sábado, 18 de outubro de 2014

Vale a pena fazer um doutorado?


Desde que iniciei este blog quase cinco anos atrás, uma das perguntas que mais ouço é a seguinte: Vale a pena estudar?

No excelente blog do jornalista José Galisi Filho há uma postagem sobre as carreiras dos desempregados. É uma discussão muito bem explorada na qual se mostra que, nos dias de hoje, alta qualificação tem se tornado sinônimo de desemprego. 

Um dos melhores alunos que tive, hoje com pós-doutorado pelo Instituto Max Planck (tendo sido bolsista da própria Sociedade Max Planck, Alemanha), não consegue emprego nem na Alemanha e nem no Brasil. 

Em reportagem publicada quatro dias atrás no site da revista Science, Carrie Arnold apresenta exemplos pontuais que ilustram o fato de que pesquisadores altamente qualificados não encontram mais emprego em universidades e procuram colocações em empresas que claramente alimentam preconceitos contra detentores do título de Ph.D. Isso porque um profissional com doutorado deve ser destreinado para ser, então, retreinado. E não há, entre profissionais de recursos humanos, a crença de que tal missão valha a pena ou seja sequer realizável. E este sinistro quadro define não apenas a realidade de mercado de trabalho dos Estados Unidos como também da Europa.

No Brasil, assim como no velho continente e nos Estados Unidos, há duas opções principais de emprego para doutores: universidades e indústria. 

Entre as universidades há as públicas (estaduais e federais) e as privadas. A contratação em universidades públicas depende de editais de concursos públicos, os quais ainda são poucos e com quantias de vagas muito limitadas. Além disso, dada a natureza dos concursos públicos, tem sido crescente o fenômeno de "carta marcada", onde ex-alunos de membros de bancas ou de colegas de membros de bancas encontram favoritismos. Universidades privadas em geral evitam a contratação de doutores, que são profissionais mais caros (na folha de pagamento) e que frequentemente demandam condições de pesquisa. Como na maioria das universidades privadas de nosso país administradores sequer sabem o que é pesquisa, esta é uma situação que gera muito desconforto dentro das instituições. 

Em reportagem assinada por Sabine Righetti para blog da Folha de São Paulo, há uma discussão sobre análise promovida por especialistas em políticas de ciência e tecnologia que afirmam não haver pesquisa aplicada em empresas no Brasil. A justificativa de empresários de multinacionais é que existe uma carência muito grande de doutores em nosso país. No entanto, na mesma reportagem é apontado o fato de haver considerável quantia de doutores em ciência e tecnologia que estão desempregados. Quatro anos atrás, por exemplo, o índice de desemprego entre doutores era de quase 30%, muito maior do que o índice de desemprego de 8% entre todas as categorias profissionais no mesmo ano. E mesmo entre os empregados, havia considerável quantia daqueles que tinham que assumir dois ou mais empregos simultaneamente, para garantir a simples sobrevivência. Ou seja, neste contexto pode-se apontar para o conceito de "qualificação exagerada". No Brasil não é uma boa ideia ter qualificação exagerada, se avaliarmos apenas a questão de oferta de empregos.

Portanto, agora temos elementos para responder à questão do título desta postagem. Vale a pena fazer um doutorado? A resposta depende de visão pessoal sobre os propósitos de um doutorado. Se a visão for restrita a mercado de trabalho, a resposta é não. Realmente não vale a pena fazer um doutorado, seja no Brasil ou no exterior. Mas se a visão for ideológica, certamente vale a pena! 

O que é uma visão ideológica sobre os propósitos de um doutorado? É aquela na qual um doutorado é encarado como uma séria preparação para a investigação científica e um passo fundamental para a formação de redes sociais que facilitem essa investigação científica. Ou seja, uma pessoa somente tem visão ideológica sobre os propósitos de um doutorado quando ela é apaixonada por pesquisa e honestamente sente que não poderia seguir outro caminho profissional sem se tornar uma pessoa extremamente frustrada.

Eu, por exemplo, me classifico como um profissional ideológico. Fiz um doutorado em filosofia vinte anos atrás, na Universidade de São Paulo. Durante quase toda a minha vida profissional trabalhei com fundamentos lógicos e matemáticos de teorias físicas. Por sorte, sou empregado. Mas se, por algum motivo, eu perdesse o emprego que tenho, encontraria enorme dificuldade para convencer alguém a me contratar por um salário decente.

Portanto, a pergunta mais fundamental a ser respondida não é aquela que está no título desta postagem. A pergunta que deve ser respondida é: "Quem é você?"

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dia do Professor


Recentemente fui convidado para participar de uma discussão sobre o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Li esta obra quando tinha doze ou treze anos. Na tentativa de resgatar minha memória sobre a trama, percebi que havia lacunas. Então decidi reler o livro de Huxley em uma tradução de Vidal de Oliveira e Lino Vallandro deste grande clássico da literatura.

A trama gira em torno de um choque cultural entre o Selvagem (raramente chamado pelo seu nome, John) e uma civilização humana localizada em um futuro não muito distante, na qual todas as pessoas são produzidas pela indústria genética, a qual determina condições intelectuais e físicas que as pessoas devem ter para atender a necessidades do mercado de trabalho. Já o Selvagem é um bastardo que nasceu de forma natural em uma comunidade isolada da civilização, onde os humanos ainda são vivíparos, como nos dias de hoje.

Há um momento no livro em que Bernard Marx (homem geneticamente projetado para ser membro de castas superiores, mas cuja aparência física sugeria algum erro em seu desenvolvimento artificial no Centro de Incubação) usa o amigo Selvagem para conquistar elevado status social. E, como era de se esperar, em um certo ponto Selvagem não aceita mais esta covarde estratégia de Bernard. Ou seja, Bernard usufrui de sua nova condição social de prestígio por pouco tempo e acaba sendo menosprezado pelas castas superiores de maneira muito mais marcante do que sua aparência física (resultante do suposto erro em sua incubação artificial) pudesse justificar. Como reação emocional, Bernard decide se vingar de Selvagem. O motivo é simples: "Uma das principais funções de um amigo é suportar os castigos que nós gostaríamos, mas não temos possibilidade, de infligir aos nossos inimigos."

Pois bem. Hoje é o dia do professor. E professores são profissionais que tradicionalmente reclamam muito. Jamais se percebem greves de publicitários, advogados, arquitetos, psicólogos, engenheiros ou corretores de imóveis. Greves existem entre bancários, funcionários públicos e professores, ou seja, profissionais acostumados a esperar por reconhecimento de instâncias superiores, e não profissionais acostumados a avançar suas carreiras, conquistando novos espaços na sociedade. 

É claro que existem professores altamente satisfeitos com suas carreiras. Mas são exceções. Quem convive com professores sabe que são pessoas que usualmente reclamam muito. Mesmo este blog, mantido por um professor, concentra muitas reclamações. 

Professores reclamam de patrões que pagam pouco e cobram muito. Reclamam de alunos que não se interessam por suas aulas. Reclamam de governos que não investem em educação. Reclamam de pais de alunos que não estimulam o aprendizado de seus filhos. Reclamam de colegas que não reclamam junto com eles. Reclamam sem parar.

É claro que a posição social de um professor é delicada, dada a natureza de sua atividade profissional. Educação invariavelmente estimula o descontentamento. Sempre há mudanças a serem promovidas quando o assunto é educação. Sempre existem lacunas que devem ser preenchidas, caminhos que devem ser alterados, políticas que devem ser atualizadas, conhecimentos que devem avançar. 

No entanto, professores ainda são seres humanos, com todas as falhas de caráter que podem se manifestar em qualquer pessoa. E se insatisfações fazem parte do cotidiano de um profissional, devemos avaliar com especial cuidado as possíveis consequências sociais do trabalho deste profissional; especialmente levando em conta o fato de que professores exercem considerável influência praticamente diária sobre crianças e adolescentes. 

Indo direto ao ponto, minha pergunta é: Professores podem descarregar suas frustrações profissionais sobre os próprios alunos? 

Voltando à obra de Huxley... Quando Bernard Marx estava no auge de seu prestígio social, ele se afastou de seu amigo Helmholtz Watson. Ao perder o novo status, pediu desculpas a Helmholtz e este as aceitou. A magnanimidade de Helmholtz perturbou Bernard. Portanto, assim como Selvagem, Helmholtz também deveria ser castigado. Isso porque Bernard voltou a se sentir socialmente inferior. E o magnânimo perdão de Helmholtz colocava Bernard em posição mais baixa ainda.

Professores frequentemente são lembrados e até enaltecidos, principalmente em datas como a de hoje. Eventualmente alunos prestam homenagens e até fazem brincadeiras carinhosas, como levar uma maçã ou uma melancia (como aconteceu comigo anos atrás) para o professor. Mas isso provoca algum sentimento de real ou perene satisfação? A resposta só pode ser negativa, uma vez que greves de professores volta e meia são notícias na mídia. E quando ocorrem greves, certamente são os alunos que pagam o preço maior por esta insatisfação.

E mesmo quando não há greves, podemos assegurar que professores não descarregam suas frustrações sobre os alunos, assim como Bernard Marx decidiu se vingar de sua perda de breve prestígio social, procurando atingir seus amigos mais próximos? 

Quando um professor reclama com seus alunos da desvalorização de sua profissão, ele está construindo algo? O que esses alunos podem fazer a respeito? 

Quando professores reclamam com amigos e familiares sobre suas frustrações profissionais, ele está construindo algo? O que seus amigos e familiares podem fazer a respeito? 

Este é um dos motivos para a existência deste blog. Como sou professor, fico impossibilitado de não reclamar. Mas não quero reclamar das minhas frustrações diante de amigos, familiares ou alunos. Quero reclamar para quem esteja disposto a ouvir e fazer algo a respeito. Mas também não quero reclamar de minhas frustrações pessoais, as quais interessam apenas a mim. Quero reclamar apenas de minhas frustrações com a educação como um todo. E a reclamação que faço hoje é sobre certas reclamações de professores.

Poderíamos analisar o contexto de reclamações de professores da seguinte maneira. Se o professor não é valorizado em sua instituição, saia da instituição e vá para outra! Se não existe instituição que o valorize, abrace outra carreira! Se não existe carreira alternativa adequada para o professor, que o faça se sentir profissionalmente melhor, então provavelmente a culpa é dele mesmo! 

No entanto, sempre existem nuances que jamais podem ser ignoradas, como contextos familiares e sociais e até mesmo pessoais. O fato é que o problema da insatisfação de professores não é fácil de resolver, a não ser em casos muito particulares. Mas pelo menos um exercício de auto-crítica precisa ser realizado por aqueles que têm como profissão o ensino. 

Dia dos professores não deveria ser uma data a ser celebrada com mensagens automáticas e socialmente condicionadas de parabéns, como se pratica na sociedade futurista de Admirável Mundo Novo. Dia dos professores deveria ser uma data de reflexão de cada profissional do ensino. E a reflexão deve ser a seguinte: "O que mudou para melhor em minha atividade profissional  no ano que passou?" Se a resposta for "nada", então o profissional de ensino deve responder à seguinte questão: "O que posso fazer para melhorar minha atuação profissional?" 

Não há problema algum em reclamar, desde que as reclamações sejam feitas pelos canais certos e desde que sejam formuladas no sentido de buscar por soluções. Como educação é um fenômeno social no qual governos desempenham forte papel, os canais certos são as mídias de alcance público (jornais, revistas, televisão, rádio e internet), as mídias de alcance especializado (periódicos científicos e livros acadêmicos) e o contato direto com aqueles que exercem cargos de poder. 

Focar reclamações diante de amigos, familiares ou alunos não é, em geral, uma estratégia eficaz. Pelo contrário, é uma estratégia que geralmente apenas cansa quem ouve. Focar reclamações diante de colegas de trabalho também não ajuda, a não ser que uma massa crítica de colegas esteja empenhada em exercer ações que busquem por mudanças. 

Professores devem perceber que a profissão abraçada é ímpar. É uma profissão na qual a insatisfação é ingrediente básico (uma vez que educação demanda insatisfação), a dependência de políticas governamentais é muito forte e o produto vendido é raramente apreciado mas fundamental para o desenvolvimento de sociedades inteiras. Diante deste contexto social, um professor deve saber muito mais do que a matéria que leciona. Ele deve saber como se destacar socialmente, sem depender de um Selvagem que o faça se sentir melhor consigo mesmo. 

Se um professor não é valorizado na instituição onde trabalha, por que ele não cria então um ambiente que precise dele naquela instituição? Esta é uma saída bem mais interessante do que o simples abandono da instituição, conforme sugeri acima. 

Enfim, insisto nesta postagem que professores precisam ser muito mais criativos do que normalmente mostra a prática. Essa necessidade da criatividade existe justamente por conta das características ímpares desta profissão, as quais raramente são contempladas com seriedade pelos próprios profissionais de ensino. Se isso não for feito, o resultado será inevitavelmente trágico, como ocorre no final do livro Admirável Mundo Novo. Recomendo a leitura.

domingo, 12 de outubro de 2014

O peso do conhecimento


O grande ícone do jazz Miles Davis dizia que conhecimento é liberdade, enquanto ignorância é escravidão. Para um músico genial e revolucionário que sempre foi vítima de forte preconceito racial, talvez essa afirmação faça algum sentido. Mas, na atividade científica, tal associação entre conhecimento e liberdade é, no mínimo, precipitada. 

Kevin Boudreau (London Business School), Eva Guinan (Harvard Medical School), Karin Lakhani (Harvard Business School) e Christoph Riedl (Northeastern University) publicaram em agosto deste ano um preprint no qual é relatada uma extensa análise sobre relações entre projetos científicos e pareceres apresentados por especialistas que devem avaliar o mérito de tais projetos. 

Este é um tema que interessa tanto a pesquisadores que buscam obter financiamentos para o desenvolvimento de suas pesquisas quanto aqueles que desejam simplesmente publicar seus resultados de investigação científica em bons periódicos especializados.

Os autores convocaram 142 pesquisadores de uma instituição líder em pesquisas médicas para avaliar 150 projetos, totalizando 2130 pares projeto-avaliador. Ou seja, cada um dos 142 pesquisadores avaliou 15 projetos, escolhidos aleatoriamente. Neste processo avaliadores não sabiam quem eram os autores dos projetos, autores não sabiam quem eram os avaliadores e estes não trocaram ideias entre si. Ou seja, foi um experimento promovido por Boudreau e colaboradores que está em completa sintonia com uma discussão promovida neste blog mais de dois anos atrás, sobre graves inconsistências entre práticas promovidas por bancas de pós-graduação e a atividade científica em si.

No preprint em questão os autores avaliam de que forma a distância intelectual entre o corpo de conhecimento apresentado em projetos de pesquisa e o conhecimento científico do próprio avaliador interfere nos pareceres apresentados. As conclusões apontam para a clara evidência de que os pareceres mais negativos (contrários a aprovação) são dados predominantemente em duas circunstâncias:

1) Quando o projeto submetido se aproxima demais da área de atuação profissional do próprio avaliador e

2) Quando o projeto de pesquisa é extremamente inovador.

Nesta postagem quero focar sobre o item 2.

Em suma, este preprint de Boudreau e colaboradores é mais uma evidência, entre várias já levantadas ao longo da história, de que cientistas não gostam muito de novidades.

É claro que a afirmação acima também precisa ser avaliada com cuidado. Afinal, a atividade científica em si se caracteriza pela busca incessante por novidades relevantes e, preferencialmente, impactantes. A busca por novidades de impacto chega a ser institucionalizada por parâmetros muito usuais, como o fator de impacto de periódicos. No entanto, jamais devemos esquecer que ciência é desenvolvida, estimulada e divulgada por pessoas. E pessoas são sempre tendenciosas.

Se um experiente cientista é confrontado com uma ideia extraordinariamente nova, deve ele admitir que grande parte de seu conhecimento adquirido com tanto esforço ao longo de décadas, repentinamente se torne obsoleto? Qual é o peso psicológico de ideias desafiadoras sobre um profissional que depende de seu intelecto e de seu conhecimento não apenas como forma de sobrevivência, mas até mesmo como forma de autoestima?

Eu mesmo admito ter um interesse pessoal sobre este tema, uma vez que recentemente escrevi um artigo em parceria com Otávio Bueno e Newton da Costa no qual contestamos várias visões dominantes sobre o emprego de métodos formais em linguística. Este trabalho foi brevemente anunciado neste blog pouco tempo atrás e submetido para publicação. No entanto, editores de três periódicos barraram o artigo, sem o encaminharem a referees. A alegação de todos é que nosso artigo não se enquadra no perfil de seus respectivos periódicos. O aspecto mais estranho é que esses mesmos veículos sistematicamente publicam artigos sobre métodos formais em linguística. 

Desenvolvemos então uma versão bem mais extensa e detalhada de nosso trabalho e o submetemos novamente, incluindo aplicações muito específicas em fragmentos expressivos da língua inglesa. É uma estratégia para tentar convencer os mais céticos. 

Obviamente não podemos ignorar os milhares de casos de pesquisas pseudocientíficas que parecem ser melhor definidas por mera teimosia e não qualquer postura racional. Mas como diferenciar uma boa ideia de simples teimosia irracional? Até hoje não existe uma distinção clara entre ciência e pseudociência

Isso significa que meu artigo mais recente com Bueno e da Costa pode ser, de fato, uma ideia simplesmente insana. O único problema é que até agora ninguém contestou pontualmente nossa proposta. E, enquanto isso não acontecer, seremos lamentavelmente teimosos.

Em entrevista, Karim Lakhani (um dos autores do preprint mencionado no início desta postagem) disse que ideias novas, aquelas que combinam informações de maneira surpreendente, não são bem recebidas. Ou seja, o conhecimento não nos torna apenas críticos, mas também pode nos transformar em pessoas exageradamente críticas. 

Enfim, como já foi discutido em outras ocasiões neste blog, ciência é investimento. E não é apenas um investimento de recursos materiais, mas de ideias. E, como ocorre em todo investimento, sempre existe o risco do fracasso. O brilhante físico japonês Takao Tati que o diga.

Agradeço a Carlos de Brito Pereira pela recomendação do artigo de Boudreau e colaboradores.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Análise sobre uma imagem deste blog


Arlene Sant'Anna, uma das responsáveis por colaborações neste blog, é estudiosa de semiótica. Recentemente dei um presente a ela: um pôster contendo uma imagem que produzi usando Photoshop. Em função disso, ela resolveu fazer uma breve análise sobre a imagem, algo que certamente me compromete. Como gostei de sua análise, decidi reproduzi-la aqui com a devida autorização. Vale observar que o pôster contém uma assinatura digital personalizada e uma numeração específica, o que impede a reprodução por impressão, a partir da imagem acima, a qual já havia sido veiculada em postagem anterior

Com a palavra, minha imparcial irmã.
_______________

Para parafrasear Lucy Niemeyer, a criação de uma obra é investida de significados e, quando entra em circulação, passa a ser elemento de informações de seu autor, sua visão de mundo, sua compreensão subjetiva de um universo em que está inserido.

O texto acima mostra um plano de fundo negro em que surgem cubos. Tais cubos vão surgindo do fundo negro e vão se mesclando em traços retos, duros de tamanhos variados. No primeiro plano, um cubo maior em que se notam, nas faces, um X em cada face e, no interior deste X, na face do cubo, linhas circulares, retas, sinuosas e decorativas. As cores definindo as linhas são acinzentadas, as células ao fundo das faces do cubo apresentam a cor alaranjada em nuances ígneas. 

A Semiótica postula que o texto diz o que diz, não importa o que o “autor quis dizer” e sim como o autor disse e como está dito.

Assim, em uma breve análise, entende-se o plano de fundo negro, como o vácuo que sustenta o investimento figurativo de primeiro plano, os cubos. Isso representa o universo do nada que faz surgir os cubos provenientes de inspiração, provenientes de um pseudo-nada, mas rico em trazer a subjetividade da criação. Os cubos vão surgindo em linhas retas, quadradas, de forma a se encaixar uns aos outros até o cubo maior quase perfeito, exceto pela ponta proeminente na parte superior. O que se entende a ponta como o trabalho inacabado e pronto para emergir em outra forma geométrica.

Os cubos são caixas, a figura geométrica fechada em si. Apresentam círculos, linhas retas e linhas sofisticadas em suas características decorativas, estas linguagens pertencem ao eixo semântico que nos diz: linhas retas nada mais são do que pontos em junção, representando a continuidade; os círculos, retas que se fecham, representando o fechamento de elementos subjetivos; linhas decorativas representam a sofisticação das retas de forma de beleza, tradição e antiguidade. Em outras palavras, se tem a polêmica, o controverso, a retidão, a riqueza, o cuidado, a intimidade fechada em compartimentos, os segredos, vontades, desejos, as paixões que movem o ser.

A cor ígnea remete à energia, ao consumo, à ascensão, ao apagamento, à ascendência e à decadência. As linhas acinzentadas, remete à depressão e melancolia, mas em vista da cor quente, a energia se destaca.

Ao se ler este texto, ao se entender que toda criação do ser humano traz o perfil do criador, sua ideologia, sua formação discursiva e, em face disto, pode-se ler o autor no momento da criação, quais foram suas condições de produção? Em que momento o processo criativo se deu? Mas a subjetividade de seu criador deixa inexoravelmente sua marca pessoal. Assim se revelou o texto.

Diversão livre de contexto


Esta é uma postagem para o leitor se divertir em conversas informais com os amigos. Poucas coisas são tão ruins quanto frases isoladas de qualquer contexto. Mas ainda assim você pode se passar por inteligente, com citações divertidas sobre educação e concebidas por pessoas que vão desde grandes pensadores como Sócrates, o Pai da Filosofia, até George Clooney, um ator. Aqui vai.

"Uma mente é como um paraquedas. Não funciona se não abrir." Frank Zappa

"Educação é aprender aquilo que você nem sabia que não sabia." Daniel Boorsting

"Se sua ausência não faz diferença alguma, sua presença também não faz." Anônimo

"Nas grandes nações educação pública será sempre medíocre, pelo mesmo motivo que em grandes cozinhas a comida é sempre ruim." Friedrich Nietzsche

"Eu gosto do professor que oferece alguma coisa a mais para pensar além de tarefa de casa." Lily Tomlin

"Eu leciono matemática no ensino médio. Vendo um produto que o mercado não quer, mas que é forçado a comprar por lei." Dan Meyer

"É preciso suar o cérebro." Newton da Costa

"Ninguém jamais se afogou em seu próprio suor." Ann Landers

"Nossa professora está sempre conversando com a sua amiga imaginária, Turma." Anônimo

"Você não pode depender de seus olhos quando sua imaginação está fora de foco." Mark Twain

"Você nunca aprende muita coisa ouvindo você mesmo falar." George Clooney

"Se é simples, é falso. Se não é simples, não funciona." Paul Valéry

"Nunca permiti que minha escolaridade interferisse em minha educação." Mark Twain

"Educação é a habilidade de ouvir praticamente qualquer coisa sem perder a calma ou a auto-confiança." Robert Frost

"Crianças não lembram o que você tenta ensinar a elas. Elas lembram o que você é." Jim Henson

"Uma universidade é aquilo em que uma faculdade se transforma quando o corpo docente perde interesse em seus alunos." John Ciardi

"Sem educação estamos sob um horroroso e mortal perigo de levar a sério pessoas educadas." G. K. Chesterton

"Sua ignorância não reside naquilo que você não sabe, mas naquilo que pensa que sabe." Anônimo

"Devo dizer que acho televisão muito educacional. No momento em que alguém a liga eu vou à biblioteca para ler um bom livro." Groucho Marx

"Crianças, hoje em dia, são tiranos. Elas contradizem os seus pais, devoram a comida e dominam seus professores." Sócrates

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Lamentável Metodologia Científica


Quando Charlie Kaufman concordou em roteirizar para o cinema o livro The Orchid Thief, de Susan Orlean, ele sofreu de grave bloqueio artístico. Simplesmente não conseguia adaptar o texto de Orlean para uma linguagem cinematográfica. Foi então que decidiu escrever um roteiro sobre o bloqueio dele para aquela adaptação. O resultado foi o filme Adaptation, de Spike Jonze, obra enaltecida por críticos do mundo todo e com indicações ao Oscar, ao Globo de Outro e ao prêmio BAFTA.

Uma das mais surpreendentes passagens do filme ocorre quando o alter ego de Kaufman, interpretado por Nicolas Cage, tenta decidir se adotará narração em off como recurso linguístico. Afinal, Robert McKee, o mestre dos mestres entre os grandes estudiosos da teoria de roteirização, condena veementemente o emprego de narração em off em qualquer filme. Mas Kaufman decide usar esta técnica narrativa simplesmente porque ele sente que está certo. Ou seja, ele joga fora uma metodologia usualmente empregada na sétima arte: a condenação da narração em off.

Pois bem. O que isso tem a ver com o título da postagem? 

Acontece que tanto a concepção de uma obra artística (como um filme) quanto a criação de uma teoria científica têm a criatividade como elemento em comum. E o que é criatividade? 

Uma das noções mais usuais estabelece que criatividade é a capacidade de transportar novas ideias para o mundo real.

Neste contexto qualquer curso de graduação que conte com uma disciplina de metodologia científica ou metodologia de pesquisa em seu currículo está perigosamente caminhando para uma direção contrária ao processo criativo da atividade científica.

O desenvolvimento e até mesmo a análise crítica da ciência demandam criatividade. E como explorar a capacidade de criação entre jovens estudantes a partir de metodologias? Qualquer metodologia de pesquisa necessariamente limita opções. E tais limitações operam como cânones que toda a comunidade científica deve seguir, segundo a visão usual de que há uma metodologia científica.

É claro que o exercício de criatividade sempre funciona melhor diante de limitações, ao contrário do que reza a crença popular de que pessoas criativas rompem barreiras. Pessoas criativas não rompem barreiras. O que elas fazem é mostrar que barreiras podem ser percebidas de formas diferentes do usual. Um exemplo bem conhecido é o do engenheiro mecânico que deve projetar um carro potente, mas econômico. Ele deve criar um carro potente que se limite à barreira da economia. Enquanto para algumas pessoas do passado a barreira da economia tinha que impor uma baixa potência para um veículo motorizado, engenheiros criativos conceberam carros econômicos com potência cada vez maior.

Um exemplo bem mais marcante em ciência é a concepção da teoria da relatividade especial de Einstein. Sabendo que as leis da mecânica de Newton são invariantes sob a ação do grupo de Galileu, que as leis dos eletromagnetismo de Maxwell são invariantes sob a ação do grupo de Poincaré e que esses dois grupos de transformações são incompatíveis entre si, como conciliar princípios de mecânica com princípios de eletromagnetismo? A solução foi modificar a visão usual sobre alguns fenômenos da mecânica. Princípios de invariância da mecânica clássica, relativamente a uma noção de espaço absoluto, passaram a se estender para princípios de invariância em um espaço-tempo absoluto. Ou seja, Einstein ainda estava limitado à visão usual de que não se faz física sem invariantes, relativamente a um grupo de transformações. Mesmo assim ele foi extremamente criativo, ao reinterpretar as barreiras que diferenciavam espaço e tempo como uma visão na qual espaço e tempo fazem parte de uma mesma estrutura.

Mas cursos de graduação em áreas científicas, como matemática, física e biologia, entre outros, devem estimular seus alunos a criarem, inovarem. E disciplinas de metodologia em pesquisa ou metodologia científica certamente desestimulam a criatividade. Isso porque alunos passam a ser doutrinados em favor de questionáveis noções, como a de que existem verdades científicas e métodos infalíveis de investigação científica. Em casos mais absurdos ainda, professores de metodologia focam muito mais em normas de diagramação de artigos (como a ABNT) do que no processo criativo em ciência.

Se existe alguma metodologia científica, por que o físico espanhol Juan Miguel Campanario conseguiu fazer um levantamento de trinta e cinco artigos científicos que renderam o Prêmio Nobel mas que sofreram sérias dificuldades para conseguirem ser publicados em periódicos especializados, incluindo até mesmo a revista Nature? Não bastaria aplicar a tal da metodologia para decidir se um artigo científico é digno de publicação?

Metodologia científica deve ser encarada como assunto de discussão entre profissionais do mais alto nível científico, reconhecidos internacionalmente. Metodologia científica não deve ser assunto a ser institucionalmente discutido com alunos de graduação. Alunos de graduação em cursos de natureza científica devem ser estimulados a conceber novas ideias e transformá-las em realidade. 

De forma alguma isso significa que ideias novas concebidas por alunos devam ser de alguma forma relevantes, no cenário científico internacional. A bem da verdade, a maioria das ideias publicadas em periódicos especializados hoje em dia não merece atenção alguma. Ou seja, se até mesmo pesquisadores experientes encontram dificuldades para realizar investigações científicas relevantes, quem dirá alunos inexperientes!

O objetivo de estimular a criatividade entre alunos deve ser simplesmente a preparação para a dura realidade da produção científica. 

Alunos de últimos períodos de graduação em cursos de ciências devem ser estimulados a criar. Na maioria das vezes essas criações serão duramente criticadas, com ou sem razão, por professores com significativa experiência acadêmica. Mas, eventualmente, um ou outro aluno conseguirá lançar uma ideia que mereça séria reflexão. Quanto aos demais, quaisquer avaliações sobre seus trabalhos devem ser feitas de forma subjetiva e flexível, de acordo com a política educacional do curso.

Se você, leitor, é aluno de último período de um curso de matemática ou de física, deve avaliar se é capaz, por exemplo, de criar um modelo matemático inédito para um determinado fenômeno do mundo real. Se não for capaz de fazer isso, então estuda em um curso muito ruim. Mesmo que seu foco seja matemática pura, ainda deverá ser capaz de criar modelos matemáticos que espelhem o mundo real ou, pelo menos, que permitam resolver problemas da própria matemática. Em qualquer uma das situações, você deve ser capaz de oferecer novas visões que transcendam aquilo que está em livros ou artigos de matemática. 

Como discute brilhantemente Joichi Ito, diretor do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology, o mundo acadêmico encontra-se hoje exageradamente dividido em disciplinas, o que dificulta uma visão científica mais ampla do universo onde vivemos. Neste sentido, a perpetuação de disciplinas de metodologia de pesquisa apenas compartimentaliza ainda mais quaisquer visões científicas, jogando-as em minúsculas caixas a boiarem em um oceano de dúvidas levantadas pela própria ciência. 

Se universidades brasileiras jamais se destacam nas listas das melhores instituições de ensino superior do mundo é porque estamos cometendo erros graves. E um desses erros é a falta de estímulo à inovação. Em suma, chega de metodologia científica! O mundo mudou muito desde Descartes.

sábado, 4 de outubro de 2014

Mensagem codificada


Esta é a quarta postagem de desafio deste blog. Os primeiros desafios foram os mais simples e contaram com várias respostas de leitores. O último foi resolvido por apenas dois leitores: Daniel Freitas e Sebastião Francisco de Paula Viana. Agora apresento um desafio na forma de código. O tipo de codificação que emprego aqui é considerado um dos mais seguros, tornando a decifração quase impossível. No entanto, para facilitar aos leitores interessados, uso como chave um elemento que está presente aqui mesmo, neste site. Veremos se alguém consegue resolver o problema. Aqui vai.

5 9, 163 3, 150 10, 205 55 1, 43 3, 209 59 10. 1 10, 264 4, 218 4, 209 11, 150 10, escrita, 1 5, 2 6, 11 1, 2 7, 19 4, 207 15 9, 16 1, 4 4, 4 5, 133 24 6, 4 10, 9 7, 1 8, afetar, 2 3, 94 7.