgação científica passaram a contar com cada vez menos pessoas interessadas. E eu não queria mais trazer profissionais altamente qualificados para ministrarem palestras diante de públicos que não chegavam a dois dígitos. É muito difícil desenvolver uma visão interdisciplinar em uma universidade como a UFPR. Mas, este problema não é exclusivo da UFPR. Lembro que anos atrás John Casti tentou criar, na América Latina, algo equivalente ao Santa Fe Institute, um centro de excelência no estudo de sistemas complexos. Muitos brasileiros conversaram com ele, incluindo eu mesmo. Mas não teve jeito. Não há massa crítica suficientemente articulada (nem no Brasil e nem no resto da América Latina) para uma iniciativa como essa. 

Quanto aos seminários técnicos, também foram cancelados, por conta de circunstâncias que prefiro não detalhar neste momento. É uma longa história.

Um exemplo melhor sucedido de promoção de visão interdisciplinar é a equipe Polyteck. Mas não sei até quando eles conseguirão resistir.

O que faço hoje, na UFPR, para estimular visões diferenciadas, é muito pouco em termos de resultados. Mas ainda é algo que pode fazer alguma diferença. Neste semestre letivo, por exemplo, tenho duas turmas no Curso de Matemática. Uma dessas turmas tem três alunos que frequentam regularmente as aulas. E a disciplina é Teoria de Conjuntos. O que estou fazendo com esses três alunos é um projeto de pesquisa que resultará em artigo a ser publicado em parceria comigo e Otávio Bueno. São cinco pessoas que estão desenvolvendo teoria de categorias no contexto de uma nova visão da teoria de conjuntos de von Neumann. Existem várias consequências para este trabalho, que poderão repercutir até mesmo no ensino médio. Oportunamente darei detalhes sobre isso, quando o artigo for aceito para publicação. No momento ainda estamos redigindo o texto e finalizando detalhes técnicos.

Ou seja, é possível sim colaborar de maneira construtiva para o crescimento do país. Mas a inércia a ser vencida é simplesmente gigantesca. Essa turma de três alunos que tenho neste semestre é uma exceção. São três jovens brilhantes e fortemente motivados. Só espero ver algo semelhante no futuro daqui a uns dez anos. Até lá, o negócio é ter paciência.

sábado, 22 de novembro de 2014

Dez mitos sobre educação


Apresento a seguir uma breve lista de dez mitos sobre educação muito conhecidos principalmente entre alunos.

Mito 1: Eu sei a matéria, mas não sei explicar.

Fatos: Conhecimento não é uma entidade metafísica. Ele tem um corpo material manifestado pelo emprego de linguagem.

Conhecimento só pode se manifestar pelo uso de linguagem, assim como pessoas só podem existir na forma de corpos humanos vivos. 

Se uma pessoa não consegue explicar algo é porque não sabe usar a linguagem. E, portanto, não tem o conhecimento.

Mito 2: Tirei zero porque me deu um branco na hora da prova.

Fatos: Pessoas saudáveis não esquecem aquilo que é familiar. Pessoas saudáveis não esquecem seus próprios nomes ou o lugar onde vivem.

Se uma pessoa saudável esquece algo é porque este algo não é ainda familiar.

Para que o conhecimento se torne familiar é necessário que se conviva com ele diariamente e não apenas em uns poucos momentos de sua vida.

Mito 3: O professor sabe a matéria, mas não sabe explicar. Por isso que eu não entendo.

Fatos: Como no primeiro mito, se o professor sabe a matéria, certamente deve saber explicar. Se não sabe explicar, é porque não sabe a matéria.

Se um aluno saudável não entende um assunto exposto em sala de aula, ele deve conversar com outros professores e ler bons livros para sanar suas dúvidas.

Se um aluno desconfia que possa estar sofrendo de algum distúrbio que prejudica seu rendimento escolar, deve procurar ajuda profissional. Em muitos casos de distúrbios físicos e mentais existem tratamentos bastante eficientes.

Mito 4: Aquele professor sabe ensinar. Entendo tudo o que ele diz.

Fatos: Se um aluno entende tudo o que um professor diz é porque este professor só fala assuntos triviais sem interesse científico algum. 

Todas as áreas do conhecimento científico são de difícil compreensão até mesmo entre cientistas.

Portanto, se um aluno entende tudo o que um professor diz, é melhor começar a estudar de verdade em bons livros e conversar com professores realmente críticos e exigentes.

Mito 5: Estudei o fim de semana inteiro e ainda fui mal na prova.

Fatos: Este se relaciona com o mito 2. Estudo intensivo em curto intervalo de tempo não permite familiarização com o conhecimento.

Todo conhecimento científico demanda tempo de reflexão e análise crítica. 

Assim como não é possível se tornar um atleta em um fim de semana, também não é possível conhecer qualquer ramo relevante da ciência em dois dias.

Mito 6: O professor é o transmissor de conhecimento.

Fatos: Professores não transplantam seus cérebros para a cabeça de seus alunos. 

Assim como bons professores precisaram de anos para se familiarizarem com certos ramos do conhecimento, alunos também precisam se dedicar diariamente em seus estudos.

Professores são meros orientadores. Eles devem apenas indicar o que deve ser estudado e questionar criticamente seus alunos.

Mito 7: Caiu na prova justamente aquilo que não estudei.

Fatos: Conhecimento científico não é fragmentado. A beleza da ciência radica justamente nas relações entre temas aparentemente distintos.

Se o aluno não estudou um tópico específico da matéria discutida em sala de aula é porque carece de uma visão mais ampla.

Para evitar isso, é fundamental o estudo diário e a frequente reflexão e discussão sobre os assuntos estudados.

Mito 8: Não faço perguntas em sala de aula porque nem sei o que perguntar.

Fatos: Se o aluno não sabe o que perguntar é porque está completamente perdido em sala de aula.

No caso de ensinos fundamental e médio, a solução é imediatamente procurar ajuda do professor, da família e de amigos.

No caso de ensino superior, o aluno deve ser honesto consigo mesmo e avaliar se está no curso certo.

Mito 9: Se eu estudar demais, vou comprometer minha vida social.

Fatos: Jamais é possível estudar demais. Ainda não existem indícios de limites cognitivos para pessoas saudáveis.

Se uma pessoa estuda destacadamente mais do que aqueles que habitam seus círculos sociais, com o tempo ela provavelmente vai apenas mudar seus círculos sociais.

Mito 10: Quem estuda demais fica louco.

Fato: Não.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Patrick Suppes


Na manhã de 2 de maio de 1994 defendi minha tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Durante o almoço, logo após a defesa, meu co-orientador, Professor Francisco Doria, perguntou: "E então? Quer ir pra Stanford?" Respondi com um imediato sim.

Meses depois recebi uma carta de Patrick Suppes, com um convite para eu realizar estágio de pós-doutoramento na Universidade Stanford. Em 1995 eu desembarcava com minha (então) esposa e meu filho de quatro anos no aeroporto de San Jose, California. De lá pegamos táxi para um hotel em Mountain View, no Vale do Silício. No dia seguinte cheguei a Ventura Hall, em Stanford, e me apresentei a Suppes. Ele demorou alguns segundos para entender quem, afinal de contas, era aquele sujeito de sotaque esquisito. Afinal Suppes pronunciava meu nome como Édonai. 

Assim que a breve confusão foi desfeita, Suppes imediatamente chamou sua secretária para me ajudar na localização de um apartamento para alugar. Na época havia uma única opção: um apartamento de dois quartos, com uma ampla sala, pela bagatela de 925 dólares por mês. O apartamento ficava em Menlo Park, local que sedia a mais antiga estação ferroviária da California.

Uma orientada de Suppes também foi convocada. Ela me deu carona de volta ao hotel e, de lá, a família toda se dirigiu ao apartamento. Suppes já havia conversado com a dona do imóvel por telefone. E, com um pouco de negociação, consegui convencê-la a alugar o apartamento a partir daquele mesmo dia.

Logo depois retornei a Ventura Hall e conversei brevemente com Suppes. Ele tinha compromissos naquele dia e me deu carona para fora do campus, em seu Mercedes-Benz. No caminho Suppes perguntou no que eu estava trabalhando. Expliquei que minha tese de doutorado era sobre teoria de categorias. Ele respondeu com um simples aham. Naquele instante entendi que era ele quem decidiria no que eu deveria trabalhar.

No dia seguinte Suppes explica que precisará viajar por alguns dias e recomenda que eu leia o livro The Quantum Vacuum, de Peter Milonni. Ele queria que eu trabalhasse em um modelo semiclássico para a física quântica, o qual havia iniciado em parceria com outro brasileiro, José Acacio de Barros. Suppes tinha um interesse específico no efeito Casimir.

Meu conhecimento sobre física quântica, na época, se limitava ao regime não-relativístico. Eu não sabia coisa alguma sobre eletrodinâmica quântica. Mas tinha que dominar os requisitos necessários para começar a discutir sobre um possível modelo corpuscular para o efeito Casimir, até o seu retorno, que se daria em alguns dias. 

Comprei o livro de Milonni na livraria de Stanford e um notebook Toshiba no Walmart. E então comecei a trabalhar. Por sorte a obra de Milonni era muito bem escrita, objetiva e clara. Todos os dias eu estudava na minha sala, em Ventura Hall, e em casa. 

Ao retornar de viagem, Suppes organizou seminários semanais sobre estatística e física, com a participação de gente do calibre de Max Dresden, que na época trabalhava no Stanford Linear Accelerator Center (SLAC). Foi Dresden quem deu a ideia que viabilizou a concepção do tal modelo corpuscular semiclássico para o efeito Casimir. 

Em um ou dois dias as equações básicas para o modelo estavam no papel. Suppes se empolgou com as contas iniciais. Mas, com o tempo, se mostrou bastante cético. Poucas semanas depois chega Acacio de Barros, que se envolve no projeto. 

Suppes, Acacio e eu conversávamos diariamente. Para cada dia havia uma nova versão do artigo, que era exaustivamente analisada. 

Acacio foi uma das pessoas mais criativas que já conheci. Era uma fonte inesgotável de ideias e um curioso compulsivo. Paralelamente ao projeto sobre o efeito Casimir, ele pensava nas relações entre física clássica e o teorema de Bell, da mecânica quântica.

Lá pela quinquagésima versão, o artigo foi submetido para publicação em Foundations of Physics Letters. Lembro que eu havia questionado com Suppes sobre a origem de nossa fórmula para a energia do estado de vácuo. Expliquei a Suppes que naquele artigo não havia uma única justificativa para aquela fórmula, apesar do formalismo canônico usual da eletrodinâmica quântica permitir a dedução dela. Ele então respondeu: "Temos que assumir algum ponto de partida". Ou seja, Suppes sugeriu que nossa fórmula funcionava como uma espécie de postulado. 

Semanas depois vieram os pareceres sobre o artigo. Um dos referees questionou justamente a origem de nossa fórmula para a energia do vácuo. Suppes olhou para mim, com a carta do editor na mão, e perguntou: "A gente havia conversado algo a respeito disso, não foi?" E, ingenuamente, respondi: "Sim. O senhor havia dito que deveríamos assumir algum ponto de partida." Suppes não gostou muito de minha impertinência.

Nesse meio tempo Acacio apresentou a ideia de provar a violação das desigualdades de Bell no contexto da eletrodinâmica clássica. Achei aquilo muito esquisito, mas Suppes se empolgou com a ideia. 

Nós três começamos a trabalhar em dois novos artigos: um sobre o teorema de Bell na eletrodinâmica clássica e outro sobre o teorema de Bell no modelo corpuscular semiclássico para física quântica. 

Questionei tanto as ideias de Acacio que Suppes chegou a brigar comigo. Aquele foi um dia realmente difícil. Senti-me uma espécie de criador de caso. Acacio, no entanto, encarava minhas críticas de forma completamente diferente. Ele percebia que provar a violação das desigualdades de Bell em regime clássico era uma ideia extremamente ousada e, portanto, questionável. Mesmo assim o artigo foi submetido para publicação, desta vez em Physical Review Letters.

Por tremendo azar, aquele trabalho caiu nas mãos de um referee absolutamente primário, que sequer conhecia noções elementares sobre teoria de probabilidades. Acacio e eu ajudamos Suppes a escrever a resposta ao referee. Mas não teve jeito. O artigo foi recusado.

Resumindo a história, o trabalho sobre o efeito Casimir foi publicado, bem como o artigo sobre o teorema de Bell no modelo corpuscular semiclássico. Mas o projeto sobre violação das desigualdades de Bell na eletrodinâmica clássica se limitou a um preprint ainda disponível na internet. 

Após um ano, chegou o momento de retornar ao Brasil. Acacio já havia partido há algum tempo. Em meu último dia em Stanford, Suppes deixou um artigo sobre minha escrivaninha, na sala que eu havia dividido com um americano, uma chinesa e, posteriormente, com um casal de franceses. Era um texto sobre o papel do filósofo da ciência na atualidade, que exerce forte influência sobre mim até hoje. Poucos dias antes, minha esposa, meu filho e eu jantamos com Suppes e uma de suas filhas. Ou seja, não ficaram mágoas, apesar dos atritos em uns poucos momentos.

Em seu último livro, uma espécie de memorial de toda a sua obra em filosofia da ciência, Suppes faz um agradecimento a mim, algo que me honra muito. Também recebi pelo correio uma cópia deste livro com uma exagerada dedicatória. 

Certamente não estou entre os colaboradores mais importantes de sua carreira. Mas pelo menos guardo um pouco deste contato pessoal e profissional que durou um ano e que era praticamente diário, chegando a ocorrer até mesmo em alguns domingos. 

Eu poderia ter escrito nesta postagem um texto melhor comportado, menos pessoal, destacando as contribuições de Patrick Suppes à filosofia, à matemática, à estatística, à psicologia, à educação, à neurologia e à física teórica. Poderia também ter detalhado por que Patrick Suppes recebeu do Presidente George H. W. Bush a Medalha Nacional de Ciência, o mais importante prêmio científico dos Estados Unidos. Mas sei que muitos escreverão sobre essas conquistas a partir do dia de hoje. Isso porque ontem Patrick Suppes faleceu, deixando um legado ainda muito ignorado no Brasil mas amplamente lembrado em todo o resto do planeta. 

Aliás, a última vez em que vi Suppes foi justamente no Brasil, quando esteve em Florianópolis, em evento que prestava homenagem a ele. São poucos os filósofos brasileiros que conhecem algo sobre a magnífica obra de Patrick Suppes. Mas esses poucos bastaram para atrair a sua atenção para o nosso país. 

Suppes conhecia melhor a produção de filósofos, físicos e matemáticos brasileiros do que a maioria de nós mesmos. E este é um dos aspectos que mais pude admirar neste grande pensador.

Em contrapartida, quando tentei traduzir seu último livro para o nosso idioma, recebi de editores a resposta de que esse tipo de literatura não interessa ao mundo acadêmico brasileiro. Afinal, quem se interessa por isso já lê diretamente o texto original. 

Houve desencontros sim, entre Suppes e eu. E esses desencontros são extremamente comuns entre pesquisadores. Mas, no final das contas, ainda era o conhecimento científico que falava mais alto. 

Suppes foi generoso o bastante para prefaciar meu primeiro livro, confiando em um breve resumo em inglês que fiz da obra, hoje praticamente esquecida. Manteve-me atualizado sobre seus últimos estudos a respeito do cérebro humano, publicados em Proceedings of the National Academy of Sciences. E, mais importante do que tudo, ensinou-me que o avanço da ciência depende fundamentalmente de riscos. Ser alvo de críticas (vindas de referees ou mesmo de colegas) jamais deve ser traduzido na forma de covardia travestida de cautela. 

Ciência é ousadia. E esta lição aprendi com Patrick Suppes (1922-2014), o mestre que hoje descansa fisicamente, mas que respira através de sua perene obra.

sábado, 15 de novembro de 2014

O que há de errado com as instituições privadas de ensino superior?


Educação é responsabilidade do Estado? Sim. Mas este saber comum tem sido gravemente distorcido por representantes do ensino superior da iniciativa privada de nosso país. Isso porque educação não é responsabilidade apenas do Estado, mas de todos nós.

Recentemente publiquei na página Facebook deste blog que a Universidade Stanford, referência mundial em termos de ensino superior e pesquisa, é uma instituição privada sem fins lucrativos, com orçamento de cinco bilhões de dólares e isenta de tributação federal. Pois bem. Em nossa nação, instituições educacionais sem fins lucrativos também são imunes do imposto sobre a renda, como ocorre nos Estados Unidos, país que abriga Stanford. No entanto, órgãos como o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP) frequentemente reclamam da carga tributária incidente sobre universidades privadas. Neste link o leitor pode acessar uma simulação promovida pelo próprio SEMESP em uma instituição hipotética com 500 alunos, na qual o lucro líquido é de apenas 6,06%, diante de uma tributação de 15%. E como o imposto de renda pode atingir até 30% do montante tributável, isso restringiria muito mais a margem de lucro. 

Mas o que mais perturba em um órgão como o SEMESP é o parecer de seu presidente, Hermes Ferreira Figueiredo, que afirma: "A carga tributária do Brasil é uma das mais altas do mundo. As garantias de educação e saúde, que são responsabilidades do Estado, ainda deixam a desejar.

Bem, se um empresário deseja lucro, por que trabalhar com educação? O lucro real da educação não é financeiro, mas social. Educação é responsabilidade sim do Estado, mas não apenas do Estado. Existe alguma universidade privada em nosso país que se aproxime de Stanford em termos de qualidade de produção de conhecimento? Não, claro que não. E por quê? Porque os empresários que administram as universidades privadas de nosso país não demonstram o mais remoto interesse nem por educação e nem por pesquisa. Se querem lucro, que vendam papel higiênico. Papel higiênico é um bem necessário em qualquer país civilizado, apesar de substituível por outras formas de papel. Mas educação não pode ser tratada da mesma forma. Educação é uma responsabilidade da sociedade como um todo, incluindo empresários.

Por que lucrar com educação? Não bastam salários compatíveis com as funções exercidas? Por que alimentar o desejo de ganhar fortunas com educação, se existem inúmeras outras formas de investimento para buscar lucros? Educação e saúde jamais deveriam ser encarados como oportunidades de lucro. Isso porque nenhuma sociedade se sustenta sem saúde e educação. 

Somente no ano fiscal de 2013-2014 a Universidade Stanford arrecadou quase um bilhão de dólares a partir de 82.300 doadores. Por quê? Porque esta universidade beneficia e é beneficiada por toda uma comunidade local e internacional que deseja ver esta instituição crescendo mais ainda em termos de influência e não de tamanho. E as universidade privadas de nosso país? Quais são os benefícios reais delas às comunidades locais e internacionais? 

Certamente existem muitas instituições privadas de ensino superior no Brasil que promovem programas sociais relevantes. Mas qual seria o alcance de tais programas se essas instituições abrissem mão de seus lucros e fossem gerenciadas por comissões formadas por representantes dos principais segmentos sociais diretamente envolvidos, como ocorre em Stanford? Por um lado, o fim do lucro aumentaria consideravelmente a receita dessas instituições e, por outro, estimularia várias pessoas físicas e jurídicas a fazerem generosas doações, como forma de agradecimento. Não seriam apenas as pessoas institucionalmente vinculadas que vestiriam a camisa da instituição, mas também demais membros das comunidades local e internacional. 

Outra consequência natural do fim dos lucros seria a oferta de salários competitivos para professores, o que permitiria a contratação dos melhores docentes e pesquisadores. E, claro, haveria mais verbas para pesquisa e programas sociais. 

Ou seja, pelo menos do ponto de vista tributário, há espaço para a criação e/ou manutenção de universidades privadas de destaque internacional em nosso país. Resta apenas saber se há espaço do ponto de vista social. Menos de 14% dos jovens bolsistas do Programa Ciência Sem Fronteiras do Governo Federal estão nas cem melhores universidades do mundo, de acordo com critérios da Times Higher Education. Ou seja, mesmo recebendo bolsas de estudos, nossos alunos de ensino superior ainda demonstram incompetência ou medo, quando o assunto é excelência. Por que, no início do Ciência Sem Fronteiras, tantos jovens procuraram instituições portuguesas? Por conta de dificuldades para lidar com idiomas estrangeiros. Isso é covardia e incompetência. 

O que há de errado com as instituições privadas de ensino superior de nosso país? É o mesmo que há de errado no país inteiro: falta-nos visão, ambição e ousadia. Afinal, o que querem os empresários da rede privada de ensino superior? O objetivo é ganhar mais, fazendo menos; ou fazer mais e melhor, ganhando um salário digno?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O conflito entre ciência e inovação


The "thousand profound scholars" may have failed, first, because they were scholars, secondly, because they were profound, and thirdly, because they were a thousand. 

Edgar Allan Poe
______________

Pensamento de grupo é um fenômeno psicológico que ocorre em coletividades de pessoas, no qual o desejo pela harmonia e perpetuação do grupo implica em tomadas de decisões irracionais ou disfuncionais. Este fenômeno é facilmente identificável em casos extremos de gangues criminosas que cometem atrocidades impossíveis de serem realizadas se seus membros não fizessem parte dessas gangues. No entanto, a questão difícil de responder é se pensamento de grupo não afeta de maneira irracional e disfuncional o próprio avanço da ciência.

Ciência está diretamente relacionada ao conhecimento proposicional. E todo conhecimento proposicional pode ser colocado na forma "S sabe que p", onde S é o indivíduo que sabe e p é a proposição que é conhecida. Portanto, ciência é algo que pode ser socialmente compartilhado. Alguns indivíduos sabem e outros não sabem, quando o contexto é alguma proposição p. E, neste sentido, ciência tem um caráter estático. Isso porque conhecer uma proposição p é algo que não muda p

Inovação, por outro lado, é uma operação que, entre outras coisas, age sobre proposições, alterando-as. Logo, ciência e inovação são fenômenos humanos conflitantes. 

Diante disso tudo, o que é o avanço científico? É simplesmente uma constante luta entre ciência e inovação.

Não são raras as pessoas que questionam a institucionalização da ciência, promovida por universidades e centros de pesquisa. Mas são raras as pessoas que percebem a incompatibilidade entre ciência e inovação, usualmente colocadas lado a lado como se fizessem parte de uma mesma missão socialmente nobre e promovida por membros da gangue acadêmica mundial. 

Se um cientista pensa de maneira diferente, em relação aos seus colegas, como ele será percebido? Ele será necessariamente identificado como um promotor de avanços científicos ou como um marginal que apenas gera desconforto, rompendo a harmonia da comunidade acadêmica?

Os estudos de história e fundamentos da ciência ajudam a ilustrar muito bem as ideias acima expostas. Por exemplo, alguém sabe o que é matemática? Não existe uma única definição clara, objetiva e abrangente o bastante para contemplar todas as áreas de estudo da matemática. No entanto, em todas as universidades e centros de pesquisa existe um senso de unanimidade de que há uma área do saber conhecida como matemática. Isso ocorre em função da dominante necessidade de pensamento em grupo, o qual colabora em favor de um senso de harmonia no mundo acadêmico, mas compromete qualquer princípio de inovação. Há vários exemplos históricos que ilustram isso. Um dos mais conhecidos é o axioma da escolha, que criou gigantesca polêmica entre matemáticos da primeira metade do século 20. Isso porque, inicialmente, o axioma da escolha não era ciência. Hoje é.

Ciência é um fenômeno social. Inovação é um fenômeno individual. A luta entre ciência e inovação é um drama épico, uma batalha entre indivíduos e sociedades. Daí a ingratidão da atividade científica. Abraçar uma carreira científica sempre envolve um processo de escolha entre liberdade de pensamento e ciência. E ser professor é algo mais ingrato ainda. Isso porque professores comumente são obrigados a impor ciência aos seus alunos ao invés de estimular a liberdade de pensamento. 

É claro que não pode existir liberdade de pensamento sem ciência. É preciso conhecer proposições p para somente então questioná-las e, quem sabe, mudá-las. E este fato apenas piora o problema da inovação. Isso porque além da batalha entre indivíduos e sociedades, existe ainda uma batalha de indivíduos contra eles próprios. Se o conhecimento de uma proposição p implicar na crença de p, este estado pode dificultar muito qualquer operação de inovação que modifique p

Nunca na história da humanidade houve tanta veiculação de artigos científicos quanto nos dias de hoje. Milhares de periódicos especializados publicam milhares de artigos supostamente inovadores. Mas, a partir do momento em que um artigo de pesquisa é aceito para publicação sem qualquer resistência, podemos garantir que ele representa alguma inovação de fato? Ou será que a maioria dos artigos científicos hoje publicados são simplesmente justificativas para garantir que a ciência de hoje está passando muito bem, obrigado?

domingo, 9 de novembro de 2014

Quem é realmente beneficiado pela Medalha Fields?


Em documento redigido no dia 12 de janeiro de 1932, o canadense John Charles Fields propôs que "duas medalhas de ouro sejam entregues por ocasião de sucessivos Congressos Internacionais de Matemática, como forma de reconhecimento de conquistas significativas em matemática. Por conta da multiplicidade de ramos desta área e levando em conta o fato de que o intervalo entre tais congressos é de quatro anos, pelo menos duas medalhas deveriam ser entregues." Fields ainda complementa seu documento, afirmando que esta medalha não deveria ser apenas um reconhecimento de trabalho já realizado, mas também "um encorajamento para o ganhador investir em pesquisas futuras, bem como um estímulo para o esforço renovado dos demais."

Pois bem. A primeira Medalha Fields, hoje reconhecida como o mais importante prêmio em matemática, foi outorgada em 1936 para Lars Ahlfors (Finlândia) e Jesse Douglas (Estados Unidos). A última foi concedida este ano para Maryam Mirzakhani (Irã), Martin Hairer (Áustria), Manjul Bhargava (Canadá, Estados Unidos) e Artur Ávila (Brasil, França). Ao longo de 78 anos de premiação para 56 matemáticos de 21 países (Finlândia, Estados Unidos, França, Noruega, Japão, Reino Unido, Suécia, Rússia, Itália, Bélgica, China, Alemanha, Ucrânia, Nova Zelândia, África do Sul, Austrália, Israel, Vietnã, Áustria, Irã e Brasil), o que se pode dizer sobre os sonhos de John Charles Fields? A Medalha Fields cumpre com o papel idealizado pelo seu criador? Esta é uma daquelas perguntas que não se responde com um simples sim ou não.

Em artigo a ser publicado em 2015 no periódico Journal of Human Resources, George J. Borjas (Harvard University) e Kirk B. Doran (University of Notre Dame) promovem uma detalhada análise do impacto da Medalha Fields sobre aqueles que conquistaram este importante prêmio. Para o leitor interessado em uma versão preliminar deste artigo, basta clicar aqui

As conclusões de Borjas e Doran certamente abrem espaço para discussões aprofundadas até mesmo sobre os méritos da meritocracia. Daí a importância deste artigo. Estes autores avaliaram a produtividade científica de um universo de 72 mil matemáticos espalhados pelo mundo, de acordo com banco de dados da American Mathematical Society, que leva em conta profissionais com pelo menos vinte anos de experiência. 

Por um lado, a média de produção científica de matemáticos é inferior a 32 artigos durante toda a carreira. Por outro lado, medalhistas Fields publicam acima de 116 artigos durante a vida profissional. Mas, curiosamente, os matemáticos concorrentes que não conquistaram este prêmio apresentam uma produção média ligeiramente superior, com 126 artigos. Até aí, esses números pouco revelam. O resultado realmente curioso é a comparação de produção científica entre aqueles que conquistaram a Medalha Fields e aqueles que concorreram mas não ganharam. Basta ver o gráfico abaixo.



Enquanto a linha vermelha indica produção científica (somente em termos de quantia de publicações) de ganhadores da Medalha Fields, a linha azul corresponde à produção de concorrentes que não conquistaram esta honraria. Ou seja, a produção matemática de medalhistas cai em quantidade logo após o recebimento do prêmio, enquanto os demais aumentam a produção. 

E quanto a impacto de pesquisas? De acordo com Borjas e Doran, medalhistas Fields apresentam uma média de 64 citações ao ano, enquanto concorrentes não contemplados apresentam uma média de 56 citações ao ano. Portanto, a diferença é pequena e certamente carrega em si o prestígio social da Medalha Fields. Em termos de impacto, ambas as categorias estão muito acima da média de 2,5 citações ao ano, no universo de 72 mil matemáticos existentes no mundo, de acordo com parâmetros acima citados da American Mathematical Society

Outra informação relevante levantada por Borjas e Doran é a identificação de matemáticos que transformaram completamente esta ciência e que não foram contemplados pela Medalha Fields. Exemplos bem conhecidos são George Lusztig e John Tate, entre muitos outros. Há pelo menos quatro fatores arbitrários que justificam este fenômeno: o intervalo de quatro anos entre uma premiação e a próxima, a limitação de premiação para quatro matemáticos (no máximo), a restrição de idade (indivíduos com mais de 40 anos de idade não podem concorrer) e tendências de valorização de certas áreas da matemática em detrimento de outras. Segundo Borjas e Doran, os matemáticos contemplados pela Medalha Fields fizeram contribuições que não cobrem sequer metade das grandes conquistas matemáticas realizadas nos últimos 80 anos. 

Naturalmente existem muitas outras formas de reconhecimento de mérito de pesquisa. Mas, em matemática, nenhum outro prêmio é tão impactante do ponto de vista social quanto a Medalha Fields. 

Mas voltemos agora à questão de queda de produção e o que isso tem a ver com o título da postagem.

Sabendo que a conquista do Prêmio Nobel em Economia não altera de forma alguma a produtividade dos contemplados, fica então uma questão: por que a produção científica de matemáticos ganhadores da Medalha Fields diminui? 

De acordo com o artigo de Borjas e Doran, ocorre um bizarro fenômeno comportamental entre ganhadores da Medalha Fields. Existe uma forte tendência para esses matemáticos migrarem seus interesses intelectuais para áreas do conhecimento não exploradas antes da conquista do prêmio. Pelo menos metade da queda de produção pode ser atribuída a esta propensão à experimentação.

Ou seja, a Medalha Fields serve de estímulo para o contemplado investir em futuras pesquisas? A resposta é positiva se olharmos do ponto de vista de uma necessidade individual de exploração de novos territórios. A resposta é negativa se olharmos do ponto de vista de pesquisas anteriormente realizadas. 

A Medalha Fields serve de estímulo para os concorrentes não contemplados? A resposta é negativa se olharmos do ponto de vista de uma necessidade individual de exploração de novos territórios. A resposta é positiva se analisarmos do ponto de vista de um senso de continuidade de pesquisas anteriormente realizadas.

Portanto, examinemos outros dois pontos de vista: o institucional e o social.

Artur Ávila foi o primeiro brasileiro a conquistar a Medalha Fields. E ele conta com um vínculo no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro. Analisando os resultados de Borjas e Doran, fica claro que os principais beneficiados por esta conquista são o IMPA e o Brasil. Por quê? Porque esta conquista definitivamente impulsiona outros jovens matemáticos a buscar as grandes conquistas. 

Para o indivíduo não deve fazer tanta diferença assim se ele ganha a Medalha Fields ou o Prêmio Nobel. Esta preocupação deve ser prioritariamente institucional e social. Instituições e segmentos sociais devem sim fazer campanhas internacionais para indicar seus mais brilhantes pesquisadores para fins de premiação, como fez o IMPA em várias ocasiões. Este incentivo exerce poderosa influência sobre muito mais gente do que apenas uma pessoa indicada.

Se matemáticos contemplados pela Medalha Fields demonstram interesses diferentes após a premiação, isso parece revelar um perfil psicológico que não ocorre em outras áreas do saber, como economia. E certamente é algo que deve ser melhor investigado e compreendido. O que há de diferente entre matemáticos? Ou será que o limitante de idade da Medalha Fields exerce uma influência que não atinge cientistas mais experientes? 

O Brasil é um país que já tem um extenso histórico de desprezo por grandes pensadores que aqui nasceram e trabalharam. A conquista da Medalha Fields por um brasileiro, notícia quente ontem e fria hoje, é um sinal de que este perfil social pode mudar. Indivíduos são importantes sim, mas eles nada seriam sem um meio social que os estimule. Que o Brasil aprenda mais com o exemplo do IMPA e que o IMPA aprenda mais com os resultados de Borjas e Doran. Ninguém está imune à crítica.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Psicologia cognitiva ajudando a prever o futuro


Scientia potentia est. Conhecimento é poder. Esta frase, frequentemente atribuída a Francis Bacon, está adquirindo um novo significado a partir deste ano. 

Vivemos em uma época em que muitas informações são coletadas, processadas, usadas e até vendidas. E uma das prioridades do conhecimento científico é justamente a previsão do futuro, para fins de antecipação de fatos e informações. Existem várias teorias científicas que viabilizam isso. Conhecimentos elementares de astronomia permitem antecipar épocas mais adequadas para plantio e colheita. A teoria da gravitação universal de Newton permite prever quando um objeto tocará o chão, após ser abandonado a partir de uma altura conhecida. E cadeias de Markov são empregadas para o desenvolvimento de modelos estatísticos que conseguem antecipar o comportamento de mercados de ações em curtos intervalos de tempo.

Mas agora é a psicologia cognitiva que está desenvolvendo novas técnicas para a previsão do futuro. E, desta vez, o objetivo é antecipar o futuro político de nações e do mundo.

Treze pesquisadores da University of Pennsylvania, Rice University e University of California (Berkeley) publicaram este ano um artigo no prestigiado periódico Psychological Science, no qual é relatado um torneio de previsões geopolíticas durante um período de dois anos. 

Este trabalho já está sendo citado em artigos publicados em Proceedings of the National Academy of Sciences, um dos mais impactantes periódicos científicos multidisciplinares do mundo, e despertou a atenção de unidades da inteligência militar dos Estados Unidos. A US Intelligence Advanced Research Projects Activity (IARPA) decidiu apoiar financeiramente o Projeto Bom Julgamento, com o objetivo de desenvolver novas abordagens para previsões políticas nacionais e internacionais. 

No artigo original acima citado é relatada a existência de pessoas com habilidades especiais de previsão do futuro. No entanto, tais pessoas não podem fazer previsões sozinhas, se o objetivo é torná-las mais precisas. Elas precisam formar equipes devidamente orientadas por profissionais da cognição humana.

Entre as pessoas testadas (recrutadas a partir de sociedades profissionais, centros de pesquisas, associações de ex-alunos e blogs de ciências), foram formados grupos que interagiam entre si e com os pesquisadores envolvidos. Mais de duas mil pessoas (chamadas de previsores) fizeram parte deste torneio e Philip Tetlock (líder do projeto) identificou uma parcela de 2% desta população como super forecasters (super previsores). 

Tetlock e colaboradores orientaram os previsores com técnicas de colaboração em equipe, treinos específicos sobre probabilidades (para fins de correção de tendências humanas naturais) e a efetiva identificação de super previsores para a formação de equipes de elite. O principal resultado foi o seguinte: apesar de previsões serem frequentemente compreendidas como um problema estatístico, elas podem se tornar consideravelmente mais precisas e corretas diante de intervenções comportamentais. 

A equipe liderada por Tetlock também identificou que as pessoas com maior habilidade para previsão do futuro são aquelas que têm desempenho melhor em testes de inteligência e que apresentam a mente mais aberta. Mente aberta, do ponto de vista da psicologia cognitiva, corresponde à habilidade para se lidar com incertezas. Apesar de visão política ajudar, um dos super previsores, por exemplo, é um farmacêutico. Isso ilustra muito bem o fato de que super previsores podem ser encontrados nos mais inesperados lugares.

Diante da realidade política de elevada instabilidade como hoje se encontra o nosso país, vejo como obrigação o comprometimento de nossas autoridades no desenvolvimento de pesquisas aplicadas nesta área. Afinal, se o futuro político de uma nação pode ser cientificamente antecipado, certamente erros podem ser evitados. 

O futuro é incerto sim. Mas já existem evidências significativas (levadas muito a sério) não apenas de tendências para a ocorrência de certos eventos políticos como também da real antecipação dos resultados de tais tendências. Cabe ao Brasil não errar novamente, como já o fez em outras oportunidades, por falta de cultura científica

Os resultados de Tetlock e colaboradores precisam ser conhecidos e aplicados em nossa nação. É o nosso futuro que está em jogo.

Ao leitor interessado, o periódico Psychological Science disponibilizou aqui uma versão não técnica do trabalho de Tetlock.