segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Psicologia cognitiva ajudando a prever o futuro
Scientia potentia est. Conhecimento é poder. Esta frase, frequentemente atribuída a Francis Bacon, está adquirindo um novo significado a partir deste ano.
Vivemos em uma época em que muitas informações são coletadas, processadas, usadas e até vendidas. E uma das prioridades do conhecimento científico é justamente a previsão do futuro, para fins de antecipação de fatos e informações. Existem várias teorias científicas que viabilizam isso. Conhecimentos elementares de astronomia permitem antecipar épocas mais adequadas para plantio e colheita. A teoria da gravitação universal de Newton permite prever quando um objeto tocará o chão, após ser abandonado a partir de uma altura conhecida. E cadeias de Markov são empregadas para o desenvolvimento de modelos estatísticos que conseguem antecipar o comportamento de mercados de ações em curtos intervalos de tempo.
Mas agora é a psicologia cognitiva que está desenvolvendo novas técnicas para a previsão do futuro. E, desta vez, o objetivo é antecipar o futuro político de nações e do mundo.
Treze pesquisadores da University of Pennsylvania, Rice University e University of California (Berkeley) publicaram este ano um artigo no prestigiado periódico Psychological Science, no qual é relatado um torneio de previsões geopolíticas durante um período de dois anos.
Este trabalho já está sendo citado em artigos publicados em Proceedings of the National Academy of Sciences, um dos mais impactantes periódicos científicos multidisciplinares do mundo, e despertou a atenção de unidades da inteligência militar dos Estados Unidos. A US Intelligence Advanced Research Projects Activity (IARPA) decidiu apoiar financeiramente o Projeto Bom Julgamento, com o objetivo de desenvolver novas abordagens para previsões políticas nacionais e internacionais.
No artigo original acima citado é relatada a existência de pessoas com habilidades especiais de previsão do futuro. No entanto, tais pessoas não podem fazer previsões sozinhas, se o objetivo é torná-las mais precisas. Elas precisam formar equipes devidamente orientadas por profissionais da cognição humana.
Entre as pessoas testadas (recrutadas a partir de sociedades profissionais, centros de pesquisas, associações de ex-alunos e blogs de ciências), foram formados grupos que interagiam entre si e com os pesquisadores envolvidos. Mais de duas mil pessoas (chamadas de previsores) fizeram parte deste torneio e Philip Tetlock (líder do projeto) identificou uma parcela de 2% desta população como super forecasters (super previsores).
Tetlock e colaboradores orientaram os previsores com técnicas de colaboração em equipe, treinos específicos sobre probabilidades (para fins de correção de tendências humanas naturais) e a efetiva identificação de super previsores para a formação de equipes de elite. O principal resultado foi o seguinte: apesar de previsões serem frequentemente compreendidas como um problema estatístico, elas podem se tornar consideravelmente mais precisas e corretas diante de intervenções comportamentais.
A equipe liderada por Tetlock também identificou que as pessoas com maior habilidade para previsão do futuro são aquelas que têm desempenho melhor em testes de inteligência e que apresentam a mente mais aberta. Mente aberta, do ponto de vista da psicologia cognitiva, corresponde à habilidade para se lidar com incertezas. Apesar de visão política ajudar, um dos super previsores, por exemplo, é um farmacêutico. Isso ilustra muito bem o fato de que super previsores podem ser encontrados nos mais inesperados lugares.
Diante da realidade política de elevada instabilidade como hoje se encontra o nosso país, vejo como obrigação o comprometimento de nossas autoridades no desenvolvimento de pesquisas aplicadas nesta área. Afinal, se o futuro político de uma nação pode ser cientificamente antecipado, certamente erros podem ser evitados.
O futuro é incerto sim. Mas já existem evidências significativas (levadas muito a sério) não apenas de tendências para a ocorrência de certos eventos políticos como também da real antecipação dos resultados de tais tendências. Cabe ao Brasil não errar novamente, como já o fez em outras oportunidades, por falta de cultura científica.
Os resultados de Tetlock e colaboradores precisam ser conhecidos e aplicados em nossa nação. É o nosso futuro que está em jogo.
Ao leitor interessado, o periódico Psychological Science disponibilizou aqui uma versão não técnica do trabalho de Tetlock.
domingo, 2 de novembro de 2014
Ciência e Ideologia
José Sarney tornou-se o primeiro Presidente da Nova República, em 1985. Diante de uma grave crise econômica em nosso país, no ano seguinte ele lançou por decreto-lei o Plano Cruzado, uma série de medidas econômicas que incluíam congelamento de preços de bens e serviços e congelamento da taxa de câmbio do dólar e da libra. Lembro bem da época. O primeiro Presidente civil, após o fim da ditadura militar, usou sua popularidade para convocar os "fiscais de Sarney", cidadãos comuns que deveriam garantir o congelamento de preços. Mesmo pessoas usualmente sensatas e equilibradas do ponto de vista emocional se transformaram em criaturas animalescas, denunciando (em meio a furiosas ofensas e ameaças) comerciantes que desejavam aumentar preços de mercadorias. Foi o início de uma nova ditadura.
Em 1995 Newton da Costa, Francisco Doria e Marcelo Tsuji publicaram um artigo no qual se demonstrava a existência de jogos não cooperativos (como ocorre em sistemas econômicos) nos quais era impossível calcular o equilíbrio de Nash. Para quem não conhece o tema, basta dizer que o equilíbrio de Nash é uma situação na qual nenhum jogador tem a ganhar mudando a sua estratégia unilateralmente. Por conta deste resultado, fica evidente o inevitável fracasso do Plano Cruzado, que de fato ocorreu, resultando em muitas ações judiciais até hoje em curso. Se o equilíbrio de Nash não pode ser computado, certamente não pode ser imposto.
Alguém poderia argumentar que o resultado de da Costa, Doria e Tsuji só passou a ser conhecido muito tempo depois do decreto do Plano Cruzado. No entanto, a teoria de jogos não cooperativos é conhecida desde 1950. E jamais foi determinado qualquer algoritmo que pudesse estabelecer o equilíbrio de Nash para um jogo não cooperativo qualquer. Ou seja, a decisão do Presidente José Sarney foi puramente ideológica, sem suporte científico. Daí o seu fracasso, com feridas não cicatrizadas que ainda persistem nos dias de hoje.
Este é o preço que se paga diante de posturas irracionais. Pessoas são comumente conhecidas por decisões irracionais tomadas diariamente. No entanto, governos devem ser muito mais cuidadosos, apesar de serem definidos por ações de pessoas. Este é um dos principais motivos do fracasso político de nosso país: a falta de decisões racionais.
Até pouco tempo atrás eu publicava postagens neste blog, mantendo uma ingênua esperança de discussões futuras sobre temas importantes. Após cinco anos de vida deste fórum, cheguei à conclusão de que sou uma pessoa sem visão prática dos fatos da vida. Quando discussões são promovidas, elas ocorrem de forma muito breve, fragmentada e predominantemente no Facebook. E o Facebook é um ambiente que simboliza o esquecimento. Isso porque Facebook é um mar de informações que rapidamente engole o passado, tornando-o obsoleto. Ou seja, Facebook é uma péssima mídia para a promoção de discussões socialmente pertinentes. Mas é uma ótima mídia para atender às necessidades imediatistas de seus usuários, que já somam parcela significativa da humanidade.
Portanto, o que me resta nesta época próxima do fim das atividades deste blog é apenas o compartilhamento de informações e opiniões com as poucas centenas de pessoas que pensam além dos problemas imediatos. E o tema desta postagem é o conflito entre ideologia e ciência.
Na postagem anterior à esta discuti muito brevemente sobre as relações existentes entre atividade sexual e capacidade cognitiva, citando Satoshi Kanazawa. E no Facebook me deparei com um comentário de Rodrigo Motta, o qual afirma: "Achei interessante a citação ao Satoshi Kanazawa. Ele é bem controverso, inclusive despertou a ira de muitos psicólogos cognitivos quando defendeu que a África é pobre porque negros possuem uma inteligência inferior."
No final do século 19 nascia na Inglaterra a eugenia, uma suposta teoria científica que visava o estudo de agentes que podem melhorar ou piorar qualidades raciais dos pontos de vista físico e mental. Parcialmente sustentados por conceitos da eugenia, muitas decisões políticas desastrosas resultaram em dor, sofrimento e morte. O exemplo mais dramático foi o extermínio de judeus, negros, homossexuais e ciganos durante o regime da Alemanha Nazista. Estranhamente, fala-se hoje muito mais a respeito do extermínio de judeus do que de outros segmentos sociais, como se eles fossem menos importantes. Por quê?
Mas o resultado dessas decisões políticas desastrosas, movidas muito mais por ideologia (e, portanto, por preconceito) do que por ciência, não se limitou ao extermínio de milhões. Atingiu também a própria atividade científica, até os dias de hoje.
Em blog de Scientific American, John Horgan recentemente levantou a seguinte questão: Pesquisas sobre raça e QI devem ser abandonadas?
Horgan faz um breve levantamento de pesquisas recentes sobre diferenças raciais, cognição humana e economia. Ele abre sua postagem citando o cientista social Jason Richwine, cuja tese de doutorado defendida na Universidade Harvard defende que o QI (quociente de inteligência) médio de imigrantes nos Estados Unidos é substancialmente inferior ao QI da população branca nativa daquele país. Posteriormente Richwine publicou um estudo que indica que a eventual anistia a imigrantes ilegais nos Estados Unidos custaria mais de cinco trilhões de dólares. E ele também afirma que ninguém sabe se hispânicos conseguirão algum dia desenvolver níveis de inteligência comparáveis aos de brancos, mas que a previsão de que novos imigrantes hispânicos terão filhos com QI inferior é difícil de contestar.
Richard Herrnstein e Charles Murray, também de Harvard (bizarra coincidência!), afirmaram em publicação de 1994 que programas para melhoria de desempenho acadêmico de negros podem ser inúteis, uma vez que esta categoria racial é naturalmente menos inteligente do que brancos. E até mesmo James Watson (ganhador do Prêmio Nobel e ex-professor de Harvard) afirmou que os problemas sociais da África se devem à inferioridade genética de africanos.
Horgan não cita Kanazawa, o qual é professor da London School of Economics e publicou no British Jounal of Health Psychology um artigo que endossa a visão de James Watson sobre o continente africano. Este trabalho criou considerável polêmica, dividindo opiniões entre pesquisadores de psicologia cognitiva.
John Horgan, autor da postagem publicada em blog de Scientific American (acima citada) sobre correlação entre raças e inteligência, conclui seu texto assumindo a postura do grande linguista Noam Chomsky: "Certamente pessoas são diferentes em suas qualidades biológicas determinadas. O mundo seria horrível demais para ser contemplado se este não fosse o caso. Mas a descoberta da correlação entre algumas dessas qualidades não é de interesse científico e nem socialmente importante, exceto para racistas, sexistas e semelhantes. Aqueles que argumentam existir uma correlação entre raça e QI e aqueles que negam isso estão contribuindo para o racismo e outros preconceitos, porque eles dizem isso assumindo que a resposta a esta questão faz alguma diferença."
A postura de Chomsky é fascinante, sem dúvida. Mas também é cientificamente questionável. Afinal, como saber se existe relevância sem a promoção de pesquisa? E se já foram apontadas possíveis consequências econômicas de diferenças raciais, por que não haveria relevância em tais pesquisas?
Ou seja, até que ponto o mundo hoje vivenciado por todos nós está preparado para a investigação científica? Até que ponto somos capazes de distinguir razão de ideologia? Como diferenciar um racista de um combatente do racismo? Como diferenciar um sexista de uma feminista? Se somos uma espécie que não consegue lidar sequer com sistema econômicos, como lidar com questões fortemente vinculadas a códigos morais? Afinal, moralidade existe há muito mais tempo do que ciência. E o peso da tradição é sempre muito forte.
Quando publiquei a postagem sobre sexualidade e cognição, recebi o seguinte comentário do jornalista José Galisi Filho, o qual editei para fins de reprodução neste blog:
"Adonai, li seu artigo apenas um vez, mas, como diabético, tenho uma espécie de "licença" e distanciamento naturais, para tentar refletir, como Freud, sobre aquela que é a fratura evolutiva mais brutal: a sexualidade. Você deve se lembrar de uma citação de Settembrini em A Montanha Mágica: 'A vida é uma febre da matéria'. A vida consciente é essa febre auto-reflexiva. Mas acontece que a sexualidade é literalmente uma 'astúcia', um estratagema da explosão pré-cambriana. Ela surgiu lá, é um mistério completo como simplesmente colonizou o planeta em tempo recorde, tudo se sexualizou. Muitos se perguntam se isso aconteceria em outros planetas, mas não é só isso, Adonai Sant'Anna, SEXUALIDADE (explosao cambriana) = VIOLENCIA, predação, são duas faces da mesma moeda, isso não é moral, um médico polêmico afirmou há duas décadas que a gravidez é uma guerra genética entre mãe e filho, como uma partida de xadrez que leva o sistema imunológico do hospedeiro aos limites. É um pensamento profundamente desagradável para os mamíferos. Se você é um cientista, não dá para ser cristão, a brutal violência evolutiva nasce na Terra com a sexualidade. Se você analisar meu blog Urania, perceberá que frequentei uma boa crítica feminista aqui em Hannover, há muitos ensaios sobre Alien e a fantasia castradora masculina de uma 'vagina dentada'. Muito bem. Acho que não dá para responder a nenhuma de suas perguntas sem levar um processo na cabeça. Ninguém vai gostar da resposta. Minha tia é uma bióloga famosa, autora de muitos livros didáticos sobre sexualidade adolescente (O Jô Soares já a entrevistou). Eu simplesmente a odeio por seu otimismo atroz e uma grande parte de meus esforços intelectuais desde a infância foram, ou uma tentativa de negar a versão Cândido/Voltaire dessa biologia, ou mais tarde seguir uma carreira militar (disfarçado de diplomata no CPCD) para acelerar as guerras inevitáveis em curso, pois assim estaria fazendo um favor 'à natureza'. O eixo de minha reflexão é o eros tecnológico e a hibris suicida de nossa espécie em busca do último orgasmo da guerra. Literalmente para Freud isso é a estrutura homossexual da paranoia. Eu sempre falava isso para ela: Tia, a sexualidade cambriana é muito brutal e ela dizia que tudo era maravilhoso, que o mundo era lindo por causa da sexualidade e aí eu percebi que por causa disso eu passei a ter alguns problemas intelectuais tentando ver as coisas como elas são no seu cerne, sem nenhum sistema moral. Para ela, a sexualidade era prova de que a vida tem o surplus de inteligência e seria um imperativo. Escrevi um ensaio acertando as contas com ela. Sobreviver significa, portanto, sobreviver a qualquer custo. Se a função da sexualidade é essa multiplicação e criar um excedente para a aritmética da seleção, uma espécie de 'linha de corte', uma vez cumprido o seu papel, por que continuamos a ter desejo? Por que o desejo sempre continua, não é? Os humanistas chamam isto de 'imaginação poética', a sexualidade criou um excedente. A sua pergunta é: 'Isto é INTELIGENTE?' Só pode ser inteligente se multiplicar, seja pela violência, pela predação indiscriminada. Alguma coisa deve estar errada nesta equação. Agora veja bem, se você quiser pensar em outra coisa que o desvie de pensamentos desejantes, veja. Quem precisa de feminismo?"
Não sei se o leitor está preparado para acompanhar as palavras de José Galisi Filho. Espero que sim. Mas se algum desconforto foi sentido, peço apenas que priorize a seguinte questão, ainda em aberto até os dias de hoje: como diferenciar ideologia de razão?
sábado, 1 de novembro de 2014
Sexo e inteligência
Apresento aqui uma breve discussão sobre algumas descobertas recentes envolvendo as relações entre sexo e inteligência. Meu principal objetivo é alertar para uma certa hesitação da comunidade científica internacional e segmentos sociais associados a ela, quando o assunto é sexo.
Primeira pergunta: atividade sexual saudável interfere em aspectos cognitivos humanos? Resposta: Ninguém sabe.
O que se sabe é que ratos de meia-idade, com vida sexual ativa, tendem a ter um desempenho cognitivo melhor do que ratos de meia-idade privados de atividade sexual. Há evidências convincentes de que sexo interfere de forma positiva no hipocampo, região do cérebro responsável por memória e navegação espacial. E o estudo que aponta para esses resultados foi publicado somente em 2013.
Segunda pergunta: pessoas mais inteligentes têm vida sexual melhor? Resposta: Pouco se sabe a respeito disso.
Em artigo publicado também em 2013 foi relatado que no universo de adultos que se encontram na terceira idade, a vida sexual diminui para a metade quando essas pessoas apresentam um quadro clínico de prejuízo cognitivo moderado (comumente associado à doença de Alzheimer). No entanto, neste estudo os autores demonstram uma preocupação com quantia de relações (por intervalo de tempo), sem qualquer discussão sobre qualidade de vida sexual. E o fato é que existem poucos estudos que focam na questão de satisfação sexual em um contexto mais amplo de saúde pública. Um excelente (e pioneiro) artigo que aborda esta relação entre satisfação sexual e saúde pública foi veiculado somente em 2011. Neste trabalho é promovida uma análise sobre relações entre satisfação sexual e saúde sexual em um universo de estudantes universitários dos Estados Unidos. No entanto, neste estudo nada se discute sobre aspectos cognitivos humanos, algo que certamente interessa aos jovens estudantes avaliados.
Terceira pergunta: Homossexuais são mais inteligentes do que heterossexuais? Resposta: Parece que sim.
Em artigo publicado em 2012, são apresentadas fortes evidências de que indivíduos mais inteligentes tendem a adquirir e expressar mais novidades evolutivas do que indivíduos menos inteligentes. Como o comportamento exclusivamente homossexual era muito raro em tempos ancestrais de nossa espécie, o autor conclui que pessoas mais inteligentes tendem a assumir mais facilmente um comportamento homossexual. Mas o que mais despertou atenção, ao ler o artigo, é um comentário do autor, Satoshi Kanazawa. Afirma ele que seu "interesse científico em comportamento homossexual [...] é estritamente teórico." Bem. Durante cerca de vinte anos trabalhei com física teórica. E, entre as centenas de artigos científicos que li até hoje, jamais vi qualquer comentário do tipo "meu interesse em física quântica é estritamente teórico." Por que fazer uma observação dessa natureza?
Em suma, apesar do relato nesta postagem ser excessivamente resumido, creio que é seguro afirmar que existe sim uma certa hesitação na comunidade científica para tratar de assuntos que relacionam sexualidade com cognição. Talvez essa postura tenha correlação com atividades pseudocientíficas de passado não muito remoto, as quais associavam diferenças raciais com inteligência. Ou talvez essa hesitação ocorra simplesmente porque sexo ainda é percebido de forma exageradamente preconceituosa. Afinal, jamais podemos ignorar o fato de que o próprio avanço da ciência está fortemente vinculado a contextos sociais sem relação direta com a atividade científica em si. Mas ciência deve ser promovida justamente para avançar sociedades humanas, não apenas para uma melhor compreensão sobre quem somos, mas também para o melhoramento de nossas civilizações.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Link
Hoje este blog completa cinco anos de existência e, por isso, escrevo uma postagem motivada por extensas discussões que tive ao longo de anos com muitas pessoas, tanto via internet e telefone quanto presencialmente.
Usualmente escrevo postagens recheadas com links que remetem a referências ou outros textos publicados neste site. Mas aqui sigo um caminho diferente. O único link que pretendo explicitar é aquele que direciona ao leitor ou a alguém que o leitor conheça.
Em meio a discussões acaloradas sobre educação, política partidária ou até mesmo modos de conduta da vida pessoal, ficam patentes algumas características sobre interlocutores. E essas características parecem girar em torno de um persistente conflito entre liberdade e isolamento; lembrando que isolamento é sinônimo de encarceramento, neste contexto.
Existem pessoas muito abertas (livres) intelectualmente, mas muito fechadas (encarceradas) no âmbito de relações pessoais em grande escala. E existem pessoas muito abertas em processos de socialização, mas intelectualmente isoladas. E quando indivíduos de diferentes perfis começam a discutir entre si, comumente ocorrem conflitos difíceis de serem administrados ou sequer compreendidos entre as partes interessadas.
Espero que o leitor se esforce para compreender o que sugiro aqui. Apesar de nosso país ter recentemente passado por uma batalha de discursos provocada por um polêmico processo eleitoral, não estou me referindo exclusivamente a isso. Mas admito que esta postagem é parcialmente motivada pelos últimos acontecimentos na vida política de nossa nação.
O que é abertura intelectual? É a capacidade de honestamente reconhecer a legitimidade de múltiplas formas de pensamento, sejam científicas, artísticas ou meramente intuitivas. Paradoxalmente, a abertura intelectual demanda elevado senso crítico. E uma condição necessária, porém não suficiente, para cultivar elevado senso crítico é o estudo aprofundado de diferentes áreas do saber. No entanto, estudo aprofundado não se limita a meras leituras e reflexões, mas exige a produção de conhecimento inédito, relevante e sólido, devidamente compartilhado e discutido com especialistas nas respectivas áreas. Somente a familiaridade íntima com múltiplas formas de pensamento pode preparar um indivíduo para uma postura de abertura intelectual. Para uma pessoa intelectualmente aberta não existem áreas do saber que ela não goste. Existem sim áreas que ela não conhece, mas que reconhece que precisa saber, ainda que esta meta seja impossível de ser alcançada. Para aqueles que duvidam da possibilidade da existência de pessoas intelectualmente abertas, devo dizer que eu mesmo já conheci dois ou três indivíduos assim, tanto no Brasil quanto no exterior. Portanto, abertura intelectual não é uma utopia.
O que é isolamento intelectual? É a postura de que no mundo das ideias existe uma clara distinção entre o certo e o errado, entre o verdadeiro e o falso, entre racionalidade e fé, entre ciência e pseudociência, entre amigo e inimigo, entre heterossexual e homossexual, entre etnias branca e negra, entre analfabeto e alfabetizado, entre aquilo que se precisa e aquilo que se deseja, entre inteligência e estupidez. O isolamento intelectual não permite inferir mais de uma interpretação para um texto ou uma ideia, e cria obstáculos para a compreensão de sutilezas. A pessoa intelectualmente isolada é dominada por certezas, convicções, tornando-se inflexível mesmo diante de argumentos bem articulados. Ironicamente, isolamento intelectual é a postura que assume a existência de uma clara distinção entre a pessoa intelectualmente isolada e aquela que é intelectualmente aberta. E é neste ponto que reside a considerável dificuldade para escrever um texto como este. Uma pessoa que afirma ser intelectualmente aberta, sugere em suas palavras que provavelmente não o é, pois falta-lhe auto-crítica. E uma pessoa que afirma ser intelectualmente isolada, demonstra que essa afirmação não pode ser verdadeira, por conta de exagerada auto-crítica.
O que é abertura social? É a capacidade de um indivíduo honestamente promover ações relevantes e construtivas do ponto de vista social, com pessoas que defendem ideias ou ideais radicalmente diferentes daquilo que tal indivíduo advoga. Um exemplo bem conhecido de abertura social é a colaboração entre cientistas, Estado laico e organizações religiosas em programas sociais. Se igrejas, mesquitas ou sinagogas colaboram com um Estado laico em programas de combate à fome e à miséria sem usarem esta oportunidade para fins de doutrinação religiosa, e se o Estado colabora nos mesmos programas sem tirar proveito para fins de propaganda política, temos assim um exemplo de abertura social. Para aqueles que duvidam da possibilidade de tais colaborações, devo dizer que eu mesmo já testemunhei ações dessa natureza fora do Brasil. E essas ações foram patrocinadas por igrejas. Portanto, abertura social não é uma utopia.
O que é isolamento social? É a postura na qual elogios não são bem-vindos e ofensas são ignoradas. É a postura na qual discussões presenciais são evitadas ou tempestivamente interrompidas, quando ocorrem opiniões divergentes. Um indivíduo socialmente isolado pode até mesmo debater suas ideias na internet, pois expõe apenas parte delas. Isso porque ideias não ficam evidentes simplesmente por meio de discursos, mas também por ações que nem sempre transparecem via internet. Até mesmo uma simples expressão facial pode denunciar se alguém está mentindo ou falando o que realmente pensa, enquanto que um simples texto escrito dificilmente tem esse papel revelador. E pessoas socialmente isoladas raramente expõem de forma clara o que sentem e pensam. Uma pessoa pode ser socialmente isolada por vários motivos: por sentir que raramente é compreendida, por conta da maneira como foi criada durante infância e adolescência, por influência de traumas de ordem psicológica, por conta de um quadro clínico ou por simples indiferença em relação a pessoas em geral. Uma pessoa socialmente isolada pode até ser bem sucedida em uma atividade profissional que exija muito contato humano, desde que ela abrace uma profissão na qual naturalmente ela deva ser ouvida, mas que não tenha a obrigação de ouvir. Docência é o exemplo mais marcante de atividade dessa natureza.
Em um primeiro momento quero propor um modelo comportamental de casos extremos de isolamento e abertura nos âmbitos social e intelectual. Provavelmente a maioria das pessoas se enquadra em estágios intermediários entre esses casos extremos. Ou seja, nem todo mundo é totalmente incapaz de socialização, assim como nem todo mundo é absolutamente incapaz de contemplar ideias novas. Mas existem pessoas que são facilmente identificáveis como casos que beiram esses extremos e, por isso, são frequentemente percebidas com estranheza. Portanto, se você não se identificar com qualquer uma dessas categorias é porque provavelmente se localiza em algum lugar nos tons cinzentos que separam os casos extremos.
Primeiro grupo. Como se comporta uma pessoa aberta dos pontos de vista intelectual e social? Este é um perfil muito raro. O matemático húngaro John von Neumann foi um exemplo de pessoa com essa rara índole. Foi um cientista extraordinariamente inovador em diferentes áreas do saber (portanto, de mente muito aberta) e altamente sociável. Pessoas desse grupo podem facilmente se tornar lideranças bastante confiáveis. E aqueles que são liderados por pessoas com este perfil apresentam uma tendência natural a se tornarem melhores tanto do ponto de vista pessoal quanto intelectual. Pessoas abertas dos pontos de vista intelectual e social naturalmente deixam uma trilha de bem estar por onde passam. São elas uma espécie de horizonte que deve servir de inspiração para aqueles que buscam por aperfeiçoamento pessoal. Possivelmente por conta disso que alguns amigos de von Neumann se referiam a ele como o próximo passo da evolução humana.
Segundo grupo. Como se comporta uma pessoa intelectualmente aberta, mas socialmente isolada? É um indivíduo que promove marcantes relações pessoais com um reduzidíssimo grupo de pessoas, pois o contato com muita gente provoca grande desgaste emocional. Tal desgaste ocorre justamente por sua dificuldade (ou incapacidade) de vencer seu isolamento social. Mas, por conta da abertura de sua intelectualidade, tende a admirar indivíduos socialmente livres. Comumente é tida como uma pessoa grosseira, indelicada. Isso porque esse indivíduo ingenuamente julga que suas ideias são compreensíveis para qualquer pessoa que se disponha a refletir. E, ao falar o que pensa, expõe com certa facilidade falhas de caráter identificadas em indivíduos que temem essa exposição.
Terceiro grupo. Como se comporta uma pessoa intelectualmente fechada, mas socialmente aberta? Pessoas socialmente abertas são honestas por natureza. Mas a limitação intelectual as coloca em uma situação de grande desconforto, pois elas sentem que têm pouco a oferecer em seus meios sociais. Portanto, quando abraçam carreiras tradicionalmente intelectuais, tendem a defender suas posturas com incisividade. Elas defendem princípios de lealdade, não abrindo espaço para mudanças de ideias. Costumam interromper a fala de outras pessoas e erguer a voz, para impor suas crenças. E frequentemente sofrem até mesmo em suas relações sociais até então bem sucedidas, apesar de comumente serem admiradas por muitos. Alimentam-se de elogios e se ressentem gravemente com ofensas.
Quarto grupo. Como se comporta uma pessoa fechada intelectual e socialmente? Este é um indivíduo potencialmente muito perigoso. Existem duas situações sociais possíveis para uma pessoa assim: a situação Unabomber (que, aliás, era matemático) e aquela na qual o indivíduo se reúne com outros de mesma índole para constituir células sociais organizadas. Vemos exemplos dessa natureza em seitas que defendem preceitos radicais ou até mesmo partidos políticos com ideologias que não se sintonizam com qualquer realidade social. A situação Unabomber é aquela em que o equilíbrio emocional é tão instável, que basta uma pequena perturbação para desencadear terríveis atos de violência extrema aparentemente gratuita. Já a segunda situação pode ser facilmente confundida com grandes habilidades de socialização. No entanto, grupos de pessoas fechadas nos âmbitos intelectual e social costumeiramente querem beneficiar apenas a si mesmas em detrimento daqueles que pensam e agem de forma diferente. São pessoas que fervorosamente alimentam noções ingênuas sobre lealdade, igualdade social e justiça, e maldizem todos aqueles que pensam e agem de maneira muito diferente, os quais frequentemente são rotulados de forma pejorativa como membros de elites.
Assumindo que o quadro acima descrito seja real, como promover um convívio social pacífico e construtivo entre as pessoas em geral? Entre os quatro grupos extremos apontados, somente o último é genuinamente perigoso. Os demais até podem ser responsáveis por atritos e desencontros. Mas o único grupo que pode desestabilizar uma sociedade a ponto de destruí-la é o último. Pessoas isoladas dos pontos de vista intelectual e social precisam de uma educação diferenciada, que respeite suas limitações cognitivas e emocionais. Elas precisam de uma educação inclusiva que tenha como meta a real inserção delas na sociedade. Caso contrário, é o equilíbrio da sociedade que tende a ser instável. No entanto, a má notícia é que o quarto grupo não tem despertado qualquer atenção entre autoridades. Afinal, indivíduos do quarto grupo ainda são tidos como pessoas normais.
sábado, 25 de outubro de 2014
Intuições visuais da sociedade brasileira
Nesta postagem uso recursos inspirados na teoria dos grafos para motivar discussões e eventuais revisões sobre a estrutura social de nosso país.
Na imagem abaixo sugiro uma visão um tanto simplificada de parte das redes sociais de nossa nação. De forma alguma as flechas (arestas orientadas) definem relações de influência em algum sentido absoluto, mas apenas de predominância.
Claramente estou ignorando nós (vértices) fundamentais da sociedade brasileira, como saúde, justiça e segurança pública. No entanto, meu objetivo é oferecer uma perspectiva diferenciada de simples textos ou outras formas usuais de comunicação, como fotos e vídeos. Desta forma tenho a pretensão de estimular a propagação de formas imediatas de análise social pouco divulgadas no Brasil.
Minha sugestão no grafo acima é a de que o governo federal brasileiro exerce um papel excessivamente centralizador em nosso país, interferindo diretamente em políticas educacionais do ensino básico e do ensino superior, no comportamento do mercado e do consumidor e nas políticas e ações de empresas. Por outro lado, empresas exercem forte influência sobre políticas e ações governamentais por meio de lobbies e apoios financeiros em épocas de eleições. Como empresas interferem diretamente sobre o governo federal e este interfere no mercado, o sistema econômico brasileiro acaba assumindo uma tendência corporativista. E, ao contrário do que muitos pensam, corporativismo pouco tem a ver com capitalismo. Finalmente, existe uma influência muito maior do mercado sobre o consumidor do que do consumidor sobre o mercado. Portanto, o corporativismo alimentado em nosso país exerce influência praticamente unilateral sobre a população. Isso explica porque o consumidor brasileiro é tão pouco exigente, comprando produtos inferiores por preços excessivamente elevados, em comparação com outras nações.
Neste contexto, o grafo acima sugere algo que parece difícil de contestar: o isolamento da educação básica e do ensino superior relativamente a demais nós da rede social brasileira. O ensino básico de nosso país é reconhecidamente um dos piores do mundo e, portanto, não encontra condições de retribuir socialmente com o resto da nação. É a velha história do povo sem educação que não pode agir sobre o sistema. E o ensino superior, representado por universidades públicas acomodadas e universidades privadas comprometidas com a simples emissão de diplomas, exerce influência muito aquém do que deveria.
Por conta disso tudo apresento uma visão alternativa de estrutura social, conforme o grafo abaixo.
Nesta proposta o governo federal desempenharia papel secundário. Os nós centrais da rede deveriam ser educação básica, ensino superior e empresas. Além disso, os papeis sociais de certos nós deveriam ter um caráter mais colaborativo.
Empresas deveriam ser influenciadas predominantemente pelo mercado, o qual trocaria relações de influência com os consumidores. Desta forma o destino de empresas estaria nas mãos do consumidor e não do governo federal. Além disso, o mercado receberia forte influência de uma educação básica mais forte, que viabilizaria uma população melhor informada e mais exigente. E, por conta disso, a educação básica trocaria relações de influência com governo federal e ensino superior. Já o ensino superior estaria mais conectado com demandas de empresas e da educação básica do que com agendas governamentais. Em contrapartida, empresas dependeriam de universidades em processos de inovação científica e tecnológica.
É claro que a interpretação de tais relações colaborativas entre diferentes nós sociais também é tema de discussão. Afinal, a eventual influência do governo federal sobre políticas de educação básica poderia facilmente minar uma rede social inteira de maneira extremamente danosa. Intenções de centralização em redes sociais frequentemente danificam partes significativas de redes. Portanto, a mentalidade de governantes do futuro deveria estar muito mais focada em reflexos sociais de suas ações do que ideologias egoístas.
O leitor pode até discordar de minha primeira proposta de estrutura social para um Brasil melhor. Mas dificilmente discordará da importância do emprego de grafos para fins de análise e reestruturação social de uma nação. Este recurso privilegia visões holísticas no lugar de visões dominantes de governantes que não conseguem enxergar além do próprio umbigo.
Nosso país já demonstrou em inúmeras ocasiões que consegue produzir mentes excepcionalmente brilhantes. Mas ainda falta a visão de que somos uma sociedade, na qual todos precisamos de todos.
Postagem Especial: Eleições 2014
Neste blog sempre evitei discussões político-partidárias. Mas, diante do atual quadro sócio-político de nosso país, não posso mais ignorar a institucionalização da insanidade no Brasil. Por isso quebro duas regras:
1) Escrevo um texto sobre o processo eleitoral deste ano e
2) Uso como imagem de referência para esta postagem algo que não criei e que reproduzo sem autorização, a saber, a capa da última edição da revista Veja.
Acabo de ficar sabendo que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, na noite de ontem, proibir a Editora Abril (responsável pela revista Veja) de fazer propaganda em qualquer meio de comunicação da reportagem de capa segundo a qual a Presidente Dilma Rousseff e o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva teriam conhecimento do esquema de corrupção da Petrobras.
Esta decisão do TSE demonstra preocupação com uma candidata à Presidência da República e não com o povo brasileiro. E este fato é demonstração incontestável de que nossa democracia está seriamente ameaçada.
Já apontei em inúmeras postagens deste blog diversas ameaças à democracia brasileira. E as maiores ameaças são a miserabilidade em que nossa educação se encontra, bem como a decadência de nossa produção científica e tecnológica. A sistemática tentativa de ocultar a escandalosa corrupção das últimas gestões do governo federal é simplesmente reflexo de nosso baixo nível intelectual enquanto nação.
Portanto, peço a todos os blogueiros e demais cidadãos que divulguem sim a matéria de capa da última edição da revista Veja, independentemente de opiniões pessoais sobre esta mídia. Não é a reputação da revista Veja ou de Dilma Rousseff que estão em jogo, mas a liberdade de expressão em uma nação supostamente democrática.
O TSE NÃO TEM JURISDIÇÃO SOBRE O POVO BRASILEIRO!
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
O Retorno de Estudante Brilhante
No final de 2011 publiquei neste blog a primeira postagem sobre o Estudante Brilhante, uma personagem fictícia que serve para ilustrar a constrangedora situação na qual o discípulo é mais inteligente e melhor informado do que o mestre.
Na primeira parte da história, Brilhante perigosamente se destacava por conta de questionamentos sobre os limites da cognição humana. Mas, desta vez, ele aprendeu que deve descer um degrau intelectual se quiser conviver civilizadamente entre os seus pares. E agora apela a situações já antecipadas por outros.
...
Durante aula professor Mula afirma que observações empíricas sob rigoroso controle laboratorial permitem inferir verdades científicas. E cita como exemplo a órbita da Lua ao redor do planeta Terra. Segundo Mula, esta é uma prova científica incontestável de que a Lua está em queda livre, sob a ação da força de gravidade que nosso planeta exerce sobre aquele satélite natural. Brilhante não se contém e novamente contesta:
- Quando o senhor fala de força de gravidade, está se referindo a qual tipo de força? Força newtoniana? Qual força newtoniana? Aquela que é discutida nos Principia de Isaac Newton, sem o emprego de cálculo diferencial e integral? Ou o senhor fala da força newtoniana discutida por Vladimir Arnol'd sob o ponto de vista de espaços de fase e grupos de Lie? Além disso, a concepção de força não é exclusiva de visões newtonianas! Há as forças de Hoyle e Narlikar, assim como as forças da mecânica relacional. E nem toda teoria gravitacional emprega o conceito de força. A relatividade geral de Einstein é um exemplo bem conhecido de teoria de gravitação sem força. Isso sem falar na mecânica de Hertz, que permite tratar de gravitação sem menção a força ou qualquer processo de geometrização. Mas a parte realmente intrigante da suposta verdade científica de que a Lua está em queda livre é que esta queda ocorre para cima.
Professor Mula se irrita com a aparente verborragia de Brilhante e questiona: "Como assim, queda para cima?"
Brilhante responde:
- Mesmo que nos limitemos a tratar de gravitação newtoniana nos moldes intuitivos do que hoje se entende sobre esta teoria, o fato é que o sistema Terra-Lua pode ser matematicamente tratado como um sistema de três corpos: Terra, Lua e marés oceânicas e terrestres que circulam pelo nosso planeta por ação gravitacional da Lua. E essas mesmas marés são responsáveis por perdas de energia total do sistema, obrigando a rotação da Terra ao redor de seu próprio eixo a diminuir ao longo de milhões de anos. Se considerarmos o sistema Terra-Lua-marés como isolado, por conta de conservação de momento angular do sistema é possível concluir que a Lua se afasta da Terra, algo que também encontra verificação experimental. Portanto, a Lua cai para cima, relativamente ao nosso planeta.
Professor Mula respira fundo e então responde: "Eu estava me referindo à gravitação newtoniana. Mas eu gosto da maneira como você pensa".
Estudante Brilhante, desta vez melhor humorado, reage:
- Professor, eu tenho uma pergunta a fazer.
Mula não sabe se deve se sentir aliviado ou preocupado: "Qual é a pergunta?"
- Três moças tomam sorvete. Uma delas lambe o sorvete, a outra morde o sorvete e a terceira chupa o sorvete. Qual delas é casada?
Desconcertado (e desconsertado!), Mula responde: "Não sei. Eu acho que a casada é aquela que chupa o sorvete."
- Não, professor. A casada é aquela que usa aliança na mão esquerda. Mas eu gosto da maneira como o senhor pensa.
Os alunos da turma riem da resposta de Brilhante e Mula tenta manter a postura de líder intelectual. E então sentencia: "Tudo bem. A brincadeira acabou. Agora, quem responder à próxima pergunta poderá ir para casa."
Brilhante rapidamente joga sua mochila pela janela, fazendo-a cair ao chão, do lado de fora da sala. Mula questiona, irritado: "Quem jogou essa mochila para fora?"
Brilhante responde:
- Fui eu, professor. Estou indo pra casa.
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