segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Lamentável Metodologia Científica


Quando Charlie Kaufman concordou em roteirizar para o cinema o livro The Orchid Thief, de Susan Orlean, ele sofreu de grave bloqueio artístico. Simplesmente não conseguia adaptar o texto de Orlean para uma linguagem cinematográfica. Foi então que decidiu escrever um roteiro sobre o bloqueio dele para aquela adaptação. O resultado foi o filme Adaptation, de Spike Jonze, obra enaltecida por críticos do mundo todo e com indicações ao Oscar, ao Globo de Outro e ao prêmio BAFTA.

Uma das mais surpreendentes passagens do filme ocorre quando o alter ego de Kaufman, interpretado por Nicolas Cage, tenta decidir se adotará narração em off como recurso linguístico. Afinal, Robert McKee, o mestre dos mestres entre os grandes estudiosos da teoria de roteirização, condena veementemente o emprego de narração em off em qualquer filme. Mas Kaufman decide usar esta técnica narrativa simplesmente porque ele sente que está certo. Ou seja, ele joga fora uma metodologia usualmente empregada na sétima arte: a condenação da narração em off.

Pois bem. O que isso tem a ver com o título da postagem? 

Acontece que tanto a concepção de uma obra artística (como um filme) quanto a criação de uma teoria científica têm a criatividade como elemento em comum. E o que é criatividade? 

Uma das noções mais usuais estabelece que criatividade é a capacidade de transportar novas ideias para o mundo real.

Neste contexto qualquer curso de graduação que conte com uma disciplina de metodologia científica ou metodologia de pesquisa em seu currículo está perigosamente caminhando para uma direção contrária ao processo criativo da atividade científica.

O desenvolvimento e até mesmo a análise crítica da ciência demandam criatividade. E como explorar a capacidade de criação entre jovens estudantes a partir de metodologias? Qualquer metodologia de pesquisa necessariamente limita opções. E tais limitações operam como cânones que toda a comunidade científica deve seguir, segundo a visão usual de que há uma metodologia científica.

É claro que o exercício de criatividade sempre funciona melhor diante de limitações, ao contrário do que reza a crença popular de que pessoas criativas rompem barreiras. Pessoas criativas não rompem barreiras. O que elas fazem é mostrar que barreiras podem ser percebidas de formas diferentes do usual. Um exemplo bem conhecido é o do engenheiro mecânico que deve projetar um carro potente, mas econômico. Ele deve criar um carro potente que se limite à barreira da economia. Enquanto para algumas pessoas do passado a barreira da economia tinha que impor uma baixa potência para um veículo motorizado, engenheiros criativos conceberam carros econômicos com potência cada vez maior.

Um exemplo bem mais marcante em ciência é a concepção da teoria da relatividade especial de Einstein. Sabendo que as leis da mecânica de Newton são invariantes sob a ação do grupo de Galileu, que as leis dos eletromagnetismo de Maxwell são invariantes sob a ação do grupo de Poincaré e que esses dois grupos de transformações são incompatíveis entre si, como conciliar princípios de mecânica com princípios de eletromagnetismo? A solução foi modificar a visão usual sobre alguns fenômenos da mecânica. Princípios de invariância da mecânica clássica, relativamente a uma noção de espaço absoluto, passaram a se estender para princípios de invariância em um espaço-tempo absoluto. Ou seja, Einstein ainda estava limitado à visão usual de que não se faz física sem invariantes, relativamente a um grupo de transformações. Mesmo assim ele foi extremamente criativo, ao reinterpretar as barreiras que diferenciavam espaço e tempo como uma visão na qual espaço e tempo fazem parte de uma mesma estrutura.

Mas cursos de graduação em áreas científicas, como matemática, física e biologia, entre outros, devem estimular seus alunos a criarem, inovarem. E disciplinas de metodologia em pesquisa ou metodologia científica certamente desestimulam a criatividade. Isso porque alunos passam a ser doutrinados em favor de questionáveis noções, como a de que existem verdades científicas e métodos infalíveis de investigação científica. Em casos mais absurdos ainda, professores de metodologia focam muito mais em normas de diagramação de artigos (como a ABNT) do que no processo criativo em ciência.

Se existe alguma metodologia científica, por que o físico espanhol Juan Miguel Campanario conseguiu fazer um levantamento de trinta e cinco artigos científicos que renderam o Prêmio Nobel mas que sofreram sérias dificuldades para conseguirem ser publicados em periódicos especializados, incluindo até mesmo a revista Nature? Não bastaria aplicar a tal da metodologia para decidir se um artigo científico é digno de publicação?

Metodologia científica deve ser encarada como assunto de discussão entre profissionais do mais alto nível científico, reconhecidos internacionalmente. Metodologia científica não deve ser assunto a ser institucionalmente discutido com alunos de graduação. Alunos de graduação em cursos de natureza científica devem ser estimulados a conceber novas ideias e transformá-las em realidade. 

De forma alguma isso significa que ideias novas concebidas por alunos devam ser de alguma forma relevantes, no cenário científico internacional. A bem da verdade, a maioria das ideias publicadas em periódicos especializados hoje em dia não merece atenção alguma. Ou seja, se até mesmo pesquisadores experientes encontram dificuldades para realizar investigações científicas relevantes, quem dirá alunos inexperientes!

O objetivo de estimular a criatividade entre alunos deve ser simplesmente a preparação para a dura realidade da produção científica. 

Alunos de últimos períodos de graduação em cursos de ciências devem ser estimulados a criar. Na maioria das vezes essas criações serão duramente criticadas, com ou sem razão, por professores com significativa experiência acadêmica. Mas, eventualmente, um ou outro aluno conseguirá lançar uma ideia que mereça séria reflexão. Quanto aos demais, quaisquer avaliações sobre seus trabalhos devem ser feitas de forma subjetiva e flexível, de acordo com a política educacional do curso.

Se você, leitor, é aluno de último período de um curso de matemática ou de física, deve avaliar se é capaz, por exemplo, de criar um modelo matemático inédito para um determinado fenômeno do mundo real. Se não for capaz de fazer isso, então estuda em um curso muito ruim. Mesmo que seu foco seja matemática pura, ainda deverá ser capaz de criar modelos matemáticos que espelhem o mundo real ou, pelo menos, que permitam resolver problemas da própria matemática. Em qualquer uma das situações, você deve ser capaz de oferecer novas visões que transcendam aquilo que está em livros ou artigos de matemática. 

Como discute brilhantemente Joichi Ito, diretor do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology, o mundo acadêmico encontra-se hoje exageradamente dividido em disciplinas, o que dificulta uma visão científica mais ampla do universo onde vivemos. Neste sentido, a perpetuação de disciplinas de metodologia de pesquisa apenas compartimentaliza ainda mais quaisquer visões científicas, jogando-as em minúsculas caixas a boiarem em um oceano de dúvidas levantadas pela própria ciência. 

Se universidades brasileiras jamais se destacam nas listas das melhores instituições de ensino superior do mundo é porque estamos cometendo erros graves. E um desses erros é a falta de estímulo à inovação. Em suma, chega de metodologia científica! O mundo mudou muito desde Descartes.

sábado, 4 de outubro de 2014

Mensagem codificada


Esta é a quarta postagem de desafio deste blog. Os primeiros desafios foram os mais simples e contaram com várias respostas de leitores. O último foi resolvido por apenas dois leitores: Daniel Freitas e Sebastião Francisco de Paula Viana. Agora apresento um desafio na forma de código. O tipo de codificação que emprego aqui é considerado um dos mais seguros, tornando a decifração quase impossível. No entanto, para facilitar aos leitores interessados, uso como chave um elemento que está presente aqui mesmo, neste site. Veremos se alguém consegue resolver o problema. Aqui vai.

5 9, 163 3, 150 10, 205 55 1, 43 3, 209 59 10. 1 10, 264 4, 218 4, 209 11, 150 10, escrita, 1 5, 2 6, 11 1, 2 7, 19 4, 207 15 9, 16 1, 4 4, 4 5, 133 24 6, 4 10, 9 7, 1 8, afetar, 2 3, 94 7.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Física Quântica e Misticismo - Resposta de Gabriel Guerrer


Dois dias atrás publiquei uma postagem na qual se discutia a respeito da falta de correlação entre as opiniões de alunos sobre a natureza da ciência e a capacidade de os mesmos realizarem atividades de investigação científica. A postagem é fundamentalmente baseada em pesquisas publicadas em um importante periódico especializado em educação científica. No mesmo texto decidi levantar questionamentos sobre uma eventual extensão desses resultados. E um dos temas secundários abordados foi o fato de que existem profissionais altamente qualificados em ciência que insistem em visões perigosamente não qualificadas mas difundidas entre leigos entusiastas de misticismo. Estes seriam exemplos de pessoas que já desenvolveram atividades investigativas em ciência, mas que não têm opiniões consistentes sobre a natureza da ciência. Para ilustrar o ponto citei o exemplo de Gabriel Guerrer, doutor em física que ministra cursos sobre eventuais relações entre física quântica e misticismo.

Imediatamente após a publicação da postagem eu a encaminhei para Guerrer, como usualmente faço ao veicular textos que promovem críticas a indivíduos. Em mensagem pessoal Guerrer perguntou se eu daria a ele o direito a resposta. Naturalmente garanti que sua visão teria tanta visibilidade quanto a minha postagem de crítica. 

Pois bem. O texto a seguir é a resposta de Gabriel Guerrer. A seguir faço eu mesmo alguns comentários sobre a visão que ele aqui promove.

Desejo a todos uma leitura crítica. 
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(Sem Título)
de Gabriel Guerrer

Professor Adonai, agradeço os elogios e críticas e por ter aberto essa importante discussão. Falando em método científico, inicio apontando uma falha que comete ao citar o meu nome em sua análise: você não conhece os detalhes da pesquisa e do trabalho que tenho conduzido. Você baseia suas opiniões não em fatos e sim em projeções pessoais, me comparando com referências que não me servem como referências. 

Além disso, propaga uma informação errônea ao citar meu nome ao lado dos termos "cura quântica, saúde quântica". Meu trabalho não envolve o uso desses termos. As informações que tenho transmitido para o público são através de um curso chamado "Física Quântica - Imaginando o Invisível". Como o nome já sugere, ofereço uma exploração criativa das possibilidades interpretativas da Física Quântica, das mais convencionais às mais exóticas - todas igualmente possíveis perante as evidências empíricas. 

Durante o curso ofereço poucas certezas e muitas perguntas, estimulando um livre pensar guiado pelo melhor do senso crítico. Porém, concordo que é um lugar bastante delicado que requer responsabilidade e que muitos abusos tem sido cometidos por alguns divulgadores despreparados. Não é raro escutar absurdos como por exemplo, o de que a Física Quântica prova cientificamente a existência do espírito.

Por outro lado, podemos fazer perguntas muito interessantes, entre elas: o que significa a relação direta dos pioneiros da Física Quântica (Schrodinger, Einstein, Planck, Heisenberg, Pauli) com o Misticismo [1]? O que significa habitar uma Realidade não-local? Seria a consciência um fenômeno não-local [2]? Seria a consciência apenas um produto final do processo evolutivo [3]? 

Tenho um enorme desconforto perante o modelo operante de grande parte das instituições acadêmicas. Sinto em geral uma apatia criativa incompatível com a minha paixão e curiosidade por esses temas tão fascinantes. Infelizmente, o modelo atual é de manutenção do conhecimento já adquirido e não um celeiro de novas ideias. Para inovar é necessário flertar com as anomalias, margear as bordas e buscar novas (ou rever antigas) formas de pensamento. Nesse contexto, sinto que as perguntas mais interessantes são proibidas e fortemente evitadas, com raras exceções em território nacional a exemplo de [4], [5] e [6]. É por esse desconforto e para me manter motivado que tomei a difícil decisão de seguir temporariamente como pesquisador independente. 

Sinto essa dificuldade em diversas áreas da dinâmica social, de modo que acredito estar relacionada a algo mais profundo, um modelo cultural ultrapassado. Os modelos culturais, por sua vez, estão correlacionados com o consenso vigente sobre a Realidade. Acontece que a visão atual ainda se baseia na Física Clássica e na visão Materialista reducionista, que não podemos esquecer, é uma premissa metafísica. 

A Física Quântica está longe de criar uma imagem bem definida sobre a Realidade, porém pode afirmar algumas coisas sobre o que não é. Aprendemos que a Realidade é não-local e possivelmente não-dual. Coincidentemente (ou não) essa é a mensagem que os místicos de todos os tempos tem nos comunicado. O Misticismo genuíno propõe desde tempos imemoriais técnicas para se atingir essa experiência subjetiva que transcende a razão. Devemos simplesmente ignorar esses dados sobre a Realidade obtidos por séculos de exploração do aparato humano? 

Concordo com os pioneiros da Física Quântica, o Misticismo não pode ser derivado da Ciência, são caminhos linearmente independentes. Mas assim como eles, também acredito na melhor combinação entre Ciência e Misticismo, em outras palavras, a melhor combinação entre nossas capacidades complementares: razão e intuição. É desse encontro que surge a criatividade, a arte, a beleza, a compaixão e a sensação de propósito. Uma cultura que estimula a experiência integral de nossas potencialidades humanas pode ser a solução para os difíceis momentos que atravessamos.

Gabriel Guerrer

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Referências

[1] Ken Wilber, Quantum Questions - Mystical Writings of the world´s greatest Physicists

[2] Dean Radin, Entangled Minds: Extrasensory Experiences in a Quantum Reality

[3] Thomas Nagel, Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False

[4] INTER PSI - Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais

[5] NUPES - Núcleo de pesquisa em espiritualidade e Saúde

[6] NEIP - Núcleo de estudos interdisciplinares sobre Psicoativos

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Minhas respostas a Gabriel Guerrer
de Adonai Sant'Anna

Faço a seguir uma lista de respostas a cada um dos principais pontos discutidos por Guerrer em seu texto acima.

1) De fato não conheço os detalhes de seu trabalho. Porém é falso afirmar que baseio minhas opiniões em impressões pessoais. Assisti vídeos seus e li sua página pessoal na internet. E sua resposta está confirmando minhas opiniões, conforme detalho a seguir. 

2) Se cito seu nome ao lado dos termos "cura quântica, saúde quântica" é porque há um contexto explicitado em minha postagem original. O que afirmo explicitamente é que "hoje Guerrer segue um caminho que muito se assemelha ao de Amit Goswami, o famoso indiano que busca unificar física quântica com espiritualidade." E sua resposta confirma minha afirmação.

3) Você questiona o que significa a relação direta dos pioneiros da física quântica com misticismo. Bem, Kepler se interessava por astrologia, mas a obra que o consagrou como uma contribuição perene à sociedade nada tem a ver com astrologia. Biógrafos de Niels Bohr comumente o associam ao ateísmo, apesar de ele mesmo reconhecer que "o oposto de uma verdade profunda pode ser uma outra verdade profunda". O zoólogo Richard Dawkins é ateu e chega a pregar ódio contra religiões. Mas isso jamais enfraqueceu a fé daqueles que alimentam religiosidade. E Dawkins jamais apontou um único caminho sensato o bastante que justifique que religiosidade é algo necessariamente ruim e apenas ruim. E, finalmente, Alan Turing era homossexual. No entanto, não vejo que relação pode existir entre computação digital e homossexualidade. Além disso, o que você entende por relação direta com misticismo? Práticas místicas da cultura indiana, por exemplo, demandam uma vida de dedicação que os criadores da física quântica jamais tiveram. Eles demonstraram curiosidade sobre o tema, assim como Einstein demonstrava curiosidade pela música. Mas Einstein jamais foi reconhecido como um músico importante.

4) Você questiona o que significa habitar uma realidade não local. O croata Tristan Hübsch publicou, anos atrás, um artigo interessantíssimo no qual ele mostra que um sistema acoplado no qual tanto observador quanto objeto observado obedecem à equação de Schrödinger, necessariamente viola o princípio de linearidade da mecânica quântica. Você discute sobre isso em seus cursos? Faço esta comparação porque usualmente o observador é tratado como um objeto clássico, em mecânica quântica. Mas se tratarmos o observador como objeto quântico teremos uma inconsistência com a própria teoria. Portanto, diante disso, questiono: o que você quer dizer com "habitar uma realidade não local"?

5) Você questiona se a consciência é um fenômeno não local. O que isso significa? Onde está o senso crítico que você afirma seguir? Jamais encontrei uma definição para "fenômeno não-local" na literatura especializada. Se você conhecer alguma, eu poderia aprender muito com isso. Existem sim definições para não-localidade em situações específicas. Um sistema de duas ou mais partículas é dito não local se não puder ser dividido em subsistemas não triviais. O que isso tem a ver com consciência? Consciência é um sistema com duas ou mais partículas? Afinal, o próprio conceito de consciência é ainda uma questão em aberto, tanto entre neurologistas quanto filósofos da ciência. Citar um parapsicólogo como Dean Radin, sem qualificar sobre o que você está falando, não me parece um bom caminho para quem defende senso crítico, como afirma fazer. Isso novamente reforça a tese de que praticar ciência (como você já o fez brilhantemente) não o qualifica a opinar sobre ciência.

6) Você afirma que se sente desconfortável perante o modelo operante de grande parte das instituições acadêmicas. Ora, você não é o único! Jamais ouvi falar de um grande cientista que se sinta confortável com instituições acadêmicas. O próprio Peter Higgs é um dos exemplos emblemáticos deste sentimento de desconforto. É justamente esta insatisfação que serve de agente motivador. Fugir da vida acadêmica para se tornar um "pesquisador independente", como você mesmo afirma, não é uma ideia inteligente. Isso é simplesmente sinônimo de isolamento. E ciência exige interação com pares, justamente porque todo cientista sabe que pode estar errado em suas opiniões. É preciso coragem para confrontar suas ideias. E trocar ideias predominantemente com leigos não ajuda o pesquisador e ainda contribui para alimentar confusões entre leigos.

7) Você afirma que a física quântica permite inferir que a realidade é não local. Este é um exemplo de erro grotesco que comete, justamente por falta de cultura científica. Ou seja, seu isolamento social da comunidade científica já começa a surtir efeitos muito rapidamente. A física quântica se divide em vários ramos, frequentemente inconsistentes entre si. A interpretação usual da mecânica quântica (regime não relativístico) aponta, de fato, para a perspectiva de uma realidade inundada por fenômenos não locais entre certos sistemas físicos. No entanto, na eletrodinâmica quântica (regime relativístico), não há um único análogo à não-localidade. Ou seja, sobre qual física quântica você está falando? Veja que sequer estou discutindo sobre interpretações da mecânica quântica, cujo tema vai muito além de certezas como aquelas que você promulga.

8) Você discursa sobre misticismo genuíno vivendo em uma terra na qual este misticismo não é praticado. Assim como você se isola da vida acadêmica, também se isola do tal misticismo genuíno, com o qual apenas algumas culturas não ocidentais convivem. Observe que não estou discursando contra possíveis relações íntimas entre física quântica e misticismo. Pode ser que elas existam de fato e que sejam extremamente relevantes. Mas para conquistar esse tipo de conhecimento você precisaria trabalhar de forma interdisciplinar, promovendo uma colaboração entre culturas distintas. Trocar ideias com leigos ou pessoas isoladas tanto da vida acadêmica quanto de culturas místicas, não ajuda.

Minha recomendação final a Gabriel Guerrer é que ele reveja seus métodos de investigação e divulgação de conhecimentos. Conheço-o pessoalmente e sei que tem uma capacidade intelectual excepcional. É um jovem brilhante que merece toda forma de apoio a investigações científicas e culturais sérias. Mas este caminho escolhido me parece muito perigoso. Não desejo vê-lo arrependido quando estiver com idade mais avançada.

domingo, 21 de setembro de 2014

"Hänsel und Gretel" ou "João e Maria e o Código Penal"


"Hänsel und Gretel" é uma das mais famosas fábulas infantis, publicada originalmente em 1812 pelos irmãos Grimm. No Brasil a história é conhecida como "João e Maria". 

Como é comum às histórias infantis que se tornaram referências mundiais da literatura, João e Maria é uma narrativa sórdida e violenta que tem por meta a preparação para a criança ingressar no brutal mundo adulto.

Nesta postagem trago ao leitor uma reprodução de artigo de Arlene Lopes Sant'Anna, originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo, no dia 05/08/2006. A autora analisa a fábula infantil no contexto das discussões sobre redução da maioridade penal em nosso país. 

Apesar do artigo original de Sant'Anna ter mais de oito anos, parece apenas ganhar atualidade, com casos que vão desde a depredação de escolas promovida por alunos até o professor baleado por aluno chateado com nota baixa. Como afirmou Marcelle Souza no site de notícias UOL, "a violência entrou de vez no currículo escolar". 

Esta já é a segunda contribuição de Arlene Sant'Anna a este blog. Na primeira ela discute sobre a inversão de valores morais em ambientes escolares. Chega a dar umas pinceladas sobre a irresponsabilidade do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sobre este último tema indico o texto que está aqui.

Desejo a todos uma leitura crítica.
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João e Maria Revisitados e a redução da maioridade Penal
de Arlene Sant'Anna

Os meios de comunicação têm divulgado largamente casos de crimes praticados por menores de idade e a violência empregada, de acordo com a divulgação, é permeada por requintes de crueldade que assombra e aterroriza a sociedade, daí que muito se discute a necessidade da redução da maioridade penal com a finalidade de tentar coibir a violência juvenil, a qual já está se tornando contumaz. Em face disso, vem à lembrança uma velha narrativa infantil, quem não se lembra de João e Maria? Esta narrativa do imaginário infantil, base de formação de tantas crianças nada mais é do que um conto em que dois menores cometem vários crimes e saem impunes para alívio e conivência do público leitor.  Antes de indignar-se com tal afirmação, vale constatar o que o texto desta narrativa oferece, considerando o postulado de um famoso teórico da semiótica, Algirdas Greimas, o qual já afirmava que o que interessa em um texto é o que o texto diz e como diz. A partir dessa assertiva, que atentem aos fatos de nefanda narrativa.

Os pais de João e Maria, por não poderem sustentá-los, decidiram levá-los a uma floresta e deixá-los abandonados, mesmo sabendo que era uma floresta desconhecida e cheia de perigos. Aí temos a seguinte questão: que pais são estes que ao invés de doar as crianças a qualquer entidade, orfanato, igreja, por exemplo, optam por entregar as crianças à sorte do desconhecido e, por que não dizer, que tal ato seria um infanticídio? As crianças, abandonadas ao seu destino, famintas, encontraram uma casa construída por guloseimas no meio da floresta e, sem mais, começaram a devorar partes da casa. Aí temos outra questão: a boa formação familiar não exigiria, por parte das crianças, que as mesmas pedissem à dona da casa, por um naco de quaisquer guloseimas com o legítimo direito justificado pela fome? Se as crianças invadem a propriedade, comem sem licença, destroem, não são tais atos passíveis de nominação criminal de invasão de domicílio, furto e dano ao patrimônio? Obviamente, se nos deparássemos com tal situação em nossas casas, seria exatamente isso que alegaríamos ao chamar a polícia.

A dona da casa, a bruxa, com certeza deveria sofrer de algum distúrbio mental, pois vejamos: morar em uma floresta sozinha, longe da civilização, em uma casa construída por doces, este quadro descreve uma anormalidade, haja vista que o ser humano é um ser social e, se não satisfeitas as condições de sociabilidade e comunicação, pode ocorrer, paulatinamente, grave desagregação psicológica no indivíduo. Prova disso, ainda, que aprisionou João, exigiu que Maria o alimentasse bem a fim de que o mesmo engordasse e pudesse comê-lo assado posteriormente, o que caracteriza o canibalismo. Um dia, a bruxa, cansada de esperar a engorda e ansiosa para fazer de João sua refeição, ordena à Maria que acenda o fogo e coloque água no caldeirão. Quando a água do caldeirão ferve, Maria aproveita um momento de distração da bruxa e a joga no caldeirão, matando-a na água fervente. Após isso, Maria solta o irmão, os dois roubam todos os pertences da vítima e levam para os pais.

Não consta, no texto, nenhuma iniciativa de fuga do cativeiro por parte das crianças, o que seria normal em quem estivesse encarcerado, ainda mais se compararmos a forma física das crianças com a forma física de uma velha que se apóia em bengala. O que se pressupõe é que as crianças, uma vez que não tentavam fugir, esperaram a melhor hora para um golpe como efetivamente aconteceu.

No todo da narrativa, nota-se uma sequência de delitos das crianças. A sequência se inicia no momento em que consomem as guloseimas da casa com invasão a domicílio, dano ao patrimônio e furto. Em seguida, temos homicídio, latrocínio e formação de quadrilha, pois Maria assassina a bruxa, liberta o irmão e, juntos, roubam tudo o que encontram para levar aos pais, aqueles mesmos pais que os abandonaram à própria sorte. E, para concluir tal história de horror, não consta que foi um crime que veio a público, daí a impunidade dos menores infratores com a conivência dos pais. Se tal fato houvesse acontecido nos dias de hoje e o crime tivesse sido descoberto, essas crianças seriam encaminhadas à Febem, teriam ajuizadas medidas sócio-educativas e em três anos estariam livres, apesar das atrocidades cometidas.

Na verdade, é só uma narrativa infantil de tempos imemoriais, mas que nos oferece a triste constatação de que os valores de João e Maria (falta de respeito à vida humana, falta de respeito ao patrimônio alheio, crueldade etc.) são os mesmos valores de alguns dos nossos jovens. Vale lembrar que os jovens de hoje são amadurecidos mais rapidamente do que há alguns anos, pois contam com mais informações, além de ampla tecnologia ao alcance, consequentemente, a visão de mundo é outra. Todavia, em face de valores equivocados, os jovens engrossam as estatísticas da violência. É inegável que as atitudes que norteiam as nossas crianças são geradas pelo sistema de valores transmitido pela família ou algo que a valha, neste ponto, nada mudou, pois é sabido que a estrutura familiar é o ponto de partida na formação do indivíduo.

A preocupação com a violência juvenil aflige a todos e a polêmica da redução da maioridade penal se instala. Atribuir responsabilidades calcadas em valores inequívocos é o primeiro passo para a boa formação do adulto, oxalá esta atribuição fosse prerrogativa da família, mas na falta da mesma que o Estado preencha a lacuna.

sábado, 20 de setembro de 2014

A correlação entre opiniões sobre ciência e a capacidade de fazer ciência


O método Delphi é uma técnica criada nos anos 1960 e até hoje amplamente usada para obter informações convergentes sobre opiniões de profissionais de áreas específicas de atuação. 

Em 2003, por exemplo, Jonathan Osborne (Stanford University) e colaboradores publicaram artigo no qual empregaram o método Delphi para apurar opiniões convergentes sobre a natureza da ciência entre profissionais da filosofia, educadores, historiadores, divulgadores científicos e cientistas. Uma das visões em comum apuradas é a de que cientistas não seguem a tal da metodologia científica até hoje lecionada em instituições de ensino. Talvez por isso mesmo inúmeros professores de metodologia científica de nosso país insistem tanto em doutrinar alunos para seguirem as amalucadas normas da ABNT para a produção de textos. Afinal, para esses docentes forma parece ser mais importante do que conteúdo, quando o assunto é ciência.

Já em outubro do ano passado, Irene Y. Salter e Leslie J. Atkins (ambas da California State University) publicaram um fascinante artigo em Science Education no qual as autoras comparam opiniões de alunos sobre a natureza da ciência com a capacidade desses alunos se engajarem em atividades de investigação científica. Os discentes avaliados nesta pesquisa foram de um curso de licenciatura em ciências da própria California State University

O resultado da pesquisa de Salter e Atkins foi contundente. Opiniões de alunos sobre a natureza da ciência não constituem medida confiável para avaliar a capacidade de se engajarem em atividades de investigação científica. Reciprocamente, a competência para a realização de atividades científicas investigativas não garante que alunos tenham opiniões sobre a natureza da ciência que sejam consistentes com aquilo praticado por eles mesmos. 

Estes são resultados importantes, se levarmos em conta alguns fenômenos sociais bastante comuns, como a existência de fóruns populares destinados à discussão de ciências e o fato de existirem pesquisadores altamente qualificados que preferem seguir caminhos periféricos em suas vidas profissionais. 

No fórum Clube da Física, por exemplo, há quase dezenove mil membros. Em um país como o Brasil este é um número muito elevado para um fórum de discussões sobre física. Entre as regras do grupo há uma que estabelece o seguinte: "Caso você queira desbancar a teoria da relatividade, por exemplo, sinta-se a vontade para cursar a graduação em física, fazer seu mestrado, seu doutorado, começar suas pesquisas e provar que você está certo." Além de ser um argumento da autoridade e, portanto, de postura não científica, esta visão não encontra interseção alguma com a lista de convergências apuradas por Orborne, no trabalho acima citado. Pelo contrário, segundo Osborne e colaboradores, uma das opiniões convergentes apuradas entre profissionais ligados às atividades científicas é a de que cientistas são humanos e, portanto, as questões, respostas e explicações escolhidas por eles dependem de histórico pessoal e cultura local. Por isso mesmo a última regra da lista imposta pelo Clube da Física faz menos sentido ainda: "Por favor evite ser idiota."

O outro lado da moeda é a existência de profissionais altamente qualificados que insistem em uma ruptura com o senso crítico, como se estivessem em busca de auto-conhecimento alimentado por um senso próprio de popularidade. 

Recentemente recebi e-mail de um ex-aluno, intitulado "Sabedoria quântica, cura quântica, saúde quântica." Ele está preocupado com iniciativas como a de meu ex-aluno Gabriel Guerrer. 

Guerrer foi um dos pupilos mais brilhantes que já tive. Um de seus primeiros trabalhos científicos foi escrito em parceria comigo. Com doutorado obtido no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e estágio realizado no Grande Colisor de Hadrons do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), hoje Guerrer segue um caminho que muito se assemelha ao de Amit Goswami, o famoso indiano que busca unificar física quântica com espiritualidade. E não são poucas as pessoas que gostam de ouvir discursos de uma suposta harmonia entre ciência e misticismo. Afinal, bastam intuições pessoais para muitas pessoas se regozijarem com uma suposta sabedoria conquistada sem os necessários cuidados que somente podem ser avaliados através da próxima interação com uma quantia considerável de profissionais qualificados. É justamente este o ponto analisado por pessoas como Osborne, Salter e Atkins. Ciência é uma atividade social desenvolvida por aqueles que estão diretamente envolvidos com ciência e não uma especulação propagada por meros curiosos, alunos ou ex-pesquisadores cercados por pessoas sedentas por conhecimento mas desprovidas de energia para encarar trabalho sério. 

Como Orborne observa, os próprios cientistas discordam entre si, justamente porque o conhecimento científico não emerge apenas a partir de dados, mas também de um processo de interpretação e concepção teórica. Neste sentido a atividade de divulgação científica é uma das mais arriscadas do ponto de vista social, justamente porque conhecimentos científicos devem ser informados para um público leigo, não comprometido diretamente com ciência. E, neste contexto, é um ato de irresponsabilidade divulgar ciência combinada com uma postura mística de auto-conhecimento espiritual. Não afirmo isso por negar quaisquer relações entre misticismo e ciência, mas por reconhecer que se tais relações existirem ainda estão muito distantes de evidências suficientemente convincentes.
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Clicando aqui o leitor tem acesso a críticas de Gabriel Guerrer.

Exemplos extraordinários da influência da matemática nas artes


Esta é uma postagem que serve ao propósito de simples entretenimento apesar do considerável impacto que possa causar entre os amantes de arte.

Um dos primeiros textos que publiquei neste blog foi justamente sobre aspectos artísticos inerentes à matemática, a qual é capaz de conceber, por exemplo, imagens impossíveis de serem visualizadas. Em outro texto foi discutido sobre os limites matemáticos na arte de composição de músicas. Desta vez o objetivo é mostrar alguns exemplos de objetos de arte que foram concebidos a partir de inspirações na matemática e suas aplicações às ciências reais.

Mas, antes de iniciar a pequena apresentação, eu gostaria de mostrar a escultura Freedom (Liberdade) de Zenos Frudakis, à qual remete (pelo menos para mim) à máxima do matemático russo Georg Cantor: a de que a essência da matemática radica em sua liberdade. Freedom se encontra na cidade de Philadelphia, Pennsylvania, EUA.



Jonty Hurwitz é um engenheiro (por formação) sul-africano, conhecido como um artista não convencional por ter encontrado pelo menos parte da fronteira que separa ciência de arte. A foto abaixo ilustra um pouco de seu trabalho.


A foto acima foi obtida do site Daily Art.

Os estudos do matemático Ulrich Brehm, da Dresden University of Technology, inspiraram a concepção de uma escultura na qual crianças e adultos podem brincar. O trabalho faz referência a um ramo da topologia conhecido como teoria dos nós, conforme pode se ver na foto abaixo, que foi obtida do site Deep Fun.


A mecânica quântica é um ramo da física que consiste na mais conhecida aplicação da análise funcional. Tal teoria física abre espaço para uma visão não convencional sobre o universo. A escultura da foto abaixo é obra de Julian Voss-Andreae. Intitulada Quantum Man (Homem Quântico) ela se localiza na cidade de Moses Lake, Washington, EUA. A foto foi obtida da Wikepedia.


O britânico Alan Turing foi um dos mais influentes cientistas do século 20. Foi ele quem criou a teoria matemática que hoje estabelece as bases da computação digital. A foto abaixo (obtida do site Gig Screen) mostra uma cena do filme The Imitation Game, de Morten Tyldum, o qual conta a história de Turing quando ele trabalhou como criptógrafo para o governo britânico durante a Segunda Guerra Mundial. 


Se clicar aqui você terá acesso ao trailer do filme. A estreia no Reino Unido está agendada para o dia 14 de novembro deste ano.

Devido ao apelo visual de certos conceitos da topologia, a fita de Möbius tem servido de inspiração a inúmeros artistas. A foto abaixo (obtida do site Belgian Motorsport) mostra uma escultura gigante de Gerry Judah em homenagem à empresa Lotus, da Fórmula 1. 


Mas a fita de Möbius não se reflete apenas nas artes visuais. Canon cancrizans é um arranjo de duas linhas musicais que se complementam de forma análoga à formação de palíndromos na linguagem escrita. Se o leitor clicar aqui, terá acesso a um belíssimo vídeo que exibe a relação entre um canon cancrizans de Johann Sebastian Bach e a fita de Möbius.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A percepção dos alunos sobre os melhores professores


Dois anos atrás publiquei neste blog uma brincadeira na qual uma pessoa deveria aplicar matemática para decidir se casaria com a paixão de sua vida

Apesar do tom irônico da postagem, as ferramentas indicadas na postagem acima citada são instrumentos básicos e bem conhecidos sobre teoria das decisões. 

Decisões fazem parte do cotidiano de todas as pessoas, desde processos de escolha sobre o que comer no café da manhã até momentos em que um professor deve definir se aprova um aluno em uma disciplina ou não. 

Quando fui chefe do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Paraná, tentei convencer professores de que eles deveriam ser avaliados pelos seus alunos. No entanto, docentes parecem se sentir ameaçados diante da perspectiva de avaliações tendenciosas. Esta não deixa de ser uma visão meramente espelhada dos próprios profissionais do ensino, uma vez que, como já demonstrei em outra oportunidade, pessoas são incapazes de serem imparciais.

Pois bem. O que isso tudo tem a ver com o título da postagem?

No mês passado Michela Braga, do Departamento de Economia da Università degli Studi di Milano (Itália) e colaboradores publicaram artigo em Economics of Education Review no qual demonstram que os melhores professores são aqueles que recebem as piores avaliações de seus alunos. 

O critério para definir os melhores professores é justamente o desempenho de seus alunos em disciplinas cursadas posteriormente. Neste contexto, os melhores docentes são aqueles que exigem mais de seus pupilos. 

Os dados foram obtidos a partir de documentos administrativos da Università Bocconi, em Milão, Itália. Para ter acesso a uma versão preliminar do artigo sem ter que pagar os US$ 19,95 exigidos pela editora Elsevier, clique aqui.

Um dos aspectos mais interessantes do artigo de Braga e colaboradores é a concepção de um modelo que ajuda a compreender os resultados obtidos e que, além disso, permite apresentar evidências de que alunos avaliam professores a partir das utilidades percebidas.

Esta é uma informação extremamente importante, uma vez que percepção de utilidades é ingrediente fundamental em tomadas de decisão. Na postagem mencionada sobre teoria das decisões, pequei por não reforçar o eventual aspecto subjetivo na determinação de utilidades. E no artigo de Braga e colaboradores fica assumido que, intuitivamente, alunos empregam rudimentos muito elementares da teoria das decisões quando avaliam seus professores.

A avaliação de alunos sobre o desempenho de seus professores tem sido cada vez mais comum em universidades do mundo inteiro, apesar de serem quase inaplicáveis ou inócuas em universidades públicas de nosso país. Elas ajudam a determinar a clareza de um professor em sala de aula, a logística da disciplina ministrada e até mesmo aspectos mais básicos como assiduidade e pontualidade. Normalmente tais avaliações são usadas como instrumentos de seleção e motivação de profissionais do ensino. 

No entanto, o recente e importantíssimo trabalho de Braga e colaboradores mostra de maneira clara e objetiva que mesmo instrumentos de avaliação devem ser avaliados. Neste sentido, tanto instrumentos que avaliam desempenho de alunos quanto aqueles que avaliam desempenho de professores devem ser contextualizados com a política educacional de cada instituição. Sem uma definição clara dos propósitos de uma instituição de ensino, não há como se beneficiar com instrumentos de avaliação. Isso porque cada pessoa neste mundo, seja aluno ou professor, tem suas próprias peculiaridades, interesses pessoais e tendências.

E apesar da multiplicidade de interesses frequentemente divergentes entre docentes e discentes em uma instituição de ensino, ainda há elementos universais detectáveis, como a correlação negativa entre bons professores e a percepção de alunos sobre seus mestres.

Aproveito para agradecer ao professor Carlos de Brito Pereira pela indicação do artigo de Braga.