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sexta-feira, 17 de julho de 2015

O índio astrônomo


Na divisa entre Mato Grosso do Sul e o Departamento de Amambay, na República do Paraguai, existe a cidade de Ponta Porã, que faz fronteira livre com a cidade de Pedro Juan Caballero. Esta cidade fica em uma região que, em tempos remotos, foi ocupada por vários povos indígenas, incluindo principalmente os índios caiuás. Com a colonização promovida pelo homem branco, muitos aspectos da cultura desses povos indígenas passaram a ser ameaçados. Por um lado, a contaminação cristã introduziu entre os índios a (até então) inédita noção de pecado, levando muitos ao alcoolismo e até mesmo ao suicídio. Por outro, jovens índios passaram a assimilar a cultura do homem branco, ignorando suas próprias raízes. Como os índios brasileiros não contam com linguagem escrita, todo o conhecimento desses povos sobre ervas medicinais e ritualísticas, animais, astronomia e mitos, ficou sob os cuidados quase que exclusivamente de pajés. Pajés, além de detentores do conhecimento indígena, são também curandeiros e orientadores espirituais. 

Foi em meio a esta transição entre a morte das culturas indígenas e a dominante colonização promovida pelo homem branco que nasceu Germano Bruno Afonso, um descendente de índios.

O sobrenome Afonso foi herdado de colonizadores espanhóis. Mas Germano domina os idiomas Tupi, Guarani, Espanhol, Português, Francês e Inglês. 

Desde a infância conhece muito bem a astronomia tupi-guarani. Este foi o seu primeiro contato com as estrelas, constelações, Sol e Lua e seus reflexos sobre o mundo terreno. 

No lugar de simplesmente assimilar a cultura do homem branco, em detrimento da indígena, Germano encontrou uma solução realmente original e única. Ele usou a cultura do homem branco para hoje resgatar suas raízes no céu tupi-guarani. 
Germano Bruno Afonso

Germano graduou-se em Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na mesma instituição obteve seu mestrado em Ciências Geodésicas. Doutorou-se em Astronomia de Posição e Mecânica Celeste pela Université Pierre et Marie Curie (Paris VI) e realizou estágio de pós-doutorado no Observatoire de la Côte d'Azur, na França. 

Em parceria com pesquisadores franceses de renome publicou trabalhos importantes sobre perturbações não-gravitacionais em satélites artificiais, com especial atenção dedicada ao satélite LAGEOS. Trouxe este conhecimento ao Brasil, o qual foi desenvolvido posteriormente em parceria com alunos seus de pós-graduação. Tive a sorte de ser seu orientado durante meu mestrado, na UFPR. Esta parceria resultou em um estudo inédito sobre a variação do tempo de resposta da Terra aos efeitos de marés provocados pela Lua

Mas, aos poucos, Germano começou a retornar às suas origens. Afinal, este era o seu chamado, a sua verdadeira missão. 

Criou e desenvolveu diversos projetos de arqueoastronomia e etnoastronomia indígena brasileira. Parte de seu trabalho pode ser encontrada no livro O Céu dos Índios Tembé, vencedor do Prêmio Jabuti de 2000. Outra fonte de ricas informações pertinentes e bem mais abrangentes é o site Astronomia Indígena

Germano sempre foi um entusiasta da ciência e da cultura em geral. A correlação entre este tipo de postura e senso de humor é simplesmente inevitável. Ele gostava de provocar o físico chinês Bin Kang Cheng com frases do seguinte tipo: "Como dizia Confúcio, água mole em pedra dura tanto bate até que fura." Cheng chegou a questioná-lo um dia: "Eu não acho que Confúcio tenha dito isso." E Germano respondeu: "Se não disse, deveria ter dito."

Enquanto fui seu orientado, Germano aparecia na sala de estudos dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Física da UFPR e perguntava para mim: "E aí, Adonai. Algum teorema novo?" Preocupado, eu respondia negativamente e ele completava: "Nem mesmo um corolariozinho?"

Durante o mestrado era patente o interesse de Germano por assuntos pouco convencionais mesmo entre físicos. Colaborei com ele, compondo uma música tema para um software que Germano desenvolveu, reproduzindo parte da sabedoria milenar chinesa do I Ching. Além do software, Germano publicou um livro sobre a codificação binária dos 64 hexagramas do I Ching. E isso era algo realmente fascinante.

Foi com Germano que aprendi os modos de pensar de físicos, criaturas que mais se parecem com magos (ou pajés) do que com cientistas. Físicos tradicionais não se preocupam com preciosismos matemáticos. Trocávamos ideias usando expressões que fariam qualquer lógico-matemático torcer o nariz, como "basta virar a equação de ponta-cabeça" ou "esta não linearidade das equações diferenciais está atrapalhando o progresso da ciência". 

Germano sempre deixou muito claro que a intuição do físico vale muito mais do que aquilo que ele sempre chamou de "altas matemáticas". De nada vale fazer contas complicadas, se não houver uma poderosa e elegante intuição física. E este foi um aprendizado de extraordinária importância, que persiste comigo, ainda que eu tenha posteriormente seguido o caminho da fundamentação lógica e matemática de teorias físicas. 

Germano é o único pesquisador brasileiro dedicado ao resgate do conhecimento astronômico de povos indígenas de nosso país. E ele chegou no momento certo. Se não fosse por este mestiço de sangue e espírito, em uma ou duas gerações todo o conhecimento astronômico dos povos que nossa cultura subjugou estariam irremediavelmente perdidos. Apesar de índios brasileiros falarem muitos outros idiomas além de Tupi e Guarani, essas duas línguas sempre têm operado como ponte de comunicação. Sempre existe algum índio que domina Tupi ou Guarani. E sua fluência nestes idiomas aprendidos durante a infância abre "portas". Pajés respeitam o índio de sobrenome Afonso e de nome com óbvia referência européia. Em um ritual realizado em uma das tribos visitadas, ele chegou a ser batizado como Doé, nome sagrado. Esta é uma grande honra, pois Doé (em Tukano) é a primeira estrela vista ao anoitecer. Um título que Germano carrega com grande carinho, ao lado de seu diploma francês. Neste sentido Germano é algo como a versão brasileira de Lawrence da Arábia.

Hoje Germano trabalha no Centro Universitário UNINTER, em Curitiba, Paraná. Conversei pessoalmente com ele poucas horas atrás, acompanhado de outra pessoa extraordinária sobre a qual um dia escreverei aqui. Era o único professor presente nos silenciosos corredores daquele prédio, no início da noite de sexta-feira. 

Bem. Alguém tem que trabalhar. Afinal, como sempre diz Germano, nada deve atrapalhar o progresso da ciência. 

Um brinde ao índio astrônomo!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Como medir a promessa de um aluno?


Quando um professor avalia um aluno ou um aluno avalia um professor, o que exatamente está em jogo? 

Muitas postagens já foram publicadas neste blog sobre avaliação. Lamentavelmente não existe a cultura da avaliação sobre avaliações em nosso país. E este é um dos motivos do inquestionável fracasso da educação brasileira como um todo. Professores sistematicamente ignoram, entre outras coisas, que toda avaliação é um processo de medição. E, assim, ignoram que toda avaliação admite margem de erro. Também demonstram desconhecer que avaliações baseadas em respostas ignoram por completo a criatividade de alunos. Em contrapartida, instituições comumente ignoram que os melhores professores são aqueles que têm as piores avaliações feitas pelos seus alunos. E, assim, principalmente instituições privadas perdem a valiosa oportunidade de oferecer ensino de excelência, ao demitirem professores por conta exclusivamente de critérios de popularidade. Enfim, avaliação é um processo feito de forma primária e irresponsável em nossas terras. 

Nesta postagem quero colocar outra possível perspectiva a respeito de avaliações. É aquilo que alguns malucos chamam de "rigor". Um professor que se considera rigoroso em suas avaliações é necessariamente um bom profissional do ensino? Vejamos abaixo um exemplo que considero importante, para ilustrar o delicado papel de avaliações.

Recentemente recebi e-mail de uma ex-aluna, contendo um depoimento pessoal que precisa ser conhecido. Ela foi aluna minha na disciplina de Cálculo Diferencial e Integral I do Curso de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2010. No entanto, na época ela me contou que tinha planos para mudar de área de estudos e de instituição. Esta aluna queria estudar marketing na Universidade de Miami, Estados Unidos. E, para garantir sua vaga naquela instituição, era necessário que ela conquistasse pelo menos média 90 (em uma escala de 0 a 100) na disciplina que eu lecionava. Bem, ela estudou mas foi obrigada a fazer exame final. Ao término do exame, sua média final era apenas 70. Mas, diante de seu interesse em estudar em uma instituição evidentemente melhor do que a UFPR, fiz um acordo com esta aluna. Eu registraria sua média final como 91 em troca de notícias sobre seu desempenho em Miami. 

Cinco anos se passaram e finalmente esta ex-aluna enviou o relatório que pedi. Ela se formou em marketing e administração pela Escola de Negócios da Universidade de Miami e hoje trabalha na AmBev, a maior empresa da América Latina em termos de valor de mercado. Em janeiro deste ano ela foi promovida para o cargo de Coordenadora. Esta ex-aluna tem hoje 25 anos de idade.

Por que apresento este exemplo? A questão que desejo colocar em discussão é o objetivo de avaliações em instituições de ensino. A forte tradição de concursos vestibulares, que pretendem avaliar doze anos de escola em dois ou três dias, apresenta reflexos extraordinariamente nocivos em praticamente todas as formas de avaliação ocorridas durante cursos de graduação e até de pós-graduação. Quando um professor corrige uma prova e atribui uma nota, estão sendo levadas em conta as interferências causadas pelo próprio professor? Estão sendo levadas em conta as caraterísticas intrínsecas do próprio aluno? Estão sendo considerados os absurdos usualmente impostos em sala de aula? Estão sendo consideradas as ambições do aluno? 

O que significa ser rigoroso em uma avaliação? Um professor rigoroso é aquele que reprova um aluno por conta de um erro em uma única questão de uma única prova? Um professor rigoroso é aquele que se escraviza a rígidas regras nunca questionadas? Um professor rigoroso é aquele que se julga suficientemente sábio? Ou um professor rigoroso é aquele que rigorosamente destrói sonhos, tratando todos os seus alunos de forma igualitária? 

Nada posso responder sobre outras atividades profissionais. Portanto, não cabe a mim qualquer comparação entre docência e outras profissões. Mas uma coisa posso garantir após uma experiência de três décadas como professor: não é fácil lecionar; não é fácil avaliar; não é fácil julgar. Porém, é sensacional mentir para a Universidade de Miami e ver como esta mentira frutificou na forma de uma meteórica carreira em ascensão. Afinal, reconheço que jamais poderei garantir que qualquer julgamento meu a respeito de qualquer aluno possa honestamente definir quem é este aluno. Jamais terei condições de definir o que um aluno é capaz de fazer no futuro. E o caso aqui relatado é apenas um entre muitos outros que testemunhei.

Quem entender isso, terá um pequeno vislumbre sobre a desgastante tarefa de lecionar. Quem não entender, estará apenas perpetuando o câncer do fracasso brasileiro perante o mundo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O que e quem você ama?


Recentemente um comentarista anônimo deste blog disse que sente raiva de certas postagens aqui publicadas. Isso porque ele observa que vários dos graves problemas das universidades de nosso país são percebidos por muita gente, mas nada é feito para mudar. 

Além deste blog, mantenho uma página Facebook sempre atualizada com notícias relacionadas a temas aqui abordados. E também estou finalizando a produção de vídeos educativos que, em breve, serão disponibilizados em um canal Vimeo. Mas iniciativas como essas, no sentido de promover difusão e discussão sobre ciência e educação, não são novidade alguma. Há milhares delas no mundo todo. Além disso, mídias menos especializadas e muito populares também reservam considerável espaço para temas da ciência e educação. O lado positivo disso tudo é óbvio: o acesso a informações e análises críticas sobre assuntos da mais alta importância. No entanto, existe um lado negativo muito preocupante: a falta de foco. 

As trezentas postagens que antecedem esta tratam de múltiplos temas. No entanto, nenhum deles foi tratado de maneira exaustiva aqui. Certamente não sugiro que algum assunto aqui discutido possa ser compreendido em sua plenitude. Mas a busca pela plenitude é essencial, se alguém honestamente deseja mudanças. 

Navegar na internet atrás de informações atualizadas sobre o que há de mais relevante em ciência, educação e filosofia nos dias de hoje pode ser mais informativo do que navegar em busca de vídeos engraçados sobre gatos que soltam flatulências enquanto soluçam. Mas nenhuma das atividades constrói coisa alguma. 

Navegar persistentemente na internet é apenas um ato de eterna paquera, sem a efetiva busca por real compromisso. 

Um exemplo muito marcante para ilustrar o que digo é a vida de Stephen Hawking, o famoso físico britânico que nasceu exatamente trezentos anos após a morte de Galileu. Antes do diagnóstico de sua doença (esclerose lateral amiotrófica), Hawking era considerado um jovem brilhante que não se destacava nos estudos. Depois que médicos o avaliaram e disseram que ele não poderia viver por mais de dois anos e meio, Hawking e sua família ficaram arrasados. 

Isso obrigou o jovem britânico a refletir sobre a sua vida. Ele dividiu quarto com uma vítima de leucemia e percebeu que sua situação não era tão desoladora, por comparação. E até mesmo seu inconsciente deu um onírico grito de alerta. Hawking sonhou que seria executado. No entanto, havia mais um fator em jogo. O jovem condenado estava apaixonado por Jane Wilde. 

Hawking adorava atividades físicas, incluindo dança. E, vindo de uma família com considerável tradição acadêmica, ele nutria interesse por múltiplos ramos do conhecimento. Mas o amor pela vida e por Jane Wilde o fizeram se concentrar em física teórica. Hawking estava finalmente amando a física teórica e não apenas flertando. 

Sem a incessante busca pela plena compreensão, não há amor. E, sem amor, não há compreensão alguma.

Notei na biografia de Hawking algumas semelhanças com a vida de um conhecido cientista brasileiro. E uma delas, em especial, despertou muita atenção. Durante jantares da família Hawking não havia diálogo algum. Cada membro da família se alimentava enquanto lia um livro. Em conversas pessoais com Newton da Costa, certa vez ele revelou: "Durante o jantar, em minha família, jamais conversávamos sobre assuntos pessoais, mas somente sobre temas de caráter geral, como música, ciência, história, filosofia, artes."

Os poucos que tiveram o privilégio de assistir ao documentário Espírito de Contradição, de Fernando Severo, devem ter percebido que da Costa não se sente muito a vontade para falar a respeito de si mesmo. No entanto, exala uma paixão incontrolável quando discursa sobre matemática, física e filosofia. Isso porque seu amor e sua paixão sempre apontaram para a tênue fronteira entre essas áreas do conhecimento. da Costa conversa fluentemente sobre música, literatura, cinema, religião, linguística, computação, economia, história, direito, ética e até mesmo psicanálise. Mas essas áreas são meras paqueras para ele, apesar de poder trocar ideias relevantes até mesmo com especialistas. No entanto, seu incorruptível amor pela interface entre matemática, física e filosofia culminou com um livro que ainda deverá ser melhor compreendido pelas gerações futuras. Isso é amor. Isso é compromisso consequente de amor. da Costa é um servidor da matemática, da física e, principalmente, da filosofia. Quem ama, serve. E quem serve, faz, constrói, edifica novos mundos. 

Portanto, se alguém deseja mudar algo para melhor, que ame. Chega de paquera. Chega de flertes. Nada muda se apenas criticarmos aqueles que sequer flertam o conhecimento, a cultura, a beleza. São aqueles que sabem flertar que devem decidir se amam algo, se são capazes de amar algo.

O flerte é apenas uma porta entreaberta. Mas você quer entrar para ver o que realmente há lá dentro?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Como escrever artigos científicos


Recentemente descobri algo que me deixou perplexo. A internet está repleta de cursos sobre escrita científica. Descobri, por exemplo, que a Universidade Stanford é uma das instituições de renome que oferece curso sobre como escrever artigos científicos. No Brasil, a Universidade de São Paulo também oferece algo parecido. Fiquei sonolento quando acompanhei um dos vídeos. Isso tudo me faz lembrar do péssimo livro de Umberto Eco, intitulado "Como Se Faz Uma Tese". Este texto de Eco pode ser uma ótima referência para aqueles que não têm a menor aptidão para a atividade científica, mas que desejam se tornar sócios do Clube da Ciência, publicando textos desinteressantes que apenas acumulam pó em prateleiras de bibliotecas. É o tipo de público que fica fascinado com as normas da ABNT. Mas o autor nada discute sobre aquilo que realmente interessa: o ato da criação. E nem poderia! 

Preocupar-se sobre como escrever um artigo científico é equivalente à preocupação sobre o que vestir no dia do próprio casamento. É claro que a roupa usada no casamento trata-se de uma demonstração de respeito e seriedade perante a cerimônia. Mas o que realmente importa, no final das contas, ainda é o casamento. Évariste Galois que o diga! Seus artigos eram definidos por afirmações ambíguas, com problemas de pontuação e um estilo irregular. Em um trabalho publicado em 1830 no Annales de Mathématiques, até mesmo o nome de Galois estava escrito errado. No entanto, a obra deste grande cientista francês se consagrou como um monumento incontestável na história da matemática. 

Os inúmeros cursos que existem por aí sobre escrita científica são um mero sintoma de um fenômeno muito grave que assola o planeta: a crise na ciência. 

Temos, hoje em dia, teses repletas de plágios, artigos com erros graves, ideias absurdas defendidas por pesquisadores que escrevem muito bem, periódicos de acesso livre que publicam qualquer coisa que autores escrevam (desde que paguem), insanos movimentos de dissidência científica, filósofos que não filosofam, e pelo menos um Membro da Academia Brasileira de Ciências que defende o Criacionismo

Pois bem. Aqui vai o meu "curso" sobre escrita científica. 

A pessoa interessada em publicar artigos científicos precisa de apenas duas aptidões:

1) Saber desenvolver uma ideia científica relevante e inédita.

2) Saber escrever de forma persuasiva.

Como desenvolver ideias científicas relevantes e inéditas? Bem. Se milhares de exemplos históricos, ao longo de séculos de atividade científica sistemática, ainda não deixaram claro o suficiente o processo de criação, eis as três informações-chave: estudo, troca de ideias e busca por soluções. 

Sem conhecer ciência profundamente, não é possível desenvolver ciência inédita e relevante. E, para conhecer ciência, é necessário muito estudo. Livros clássicos e artigos recentes veiculados nos melhores periódicos são um excelente ponto de partida. 

Mas não adianta apenas estudar. É necessário trocar ideias com experientes pesquisadores e cientistas, periodicamente. A experiência dos mais velhos precisa ser confrontada com a ousadia e a criatividade dos mais jovens. "Pensar fora da caixinha" é fundamental. Mas saber ouvir é igualmente importante. 

A busca por soluções é a parte mais difícil. Um problema genuinamente importante e difícil só pode ser resolvido diante de um compromisso ininterrupto com o mesmo. Problemas científicos sérios não são necessariamente resolvidos em horas estipuladas para reflexão. Não basta agendar: "durante este horário do dia eu penso". Cito o famoso exemplo de William Rowan Hamilton. Este célebre cientista irlandês sabia que os números complexos podiam ser compreendidos como pontos em um plano e que as operações algébricas sobre eles eram associadas a operações geométricas. Pensou, então, em estender esses resultados para pontos em um espaço tridimensional. Mas sempre fracassava quando tentava definir multiplicação entre triplas ordenadas. Foi durante um passeio com a esposa, sobre uma ponte de Dublin, que Hamilton vislumbrou a solução para o seu problema: basta considerar quádruplas ordenadas ao invés de triplas. E assim nasceram os quatérnions. Um agradável passeio com a esposa não é o bastante para alienar a mente de um cientista. Ciência é uma atividade extraordinária. Problemas científicos acompanham a mente do pesquisador nos momentos mais inesperados, pelo menos aos olhos daqueles que não são cientistas. 

Agora vamos à aptidão número 2: escrita persuasiva. 

Textos científicos, assim como a maioria dos textos não-ficcionais, devem ser persuasivos. Textos científicos devem convencer seus leitores. Esta é a arte da eloquência, a arte de bem argumentar, a arte da palavra, também conhecida como retórica. E a história da retórica, como bem coloca o físico Anthony Garrett, não é a história da ciência. 

Quem não sabe escrever artigos científicos, também não sabe ser persuasivo. É possível sim aprender as técnicas da retórica. Mas há pessoas muito persuasivas que jamais estudaram retórica. E isso é algo interessante, uma vez que não é possível fazer ciência sem conhecer ciência. 

Nos ensinos fundamental e médio estuda-se português, inglês e filosofia. E há um motivo para isso: para aprendermos a ler, escrever e argumentar. 

Não sabe escrever um artigo científico? Então escreva uma ideia qualquer e procure defender esta ideia da melhor maneira possível! Em seguida mostre o seu texto para outras pessoas e acompanhe as críticas. A internet é uma oportuna ferramenta de exposição de ideias e que jamais esteve à disposição da maioria das grandes mentes da ciência. Algumas críticas serão absurdas. Outras serão inócuas. Mas eventualmente alguém apresentará uma crítica que aponte para os seus erros. Errar dói. Mas é aquela história: errando se aprende.

Quando eu era aluno de ensino médio, submeti um artigo para um periódico científico. O resultado foi um desastre. O artigo foi recusado. Anos depois percebi: "onde eu estava com a cabeça, para escrever uma coisa daquelas?" 

Durante o mestrado escrevi um artigo em parceria com meu orientador, Germano Bruno Afonso. O texto foi aceito e publicado. Era algo pequeno, mas eu estava no caminho. Jamais teria conseguido realizar aquele trabalho, naquela época, sem o senso crítico e a experiência de meu orientador. E é justamente esta a função do orientador: orientar.

Durante meu pós-doutorado em Stanford, aventurei-me com o primeiro artigo solo escrito seriamente. Era um trabalho sobre mecânica de Hertz. Escrevi com extremo cuidado, mostrei versões preliminares para colegas, recebi críticas, apliquei minhas próprias críticas, procurei ser convincente, evitei redundâncias e ambiguidades, procurei demonstrar familiaridade com o tema. Tudo o que eu queria era descrever as ideias de Hertz sobre mecânica em uma linguagem formal axiomática. Isso contrastaria com a usual noção de que forças são indispensáveis em mecânica newtoniana. Consultei pesquisadores experientes a respeito de opções de periódicos adequados para submissão. Apresentei o trabalho em um evento na Itália, para uma plateia de físicos e filósofos de diferentes cantos do mundo. E somente então submeti o artigo. Foi aceito, sem necessidade de fazer modificações. Hoje este trabalho é citado por Max Jammer, em seu clássico livro sobre conceitos de massa em física

Patrick Suppes dizia: "Jamais termino de escrever livro algum, artigo algum. Apenas os abandono." Resultado: centenas de publicações científicas e filosóficas que transformaram o século 20.

Conheço minhas limitações. Então, o que faço? Parcerias com profissionais de altíssimo nível e extremamente exigentes. Raramente publico artigos solo. Por quê? Porque assim recebo críticas. Críticas impulsionam resultados melhores, quando sabemos ouvir. Meus trabalhos mais citados são, em sua maioria, artigos feitos em parceria. 

Como se aprende a namorar? Namorando! Como se aprende a escrever? Escrevendo! Como se aprende a pensar? Pensando! 

Se quiserem discursar sobre como discursar, fiquem à vontade. Mas acho que existem coisas mais importantes para se fazer. Casei com a ciência, sem terno e sem sapato italiano. Mas vivo uma relação estável e relativamente afetuosa.

domingo, 22 de março de 2015

Confissões de um boçal


Recentemente um comentarista neste blog (o qual não quis se identificar) criticou certas afirmações frequentes que faço. Este comentarista, entre outras coisas, critica quando afirmo que o brasileiro é um boçal (pessoa ignorante, rude, grosseira) e que o Brasil não faria falta ao mundo se sumisse do mapa. É claro que muitos brasileiros fizeram grande diferença, com considerável projeção internacional. Exemplos são encontrados nas artes (Heitor Villa-Lobos, Cândido Portinari, entre outros), nas ciências (Carlos Chagas, Newton da Costa, entre outros) e até na tecnologia (Alberto Santos Dumont, Alfredo Moser, entre outros). Mas esses nomes, em geral, conquistaram projeção internacional apesar de terem vivido e trabalhado em nossas terras e não por conta disso. Brasil é um país que não faz questão de dizer ao mundo: "Oi, estamos aqui!" Faz parte da cultura irlandesa, por exemplo, mostrar ao mundo quem foi James Joyce. Já o Brasil faz questão de não lembrar de Peter Medawar, nosso único ganhador do Prêmio Nobel.

O mesmo comentarista acima mencionado perguntou, então, se sou um boçal e se meu eventual desaparecimento faria falta ao mundo. Segue abaixo a minha resposta.

Sim. Nasci um boçal e cresci como um. E, sim. Se eu sumisse agora, minha falta não seria sentida perante o mundo.

Apesar de não ser de minha natureza expor aspectos de caráter pessoal em público, escrevo esta postagem para responder a uma questão que é natural: motivação. Ninguém discursa enfaticamente sobre educação, ciência e cultura se não houver uma motivação. E motivação é algo de caráter inevitavelmente pessoal. Pois bem. Segue abaixo o meu caso específico. 

Apesar de ter nascido em São Paulo (SP), desde a infância vivo em Curitiba (PR). Cheguei a Curitiba na época em que esta cidade tinha 600 mil habitantes. Morei em um bairro marcado por valetas a céu aberto e vizinhos praticamente sem escolaridade. Do lado esquerdo de minha casa morava um policial macumbeiro que adorava esfaquear porcos no quintal de seu lar, fazendo-os gritar e sofrer por muito tempo. Do lado direito morava um rapaz que matava ratazanas dentro do forno do fogão de sua avó. As ratazanas eram capturadas das valetas. E na frente vivia uma mulher que, pontualmente, no final da tarde, gritava com o filho, chamando-o de fdp. 

Meus pais estimulavam muito a leitura. Por conta disso tive meus primeiros contatos com livros de medicina, astronomia, matemática, tecnologia, história mundial e idiomas estrangeiros (inglês e alemão). No entanto, em função de idiossincrasias que prefiro não detalhar, vivi também em um ambiente socialmente muito isolado e dominado por radicais crenças místicas e políticas. Do ponto de vista político, fui criado sob o discurso de que comunismo é sinônimo de estupidez, socialismo é comunismo cor-de-rosa, e que o nazismo só não funcionou porque Hitler foi ambicioso demais. Ouvi muitas vezes a frase "Um dia Hitler será considerado um dos maiores gênios da história." Já do ponto de vista místico fui criado por Rosacruzes que acreditavam que o verdadeiro conhecimento somente é possível através de uma visão esotérica de mundo. Ciência era considerada algo bacana e importante. Mas somente o místico poderia alcançar a suposta sabedoria suprema. 

Diante deste quadro li integralmente todas as edições disponíveis da revista Planeta, um periódico frequentemente dedicado a histórias fantásticas sobre extraterrestres, fantasmas, lobisomens, vampiros e até fadas, narradas como reportagens jornalísticas. Li vários livros de Peter Kolosimo e Erik von Däniken, nomes hoje associados à pseudo-arqueologia, mas cultuados por milhões, décadas atrás.

Bertrand Russell, Platão e Kant eram apenas nomes conhecidos. Nada além disso. Russell, principalmente, mais parecia um velho rabugento do que alguém que tivesse algo importante a dizer.

No entanto, foi justamente em uma edição da revista Planeta que tive meu primeiro contato com a biografia de Nikola Tesla. E aquilo me fascinou muito mais do que qualquer experiência mística ou convicção política. Eu estava, naquele momento, diante de uma breve biografia sobre alguém que efetivamente mudou o mundo, alguém que ajudou a definir o século 20. 

A simples ideia de transformar o mundo era algo que me fascinava. Sem dúvida, Hitler mudou o mundo. Mas a mudança que ele implementou foi uma ideologia. E foi uma ideologia responsável pela morte de milhões. Mas foi uma ideologia que somente se sustentou a partir dela mesma e não do contato com a realidade. Tesla também tinha ideologias. Mas suas ideologias eram sustentadas por aquilo que a própria realidade parece oferecer. Tesla sonhava com eletricidade. Ele queria conhecer a eletricidade. E conheceu. E, em função disso, viabilizou o sistema de distribuição de energia elétrica até hoje empregado no mundo todo. É mais fácil uma pessoa entender o bom uso da eletricidade do que o bom uso do nazismo. 

Mas eu não tinha ideia de por onde começar. Montei laboratórios de eletricidade e de química em um pequeno quarto, a partir do pouco conhecimento que estava à minha disposição. Com tentativas e erros, desenvolvi um telescópio de projeção que permitia acompanhar a dinâmica de manchas solares. O resultado foi uma insolação que me deixou na cama durante uma semana. Mas aproveitei este momento para ler sobre as pirâmides do Egito e descobrir a constante áurea. 

Durante meu ensino médio eu estava determinado a ingressar em uma universidade. Em Curitiba, naquela época, havia apenas duas opções: Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Católica do Paraná (não era Pontifícia ainda). Por conta do isolamento social que vivi, nem se cogitava a possibilidade de fazer uma graduação fora de Curitiba. A UFPR era a única instituição gratuita de ensino superior e, portanto, acessível para os padrões financeiros de minha família. Eu estava em dúvida entre medicina e matemática. Decidi que medicina era uma ideia ruim, pois eu queria uma carreira na qual eu tivesse liberdade de escolha sobre horário de trabalho. 

Cursei Licenciatura em Matemática, na UFPR. Mas, com apenas duas exceções, tive professores sem compromisso algum com pesquisa. E o que eu queria era ser um pesquisador, alguém que construísse algo relevante. 

Ao término da graduação, iniciei o Mestrado em Física, novamente na UFPR. Tive a sorte de encontrar um prolongado período de greve naquela instituição. Isso porque eu tinha considerável dificuldade para acompanhar o estudo das disciplinas exigidas. Usei o período de greve para estudar. A Licenciatura em Matemática, que fiz, era pouco exigente. 

Durante o mestrado publiquei meu primeiro artigo, em parceria com meu orientador, Germano Bruno Afonso. No entanto, sem a pressão de meu orientador, eu jamais teria conseguido chegar aos resultados alcançados. Faltava em mim a mais importante característica necessária para um pesquisador: autonomia. 

Por que eu não tinha autonomia intelectual? A resposta é simples. Porque eu era um boçal. Autonomia de pensamento é algo que deve ser conquistado muito cedo. O tempo estava passando, e a tal da autonomia simplesmente não surgia. Faltava um lampejo, uma fagulha, uma luz de criatividade. 

Criatividade é a capacidade de lidar com contradições. Eu vivia em uma realidade dominada por certezas (fossem místicas, políticas ou até científicas). E como criar ciência se eu ainda assumisse o preconceito de que a ciência oferece respostas? 

Quando concluí o mestrado, senti-me um vencedor. Senti-me como uma pessoa que tinha vencido o isolamento social e cultural da Curitiba dos anos 1970, para ingressar no amplo mundo da ciência que avançava para o século 21. Afinal, meu primeiro artigo foi escrito em inglês. E inglês, achava eu, era o idioma que o mundo lia. No entanto, ignorei o fato de que não basta escrever em inglês. É necessário escrever algo relevante em inglês. 

Ao iniciar o doutorado, na Universidade de São Paulo, tive contato direto com Newton da Costa e seu grupo interdisciplinar de pesquisa. Esta experiência foi avassaladora. Foi quando percebi que todo o empenho que tive até então era algo simplesmente insignificante. Eu achava ter vencido minha boçalidade, mas ficou claro naquele grupo que este não era o caso. Voltei a ser um boçal, pior do que nunca. Eu desconhecia por completo noções extremamente elementares sobre ciência e até mesmo cultura em geral. Fazer matemática ou física de alto nível não se resumia a fazer contas complicadas. Era necessária uma visão científica, algo que definitivamente eu não tinha. E visão científica nada tem a ver com o compartilhamento de ideias científicas, com pessoas dividindo a mesma opinião. Se eu falasse A, Newton da Costa respondia convincentemente que a verdade era a negação de A. Se eu falasse a negação de A, Newton da Costa respondia de maneira mais convincente ainda que a resposta era A. E se eu falasse que poderia ser A ou a negação de A, ouvia uma inesperada resposta B. O que se aprende com Newton da Costa é jamais repetir o que ele afirma ou defende, mas a desenvolver sua própria visão científica. E a única maneira de alcançar isso é se submetendo a duras críticas, botando a cara para bater. Quanto mais violenta for a pancada contra as suas crenças, mais se aprende que elas não passam de meras crenças. 

Durante meu pós-doutorado em Stanford, publiquei meu primeiro artigo solo. Apresentei os resultados deste trabalho em um congresso internacional na Itália. Conquistei minha tão sonhada autonomia. Mas deixei de ser um boçal? Não. Por quê? Porque ainda faltava algo, algo realmente importante. Faltava real relevância no que eu fazia.

Ao longo de minha carreira descobri que publicar artigos científicos em periódicos de alto nível é algo perfeitamente possível de ser realizado, mesmo para uma pessoa que cresceu entre valetas e ideologias nazistas e místicas, lendo sobre deuses-astronautas e fadas que enganaram Arthur Conan Doyle. Aprendi que publicar em periódicos de alto nível é hoje algo até fácil. Era impossível na minha juventude, mas hoje é algo realista. No entanto, o perigo reside justamente na satisfação com tão pouco. Onde está a relevância?

Vários artigos meus são citados por pesquisadores de diferentes cantos do globo, em diferentes idiomas. Deixei de ser um boçal? Não.

Hoje tenho 50 anos de idade. A história mostra claramente que as grandes conquistas científicas são feitas por jovens. Portanto, a chance de que eu faça algo relevante a esta altura fica, a cada dia, mais remota. No entanto, não consigo desistir. É teimosia pura e simples, herdada de minha primeira leitura sobre a vida e a obra de Nikola Tesla, o transformador. 

Pedi meu desligamento do Programa de Pós-Graduação em Matemática da UFPR, como professor colaborador, por perceber que eu estava caindo na rotina da publicação pela publicação. Uma vez que se aprende a publicar em bons periódicos científicos, é muito fácil o profissional se deixar seduzir pela comodidade da rotina: publicar para receber bolsas de pesquisa e receber bolsas de pesquisa para continuar publicando. Para piorar a situação, colegas estavam colocando meu nome em artigos nos quais não colaborei. Faz parte da cultura acadêmica de nosso país um pernicioso corporativismo, no qual publicações são multiplicadas a partir de amizades e coleguismos. E, estranhamente, essa prática se faz presente até mesmo entre pessoas bem intencionadas. É uma espécie de corrupção ingênua, mas muito arraigada na vida acadêmica (incluindo instituições estrangeiras). Mas ciência não se promove a partir da rotina e política. E o fato é que a realidade acadêmica brasileira está dominada por uma rotina burocrática com pouca sintonia com o desenvolvimento da ciência que transforma o mundo. 

Passei décadas me dedicando ao estudo de física teórica e fundamentos da física. Não consegui os resultados desejados. O que fiz, então? Decidi mudar minha estratégia. Uma vez que não posso fugir do fato de que já tenho 50 anos de idade, decidi pelo rejuvenescimento intelectual. E há alguns anos tenho me dedicado cada vez mais ao estudo de linguística, assunto muito novo para mim. Tenho um projeto de pesquisa nesta área, que iniciei com o filósofo brasileiro Otávio Bueno e que acabou assimilando posteriormente contribuições de Newton da Costa. É um projeto audacioso e que tem encontrado dificuldade de aceitação entre linguistas. Mas é uma proposta realmente nova, na qual se assume que a semântica de uma linguagem é mais fundamental do que a sintática. Essa tese contrasta fortemente com a visão dominante de linguistas do mundo todo. Mas o que temos a perder? De meu lado, nada se perde, em caso de fracasso. Afinal, não estou mais sujeito às normas de órgãos de fomento à pesquisa de nosso país. Seria irresponsabilidade minha impor a um aluno de mestrado ou doutorado um projeto desses, justamente porque alunos de pós-graduação esperam poder concluir com sucesso os cursos que fazem. E não há garantia de sucesso algum neste projeto que desenvolvo. 

Já tive alunos que pediram para ajudá-los a publicar artigos em bons periódicos. Sempre foi possível atender a esses pedidos. Mas qual é a garantia de relevância científica para um projeto com data marcada de apresentação?

Resumidamente, sou ainda um boçal. Mas sou um boçal que ainda luta contra a própria ignorância, contra a própria irrelevância, contra a falta de sintonia com um mundo que vai muito além da UFPR, muito além do Brasil e muito além de minhas limitações humanas.

Quando acuso o povo brasileiro de ser boçal, não tenho a intenção de ofender pessoas. Tenho a intenção de apenas expor um fato. Sem o reconhecimento dessa boçalidade, jamais haverá motivação para mudanças construtivas. 

O que está em jogo não são resultados, mas atitudes. Eventualmente a atitude do claro inconformismo com a própria boçalidade pode trazer resultados realmente bons para o Brasil e para o mundo. Mas certamente o conformismo com a própria boçalidade (que se traduz com uma ilusão da pessoa consigo mesma) jamais trará qualquer resultado remotamente importante.

Em nossas terras fala-se muito de elites intelectuais. Pois bem. Essas elites não são reais, elas não existem. O que existe são estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam. Quem se vê como membro de elite intelectual, deve repensar seu papel perante a sociedade. O intelectual não é uma pessoa que realizou conquistas no domínio das ciências ou das artes, mas alguém que permanentemente busca por essas realizações. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Patrick Suppes


Na manhã de 2 de maio de 1994 defendi minha tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Durante o almoço, logo após a defesa, meu co-orientador, Professor Francisco Doria, perguntou: "E então? Quer ir pra Stanford?" Respondi com um imediato sim.

Meses depois recebi uma carta de Patrick Suppes, com um convite para eu realizar estágio de pós-doutoramento na Universidade Stanford. Em 1995 eu desembarcava com minha (então) esposa e meu filho de quatro anos no aeroporto de San Jose, California. De lá pegamos táxi para um hotel em Mountain View, no Vale do Silício. No dia seguinte cheguei a Ventura Hall, em Stanford, e me apresentei a Suppes. Ele demorou alguns segundos para entender quem, afinal de contas, era aquele sujeito de sotaque esquisito. Afinal Suppes pronunciava meu nome como Édonai. 

Assim que a breve confusão foi desfeita, Suppes imediatamente chamou sua secretária para me ajudar na localização de um apartamento para alugar. Na época havia uma única opção: um apartamento de dois quartos, com uma ampla sala, pela bagatela de 925 dólares por mês. O apartamento ficava em Menlo Park, local que sedia a mais antiga estação ferroviária da California.

Uma orientada de Suppes também foi convocada. Ela me deu carona de volta ao hotel e, de lá, a família toda se dirigiu ao apartamento. Suppes já havia conversado com a dona do imóvel por telefone. E, com um pouco de negociação, consegui convencê-la a alugar o apartamento a partir daquele mesmo dia.

Logo depois retornei a Ventura Hall e conversei brevemente com Suppes. Ele tinha compromissos naquele dia e me deu carona para fora do campus, em seu Mercedes-Benz. No caminho Suppes perguntou no que eu estava trabalhando. Expliquei que minha tese de doutorado era sobre teoria de categorias. Ele respondeu com um simples aham. Naquele instante entendi que era ele quem decidiria no que eu deveria trabalhar.

No dia seguinte Suppes explica que precisará viajar por alguns dias e recomenda que eu leia o livro The Quantum Vacuum, de Peter Milonni. Ele queria que eu trabalhasse em um modelo semiclássico para a física quântica, o qual havia iniciado em parceria com outro brasileiro, José Acacio de Barros. Suppes tinha um interesse específico no efeito Casimir.

Meu conhecimento sobre física quântica, na época, se limitava ao regime não-relativístico. Eu não sabia coisa alguma sobre eletrodinâmica quântica. Mas tinha que dominar os requisitos necessários para começar a discutir sobre um possível modelo corpuscular para o efeito Casimir, até o seu retorno, que se daria em alguns dias. 

Comprei o livro de Milonni na livraria de Stanford e um notebook Toshiba no Walmart. E então comecei a trabalhar. Por sorte a obra de Milonni era muito bem escrita, objetiva e clara. Todos os dias eu estudava na minha sala, em Ventura Hall, e em casa. 

Ao retornar de viagem, Suppes organizou seminários semanais sobre estatística e física, com a participação de gente do calibre de Max Dresden, que na época trabalhava no Stanford Linear Accelerator Center (SLAC). Foi Dresden quem deu a ideia que viabilizou a concepção do tal modelo corpuscular semiclássico para o efeito Casimir. 

Em um ou dois dias as equações básicas para o modelo estavam no papel. Suppes se empolgou com as contas iniciais. Mas, com o tempo, se mostrou bastante cético. Poucas semanas depois chega Acacio de Barros, que se envolve no projeto. 

Suppes, Acacio e eu conversávamos diariamente. Para cada dia havia uma nova versão do artigo, que era exaustivamente analisada. 

Acacio foi uma das pessoas mais criativas que já conheci. Era uma fonte inesgotável de ideias e um curioso compulsivo. Paralelamente ao projeto sobre o efeito Casimir, ele pensava nas relações entre física clássica e o teorema de Bell, da mecânica quântica.

Lá pela quinquagésima versão, o artigo foi submetido para publicação em Foundations of Physics Letters. Lembro que eu havia questionado com Suppes sobre a origem de nossa fórmula para a energia do estado de vácuo. Expliquei a Suppes que naquele artigo não havia uma única justificativa para aquela fórmula, apesar do formalismo canônico usual da eletrodinâmica quântica permitir a dedução dela. Ele então respondeu: "Temos que assumir algum ponto de partida". Ou seja, Suppes sugeriu que nossa fórmula funcionava como uma espécie de postulado. 

Semanas depois vieram os pareceres sobre o artigo. Um dos referees questionou justamente a origem de nossa fórmula para a energia do vácuo. Suppes olhou para mim, com a carta do editor na mão, e perguntou: "A gente havia conversado algo a respeito disso, não foi?" E, ingenuamente, respondi: "Sim. O senhor havia dito que deveríamos assumir algum ponto de partida." Suppes não gostou muito de minha impertinência.

Nesse meio tempo Acacio apresentou a ideia de provar a violação das desigualdades de Bell no contexto da eletrodinâmica clássica. Achei aquilo muito esquisito, mas Suppes se empolgou com a ideia. 

Nós três começamos a trabalhar em dois novos artigos: um sobre o teorema de Bell na eletrodinâmica clássica e outro sobre o teorema de Bell no modelo corpuscular semiclássico para física quântica. 

Questionei tanto as ideias de Acacio que Suppes chegou a brigar comigo. Aquele foi um dia realmente difícil. Senti-me uma espécie de criador de caso. Acacio, no entanto, encarava minhas críticas de forma completamente diferente. Ele percebia que provar a violação das desigualdades de Bell em regime clássico era uma ideia extremamente ousada e, portanto, questionável. Mesmo assim o artigo foi submetido para publicação, desta vez em Physical Review Letters.

Por tremendo azar, aquele trabalho caiu nas mãos de um referee absolutamente primário, que sequer conhecia noções elementares sobre teoria de probabilidades. Acacio e eu ajudamos Suppes a escrever a resposta ao referee. Mas não teve jeito. O artigo foi recusado.

Resumindo a história, o trabalho sobre o efeito Casimir foi publicado, bem como o artigo sobre o teorema de Bell no modelo corpuscular semiclássico. Mas o projeto sobre violação das desigualdades de Bell na eletrodinâmica clássica se limitou a um preprint ainda disponível na internet. 

Após um ano, chegou o momento de retornar ao Brasil. Acacio já havia partido há algum tempo. Em meu último dia em Stanford, Suppes deixou um artigo sobre minha escrivaninha, na sala que eu havia dividido com um americano, uma chinesa e, posteriormente, com um casal de franceses. Era um texto sobre o papel do filósofo da ciência na atualidade, que exerce forte influência sobre mim até hoje. Poucos dias antes, minha esposa, meu filho e eu jantamos com Suppes e uma de suas filhas. Ou seja, não ficaram mágoas, apesar dos atritos em uns poucos momentos.

Em seu último livro, uma espécie de memorial de toda a sua obra em filosofia da ciência, Suppes faz um agradecimento a mim, algo que me honra muito. Também recebi pelo correio uma cópia deste livro com uma exagerada dedicatória. 

Certamente não estou entre os colaboradores mais importantes de sua carreira. Mas pelo menos guardo um pouco deste contato pessoal e profissional que durou um ano e que era praticamente diário, chegando a ocorrer até mesmo em alguns domingos. 

Eu poderia ter escrito nesta postagem um texto melhor comportado, menos pessoal, destacando as contribuições de Patrick Suppes à filosofia, à matemática, à estatística, à psicologia, à educação, à neurologia e à física teórica. Poderia também ter detalhado por que Patrick Suppes recebeu do Presidente George H. W. Bush a Medalha Nacional de Ciência, o mais importante prêmio científico dos Estados Unidos. Mas sei que muitos escreverão sobre essas conquistas a partir do dia de hoje. Isso porque ontem Patrick Suppes faleceu, deixando um legado ainda muito ignorado no Brasil mas amplamente lembrado em todo o resto do planeta. 

Aliás, a última vez em que vi Suppes foi justamente no Brasil, quando esteve em Florianópolis, em evento que prestava homenagem a ele. São poucos os filósofos brasileiros que conhecem algo sobre a magnífica obra de Patrick Suppes. Mas esses poucos bastaram para atrair a sua atenção para o nosso país. 

Suppes conhecia melhor a produção de filósofos, físicos e matemáticos brasileiros do que a maioria de nós mesmos. E este é um dos aspectos que mais pude admirar neste grande pensador.

Em contrapartida, quando tentei traduzir seu último livro para o nosso idioma, recebi de editores a resposta de que esse tipo de literatura não interessa ao mundo acadêmico brasileiro. Afinal, quem se interessa por isso já lê diretamente o texto original. 

Houve desencontros sim, entre Suppes e eu. E esses desencontros são extremamente comuns entre pesquisadores. Mas, no final das contas, ainda era o conhecimento científico que falava mais alto. 

Suppes foi generoso o bastante para prefaciar meu primeiro livro, confiando em um breve resumo em inglês que fiz da obra, hoje praticamente esquecida. Manteve-me atualizado sobre seus últimos estudos a respeito do cérebro humano, publicados em Proceedings of the National Academy of Sciences. E, mais importante do que tudo, ensinou-me que o avanço da ciência depende fundamentalmente de riscos. Ser alvo de críticas (vindas de referees ou mesmo de colegas) jamais deve ser traduzido na forma de covardia travestida de cautela. 

Ciência é ousadia. E esta lição aprendi com Patrick Suppes (1922-2014), o mestre que hoje descansa fisicamente, mas que respira através de sua perene obra.

domingo, 1 de junho de 2014

Independência


Esta é uma postagem atípica, extraordinariamente curta, com o único propósito de expor uma ideia simples, mas poderosa: independência.

Um discípulo deve seguir seu mestre de duas formas:

1) Refletindo e agindo a partir de suas instruções durante um limitado período de tempo de formação intelectual.

2) Refletindo e agindo a partir de seu exemplo profissional e humano durante ilimitado período de tempo de formação intelectual.

Sem essas duas componentes, não existe relação entre mestre e discípulo, mas tão somente uma relação superficial entre professor e aluno. Coloco a mim mesmo como ilustração deste conceito. 

Sou discípulo de Newton da Costa. Do ponto de vista de retorno social, a mais importante contribuição de Newton da Costa foi a criação das lógicas paraconsistentes. No entanto, nunca estudei lógica paraconsistente alguma. O próprio professor Newton jamais impôs a qualquer um de seus discípulos qual tema deveria ser estudado. Apenas exigiu de seus discípulos que, seja qual fosse o tema, deveria ser abordado com seriedade e absoluto senso crítico. E seriedade e senso crítico são atributos que se desenvolvem a partir de interações profissionais com pares de competência reconhecida internacionalmente.

Entre todos os trabalhos científicos e filosóficos que desenvolvi ao longo de minha carreira, nenhum deles demonstrou qualquer grau de importância remotamente comparável com lógicas paraconsistentes. Mas ainda insisto no desenvolvimento de ideias que creio serem novas

De forma alguma sugiro que um discípulo de Newton da Costa não deveria estudar lógicas paraconsistentes. Mas certamente insisto que, se o fizer, deve conduzir tais estudos de forma inovadora e relevante. E uma possível maneira de fazer isso é através de aplicações, como ocorre neste artigo.

Sem uma relação mestre-discípulo não existe desenvolvimento intelectual sério. Eventualmente mestre e discípulo podem estar separados no espaço por oceanos e no tempo por décadas ou até séculos. Mas tal relação deve existir, dada a fundamental importância do exemplo. No entanto, sem independência de pensamento, um suposto discípulo seria apenas uma fotocópia sem vida de seu suposto mestre.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A diferença entre utopia, sonho e realidade


Utopia

Prédios de arquitetura singela, a combinar suas transparentes paredes com o fino ar da manhã que as cercam, alternam ângulos agudos como navalhas com superfícies suaves como o ondular de um calmo lago. Os brilhantes e vespertinos raios solares parecem compor parte indefinida do robusto e delicado desenho de edifícios totalmente desprovidos de superfícies opacas, permitindo que a colorida imagem do verde e extenso gramado atravesse e se reflita no contorno que não discrimina entre o dentro e o fora. Sem que se perceba qualquer falha presença humana, aquela suave miríade de brilhos e cores, contrastes e tonalidades, espessuras e texturas, com sugestões de movimentos a partir do estático desenho arquitetônico, ambientam uma caleidoscópica sonoridade de sofisticados equipamentos eletrônicos, raros pássaros, extintos mamíferos, leves e pesados veículos, quedas d'água, flores crescendo, formigas construindo, rochas em avalanche, diálogos inefáveis. 

O navegar pelos transparentes corredores da irreconhecível e ainda familiar arquitetura remete a um fluxo de tempo enquanto sentimento, sem outras percepções sensoriais além da onírica. Não há sons. As recordações dos caminhos já percorridos não se estagnam. Não congelam na cronologia da dinâmica de mutações da paisagem e do ponto de vista. Pelo contrário, fazem parte da inacessível ontologia que origina presente e futuro. O passado é também dinâmico em percepção, pois em constantes mergulhos nas recordações do que se viu percebem-se novos aspectos explicáveis apenas em termos do presente estágio e das expectativas do que há por vir. Dessa forma, o futuro também influencia o passado naqueles brilhantes corredores, pois o tempo é apenas inerente a um ponto de vista. Apenas nós, os pontos de vista das coletivas consciências, lembramos com saudades e arrependimentos. Apenas nós, carregados de humanais sentimentos, aguardamos com ansiedade, excitação e medo. Apenas nós, seres humanos, conhecemos o tempo como sentimento. Humanais sentem o tempo que rasga a pele e quebra os ossos. Tempo é sentimento. Tempo é dor. Dor é o caminho para a liberdade. E a liberdade é igualmente um estado de espírito. 

A engenharia do infindável complexo de prédios - cuja transparência não se perde com a distância, mesmo que esconda incontáveis paredes por detrás de outras - é desprovida de métrica. Uma cristalina cúpula, de caráter puramente topológico tal qual fita de Möbius, constantemente se vira do avesso, permutando interior com exterior, sem que qualquer parte de sua superfície seja quebrada ou rasgada. Torres que remetem a garrafas de Klein que bem poderiam ficar alagadas por dentro e secas por fora, em caso de precipitação, são inundadas por conhecimentos e sentimentos traduzidos na forma de uma dinâmica de cores. Fótons individuais se perdem no labirinto de prédios sem individualidade, permanecendo presos em liberdade de reflexos, difrações, deflexões e alterações de cor e polaridade. O tridimensional se percebe bidimensionalmente, o qual transmuta para um tetradimensional de curvas de tempo que hora se abrem e hora se fecham, eclodindo em um foco de dimensão fractal. 

Livre arbítrio e destino coexistem. E, quebrando o silêncio das cores e luzes, ouve-se uma sonora voz a ecoar o seu nome. Neste momento seu conhecimento se multiplica e a gargalhada de sua iluminação ecoa por vidros, metais e mentes. 

Sonho

Um professor que perceba sua formação apenas como um primeiro e tímido passo para o conhecimento. Um autor que explicite as lacunas e as inconsistências das ciências exatas, a incoerência e a falta de humanidade das ciências humanas, a fragilidade e a pluralidade das filosofias, as incertas certezas da teologia, as obscenidades da cultura, os limites metodológicos das ciências biológicas, as dúvidas humanas e a paixão pelo conhecimento. Um cientista que questione a importância social de seu trabalho, que seja ousado, que ambicione, que seja perenemente insatisfeito com suas ideias. Um aluno que questione os seus mestres, que duvide de autores e que perceba que suas indagações são ingênuas. 

Realidade

O resto.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Memórias



Recentemente mais um ex-aluno meu concluiu o doutoramento. Parte de sua celebração foi divulgada no facebook. Lembrando da grande figura humana desse aluno e de sua capacidade e intensa dedicação, fui remetido ao passado. Isso porque os melhores pupilos que tive são de vários anos atrás. 


O período mais feliz de minha vida acadêmica ocorreu entre janeiro de 1991 e maio de 1994. Foi nesta época que realizei o doutorado em filosofia na Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação de Newton Carneiro Affonso da Costa e co-orientação de Francisco Antonio Accioly Doria. O grupo que se aglutinava ao redor do Professor Newton era absolutamente notável: Analice Gebauer Volkov, Francisco Doria, Décio Krause, Roque da Costa Caiero, Edelcio Gonçalves de Souza, Mara Gomes Barreto, José Augusto Baeta Segundo, Otávio Augusto Santos Bueno, Marcelo Tsuji, Osvaldo Pessoa Jr., Jean-Yves Béziau, Nelson Papavero, Christian Houzel, David Miller, Antonio Mariano Nogueira Coelho, Jair Minoro Abe e muitos outros de diversos cantos do Brasil e do mundo e de variadas áreas do saber, como filosofia, matemática, física, economia, engenharias e biologia.


Diferente do que vejo em outras universidades, principalmente brasileiras, todos tinham curiosidade em saber o que os demais estavam fazendo em termos de pesquisa. Eu mesmo, por exemplo, paguei passagem aérea Rio - São Paulo - Rio, para o Professor Doria, para que ele pudesse me colocar em contato com teoria-K e as teorias de gauge. Mas não fui o único beneficiado, pois diversos outros membros do grupo aproveitaram para discutir com ele sobre inúmeras questões científicas.


A sala 2007, ocupada pelo Professor Newton no prédio da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH), era pequena. Contava com uma escrivaninha, um quadro negro, estantes de livros e duas ou três cadeiras para visitantes. 


Nas manhãs em que havia atividades do grupo (aulas ou seminários) uns poucos ocupavam a sala - se chegassem mais cedo ou se precisassem resolver problemas mais urgentes - e a maioria ficava do lado de fora, conversando e aguardando o início de um novo dia. 


Entusiasmado, o Professor Newton sempre trazia novidades do mundo acadêmico: livros ou artigos que acabara de publicar, conquistas de discípulos seus ou avanços recentes e relevantes em lógica ou fundamentos da ciência. 


As aulas e palestras ministradas pelo Professor Newton, fossem na FFLCH ou no Instituto de Estudos Avançados (IEA - USP), eram estradas (pavimentadas ou de terra batida, tortuosas ou retilíneas, sinalizadas ou abandonadas pelos outros) que conduziam a ideias, metas e inspirações para pesquisas. Os seminários apresentados por discípulos tinham que ser rigorosamente qualificados, sob pena do extraordinário senso crítico do Mestre. As conversas na lanchonete do Prédio da História eram extremamente provocadoras. O Professor Newton adorava provocar discípulos e pesquisadores brasileiros ou estrangeiros, para que eles saíssem da letargia que normalmente coloca indivíduos do mundo acadêmico na posição de julgarem a si mesmos como conhecedores de suas áreas de interesse. 


A primeira coisa que se aprendia naquele grupo era nossa própria ingenuidade científica e filosófica. Lembro que, caminhando com o Professor José Baeta em direção à biblioteca de física da USP, ele me disse: "O que mais me fascina no grupo do Professor Newton é que ninguém ali é arrogante." Respondi: "Se o Professor Newton não é arrogante, quem tem coragem de ser?"


A segunda coisa que se aprendia era como efetivamente trabalhar com seriedade e como reconhecer um trabalho sério. O impacto daquele grupo era tão grande sobre cada um de seus participantes que me obrigo a citar um exemplo realmente significativo: mesmo quatro anos após a prematura e violenta morte de Analice Volkov, ela ainda estava publicando em veículo especializado de circulação internacional. 


O Professor Edelcio de Souza parecia o Radar, do filme M.A.S.H., de Robert Altman. Ele sempre organizava a logística das atividades do grupo e invariavelmente sabia o que era necessário para a realização de tais atividades, antes mesmo que o Professor Newton se manifestasse. 


Às quatro horas da tarde o Mestre se retirava. Tinha que descansar. No final do dia alguns dos discípulos se reuniam em uma lanchonete para trocas de ideias e simples bate-papos. 


Jamais encontrei algo remotamente parecido com aquele grupo, nem no Brasil e nem no exterior. Havia no ar algo de família. Mas não era uma família comum. Era uma família que criticava duramente ideias, sem desmerecer pessoas. Era uma família que buscava criar e desenvolver ideias em favor da paixão por ciência. Era uma família unida não por sangue, mas por sonhos e realizações intelectuais. 


Certo dia apareceu no grupo um rapaz, nascido nos Estados Unidos. Ninguém sabia de onde veio aquele sujeito que não falava português. Ninguém sabia o que ele de fato queria ou sequer sua formação. Mas o Professor Newton fez questão de acolhê-lo, pedindo para que eu apresentasse meu seminário semanal sobre teoria-K topológica em inglês. O tal do rapaz não fez pergunta alguma durante a discussão, a qual contava com a presença de várias pessoas, incluindo um professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP. E logo depois ele sumiu. Era um fugitivo procurado pela Interpol.


No dia anterior à minha defesa de tese, cheguei a São Paulo, na companhia de um velho amigo do tempo de ensino médio, Fabio Filipini. No elevador do hotel ouvi a notícia da morte cerebral de Ayrton Senna, através do rádio portátil do ascensorista. Aquela brutal novidade foi recebida por mim de forma absolutamente superficial. Preocupado, o funcionário do hotel nos perguntou se havia chance do grande e carismático piloto de Fórmula 1 se recuperar. Respondi que normalmente as pessoas precisam do cérebro para viver. Eu estava muito tenso, enquanto o resto do país se encontrava de luto. Mas minha tensão foi injustificada. A defesa foi tranquila. Fui aprovado com louvor e distinção. 


Em seguida, como era hábito, fomos todos almoçar no velho Prédio da História. Foi quando Francisco Doria me perguntou de forma simpática mas incisiva: "E então? Quer ir pra Stanford?" Naturalmente eu disse que sim. 


Um ano depois eu estava trabalhando com Patrick Suppes (a convite do próprio), em uma universidade que mantém ao ar livre e sem policiamento a segunda maior coleção privada de esculturas de Auguste Rodin do mundo, incluindo O Pensador. Stanford é um lugar belíssimo e responsável por alguns dos mais importantes avanços científicos da história. Mas não encontrei naquele lugar tamanha harmonia intelectual como testemunhei na USP, graças ao Professor Newton. Havia seminários frequentes em Ventura Hall, o prédio onde ficava minha sala em Stanford. Mas o tom do ambiente era definitivamente outro. 


Em 2006 participei da banca de doutorado, na USP, de Antonio Mariano Nogueira Coelho, atualmente professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Estavam também na banca Newton da Costa (orientador), José Baeta Segundo, Roque da Costa Caiero e Edelcio Gonçalves de Souza. O tema da tese era  indistinguibilidade: uma abordagem por meio de estruturas (assunto com o qual trabalhei em parceria com Krause e Volkov). Durante a arguição da banca, Roque Caiero disse algo que me marcou muito. Não consigo recordar as palavras exatas. Mas a mensagem era a seguinte: "Esta defesa é o fim de uma era." Houve silêncio no local. 


De fato, Antonio Coelho foi o último daquele grupo a se titular. Aquela defesa foi o fim de uma era, pelo menos para mim e tantos outros. Se não fiz algo mais relevante durante minha carreira acadêmica, foi por responsabilidade inteiramente minha. Pois a sorte de encontrar as pessoas certas no momento certo eu tive. 


Hoje o Professor Newton trabalha na UFSC. Só espero que as pessoas de lá saibam aproveitar esta oportunidade única, pois o entusiasmo e a vitalidade dele são invariantes. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Histórias que posso contar

nuts within nuts
Os diálogos a seguir são reais. Imagino que, na maioria dos casos, o leitor não encontrará dificuldade para identificar quem é aluno e quem é professor.


Dia de Avaliação


- Posso responder a lápis?
- Prova é documento. Você preenche documento com lápis?
- Posso responder a lápis?
- Pode responder com o seu próprio sangue, se quiser. Apenas escreva.
- Posso responder a lápis?
- Pode.
- Posso responder a lápis?
- Atenção, todos! Por favor, não perguntem mais se pode responder a lápis. Escrevam na prova como bem entenderem.


Após dez minutos de silêncio...


- Posso responder a lápis?


...


Três alunas em três ocasiões distintas


- O senhor não fica com pena de reprovar uma aluna como eu?
- Fico com pena de colocar no mercado de trabalho uma profissional incompetente.
- Você não fica com pena de reprovar uma aluna como eu?
- Não.
- Você não fica com pena de reprovar uma aluna como eu?
- Por favor, levante-se. Essa posição é embaraçosa pra você.


...


Uma aluna em uma ocasião ímpar


- Eu faço qualquer coisa pra passar nessa disciplina.
- Qualquer coisa?
- O que o senhor quiser, profe.
- Então estude!


...


Um aluno em uma ocasião como tantas outras


- Como que eu deveria responder essa questão?
- De forma clara e devidamente justificada.
- Tá. Mas como que o senhor gostaria que eu respondesse?
- Não importa como eu gostaria que você respondesse. Suas respostas e justificativas devem ser convincentes para qualquer bom profissional da área. Basta que você conheça o assunto e saiba como justificar suas respostas.
- Tá. Mas como que o senhor responderia essa questão?


...


Após citar Bertrand Russell em sala de aula


- O senhor acredita em Deus?
- Minhas opiniões sobre Deus são irrelevantes em sala de aula. Estamos aqui para estudar matemática. Só isso.
- Tá. Mas você acredita em Deus?
- Eu acabei de explicar que minha opinião sobre Deus é irrelevante.
- Não pra mim.


...


Um aluno de fé inabalável


- Mas no livro está escrito que eu devo achar o domínio da função.
- O autor do livro é matematicamente analfabeto. f(x) = 1/x não é uma função. É apenas uma igualdade.
- Mas o professor Fulano colocou a mesma questão na prova.
- Se for verdade, então o professor Fulano também é analfabeto. Ele simplesmente não sabe o que diz.
O aluno ficou me olhando com a expressão de um desamparado náufrago. Continuei:
- Professores e autores de livros mais erram do que acertam. Praticamente todos os livros didáticos de matemática em nosso país têm erros graves, principalmente em conceitos e definições.
- Mas se não posso confiar em professores e nem em autores, em quem devo acreditar?
- Que tal exercitar o seu próprio senso crítico? Ciência se faz com crítica, com independência de pensamento, e não com crença cega em supostas autoridades, como professores e autores.
O olhar do aluno crente continuou à deriva.


...


Perguntas minhas que foram respondidas com o desconfortante e prolongado silêncio de turmas inteiras


- O que vocês leem?
- Quais são os cientistas brasileiros mais conhecidos?
- Quais são os cientistas mais conhecidos? Pode ser de qualquer país.
- Quem é o autor do mural que está na entrada do Prédio da Administração do Centro Politécnico (da UFPR)? (Observação: Trata-se de um mural do consagrado Poty Lazzarotto.)
- O que há de errado com aquele mural?
- Qual é o tema daquele mural?
- Aqueles que cursaram álgebra linear, e que foram aprovados, me respondam, por favor: o que é álgebra linear?
- Aqueles que cursaram cálculo diferencial e integral, e que foram aprovados, me respondam, por favor: o que é cálculo diferencial e integral?
- Por que vocês fazem este curso?


...


Respostas padronizadas de robôs alunos (principalmente em conversas privadas)


- Porque sim.
- O senhor entendeu o que eu quis dizer.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Mas foi isso o que eu disse!
- Mas foi isso o que eu quis dizer!
- Mas era isso o que eu queria dizer!
- Assim não vale!
- Isso é pegadinha.
- Eu sabia a resposta, mas não quis dizer.
- Eu sei a resposta, mas não sei como me expressar. (Esta última fala é sempre acompanhada de exagerados gestos com as mãos.)
- Eu sabia isso, mas na hora me deu um branco.
- Mas eu me esforcei tanto.
- Mas... tipo eu... eu... tipo... me esforcei tipo... tanto.
- Mas eu passei o final de semana inteiro estudando.


...


Quando aprendi que meus alunos não sabem onde estão


Perguntei:


- Qual é o nome do Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná?


Ouvi:


- Centro Politécnico.
- Setor de Ciências Exatas.
- Universidade Federal do Paraná.
- Jardim das Américas.
- Não tem nome.


...


Quando descobri que meus alunos não são estudantes


Perguntei:


- Qual foi o único brasileiro a ganhar o Prêmio Nobel?


Normalmente a resposta é um sorriso amarelo que implicitamente afirma "Por favor, não me machuque!" Mas, daqueles que verbalizaram algo, ouvi o seguinte:


- César Lattes.
- César Lattes.
- César Lattes.
- Não lembro.
- Uma penca.
- Não tenho ideia.
- Nenhum brasileiro ganhou o Prêmio Nobel.


Respondi:


- Peter Medawar. Carioca e Nobel de Medicina.


Ouvi:


- Mas este nome não é brasileiro.


Aparentemente os jovens aculturados e vergonhosos descendentes de italianos, alemães, japoneses, poloneses, portugueses e ingleses, entre outros, apenas reconhecem o brasileiríssimo nome Juruna.


...


Algumas falas são de alunos e outras são de professores. Consegue dizer quem é quem?


- Qual é o valor de pi no vácuo?
- Não. Não é pós-graduação. É mestrado.
- Pós-graduação lacto senso.
- Mas pra fazer doutorado não tem que ter primeiro mestrado?
- Titulação mais alta: pós-doutorado.
- Journal of Mathematical Physics? Então não é periódico sério. É só um jornal.
- Força é massa vezes aceleração. E massa é força dividida por aceleração.
- Ponto não tem dimensão.
- A reta dos reais tem uma dimensão.
- Vetor é um ente que tem módulo, direção e sentido.
- Vetor é um ente que tem módulo, direção, sentido e unidade.
- Vetor é um treco que tem módulo, direção, sentido e unidade.
- O professor sabe a matéria, mas não sabe explicar.
- Como é que é o nome do livro do Sei-Lá-Kowiski?
- Hoje em dia não se faz nada de novo em teoria de conjuntos.
- Integral de Rímel.
- Disciplina: Cauculo.


(Estas duas últimas estavam escritas em provas.)


- O senhor poderia evitar provas nas sextas-feiras? Minha religião não permite que eu venha nas sextas.
- Assisti Alice no País das Maravilhas. O filme é bem fiel ao desenho animado.


...


Confusões praticamente unânimes


Alguns dos muitos termos frequentemente usados por docentes e discentes, sem que eles sequer saibam o que significam:


- Ética.
- Definição.
- Teorema.
- Postulado.
- Axioma.
- Paradigma.
- Epistemologia.
- Método científico.
- Verdade.
- Avaliação.
- Óbvio.
- Preconceito.
- Trabalho.


...


Em um corredor da universidade, já voltando para casa


Ouvi:


- Se você critica tanto o Brasil, por que ainda trabalha por aqui?


Respondi:


- Ótima pergunta.
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Leitura complementar sobre experiências profissionais de uma docente.